domingo, 29 de dezembro de 2019

O Mito do Homem Comum


Duramente muito tempo (ao menos uns 3 anos) rejeitei a designação de filósofo. Isso me parecia demasiado pretensioso, e um tanto ridículo. Não há nada de ridículo na filosofia em si (embora alguns pensadores sejam bem caricatos), mas o há no fato do sujeito se autoproclamar um filósofo, quando a humildade e o bom senso pedem que este título lhe seja outorgado por um terceiro. Porém, me vi assim mergulhado em uma incógnita. Como então nomear aquilo que estou a tentar construir com este blog e perseguir com meus estudos e leituras que vão muito além dos limites de minha atuação profissional? Gostaria de dizer que sou tão somente um simples blogueiro, mas vejo que a expressão não me contenta, de facto desejo que meu pensamento seja um tanto mais sólido e tenha tanto mais substância quando comparado a outros blogueiros que conheço. De tal forma que é hora de embarcar na nau do ridículo e proclamar minhas pretensões filosóficas, e se estou longe de ser ainda um filósofo de facto, ao menos sou um belo aspirante.

Dito isto, passemos ao assunto deste texto propriamente dito. Uma das funções do filósofo é aprimorar o uso da linguagem de modo a procurar os conceitos exatos para exprimir aquilo que percebe, e, principalmente, livrar-se dos conceitos inadequados. É como diz, acertadamente meu amigo Augusto: "Se você não domina as palavras, as palavras dominam você"; e a palavra que até então me dominava era "comum". Caso o leitor utilize os modernos mecanismos de busca na coluna ao lado, poderá notar como em não poucos artigos fiz uso deste genérico, sobretudo de um mítico arquétipo chamado "homem comum", Mas, o que é o comum senão uma convenção estatística (na verdade, o termo estatístico é ''Normal'', mas sigamos)?

Não existe um arquétipo universal atemporal daquilo que seria o homem comum. Hoje, dado a difusão do ensino obrigatório, o homem comum sabe ler e escrever, dado ao avanço da técnica agrícola, este homem comum é relativamente bem gordinho. O que é comum hoje, em algum lugar na Idade Média seria um luxo, uma dádiva elitista. Um gordinho em uma Europa dilacerada por pestes agrícolas seria no mínimo um nobre. Um cidadão alfabetizado na China Imperial seria parte da burocracia do Estado. O homem comum daquele tempo era o camponês, magro e analfabeto. Onde quero chegar com isso? Que devemos rejeitar o conceito de homem comum.

Não raro, criamos uma imagem romântica e idealizada, tal nos serve como desculpa para se acomodar a mediocridade, bem como de alimento ao orgulho, uma vez que o nos sentimos além de nossas obrigações quando em determinados campos estamos acima do ''homem comum''. Isso se torna um tanto mais perigoso na vida espiritual, quando este apelo ao arquétipo comum é usado para justificar nosso pouco fervor, nossos conhecimento inadequado, nossa tibieza. "Não sou santo, não sou um teólogo, sou apenas um fiel comum"; e que diferença entre um ''fiel comum'' em tempos burgueses de uma fé aparente e um ''fiel comum'' na Roma dos Césares , onde a profissão de fé era um digno ato de heroísmo e bravura!

Reitero: rejeitemos o conceito de homem comum. Isso é uma ilusão uma quimera. Todos nós devemos nos tornar heróis, buscar usar bem dos meios a nossa disposição e procurar a magnanimidade e a excelência em cada setor de nossas vidas. Existe, pois, uma vocação universal ao heroísmo, e se nossa vida não pode ser escrita como uma aventura de fé, acabamos nós nos transformando em pouco mais que um NPC. Essa aspiração simplista e romântica a uma vida comum é tão somente tibieza.

Não devemos ter medo de desenvolver todas as potências de nossa natureza individual, sem procurar imitar outro, nem procurar realizar em nós uma espécie de modelo comum e anônimo.

Ninguém deve arrefecer esse ardor de ser ele mesmo, a única coisa que pode justificar o lugar de cada ser no mundo.

- Louis Lavelle; Regras da Vida Cotidiana; p.56-57.

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