terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Permanência

2ª Semana do Advento - Terça-feira
Primeira Leitura (Is 40,1-11)
Responsório (Sl 95)
Evangelho (Mt 18,12-14)

A primeira leitura de hoje é belíssima, infelizmente, uma vez mais, as más traduções tiram toda a força literária do trecho em questão. Tais tradutores não sabem o mal que fazem, sob a desculpa de tornar a linguagem mais acessível ao povo, acabam por mutilar a escritura, e privar as massas dos instrumentos expressivos do texto sagrado. Paciência!

Cito aqui pela Vulgata, na velha e belíssima tradução do Pe. Matos Soares:

<Diz uma voz: Clama. E eu: Que hei de clamar? Toda a carne é feno e toda a sua glória é como a flor do campo. Secou-se o feno e caiu a flor, porque o sopro do Senhor passou sobre ele. Verdadeiramente o povo é feno; secou-se o feno e caiu a flor; mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre. (Is 40,6-8)>

A passagem contrasta o caráter transitório das obras humanas com a perenidade das manifestações divinas. "Verdadeiramente o povo é feno''; e como feno são as construções humanas, e suas vãs ambições. Ao contemplarmos a história, como não se espantar com tantos impérios que não são mais que ruínas, com tantos povos que desaparecem, com tantas culturas reduzidas a lendas e rumores. ''Secou-se o feno e caiu a flor''; assim será também com a arrogante cultura moderna, e bem antes disso com nossa vida. Passadas duas, talvez quatro gerações, quem se lembrará de nossa existência? As obras do Senhor, contudo permanecem. A Bíblia que estou lendo já está velha e tem as páginas amarelas e gastas, a comprei em um sebo, não sei a quem pertenceu, quantas mãos a folhearam em que circunstâncias? E todavia ela a alimentar minha alma, mais do que qualquer edição moderna de tradução ruim. Esta Bíblia veio de Curitiba e está a ser usada em Barretos. Percorreu léguas e léguas no tempo e no espaço e ainda assim está a produzir furtos. 

A história por si só é um grande mistério. Em tudo aquilo que permanece, porém, há como que o dedo de Deus. Mas deixemos a teologia da história para outra ocasião...

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