sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Religioso Pudor

5ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Rs 11,29-32; 12,19)
Responsório (Sl 80)
Evangelho (Mc 7,31-37)

O Evangelho de hoje soa um tanto quanto estranho. No mesmo dia em que a Igreja celebra dois grandes missionários, São Cirilo e São Metódio, temos um Evangelho em que, após realizar um milagre, Jesus ordena discrição ao agora ex-surdo mudo. Em tempos de mídias sociais, em que cada um expõe toda a sua vida na internet sem zelar pelo mínimo de privacidade, isso soa ainda mais estranho.

Uma velha distinção teológica, talvez nos ajude compreender melhor este episódio. Falo da distinção entre "Gratum faciens" e "Gratis data". Os termos latinos embora tragam estilo a escrita, podem confundir o leitor, então procedamos com algumas explicações: <De modo que existe dupla graça; uma pela qual o homem fica unido individual e imediatamente a Deus, é a graça “Gratum faciens”, e outra pela qual coopera com alguém para converter; é a graça “Gratis data"' (graça dada para bem dos outros).[1]>. Ou seja, existem graças as quais são dadas para o bem da comunidade, e devem tornar-se públicas, enquanto exitem graças dadas na intimidade, para a própria conversão e santificação pessoal, as quais pedem silêncio e discrição. Há tantos e tantos santos da qual pouco ou nada sabemos da riqueza de sua vida interior. Diz-se, por exemplo, que São Luís Maria Grignion de Montfort tenha recebido revelações privadas da Santíssima Virgem Maria, entretanto, ele nunca se manifestou a respeito. A quantos santos não devem ter ocorrido o mesmo? Mesmo com relação as pessoas comuns, há tantos que recebem graças, curas, sonhos, visões, e numa espécie de santo pudor mantém tudo no segredo.

Que Deus nos dê a graça do discernimento e do pudor, para que possamos ora manifestar, ora ocultar, tudo segundo a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Distância Histórica e a Liberdade Cristã


5ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Rs 10,1-10)
Responsório (Sl 36)
Evangelho (Mc 7,14-23)

1. Em mais um capítulo da saga de Salomão, a primeira leitura nos apresenta o episódio da visita da rainha de Sabá. Apesar da riqueza de detalhes da escritura, a distância histórica e cultural faz com que tal episódio seja um tanto quanto nebuloso, uma vez que não temos lá muitas experiências análogas no século XXI. Uma rainha chega ao reino, rodeada por sua corte, trazendo presentes e manjares diversos. Quem já viu isso? Lá está você em sua vendinha, e vê uma bela dona, vestida de roupas finas e exóticas, trazendo consigo um cortejo, uma fila imensa de camelos, servos, e malas; é de fato um evento para parar a cidade. E mais, a dona deixou seu reino e empreendeu tal jornada tão somente para conhecer Salomão, o qual tinha fama de sabedoria, e testá-lo com enigmas. Quem hoje viaja só para conhecer um fulano com fama de sábio? Basta assistir uns vídeos do youtube, ler alguns textos seus, ou quando muito, entrar em contato pelas redes sociais.... E mais, testar os outros com enigmas não é uma prática muito comum hoje em dia, não? Para um cristão na época do Império Romano, tal episódio seria mais claro. Havia uma proximidade histórica e cultural... Eis aliás, mais um argumento contra a tolice protestante: a distância histórica e cultural faz com que o texto dos livros sagrados vão se enevoando, de modo que sem uma instituição que conserve seu sentido tradicional e ligue-nos aos tempos remotos, chegaria um tempo em que a Bíblia tornar-se ia incompreensível, exceto para quem tivesse a sabedoria de Salomão, o que não parece ser o caso dos protestontos 😛.

2. No Evangelho de hoje, o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo revoga as antigas proibições étnicas com relação a alimentação. O que pode ou não comer, fica a cargo do individuo e da cultura, sem contudo uma chancela religiosa; sendo a única proibição ainda em voga o consumo de carne humana.

São Paulo insiste muito em contrastar a liberdade cristã com a escravidão judaica ante a Lei. A nova religião estabelecida por Cristo é universal, diferindo das antigas religiões nacionais (incluso a judaica veterotestamentária, que era uma religião verdadeira ao contrário das invencionices pagãs), que, por ser caráter étnico, tinham entre outros encargos, o papel de sacralizar determinadas práticas culturais afim de manter a identidade étnica do povo em questão. Em nossa santa religião, não existem mais leis étnicas, de modo que, não só o indivíduo, como as culturas gozam de grande liberdade. Há, contudo, nestes nossos tempos de confusão e crise de identidade, quem queira submeter o cristianismo a lógica identitária da idade antiga, inventando normas estéticas, gastronômicas e não sei mais o que... Fiquemos atentos a esta tentação, e lembremo-nos com alegria da grande liberdade que nos proporciona a nossa santa religião.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Lei Divina e Costumes Humanos


5ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Rs 8,22-23.27-30)
Responsório (Sl 83)
Evangelho (Mc 7,1-13)

1. Hoje, excepcionalmente, festa de Nossa Senhora de Lourdes, o presidente da celebração pode escolher se seguirá no lecionário o ritmo normal das leituras do tempo comum, ou se optará por seguir as normativas para as festas marianas. Como o subsídio litúrgico que sigo em minhas reflexões optou por seguir as leituras do tempo comum, é com base nelas que segue as reflexões do dia.

2. A primeira leitura trata dos festejos e celebrações na consagração do recém-construído Templo de Jerusalém. O salmo vai na mesma linha, com louvores ao templo, louvores estes que podem ser aplicados ainda com mais propriedade a Igreja, uma vez que o antigo templo era apenas figura, quando comparado a glória da Igreja.


Canta o salmista:

<Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha faz um ninho para por seus filhos. Ah, vossos altares, Senhor dos exércitos, meu rei e meu Deus! (Sl 83, 4)>, e com base nestes versículos me permito há alguns devaneios... Tive a graça de visitar algumas basílicas e santuários, e é realmente curioso como os animais se achegam em seu interior, aves diversas a fazer morada dentro de templo. Seria interessante se as modernas construções procurassem oferecer também algum abrigo a outros tipos de animais, cães, gatos, e também acolher algumas belas plantas, de modo que as maravilhas da criação possam ser contempladas também na casa do do Criador. Quem sabe, em tempos onde, por bem ou por mal, certo ecologismo influência a Igreja, alguém não acolhe este desafio arquitetônico.

3. A respeito do Evangelho, hoje não muito agradável aos tradicionalistas (em sentido amplo), é interessante notar como a Bíblia é um livro incomum. Coloquemo-nos a pensar como roteiristas, fosse eu fundar uma religião em um mundo imaginário, o livro sagrado de tal religião seria constituído não de narrativas, mas em um conjunto de narrativas e ordens imperativas, de modo a alicerçar e fortalecer o poder e a autoridade da casta sacerdotal. Mas, Deus não age assim... A Bíblia Sagrada é uma mistura de gêneros narrativos e, ao mesmo tempo em que institui o clero, a autoridade e o sistema religioso, guarda em seu interior a crítica a este mesmo sistema, e os fundamentos para sua reforma constante, sobretudo em tempos de crise. Nesse sentido o Evangelho de hoje parece, mas atenção, apenas parece, subversivo. Temos um sistema religioso com uma autoridade firme, costumes estáveis, e então, Jesus Cristo, o esperado, aquele que veio para cumprir as profecias vem para ''destruir'' tudo, algumas vezes fazendo pouco caso, outras repreendendo duramente os costumes religiosos de sua época, e consequentemente toda a estabilidade da sociedade judaica. Todavia, olhemos para além das aparências. A religião não deve ser vista desde uma perspectiva sociológica, mas, neste caso em específico, desde o céu. Deus vem para restaurar a pureza original de sua obra, corrompida pelos homens, justamente pelos líderes daquela religião! Acontece que os fariseus são os verdadeiros revolucionários, que violaram a hierarquia legal; elevando seus costumes, suas tradições, preferências pessoais ao estatuto de Lei Divina, capaz de até mesmo revogar os decretos de Deus. Uma blasfêmia tamanha! É a lei divina que julga os costumes e os molda, não o contrário. Que roteiro tremendo! E se hoje temos de captar tal estrutura nas entrelinhas, em outra ocasião, na parábola dos vinhateiros, Jesus nos mostra claramente que assim o é, é disto que se trata, uma traição da casta sacerdotal querendo usurpar o papel de legislador do Deus que juraram adorar.

É possível que o leitor não seja muito afeito a arte, e deva estar pensando que raios esse negócio tem haver com sua vida; é certo que foi um episódio dramático, mas já passou, certo? Na verdade essa é uma tentação constante. A tentação de violar a hierarquia divina e dar a nossas opiniões e costumes uma autoridade que não tem. O Evangelho de hoje é um convite ao discernimento e a humildade. Discernimento para entender aquilo que vem da lei de Deus, aquilo que vem de nossas opções pessoais ou sociais. Humildade para não impor aos nossos irmãos de fé aquilo que deriva não da revelação, mas de nossa personalidade, de nossas opções, usos e costumes próprios.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O Enigma da Doença


5ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Rs 8,1-7.9-13)
Responsório (Sl 131)
Evangelho (Mc 6,53-56)

1. A primeira leitura trata do solene translado da Arca da Aliança do Tabernáculo ao Templo. O Tabernáculo era uma espécie de cabana, um templo móvel, tal estrutura era própria a realidade do Êxodo, onde Israel peregrinava no deserto. Com a estabilidade do reino, o próprio culto se transforma, e a presença de Deus ganha um sinal estável no Templo de Jerusalém. Sim, naquela época se tratava apenas de sinal, dentro da arca havia tão somente as tábuas da lei. Um sinal poderoso, mas ainda assim um sinal, da presença de Deus. No dia de hoje temos mais que sinais, em nossos templos o próprio Deus habita fisicamente de modo misterioso e insondável na divina eucaristia. Não causa ao leitor perturbação notar o quanto honravam os israelitas a arca e o quão limitado é nosso culto pessoal e comunitário a Divina Eucaristia? Façamos o propósito de adentrar com mais frequência e devoção ao santo dos santos, isto é, as proximidades do sacrário, para adorar o Senhor Deus dos Exércitos


2. O Evangelho de hoje é relativamente simples, Jesus chega com os discípulos a Genesaré, as pessoas trazem os doentes para serem por Ele curados, e o trecho termina dizendo todos quanto o tocavam ficavam sãos. É o poder da graça que excede a natureza e restabelece a saúde. Ainda assim é um mistério. Porque tantos são curados de forma tão maravilhosa, enquanto outros habitam em seus leitos pelo resto da vida? Jesus curou mutos cegos, coxos, doidos e paralíticos, mas Santa Alexandrina passou quase toda a vida na cama, João Paulo II sofreu com o parkinson, São Damião de Molokai contraiu a lepra, São Luís Gonzaga morreu pelo tifo. É uma questão complexa, que uma teologia simplista, como a que está em voga nos meios neopentecostais, não é capaz de responder. A maioria de nós gostaria que a fé se transmutasse em uma espécie de superpoder, que o batizado estivesse para sempre livre da peste, sendo a doença algo para infiéis, mas as coisas não funcionam assim. Na verdade o enigma se torna ainda mais complexo quando analisamos o fenômeno dos estigmas, homens e mulheres que receberam a graça de sofrer e portar os mesmos ferimentos de Cristo na Cruz. Não tenho eu a solução para tal enigma. Apenas quero notar que não estamos ante uma lei física, mas sim diante da vontade divina, que pode decidir por curar-nos, deixar-nos doentes, ou nos infligir com estas. Ante tal mistérios, resta-nos confiar na bondade divina, que tudo procede para o bem das almas, e submetermo-nos a vontade do criador. No céu, talvez cheguemos a entender os motivos de tal modo de proceder em nossa vida e na de nossos irmãos.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Oração de Salomão


4ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (1Rs 3,4-13)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Mc 6,30-34)

1. De Davi, passamos agora a Salomão. E a liturgia nos inicia na saga do novo rei com o episódio de sua oração, ainda na juventude. Uma linda oração, que fora agradável a Deus, de tal modo que o Senhor lhe deu muito mais do que Salomão havia pedido.

Reitero que além do que foi dito, há de se atentar ao que não foi dito, mas fica subentendido. Se a oração de Salomão agradou a Deus, existem certas modalidades de oração que não Lhe agradam, e por isso aqueles que assim procedem não são atendidos. A oração por excelência é o Pai Nosso, entretanto, em certa medida a oração de Salomão também oferece um modelo para nossas preces pessoais. Atentemos a sua estrutura:
(I) Ação de Graças: Por primeiro, começa o rei bendizendo o Senhor, agradecendo pelas bençãos que deste a seu pai Davi e a todo o Israel.
(II) Consciência da Própria Insignificância: Segue, pois, o jovem rei a discorrer sobre a grandeza da tarefa que é chamado a realizar, e suas limitadas capacidades, sua juventude e ingenuidade.
(III) Pedido: Por fim, Salomão pede a Deus o dom da sabedoria, pede com humildade, e não pede para si como um fim, mas como um meio para servir ao povo, para bem governar e julgar Israel.

Atentemo-nos a tal estrutura em nossas orações e, quem sabe não se tornam elas mais agradáveis aos olhos do Senhor, de modo que nos sejam mais eficazes.

2. O Evangelho de hoje é a continuação direta do de ontem. Depois da missão, os apóstolos retornam para contar a Jesus todas as suas aventuras, mas o povo não lhes dá sossego... Jesus se retira com os apóstolos para um lugar solitário, eles precisam de um pouco de descanso. Entram na barca, e seguem viajem, mas, mal saem da barca, lá encontram uma vez mais a multidão.

Ainda hoje o fenômeno se repete de alguma forma, o clero é reduzido e a multidão, numerosa e perdida como ovelhas são pastor, não lhes dá sossego. Rezemos ao senhor para que envie mais operários a sua messe; para que nos dê um clero numeroso e santo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Música, Dança e a Mortificação do Olhar


4ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Eclo 47,2-13)
Responsório (Sl 17)
Evangelho (Mc 6,14-29)

1. Na primeira leitura há um panegírico a Davi. O autor elogia o rei, entre tantos aspectos, pelo seu zelo no serviço litúrgico da época, sobretudo na composição dos salmos. É uma pena, porém, que a distância linguística, nos afasta um pouco dessa experiência com a beleza de outrora... Traduzidos para o português, os salmos, embora conservem sua força teológica e algumas de suas alusões poéticas, perdem muito de sua musicalidade... No fim, a música e a poesia acabam sendo uma arte restrita, que pode ser verdadeiramente apreciada tão somente pelos conterrâneos do poeta, de modo que toda e qualquer tradução constitui quase que um crime estético.

Quem dera tivéssemos mais poetas e músicos verdadeiramente competentes em nosso país, ajudaria a enriquecer e muito nossa liturgia, que atualmente vive períodos de escandaloso mau gosto. Imploremos a intercessão de Santa Cecilia, para que Deus abençoe nossa terra com bons músicos e poetas.

2. O Evangelho de hoje utiliza de algumas técnicas narrativas bem interessantes, São Marcos é sem dúvida um escritor muito talentoso. A cena se inicia com a fama de Jesus espalhando-se pela região, por conta de seus estrondosos milagres. O povo fica perturbado, quem seria esse homem? Herodes está tanto mais perturbado, pensa que Jesus é João Batista que ressuscitou dos mortos. A seguir, a cena volta ao passado, ao episódio que culminou na morte de João. A mudança do tempo narrativo é suave, coisa difícil de se empreender adequadamente mesmo em tempos modernos. De todo o modo, considerações estilísticas a parte, olhemos para aquilo que tal narrativa nos ensina, e tal ensinamento não é muito popular.... Herodes estava em pecado, havia tomado a mulher de seu irmão, ainda assim, sua consciência o incomodava, e o rei ouvia com temor as repreensões de João Batista, apesar de ter colocado o profeta em cárcere. Por trás do que foi dito, havia uma batalha no interior da alma de Herodes, uma batalha entre o bem e o mal, cuja vitória, infelizmente viria a ser do Diabo.

Aconteceu que Herodes deu uma festa, e nessa festa a filha de Herodíades dançou para ele e seus convivas. A dançarina agradou tanto ao rei, que este ficou bobo. Isso é mais comum do que se imagina. Ao ver uma mocinha jovem dançando, não raro, nós homens, nos encantamos e tendemos a bobice; eu fico assim ás vezes ao ver japonesinhas dançando, embora queira acreditar que não fique tão apatetado como Herodes. Ainda assim, é um perigo, e exercitar na mortificação do olhar faz-se (e sobretudo faz-me) necessário. A cena segue, e o embobado Herodes promete a mocinha realizar qualquer que fosse o seu desejo. Aconselhada pela mãe adúltera, a moça pede a cabeça de João Batista. Herodes se perturba... Quase dá para imaginar a cena: o rei bonachão com cara abobada, mudar repentinamente a expressão facial expressando a tristeza e a perturbação interior. Herodes sabe que estará a cometer um pecado ainda mais terrível, que vai ser responsável pela morte de um profeta, entretanto olha em volta, vê os convidados, e, para não passar vergonha ante a turma, segue em frente com tal iniquidade.

É provável que não estejamos nós com profetas em cárcere, ainda assim, aqueles elementos que levaram Herodes ao pecado estão bem presentes: a pressão social (ao qual a teologia chama de respeito humano) e a fascinação embobada ante a beleza apreciada de forma imprudente. Segundo o ditado popular e a propaganda médica, é melhor prevenir do que remediar, de tal forma que a narrativa de hoje se converte em uma exortação a mortificação; a mortificação do olhar, e a certa ''mortificação social'', não fazendo conta de passar má impressão ante a turma.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Porta-te como homem!


4ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Rs 2,1-4.10-12)
Responsório (1Cr 29,10-12)
Evangelho (Mc 6,7-13)

1. Hoje se encerra a saga de Davi. A longo desses dias, em trechos selecionados do livros de 1Samuel, 2Samuel e 1Reis estivemos imersos e uma longa e intrigante narrativa. Em meio a tantas críticas, faço aqui um elogio aos responsáveis pela reforma litúrgica que demonstraram grande conhecimento bíblico na seleção e organização dos textos. 

Voltemos agora nossos olhos a cena final da vida de Davi. O rei, em seu leito de morte, dirige suas últimas palavras a seu filho Salomão, aquele que o irá suceder no trono de Israel: "se forte, e porta-te como homem"; assim disse Davi há milênios e ainda hoje tais palavras ecoam em nossos corações.

"Porta-te como homem"; que isso significa? Que o ser homem, a identidade masculina tem um código de conduta que lhe é próprio, sendo a virtude da fortaleza o fundamenta e o início de tal código. Um homem deve ser forte, firme, e responsável. Qual o antonino do portar-se como homem? Comportar-se como um moleque: de forma irresponsável; ou como maricas: sendo fraco e inconstante.

Alguns autores modernos[1] citam 5 virtudes, essenciais a identidade masculina, são elas: Força, Coragem, Destreza e Honra.  Força é a capacidade de impor a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre outras pessoas. Coragem é a vontade de arriscar a se prejudicar para obter benefícios para si ou para outros. Em sua forma amoral mais elementar, coragem é uma vontade ou desejo impetuoso de combater ou de se defender a qualquer custo (combatividade, coração, disposição de espírito, thumos). Em sua forma mais evoluída, civilizada e moral, coragem é a vontade deliberada e decidida de arriscar a se prejudicar para garantir o êxito ou a sobrevivência de grupo ou de outra pessoa (coragem, virtus, andreia). Destreza é o desejo e a capacidade do homem de cultivar e demonstrar competência e expertise em conhecimentos técnicos que o ajudem a exercer a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza, sobre as mulheres e sobre outros homens.  Honra é a reputação de força, coragem e destreza da qual um homem desfrute no contexto de um quadro de honra constituído principalmente de outros homens.

2. No santo Evangelho que hoje contemplamos, Cristo envia os apóstolos a missão. Se os envia dois a dois, para que encontrem amparo na companhia um do outro, também os envia na pobreza, sem duas túnicas, sem alforge, e tantas outras necessidades que um bom viajante não poderia negligenciar naquele tempo. Lá vão aqueles homens, com a cara e a coragem, desprovidos de auxílios materiais, ao mesmo tempo, providos do poder de realizar milagres, curar os doentes e expulsar os demônios. Temos aí mais um paradoxo de nossa santa religião, para ter parte na potestade espiritual, no poder sagrado, para manejar com eficiência o gládio espiritual, é preciso renunciar, privar-se do poder temporal, da confiança nos meios humanos ordinários. Conta uma velha história que o Papa chamara São Domingos a Roma, para ver sua nova basílica: -Veja Domingos, dizia o Pontífice, agora Pedro não pode mais dizer "não tenho ouro nem prata"; o qual o frade teria respondido de mal humor: - ... e nem "levanta e anda". Tal fato é aludido pelo famoso escritor inglês G.K. Chesterton, histórico ou não, este ainda guarda seu significado teológico: o poder espiritual exige a renúncia, e aqueles os quais Deus chama a determinada missão especial, relacionadas sobretudo ao caráter sacerdotal e missionário, devem proceder de forma radical em tal renúncia, abandonando-se a Divina Providencia. Nós, que não somos padres ou missionários, talvez não precisemos de tanto, mas também de forma mais ou menos análoga precisamos fazer renúncias e confiar na Providência, cito a vocação das famílias que devem estar abertas a vida, e aos numerosos filhos que Deus quiser enviar, renunciando ao luxos e as seguranças materiais para acolher tal graça.

[1] O Código dos Homens - Jack Donovan

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Desconfiança, Castigo (III) e a relação entre o líder e seus subordinados


4ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (2Sm 24,2.9-17)
Responsório (Sl 31)
Evangelho (Mc 6,1-6)

E cá estamos uma vez mais a acompanhar os passos de Davi. No episódio de hoje o rei ordena um recenseamento em Israel,e pouco tempo depois sua consciência o acusa. O pecado de Davi é grave, porém de difícil percepção para esta época mergulhada na mesma miséria. Não que contar as pessoas seja pecado, não é nada disso! A questão é que depois de repetidas provas do auxílio de Deus nas batalhas, Davi desconfia do Senhor, pondo sua confiança em seus exércitos. Davi prefere apostar tão somente em meios humanos, tidos por ele com mais segurança, que nas promessas do altíssimo. Esse é o pecado dos cristãos desse século, que preferem antes confiar nas suas maquinações políticas que nos meios do Senhor, em sua doutrina, em suas promessas... A história continua e, por conta do pecado de Davi todo o povo é castigo, morrendo milhares. A pergunta de Davi ao final da leitura de hoje também deve inquietar a muitos: porque o povo deve pagar pelo pecado de um homem? A resposta irrita nosso individualismo liberal: o povo e seu líder estão profundamente ligados, de modo que os pecados daquele afetam a todos sob o seu domínio. Tendo isto em vista o dever de rezar por nossos líderes se torna cada vez mais imperativo. Temos de rezar pelos que nos governam, para o nosso próprio bem.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Memento mori!


4ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (2Sm 18,9-10.14b.24-25a.30-19,3)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Mc 5,21-43)

1. A primeira leitura de hoje é tragicômica. Absalão estava passeando com seu burrico, bate na árvore, o burrico vai ele fica, fica preso lá no alto, onde é encontrado por Joab, aliado de Davi, que executa o príncipe traidor. É uma morte bem ridícula, não? Ser pego vulnerável em um acidente de burrico. Dentre aqueles entre nós que ainda pensa na morte, a maioria sonha com algo romântico. Uma morte de herói. Ninguém quer uma morte ridícula em um acidente doméstico, mas isso não está sob nosso controle; exceto se formos suicidas como Yukio Mishima, mas em tal caso, o inferno espera; então não é um negócio muito lucrativo querer dirigir o epílogo final da própria vida. Deus é o roteirista de nossa vida, se quisermos, peçamos a ele a graça de uma boa morte, quando esta vier, de modo que nossa vida não termine sendo comédia. Mas, ainda se assim acontecer, que pelo menos possamos rir disso no céu, ao invés de chorar no inferno.

2. A sombra da morte, antecipada pelos três outros cavaleiros: a fome, a peste e a guerra, torna nossa existência dramática, e é em tal drama que Deus se manifesta. É o que vemos hoje no santo Evangelho: Jairo chefe da sinagoga está desesperado, sua filha está morrendo, e ele vai em busca da ajuda de Jesus. Estivesse a menina saudável, Jairo se comportaria da mesma forma? Buscaria a Cristo, ou estaria confortável com sua posição de chefe da Sinagoga local? É difícil imaginar aquilo que não foi dito, é possível que a instrução na lei e na profecia também tivessem conduzido a Jairo, entretanto, foi a peste e a morte quem o levaram a Jesus. Exemplo ainda mais forte o da hemorroíssa. Uma mulher outrora rica, e ser rico naquele tempo era fazer parte de uma elite ainda mais restrita, a quantas tentações não se estaria ela exposta? Retornemos a história, aquela mulher rica ficara doente, e gastara toda a sua fortuna com médicos em busca da cura, mas estes só pioraram a situação. Chagada pela doença, ela vai procurar a Jesus munida de profunda humildade, tendo, pois, obtido a  cura.

Reitero: a sombra da morte torna a existência dramática, e em tal drama Deus se manifesta. Nossa sociedade, esforça-se porém por fazer-se, por artimanha do demônio, prosaica. Não que seja possível eliminar a fome a peste a guerra e a morte, tais são constantes na história humana, consequência do pecado original. Entretanto, é possível varrer tudo isso lata debaixo do tapete. Feito isto, sem consciência da fragilidade e instabilidade da vida, os homens tendem a se esquecer de Deus.

Contemplar de frente os quatro cavaleiros, tanto de forma pessoal como "social" dará a nós mesmos e a nossa sociedade a consciência de nossa fragilidade, e nos tornará conscientes da necessidade que temos de um Salvador. Então, buscaremos Jesus com humildade, como a hemorroíssa e Jairo...

Que me desculpem as alminhas burguesas mas é preciso falar sobre a morte, e seus imediatos: a fome, a peste e a guerra; pois esses terríveis cavaleiros são exímios apologetas e evangelizadores.

Memento mori!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Castigo (II) e Rejeição


4ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 15,13-14.30;16,5-13a)
Responsório (Sl 3)
Evangelho (Mc 5,1-20)

1. A primeira leitura de hoje é verdadeiramente dramática. Davi, já velho, foge do reino, perseguido de morte por seu filho Absalão. Imaginemos a tristeza do rei na viagem rememorando cenas da infância de seu filho, as primeiras palavras, quando começou a andar, a alegria quando recebeu do pai a primeira espada, as estripulias do garoto... Seu filho, o sangue de seu sangue, fruto de suas entranhas agora o perseguia e intentava matá-lo para tomar o trono. E como isso não fosse suficiente, um os homem da família de Saul o encontra pelo caminho e começa a amaldiçoá-lo, acusando-o de matar a Saul e usurpar-lhe o trono. Ora, sabemos que não foi assim; Davi suportou com mansidão as perseguições de Saul, teve oportunidade de matá-lo diversas vezes e não o fez, inclusive chorou quando soube da morte do antigo rei. Os soldados de Davi ficam indignados, querem matar (ou ao menos surrar) aquele velho maledicente, mas o rei não permite; antes, suporta tudo, com espírito de penitência, clamando ao Senhor por misericórdia.

É triste ver o rei assim. Davi um herói de guerra sujeito a tal intenso sofrimento... Qual o motivo disto? A resposta nos foi dada há alguns dias atrás, isto é o castigo por seu pecado contra Urias. A mão de Deus é pesada, a vingança do altíssimo cobra o quádruplo. Atente-se, porém. o leitor ao intervalo temporal: na época do adultério Davi ainda não tinha filhos; hoje, na cena do castigo, Davi está velho, e seu terceiro filho que conspira contra contra o pai já é adulto. Aos olhos humanos a vingança de Deus costuma demorar, mas ela vem. Não há crime que fique sem paga, seja neste mundo ou no próximo.

Pensemos em nossos pecados de outrora, muitos de nossos sofrimentos presentes podem ser a consequência direta, a devida reparação, por aquelas atitudes do passado.... E se acaso hoje não sofremos, tendo consciência de nossos erros, é para se temer o futuro.

2. No Evangelho de hoje, Jesus liberta um possesso em Gerása. O homem estava possesso por uma legião. Não era um, mas multidões de demônios... Mas, o que chama mais atenção no texto, é o fato dos homens preferirem a convivência o Diabo. Cristo liberta o homem, mas os gerasenos podem para que Ele se retire da cidade. Preferem a companhia do capeta e uma aparente tranquilidade, a confusão inicial do processo de cura e libertação.

Assim o é ainda hoje, tantas e tantas pessoas, e mesmo cidades e civilizações, rejeitam a Cristo, preferindo a escravidão demoníaca ao invés libertação católica.  Mistério de Iniquidade.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Necessidade do Santo Sacrifício

Se não houvesse o Sol, que seria da Terra? Oh! Tudo seria trevas, horror, esterilidade e desolação.

E se o Mundo não tivesse a Santa Missa, que seria de nós? Infelizes! Ficaríamos privados de todos os bens sobrecarregados de todos os males. Estaríamos expostos a todos os raios da cólera de DEUS.

Alguns há que se admiram, e acham que, de certo modo DEUS mudou a sua maneira de governar. Antigamente Ele se nomeava de DEUS dos exércitos, e falava ao povo do meio das nuvens, manejando o trovão; e de fato, era com todo o rigor da justiça que castigava os pecados. Por um único adultério, mandou passar a fio de espada vinte e cinco mil homens da tribo de Benjamim. (Jz 20,46).

Por um leve pecado de orgulho de Davi em computar o povo, enviou Ele uma peste tão terrível que, em poucas horas pereceram setenta mil pessoas (II Sam. 24,15). Por um só olhar curioso e desrespeitoso dos betsamitas, fez que cinqüenta mil deles perecessem. (I Sam. 6, 19).

E agora suporta, com paciência, não só vaidades e irreverências, mas adultérios, os mais vergonhosos, escândalos gravíssimos, e tantas blasfêmias horríveis que muitos cristãos vomitam contra Seu Nome Santíssimo.

Porque assim acontece? Por que tão grande mudança de conduta? Serão as ingratidões dos homens mais escusáveis hoje do que outrora? Bem ao contrário, são muito mais culpáveis, já que os imensos benefícios de DEUS se multiplicam cada dia.

A verdadeira razão desta clemência espantosa é a Santa Missa, pela qual esta grande Vítima, que se chama JESUS, se oferece ao Eterno PAI. Eis aí o sol da santa Igreja que dissipa as nuvens e torna sereno o céu.

Eis aí o arco-íris que detém os raios da Divina Justiça. Creio para mim que, não fosse a Santa Missa, o Mundo estaria já no abismo, incapaz de suportar o imenso fardo de suas iniqüidades.

A Santa Missa é o poderoso sustentáculo que lhe permite subsistir.

Concluí, de tudo isto, quanto este divino Sacrifício é necessário; assim então, sabei aproveitá-lo o máximo que for possível.

Para isto, quando participamos da Santa Missa, devemos imitar Afonso de Albuquerque. Achando-se, com sua frota, em perigo de naufragar numa horrível tempestade, teve uma inspiração: tomou nos braços uma criança que viajava em sua nau, e, elevando-a ao alto, exclamou: “Se todos somos pecadores, esta criaturinha é certamente sem mácula, Ah! Senhor por amor deste inocente compadecei-vos dos culpados!” Acreditareis? A vista dessa criança inocente agradou tanto a DEUS, que Ele acalmou o mar e devolveu a alegria àqueles infelizes, gelados já pelo terror da morte certa.

Ora, qual pensais seja a atitude do Eterno Pai, quando o sacerdote, levantando a Santa Hóstia, lhe apresenta o Divino FILHO? Ah! seu amor não pode resistir à vista do inocente JESUS; Ele se sente forçado a acalmar nossas tormentas, e acudir a todas as nossas necessidades. Sem esta santa vítima, portanto, sem JESUS sacrificado por nós, primeiro sobre a Cruz, e todos os dias sobre nossos altares, estaríamos perdidos, e poderia cada um dizer a seu companheiro: “Até à vista no inferno! Sim, sim, no inferno, no inferno! Até à vista no inferno!”

Mas, com este tesouro da Santa Missa a nosso alcance, nossa esperança renasce; e se não opusermos obstáculos, teremos assegurado o Paraíso.

Deveríamos, portanto, beijar nossos altares, perfumá-los de incenso, e sobretudo honrá-los com nosso máximo respeito, pois que deles nos vêem tantos bens.

Juntai as mãos e agradecei a DEUS PAI que nos deu o mandamento tão doce de oferecer-Lhe muitas vezes a Vítima celeste. Agradecei-Lhe, sobretudo, pelo imenso proveito que dela recebeis, se sois fiel não somente em oferecê-la, mas de fazê-lo para os fins a que nos foi concedido este dom tão precioso.

 - São Leonardo de Porto-Maurício.As Excelências da Santa Missa; p. 14-17.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Castigo, Pureza e Arte


3ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (2Sm 12,1-7a.10-17)
Responsório (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,35-41)

1. Na primeira leitura, o profeta Natan repreende Davi por seu pecado, e lhe anuncia uma série de maldições que posteriormente viriam a recair sobre sua casa. E assim foi. Quatro dos filhos de Davi vieram a morrer, houve até dentre eles quem guerreasse contra seu pai. Sua filha e dez de suas esposas foram violadas. Davi pagou caro, muito caro pelo seu pecado contra Urias. Deveríamos nós ter medo. O pecado exige reparação e castigo; e o castigo vem com "juros": o quádruplo da dívida ou mais...

2. A liturgia hoje soa quase como que providencial. Em tempos onde há católicos que defendem meretrícios, canta ao Senhor salmista: <Ó meu Deus, cria em mim um coração puro, e renovai-me no espírito de firmeza (Sl 50, 12)>.

Para usar os termos de nossos adversários, que sejamos "católicos limpinhos" e não putanheiros sugismundos, enlameados nos pecados da carne e do espírito (cuja gravidade é ainda maior). A ofensa aos sacerdotes ante a justa repreensão, a distorção da doutrina dos santos são tanto mais graves que a defesa do meretrício.

3. No Evangelho, Jesus repreende o vento, cala o mar, e acalma a tempestade. Em outro trecho da escritura, que não foi lido hoje, se diz que Deus conhece cada uma das estrelas do céu e as chama pelo nome. São Francisco cantava ao Sol a Lua e a Morte, chamando-os de irmãos. Santo Antônio pregou aos peixes. Para nós, homens modernos, isso soa estranho. Fossemos protestontos, isso seria visto com maus olhos, como fosse algum resquício pagão. Mas, pela teologia antiga, sabemos que se trata de um dom relacionado a inocência primeva, que permite uma relação íntima com a criação (isso explicaria, por exemplo, a serpente que fala no Gênesis sem apelar ao recurso metafórico, mas esse tipo de exegese complexa e disputada fica para outra ocasião). Como não temos tal grau de santidade, só podemos intuir vagamente essa íntima relação com a criação através da arte. Por ela podemos dialogar com língua, jogar xadrez com a morte e elogiar a lua. Imagino quão ricas devem ser as conversas no céu entre os santos e poetas... Quem dera Deus nos conceda a graça de delas um dia participar.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Luxúria, Castigo e o Poder da Semente


3ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (2Sm 11,1-4a.5-10a.13-17)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,26-34)

1. Na liturgia de hoje, a saga de Davi exibe aquele que é um de seus mais tristes episódios. O rei virtuoso que suportou com mansidão as perseguições de Saul, que lutou com valentia guerras diversas pela causa do Senhor, que no campo de batalha suportou com valentia e firmeza a fome, o medo e o frio, este homem caí miseravelmente, cometendo atos ignóbeis. Depois de adulterar com a mulher de Urias, o rei tenta ludibria-lo, afim de fazer passar por filho do heteu o fruto de seu pecado e, não tendo sucesso em tal empreitada, conspira a morte de seu soldado. Adultério, mentira e assassinato. Um pecado puxa o outro.

Quão forte deve ter sido o incêndio da luxúria capaz de fazer ceder aquele homem virtuoso? Em Fátima, fora revelado aos pastorinhos que os pecados da carne são aqueles os quais conduzem mais homens ao inferno,  entretanto, hoje a gravidade destes é tão negligenciada. Há poucos dias, houve certa polêmica nas redes onde vergonhosamente ditos católicos estavam a defender meretrícios...

Que Deus nos dê a graça de mortificar o olhar, de procurar evitar desde as primeiras fagulhas, pois uma vez que começa o incêndio, fica tudo mais difícil. Davi tinha tantas virtudes, e caiu de tal forma vergonhosa, que resta para nós que passamos longe de tais virtudes heroicas?

São Luís Gonzaga, rogai por nós!

2. Ainda sobre a primeira leitura, o texto bíblico destaca a culpa de Davi, isto porque do ponto de vista narrativo na história em questão, é ele o personagem mais importante. Entretanto, o rei não adulterou sozinho. A culpa da dona é tanto maior uma vez que ela era casada e cabia-lhe respeitar e honrar o marido, que estava fora, na guerra, combatendo por Deus e trazendo o sustento para a casa.

Nos capítulos posteriores da narrativa, a Betsabé seria castigada com a perda de seu filho. A escritura não entra em detalhes, mas suponho que deva ter sido uma dor emocional considerável, afim de reparar a ofensa desta a Urias. Como uma das esposas de Davi, teve ela de dividir o novo marido com outras mulheres, pois a poligamia era uma prática da época. Não deixa de ser curioso. Urias a amava e a tinha como única esposa, já para Davi, ela era mais uma em seu ''harém''. Por fim, teria ela concebido Salomão, e com a coroação de seu filho, fora ela finalmente reconhecida como rainha.

Deus castiga, e perdoa. Ainda assim, confesso que é difícil, sobretudo a um homem lidar o perdão e a misericórdia divina em tais casos, onde há adultério da esposa contra o marido que a amou, a traição de tão grande confiança depositada... Enfim, não atoa São Paulo recomendou o celibato, seria extremamente difícil, dramático, e triste viver essa história desde a perspectiva de Urias...

3. No Evangelho, Jesus fala ao povo em parábolas, mas explica o sentido destas aos discípulos em particular. Assim o é ainda hoje... Quantos não leem os Evangelhos? Entretanto, fora da Igreja não encontram a interpretação correta, e tudo lhes parece confuso, enigmático; ou pior, acabam interpretando tudo em sentido diverso daquilo que foi dito. Mas na Igreja, Jesus explica o sentido das Escrituras; através do Espírito Santo, usando do magistério como instrumento.

4. Ainda sobre o Evangelho de hoje, Jesus compara o reino a uma semente que cresce no escondido, longe dos olhos de semeador. Diferente do que ocorre com uma educação formal, o semeador, o pregador o ''tutor'', não tem um papel definitivamente ativo. Não é ele o responsável por formar os pupilos em uma rígida disciplina, acompanha-los passo a passo, sendo responsável pelos mínimos detalhes. Antes ele joga a semente, e a semente, a força da Palavra, com a ação misteriosa da graça e intervenção do Espirito Santo se encarregam de fazer a semente crescer, emergir e tornar-se uma árvore grandiosa.

Nesse sentido, a humildade cristã segundo a qual não é o pregador quem converte nem forma ninguém, mas a ação do Espírito, não é mera retórica, mas a exata descrição da realidade. O semeador por vezes nem sabe o que aconteceu. É a força da palavra, é a ação da graça que faz crescer o reino de Deus, e não o carisma (em sentido vulgar e moderno do termo) de tal ou qual sujeito. O importante é a mensagem e não o mensageiro, a semente e não o semeador. De tal forma que mesmo a semeadura de homens maus, podem vir a gerar uma farta colheita. Imaginemos quanta gente a pregação de Judas não teria convertido. Se o traidor habita as profundezas do inferno, tantos e tantos que receberam a sua pregação, podem ter alcançado o céu. O poder está semente e não o semeador....

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sem Jeito


3ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (2Sm 7,18-19.24-29)
Salmo Responsorial (Sl 131)
Evangelho (Mc 4,21-25)

As leituras de hoje estão perfeitamente harmônicas. No Evangelho, Jesus afirma que ao que tem, será dado ainda mais (Mc 4,25a). É a realidade da generosidade de Deus. No primeira leitura, continuando o contexto da saga de Davi, vemos a reação do rei ao ouvir no oráculo do profeta Natan sobre as gloriosas promessas de Deus a ele e a sua descendência. Davi fica surpreso e até um pouco sem jeito, ante a generosidade divina:
O rei Davi veio apresentar-se ao Senhor e disse-lhe: “Quem sou eu, Senhor Javé, e quem é a minha família, para que me tenhais trazido até aqui? E como se isso parecesse pouco aos vossos olhos, Senhor Javé, fizestes promessas à casa de vosso servo para tempos futuros! Acaso isso é normal para um homem, Senhor Javé? (2Sm, 7 18-19)

A maioria de nós já deve ter experimentado a mesma situação de Davi. E talvez até com mais realismo que o grande rei, podemos nós repetir: <“Quem sou eu, Senhor Javé, e quem é a minha família, para que me tenhais trazido até aqui?>. Deus é tão bom conosco, tanto no âmbito espiritual quanto também no âmbito temporal. Tantas e tantas vezes Ele intervém, nos presenteia com graças e maravilhas que não merecemos de modo algum. Davi, para usar uma expressão contemporânea um tanto cômica, ainda era ''alguém na fila do pão''; era um homem de virtude, um herói de guera, nós não, e entretanto o Senhor ainda assim é tão bom conosco.

É uma sensação estranha, não? Receber algo sabendo que não o merece... É para ficar sem jeito mesmo. Creio que ainda vão alguns bons anos até que aprendamos a expressar a devida gratidão em tal cenário.

Mas, além do que foi dito, há o que não foi dito :P. Se recebermos as bençãos de Deus com humildade, ele nos dará ainda mais, mas se formos como crianças mimadas, se tivermos a ousadia de pensar que Ele "não faz mais que a obrigação", pensar que temos direito a alguma coisa, daí é-nos dirigida as palavras finais do Evangelho de hoje; leiamos com atenção: <e ao que não tem, se lhe tirará até mesmo o tem. (Mc 4,25b)>.

Que mandemos o orgulho catar coquinho, e cultivemos a gratidão, ou caso não nos é possível agradecer adequadamente, ao menos manifestemos essa ''semjeitisse'' tal qual o Rei Davi. Não tenho ideia de como Deus vê essa nossa caipirice desajeitada, mas creio que Nossa Mãe do Céu, a Virgem Santíssima, acharia isso fofo, pois tal atitude nos faz semelhantes a criancinhas, e fora aos pequeninos a quem fora prometido o reino dos céus.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O Tempo de Deus


3ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 5,1-7.10)
Salmo Responsorial (Sl 88)
Evangelho (Mc 3,22-30)

1. Davi era muito jovem quando fora ungido por Samuel, o futuro rei não tinha ainda sequer chegado aos vinte anos. Apenas anos depois, por volta dos 30 anos, é que o filho de Jessé viria a reinar de facto, primeiro sobre Hebron, e posteriormente sobre todo o Israel.

As coisas de Deus acontecem no tempo de Deus. Neste mundo capitalista, queremos tudo para ontem, tudo de imediato, pois tempo é dinheiro. Mas Deus não é um capitalista, antes age como que um artista, como um sábio diretor de cinema, a introduzir no devido tempo os elementos necessários ao desenvolvimento da trama. Se tudo com relação a um personagem se resolver logo no início do filme, que graça teria? Desde uma perspectiva artística podemos melhor vislumbrar as "demoras" de Deus. É certo que é uma perspectiva ainda incompleta e incapaz de perscrutar todos os insondáveis mistérios da Divina Providencia, mas ainda assim é uma ferramenta válida que nos ajuda a desenvolver a virtude da paciência.

2. No Evangelho de hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo nos alerta sobre a gravidade do pecado contra o Espírito Santo. De tal forma que, creio ser oportuno recordar os esclarecimentos do catecismo a respeito do tema:

961) Quantos são os pecados contra o Espírito Santo?
Os pecados contra o Espírito Santo são seis:
1º desesperar da salvação;
2º Presunção de se salvar sem merecimentos;
3º combater a verdade conhecida;
4º ter inveja das graças que Deus dá a outrem;
5º obstinar-se no pecado;
6º morrer na impenitência final.

962) Por que se chamam estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo?
Chamam-se estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo, porque se cometem por pura malícia, o que é contrário à bondade que se atribui ao Espírito Santo.

- Catecismo Maior de São Pio X

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Santo Patrono

É comum entre os fiéis colocar seus empreendimentos sob a proteção de um santo patrono, afim de conseguir as bençãos do céu para tais projetos. Já há algum tempo, quando este blog tomou contornos mais sérios, intento fazer o mesmo, entretanto me vejo na grande dificuldade de escolher um, dentre tantos veneráveis. Pois bem, depois de mais de três anos, acho que finalmente consegui tomar uma decisão.

Segundo Chesterton, cada época é convertida pelo santo que mais a contradiz, como sou ''do contra'', tal postulado me pareceu extremamente agradável, e me pus a questão de quem dentre os servos de Deus seria sinal de contradição mais evidente para com está época iníqua; não só para com este quando, mas também para este quando inserido dentro deste onde, da realidade pós-moderna dentro deste país esquecido do terceiro-mundo. Embora considerasse várias hipóteses, a resposta me veio ao rememorar um episódio recente...

Há alguns dias atrás, assisti à missa na catedral diocesana.  É certo que não se trata de nenhuma gótica européia (estou a falar de igrejas e não das mocinhas), mas ainda assim temos a beleza do barroco colonial adornado com belas pinturas. Apesar disso, as missas da qual participei era feia. Feias no que diz respeito a sonoridade: usando de instrumentos e ritmos inadequados e irritadiços. Feias no sentido da letra dos cânticos: sentimentalismo barato. E feia no sentido do conteúdo da homilia onde o padre abusava lugares comuns da oratória midiática e demonstrava pouco conhecimento de exegese bíblica. Foi uma experiência tanto estranha... Se a arquitetura e a natureza do sacramento elevam a alma ao céu e fazem-nos experimentar o outro mundo, a fuzarca litúrgica ''puxa seu pé'' impedindo a ascensão. 

Tendo em vista tal episódio, cheguei a conclusão que ninguém mais contradiz essa época de grande mau gosto senão Santa Cecília. Cecília é a padroeira dos músicos, e, creio eu, o que mais precisamos neste nosso quando e onde é de boa música... Precisamos de boa sonoridade, precisamos de letras poéticas, fundamentadas em boa doutrina, e que expressem a beleza dos céus. Pesquisando ainda mais a respeito desta grande santa, as contradições com realçam ao mundo e aos costumes brasileiros chamam ainda mais atenção: Cecília era de família nobre, uma verdadeira patrícia romana. Desde cedo, Cecília consagrou sua virgindade ao Senhor e manteve seus votos mesmo dentro do casamento que lhe fora imposto, antes a santa fora responsável pela conversão do marido e do cunhado. Sua vida também demonstra extrema valentia ao afrontar as autoridades temporais romanas, zombar da idolatria dos pagãos, e mostrar profundo descaso pela vida terrena, tendo em vista as promessas do céu. Por fim, destaco que após o martírio seu corpo manteve-se incorrupto por mais de um milênio.

Dito isto, imploro a intercessão e proteção de Santa Cecília sobre este blog e seus leitores, e destaco sua vida como modelo e síntese dos ideias perseguidos nesta iniciativa: que este blog se configure em uma melodia sonora e poética para o louvor de Deus, a conversão dos pagãos, o bem das almas, e de toda a santa Igreja. Santa Cecília, rogai por nós!


Sadio Despotismo


2ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Sm 24,3-21)
Salmo Responsorial (Sl 56)
Evangelho (Mc 3,13-19)

1. Não que minha opinião neste âmbito seja relevante, mas, o modo como as leituras foram organizadas desde a reforma conciliar muito me agrada. É como se estivéssemos a assistir a cada dia um novo capítulo de alguma série, e o ciclo trienal (na verdade, bianual para os dias de semana) afasta a sensação de monotonia e repetição. Há alguns dias vimos o drama de Ana, seguiu-se o nascimento de Samuel, sua infância, sua velhice, a unção de Saul, a queda de Saul, a unção de Davi, a vitória de Davi contra Golias, e agora cá estamos em um dos episódios da guerra de Saul contra Davi. Episódio esse que bem poderia ser o final. Saul é tocado pela bondade de Davi, pede a ele perdão e o abençoa. O rei era um homem bom... Mas, como a distância histórica dos fatos nos deu alguns spoilers, sabemos que infelizmente a saga não termina aí, Saul será consumido pelo pecado, e virá a ter um trágico fim. Dado isto, contemplamos o episódio de hoje com um misto de alegria e tristeza. Alegria pela cena de reconciliação e virtude, tristeza ao saber o que se seguirá.

2. O Evangelho de hoje é interessantíssimo e em certo aspecto até um tanto engraçado. Jesus escolhe os 12 apóstolos e, ressalta o evangelista, escolhe os que Ele quis. Não há concurso público ou meritocracia, mas o puro arbítrio divino. "Fi-lo porque qui-lo"; diria Jânio Quadros. Em tempos democráticos, o arbítrio é visto com maus olhos, parece que tudo tem que ter uma explicação, um argumento socialmente aceitável que justifique a decisão. O Evangelho, na contramão do mundo moderno, nos ensina um sadio despotismo. Não precisamos explicar tudo para todo mundo. Fiz porque quis.

3. Ainda sobre o santo Evangelho, notamos hoje o bom humor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diz o evangelista, que Tiago e João, por conta de seu temperamento, receberam um apelido: filhos do trovão. Tento imaginar a cena onde o termo fora cunhado, a surpresa seguida das gargalhadas o clima de alegria e descontração entre o mestre e seus discípulos. E desde uma distância histórica, a piada se torna ainda mais engraçada, uma vez que conhecemos o tom narrativo extremamente dócil e amável do apóstolo São João em suas cartas. O mesmo homem que designa carinhosamente os fiéis por "filhinhos" era um alguém colérico, conhecido como um "filho do trovão"? São João deve ter rido de si mesmo ao notar o aspecto contrastante da mudança.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

As Sete Chaves de Satanás - Plínio Salgado


[...]

Em todas as épocas da História em que predominaram civilizações epicuristas apresentaram-se os aspectos mais tenebrosos da miséria popular, da opressão dos humildes, da sua revolta suscitada pelo ateísmo que os gozadores lhes ensinam.

Tanto mais se quer, menos se dá, porque mais se tenha menos se avaliará o que significa o não ter, sendo este grave perigo que correm as almas dos ricos. Grande perigo para as almas e grande instrumento de castigo social. Porque esta cegueira e esta surdez do coração não permitem escutar o tropel das revoluções e, entretanto, elas se aproximam das sociedades esquecidas de Deus.

Abrem-lhe as portas aqueles mesmos que ela procura destruir. Abrem-lhe as portas com as sete chaves com que trancaram os corações. Estas chaves que são forjadas com o mesmo metal dos sete pecados capitais, tomam hoje as formas das loucuras modernas que se chamam: Irreligiosidade, Sensualismo, Ambição, Indisciplina, Orgulho, Desunião, Impenitência.

A Irreligiosidade não permitirá que se distinga o Bem do Mal e como este se apresenta quase sempre com as roupas do Bem, será recebido.

O Sensualismo folgará com as doutrinas e regimes que facultem libertação de peias morais e, trazendo estes a destruição da família, o homem cai no individualismo e fica indefeso em face do Estado absorvente ao qual não poderá opor nenhum argumento a favor da sua liberdade.

A Ambição impedirá de ver outra coisa além do próprio interesse e, por ela, o homem nega-se a colaborar em tudo aquilo que representa a defesa da sociedade, uma vez que não ganha dinheiro, nem prazeres com isso; e os males destrutores da sociedade acabam solapando-lhe a casa.

A Indisciplina leva-o a revoltar-se contra os mandamentos de Deus e da Igreja e contra as hierarquias familiares e públicas inspiradas nos princípios que a mesma Igreja manda respeitar e assim se enfraquece a ordem moral e a ordem social, expondo-se a Nação à anarquia de que se aproveitam os aventureiros e déspotas, disfarçados em libertadores.

O Orgulho a si mesmo se outorga carta de habilitação em todos os assuntos, sorri das advertências que se lhe fazem e entrega-se de mãos atadas a quem melhor o lisonjeie, e desse modo a intrujice, que hoje campeia a alardear foros de cidadania, facilmente o convence com aquilo que o imortal gênio de Shakespeare profeticamente denominou "caviar para a plebe", pois lábios bem untados de lisonjas são lábios que dizem sim.

A Desunião é filha da vaidade fátua e da ausência do espírito do cristianismo, tendo o próprio Jesus dito que toda a casa dividida é casa destruída; e se nas épocas normais a divisão é um erro, nas horas de perigo constitui uma loucura.

A Impenitência é surda, cega, insensível e paralítica; não ouve a palavra de Deus, não vê os males do mundo, não sente as dores alheias, não se move; chega o inimigo e usa dela como de achas secas de lenha, onde tudo morreu, não prestando senão para ser lançado ao fogo.

-  Plínio Salgado. Primeiro, Cristo!; p.166-168 .

''Impus a coroa a um herói''


2ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Sm 16,1-13)
Salmo Responsorial (Sl 88)
Evangelho (Mc 2,23-28)

<Impus a coroa a um herói, escolhi o meu eleito dentre o povo (Sl 88, 20b)>; eis o oráculo divino o qual canta hoje o salmista. O salmo, em continuidade com a primeira leitura, trata da unção de Davi como Rei de Israel. Uma vez mais, a liturgia ecoa o aspecto aristocrático da história. Deus escolhe um herói. Que é um herói? É alguém que prática as virtudes de modo ''heroico'', que se eleva acima da mediocridade, e que é chamado a uma missão épica, para além das fronteiras da vida comum. Davi foi um herói, um herói da fé, e em certo sentido um herói nacional para o antigo Israel. Também hoje precisamos de heróis. Rezemos ao Senhor clamando por heróis, heróis como Sansão, Samuel e Davi que liderem o povo na luta contra os inimigos de Deus.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A guerra santa começa a mundanizar-se


2ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Sm 15,16-23)
Salmo Responsorial (Sl 49)
Evangelho (Mc 2,18-22)

Para melhor compreendermos a primeira leitura na liturgia de hoje, é preciso exercitar a imaginação épica. Estamos em um contexto de guerra, Israel está cercado por inimigos de todos os lados; Deus se manifesta ao povo por intermédio do profeta Samuel. Ainda que usando de um homem, há uma manifestação clara da vontade divina. Não são especulações teológicas, não são investigações e achismos, mas a palavra Deus mesmo que fala claramente. Deus atente o clamor do povo e lhes dá um rei, unge Saul, um jovem pequeno e pobre que cuidava das jumentas de seu pai, como líder de Israel. Deus o abençoa, cuida dele, lhe dá a vitória em incontáveis batalhas. Em determinada ocasião Ele lhe dá uma ordem clara, não basta aniquilar os inimigos, é preciso também apagar da face da terra os rastros de sua existência, queimando incluso seus rebanhos e pertences. Saul desobedece,  deixa o povo se apropriar dos despojos. Nesse ato o próprio sentido da guerra é desvirtuado. De uma guerra santa, uma guerra para a defesa de sua nação, a tomada de posse do território, e o extermínio dos inimigos conforme as determinações da Providência, o combate passa a ser motivado pela cobiça, pelo saque dos bens alheios.... A guerra santa começa a mundanizar-se.

Samuel repreende Saul, que tenta dar uma de bobo. Joga as culpas nas costas do povo, diz que os bens serão oferecidos em sacrifício ao Senhor. Mas Saul é rei, e cabe a ele controlar e educar o povo. Não só isso, Deus quer obediência e não sacríficos. Os ritos religiosos, se não acompanhados de uma obediência interior, não lhe são agradáveis. Diz a Vulgata que a rebelião é um verdadeiro pecado de magia, e assim o é, pois se pretende obrigar a Deus a dar suas bençãos ao povo pela força do ritual, sem que o povo seja dócil aos desígnios divinos e estes venham do alto como sinal de bondade e amor de Deus para com seus fiéis. Inspirado pelo Senhor, Samuel anuncia o oráculo: Saul foi rejeitado por Deus e irá perder a realeza. Assim foi feito, como veremos nos próximos dias.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Brasil Profundo em Filme Pastelão

Não sei se por temperamento ou vício de época, mas confesso ao leitor que tenho um fraco pela complexidade. Ante os enigmas que se me apresentam, procuro sempre uma compreensão profunda, explorando sobretudo seus aspectos mais marginais e obscuros. Assim também se dá no estudo da religião. Procurando manter a devida prudência, é certo, as questões que mais me atraem são aquelas as quais apresentam maior dissonância para com a mentalidade moderna, a saber hoje: a realidade dos seres espirituais (anjos e demônios) e os aspectos hierárquicos e aristocráticos da revelação. Temas estes que não foram muito explorados por meus conterrâneos. Antes, o ethos brasileiro parece dedicar especial atenção ao aspecto moral e social do catolicismo. Tal perspectiva, válida, sem dúvida, encontra um especial eco em um velho filme datado de 1984: Padre Pedro e a Revolta das Crianças.

O roteiro, embora belo, é terrivelmente simples: um padre novo chega na cidade para restabelecer a vida religiosa à sete anos interrompida. Uma espécie de mafioso local começa a conspirar pela expulsão do sacerdote, pois teme que este possa vir a comprometer seus negócios imorais. O sacerdote é interpretado pelo comediante Pedro de Lara, o vilão é ninguém menos que a excêntrica figura do senhor Zé do Caixão.  O filme é marcado por aquele velho humor pastelão, com diálogos em linguagem escrachada, efeitos especiais risíveis e atuação caricata. Apesar disso, ou justamente por causa disso, é um bom filme.

Comentários técnicos a parte, ainda fico a pensar a respeito da narrativa. Temos um padre machão que vem para moralizar a cidade; ricos iníquos mancomunados com políticos temendo a ação justiceira da Igreja, um povo refém dos poderosos que encontra no sacerdote a defesa e a proteção contra os senhores do mundo. As coisas são tão simples... Não há heresias, não há conspirações, não há complexas especulações teológicas, mas a coragem de um homem inspirado por Deus que faz o que tem de ser feito. É simples, perturbadoramente simples, e ainda assim tocante. Creio que falta ao mundo de hoje esta simplicidade rústica daquilo que chamo catolicismo folk. Histórias locais contam que em uma metodologia análoga a do Padre Pedro, um sacerdote local teria impedido a construção de uma loja maçônica nos arredores da Igreja, todavia, com a morte deste valente padre, seu sucessor, com toda politicagem e diplomacia não conseguiu lograr o mesmo resultado, de modo que em frente ao Templo de Deus se edificou a Sinagoga de Satanás. Lembro de uma história que ouvi em Goiás, a respeito de um padre que ameaçado de morte, por contrariar um coronel local, teria respondido e acusado publicamente seus adversários durante homilia (em linguagem popular, o sermão): "Se querem me matar, que tentem! Eu sou padre na batina, e macho na carabina!".  

Em tempos de grande passividade, onde blasfêmias são realizadas em plena luz do dia e ninguém faz nada, quão luminoso é assistir este velho filme pastelão, contemplar toda a força e carisma do bom e velho catolicismo folk, macho e porradeiro, e contrastá-lo com essa gosma efeminada e dialogante do catolicismo vaticanosegundista. Quando o padre é macho, o diabo não tem vez! Já quando é frouxo, o povo caminha rumo ao inferno.... Conforme disse outrora, é urgente restaurar a alta macheza!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Fidelidade, Obediência e os Mártires Franciscanos


1ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Sm 4,1-11)
Salmo Responsorial (Sl 43)
Evangelho (Mc 1,40-45)

1. A primeira leitura trata da vergonhosa derrota de Israel ante os filisteus. O salmo expressa a consternação do povo ante o abandono de Deus. As palavras usadas são de uma ousadia que soa até um pouco estranha: "Senhor , porque dormis?". Não é que Deus durma, mas que sua proteção não é um dado automático, uma garantia, uma lei física. Antes suas promessas são condicionadas, se não formos profundamente fiéis a Ele, não adianta que nos arroguemos pertencer a seu povo. Se não formos fiéis, mesmo que sejamos identitária e ideologicamente católicos, podemos até mesmo terminar no inferno.

Pensemos nisto.

2. No Evangelho que hoje contemplamos, Cristo cura um leproso, mas em seguida o ordena certa discrição. O ex-leproso crê que tem uma ideia melhor e sai por aí falando mais que "veia fofoqueira". Como resultado, Jesus acaba encontrando dificuldades em adentrar as cidades da região.

Se não obedecermos as ordens de Cristo, mas antes acreditarmos em nossos próprios planos, mesmo que sejam planos apostólicos recheados de boa intenção, só criaremos problemas ao divino mestre. Que Deus nos ajude a obedece-lo, e a mortificar nossa vontade, a esquecer nossas ideias tolas que contrariam a vontade de Cristo.

3. Hoje a Igreja celebra a memória dos primeiros mártires franciscanos: São Beraldo e seus companheiros. Homens que foram ao Marrocos pregar pela conversão dos seguidores do falso profeta Maomé. A história é deveras interessante, São Francisco queria ir, mas se adoentou, seus irmãos seguiriam viajem sem ele. Pela sua pregação foram presos diversas vezes, alguns cristãos com contatos entre os infiéis conseguiram libertá-los umas duas ou três vezes, mas estes homens eram santos e tornavam a pregar, de modo que receberam a glória do martírio. Martírio este que motivou uma profunda transformação na vida de um certo cônego que viria a se tornar o grande Santo Antônio.

Dias atrás vi católicos apoiando o Irã e se contentando com uma situação onde embora os cristãos possam se reunir, lhes é proibido, aos que ali habitam, pregar o evangelho aos maometanos. Aqui  onde moro houve um infeliz evento ecumênico, onde membros da ordem franciscana foram a mesquita, sem intenção de converter ninguém, mas para pagar de gente boa com os agarenos e parecer bonzinhos perante a mídia. A memória dos mártires de hoje é um balde de água fria nessas inciativas tontas. É a manifestação da profunda diferença entre a caridade dos santos, dóceis a vontade divina, e as maquinações dos homens e sua vã politicagem.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O discipulado de Samuel e a bondade de Simão Pedro


1ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Sm 3,1-10.19-20)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Evangelho (Mc 1,29-39)

1. Samuel servia no templo, desde pequeno, sob a direção de Heli. Diferente de outros estados de vida, salvo no que diz respeito a sua instituição primordial, o sacerdócio não é algo que possa ser aprendido de forma auto-ditada, antes exige a realidade do discipulado: um mestre, um superior que diretamente instruí e dirige seu aprendiz. O Senhor chama a Samuel, e este vai a Heli. Cabe a ele, seu mestre, o discernimento e a tarefa de preparar seu discípulo para receber o Senhor e ser dócil a suas inspirações.

2. O Senhor se faz ouvir no templo, e em tenra idade. A luz da forma como se manifestou a vocação de Samuel, a Igreja abre o serviço do altar as crianças, acólitos e coroinhas, afim de que no templo, nas proximidades do altar, sob a direção do sacerdote, Deus possa chamar aqueles que destinou desde a eternidade a vocação clerical e, que estes encontrem o ambiente propício para responder a seu chamado desde cedo. É certo que o chamado pode se manifestar mais tarde, mas, o ordinário é algo análogo ao que ocorreu com Samuel.

3. Ainda sobre a primeira leitura, é interessante notar a profunda humildade exigida no discipulado, sobretudo no discipulado para a função sacerdotal. Por três vezes chama o Senhor a Samuel e por três vezes o garoto vai ter com Heli.

Quantos de nós temos tal docilidade? Depois da primeira ou segunda vez que Heli nos mandasse dormir, muitos provavelmente reagiríamos aos chamados posteriores com certo mau humor: ''-Ele já me chamou duas vezes e quando fui lá me mandou de volta dormir, o sujeito está me trollando grr! Vou é ficar aqui, já basta de ser feito de bobo!". A presença desse tipo de impaciência,é um grande obstáculo a vocação sacerdotal; uma vez que para este estado de vida são a humildade e a obediência virtudes fundamentais.

4. Canta hoje o salmista: <Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor, e não segue os idólatras e apóstatas. (Sl 39,5)>; creio que o versículo fala por si e dispensa comentários.

5. Hoje, no Santo Evangelho, Jesus vai com Tiago e João a casa de Pedro e André. A reunião dos discípulos mal começou e a amizade entre eles já começa a estreitar-se, de modo que vão todos a casa de Pedro. A casa é um lugar íntimo para o qual não se convida a qualquer um. É lugar para a reunião com amigos e familiares. O seguimento de Cristo, pois, forja amizades íntimas e duradouras. O episódio é ainda mais interessante. Diz o Evangelho que a casa era de Simão (Pedro) e André. Pedro já era a este tempo alguém relativamente velho para os padrões da época, e morava junto de seu irmão. Cuidava de seu irmão. Para tempos individualistas como os nossos é algo contrastante. Há aí uma profunda relação de irmandade, onde o irmão mais velho cuida do mais novo...Cuidado este que não se restringe a infância. Quantos de nós temos tal relação com nossos irmãos de carne? Digo, não sem certa vergonha, que dificilmente suportaria um convívio com os meus por muito tempo já na vida adulta... Mas a riqueza ''social'' do relato não para por aí! Quem mais estava na casa? A sogra de Pedro, uma senhora idosa e doente. Pedro cuidava da sogra. Enquanto hoje tantos filhos descartam impiedosamente seus pais em asilos, Pedro cuidava de uma senhora que nem sua mãe era, mas sua sogra! E não só cuidava, como a trouxe para morar consigo. E a esposa de Pedro, onde estava? Nos conta a tradição que por essa época, estava morta e enterrada. Isso torna a história ainda mais forte, Pedro cuidava da mãe da esposa falecida.

Pensemos nisso? Pedro, um sujeito já de certa idade, que poderia muito bem viver sozinho cuidando de seus assuntos, ou quem sabe arranjar uma nova esposa e recomeçar a vida, lá estava ele a cuidar do irmão mais novo e da sogra idosa e doente e a morar com eles. Antes mesmos de conhecer o Senhor, o pescador já era um homem bom. Um homem muito bom. Um homem melhor que a maioria de nós que a tanto tempo conhecemos e seguimos a Jesus e apesar disso nos comportamos de forma tão egoísta...