quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Protestontismo e Bruxaria - Comentários sobre o filme As Bruxas de Salém

E uma vez mais estamos a falar de bruxas, não ainda sob uma perspectiva histórica, mas puramente ficcional, embora o filme em questão se proponha um drama histórico, seria tolice extrapolar o roteiro inadvertidamente o roteiro para além do universo cinematográfico, sem um exame aprofundado de fontes primarias. O filme o qual hoje pretendo comentar é The Crucible (As Bruxas de Salém), de 1996. Um filme, surpreendentemente, muito bom, aliás, não sei como não fora acusado pela patrulha politicamente correta de "machista". O texto, pra variar, tem spoliers, então caso o leitor seja um sujeito fresco, vá assistir ao filme e volte mais tarde.

Agora que os maricas saíram do recinto, continuemos. O filme se inicia com macumbarias, um grupo de meninas lideradas pela escrava Tituba dançam em volta de uma fogueira e queimam ervas, em uma espécie de ritual amoroso. Pois é, um bando de tontas fazendo macumbarias atrás de omi... Mas, enquanto a maioria das moças pratica algo leve (se é que se pode falar assim, e já adianto que não se pode, nestes casos), uma outra dona se exalta: Abigail. Está pede a morte de uma outra dona, oferece uma galinha preta em sacrifício, bebe seu sangue e começa a dançar pelada. A bagunça é interrompida pelo pastor local (sim, no filme só tem hereges e macumbeiros, nem sinal da verdadeira Igreja). Uma série de coisas acontecem o qual seria excessivo detalhar aqui, mas, adiantando a canoa, para limpar a barra, Abigail começa a fingir e acusar pessoas da aldeia para livrar sua barra. As outras meninas, vão na onda dela. O que começa apenas como um passar a culpa, logo se transforma em uma arma de poder, e cá está Abigail a acusar #azinimiga, mais especificamente Elizabeth, esposa de John Proctor (por quem a guria é apaixonada). O drama é interessante, o roteirista trabalha bem o desenvolvimento do personagem Proctor, bem como da própria vila, mostrando como alguns habitantes usaram dessa histeria toda para benefício próprio e como o clero protestante, absolutamente inapto, hora parecia crer em toda aquela superstição, ora aparentava apenas querer usá-las para seus próprios interesses. Ah! Vale lembrar que o pastor da aldeia é acusado por Proctor como um homem corrupto, apegado ao dinheiro, que usa da religião para obter lucros e luxo. A imagem não soa familiar ainda hoje?

Temos toda uma aldeia manipulada, bem como a morte de inocentes, porque uma moça leviana que queria tomar o marido da outra. Mas, que bom que foi só no filme certo, e hoje não acontecem falsas acusações a torto e a direita por motivos torpes, nem as massas são tão facilmente manipuladas pela histeria feminina, não é? 

Embora a interpretação geral da trama é que tudo não passe de uma mentira, outra perspectiva é possível: a de que Abigail seja a verdadeira bruxa. Vemos como está tomou parte ativa no ritual demoníaco, excedendo as demais e fazendo com que Mary Warren, uma das moças até então dispostas a testemunhar a verdade, embarcar de novo em sua narrativa mentirosa. Nesta perspectiva, Abigail é que tinha trato com o diabo, manipulou todas as demais, causou morte e sofrimento, e depois fugiu com o dinheiro do pastor. 

Ao fim, quase que podemos ver uma sutil apologia ao catolicismo. Proctor questiona ao juri porque a confissão deve ser feita em público, porque deve manchar seu nome e sua honra pelo resto da vida? Pois é, aí está o esquema dos showzinhos protestantes. No catolicismo a confissão se dá em privado, no sigilo sacramental da penitência. Embora, todavia, a situação de John no filme seja um bem mais estranha, uma vez que o estavam obrigando a confessar pecados que não cometeu.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

"Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos"


18ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Jr 31,1-7)
Salmo Responsorial (Jr 31,10-13)
Evangelho (Mt 15,21-28)

<Jesus respondeu-lhe: "Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos" (Mt 15, 26)>; o trecho, extraído do Evangelho de hoje, bem poderia servir de justificativa a uma espécie de nacionalismo. Embora a caridade deva ser praticada para com todos, há porém uma hierarquia a ser observada. Infelizmente, isto está invertido em nossos tempos. As nações, buscam não os interesses de seus filhos, mas antes mimar minorias estrangeiras, alimentar os cães, à custa da fome de seus filhos. Algo análogo parece ocorrer com os pastores da Igreja, tão preocupados em bom mocismos e diplomacia com membros de outras religiões, negligenciando as necessidades de seu próprio rebanho. A entrega das relíquias dos santos aos (t)ortodoxos ilustra isso de forma escandalosa; se joga aos cães o alimento dos filhos...  Quiça consigamos reverter isso.

Que Deus nos dê bons pastores, tanto no âmbito espiritual quanto temporal, homens comprometidos com o bem se sua casa.

sábado, 1 de agosto de 2020

Dom Athanasius: "O Cristianismo é (...) uma crença sobrenatural em uma doutrina"

Diane Montagna: Então o senhor acha que a ênfase principal no Cristianismo está no aprendizado, por meio do intelecto?

Dom Athanasius: O nome original dos cristãos, dos seguidores de Jesus Cristo, era "discípulos" ("alunos", "aprendentes"), aqueles que foram instruídos em uma doutrina, na doutrina revelada por Deus. Além do ato de oferecer o sacrifício de Seu Corpo e Sangue na Cruz, para a salvação de toda a humanidade, a principal obra de Jesus Cristo na terra era ensinar a doutrina de Deus Pai, embora essa última obra estivesse subordinada ao ato salvífico de Seu Sacrifício na Cruz. Cristo disse: "A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou" (Jo 7:16).

O solene mandamento divino que Cristo deu aos Seus Apóstolos e à Sua Igreja para todos os tempos consiste principalmente no ensino, na transmissão de uma doutrina de verdades. "Portanto, ide e instruí todas as nações, ensinando para que observem tudo que vos ordenei" (Mt 28:19-20). O Cristianismo é, portanto, essencialmente uma fé e crença sobrenatural em uma doutrina divinamente revelada com a implementação inseparável da doutrina na vida moral, por meio de boas obras, com a ajuda da graça de Deus. De acordo com Atos 2:42, os primeiros cristãos de Jerusalém foram caracterizados por quatro características: "perseverar na doutrina dos Apóstolos" (doctrina fidei, vertatis), "comunhão" (koinonia, comunhão hierárquica), "partir o pão" (Fractio panis, Santa Eucaristia) e "orações" (orationes, especialmente a liturgia). É significativo que um apego fiel a doutrina e à verdade seja mencionado como a primeira característica dos cristãos. A sugestão de que ser cristão não é aderir à doutrina é uma contradição e negação direta do ensino divino, que diz que um cristão deve "perseverar na doutrina dos Apóstolos".

- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 232.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

"(...) porque o coração deste povo se endureceu"


16ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jr 2,1-3.7-8.12-13)
Salmo Responsorial (Sl 35)
Evangelho (Mt 13,10-17)

"(...) porque o coração deste povo se endureceu" - diz a Escritura. A Vulgata usa o termo corações insensíveis. Há algo em nosso interior, um desejo por Deus, uma espécie de marca nas profundezas de nosso ser que clama pelo absoluto. Deveríamos nós buscar escutar tais sussurros internos, investigar este enigma e nos abrirmos aos chamados do Senhor. Mas, tantas vezes ocorre como outrora ocorreu com Israel, nossos pecados, nossos vícios, as agitações do mundo, todo esse barulho vem a silenciar este apelo, a luta cotidiana vem insensibilizar nosso coração. E então, entre corações duros e insensíveis aos sinais divinos, estamos ante o vazio descrito por Augusto Frederico Schmidt...

VAZIO

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

"Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro" - Dom Athanasius

Diane Montagna: Quais são os elementos positivos que o senhor vê no Vaticano II?

Dom Athanasius: Se olharmos para o período da história da Igreja, foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico fez um apelo solene aos leigos para levar a sério seus votos batismais de lutar pela santidade. O capítulo em Lumem Gentium sobre os leigos é lindo e profundo. Os fiéis são chamados a viver seu Batismo e sua Confirmação como testemunhas corajosas da fé na sociedade secular. Esse apelo foi profético.

Imediatamente após o Concílio, esse apelo aos leigos foi abusado pelo establishment progressista da Igreja, e também por muitos funcionários e burocratas que trabalhavam nos escritórios e chancelarias da Igreja. Muitas vezes, os novos burocratas leigos não eram, eles mesmos, as testemunhas, mas ajudaram a destruir a fé nos Conselhos paroquiais e diocesanos e em outros comitês oficiais. Infelizmente, esses burocratas leigos eram, muitas vezes, enganados pelo clero, pelos bispos e curas de almas.
[...]

Diane Montagna: Obviamente, o Concílio continua controverso. Como podemos ultrapassar visões simplistas ou unilaterais?

Dom Athanasius: Ao abordar questões relacionadas ao Concílio Vaticano II e seus documentos, é preciso evitar interpretações forçadas ou o método da "quadratura do círculo", mantendo, é claro, todo o respeito e senso eclesiástico (sentire cum ecclesia). A aplicação do princípio da "hermenêutica da continuidade" não pode ser usada cegamente para eliminar inquestionavelmente quaisquer problemas, evidentemente, existentes. De fato, tal abordagem transmitiria artificialmente e pouco convincente a mensagem de que toda palavra do Concílio Vaticano II é infalível e em perfeita continuidade doutrinal com o Magistério anterior. Tal método violaria a razão, a evidência e a honestidade, e não honraria a Igreja, pois, mais cedo ou mais tarde (talvez depois de cem anos), a verdade será declarada como realmente é. Existem livros com fontes documentadas reproduzíveis, que fornecem informações historicamente mais realistas e verdadeiras sobre os fatos e as consequências no que diz respeito ao evento do Concílio Vaticano II, à edição de seus documentos e ao processo de interpretação de seus documentos e reformas nas últimas cinco décadas. Recomendo, por exemplo, os seguintes livros que podem ser lidos com proveito: Romano Americo, Iota Unum: Studio delle variazoni della Chiesa cattolica nel secolo XX; Roberto de Mattei (2009), O Concílio Vaticano II - Uma História Nunca Escrita (2013) ; Alfinso Gávels, El Invierno Eclesial (2011).

[...]

Diane Montagna: O senhor acha que, talvez, daqui a cinquenta anos, o Concílio seja visto como um passo para se livrar da heresia modernista na Igreja, porque, sem querer, expôs a infestação dessa heresia e mostrou-a como ela é?

Dom Athanasius: Sim, eu queria mencionar isso também. Deus sempre usa fenômenos negativos para produzir um bem ainda maior.

A atual participação vigilante e comprometida de leigos de mentalidade tradicional na vida da Igreja expressa o verdadeiro significado do Vaticano II em relação aos leigos. Nos tempos difíceis de perseguição sob o Comunismo, foram os leigos que transmitiram principalmente a pura fé Católica. Recebi a fé na Igreja clandestina de leigos de meus avós, de minha mãe, de meu pai e de outros homens e mulheres e leigos. Nosso próprio tempo é a hora das famílias Católicas, famílias numerosas. De fato, uma contribuição muito positiva do Concílio foi a bela doutrina da família como Igreja doméstica. Já encontramos esse pensamento nos Padres da Igreja, em Santo Agostinho, por exemplo, mas ele foi renovado pelo Concílio. Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro, quando a crise terminar, nas famílias Católicas renovadas, nas Igrejas domésticas e no testemunho corajoso da fé pelos leigos.

Quero mencionar outra contribuição positiva, o capítulo sobre Nossa Senhora em Lumen Gentium. Foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico falou de maneira tão ampla e profunda sobre o papel de Nossa Senhora na Igreja e na história da salvação. O título "Mãe da Igreja", Mater Ecclesiae, que o Papa Paulo VI deu a Nossa Senhora durante o Concílio, foi baseado nos ensinamentos da Lumen Gentium. Desde a época de Santo Irineu, Maria é chamada de "a nova Eva". O Papa Bento XVI ensinou: "Maria é a Mãe Espiritual de toda a humanidade, porque Jesus na Cruz derramou o seu sangue por todos nós e da Cruz ele confiou todos nós aos cuidados maternos dela" (Homilia, 1 de janeiro de 2007). Seu papel como Mãe Espiritual da humanidade manifesta-se por meio dessas funções maternas específicas, à medida que ela coopera "no trabalho do Salvador em restaurar a vida sobrenatural às almas" (Lumen Gentium, n°. 61), como Medianeira das graças, dispensando as graças de Cristo, e como Advogada, com seu poder intercessor.

Esses pontos - o chamado universal a santidade, o papel dos leigos na defesa e no testemunho da fé, a família como igreja doméstica e os ensinamentos sobre Nossa Senhora - são o que considero as contribuições verdadeiramente positivas e duradouras do Concílio Vaticano II. 
[...]

Diane Montagna: A Igreja definiu-se pela primeira vez, no Vaticano II, como a "serva da Palavra".

Dom Athanasius: Mas, pelo contrário, quando se olham as fotografias daquela época, o Vaticano II como demonstração de triunfalismo clerical. Não estou confortável com isso. O lema "Somos a Igreja" deixa alguns com a impressão de grande triunfalismo. Observa-se aqui uma falta de modéstia. Quando olho as fotos e os relatórios históricos do Concílio, tenho a impressão de que, de alguma maneira, os bispos se colocam no centro. No entanto, somos apenas servos.

O magistério ficou tão sobrecarregado nos últimos anos com um ultramontanismo não sadio que emergiu uma atmosfera de "eclesiocentrismo", que por sua vez é um antropocentrismo oculto, e isso não era saudável. O Concílio, que infelizmente foi uma demonstração de um raro "eclesiocentrismo" e "Magisteriocentrismo" - este Concílio propôs uma bela descrição do que é o Magistério, que nunca fora dado na história da Igreja. Pode ser encontrada em Dei Verbum, n°.10, onde está escrito: "O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve". Isso é lindo. Nunca li isso antes em um texto de outro Concílio.

[...]

Diane Montagna: Alguns que criticam o Concílio dizem que, embora haja aspectos positivos, é como um bolo com um pouco de veneno que precisa ser jogado fora.

Dom Athanasius: Ouvi essa comparação da Sociedade de São Pio X. Não podemos aceitá-la porque o Concílio Vaticano II foi um evento de toda a Igreja, Em um fenômeno importante, mesmo que haja pontos negativos, temos que manter uma atitude de respeito. Temos que avaliar e estimar tudo o que é real e verdadeiramente bom nos textos do Concílio, sem fechar, de maneira irracional e desonesta, os olhos da razão para o que é objetivo e evidentemente ambíguo e até errôneo em alguns textos. É preciso sempre lembrar que os textos do Concílio Vaticano II não são a Palavra de Deus inspirada, nem são julgamentos dogmáticos definitivos ou pronunciamentos infalíveis do Magistério, porque o próprio Concílio não tinha essa intenção. [...]


- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 146-152.

terça-feira, 21 de julho de 2020

"(...) jogai nossos pecados nas profundezas da mar"


16ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Mq 7,14-15.18-20)
Salmo Responsorial (Sl 84)
Evangelho (Mt 12,46-50)

<Uma vez mais, tende piedade de nós! Esquecei as nossas faltas e jogai nossos pecados nas profundezas da mar. (Mq 7, 19)>*

1. Está foi a prece do profeta Miqueias, conforme lemos a primeira leitura da missa. Embora não sejamos nós profetas, também podemos e devemos clamar a Deus por misericórdia para com o povo a qual pertencemos. A causa primeira desta pandemia são os nossos pecados. Aquilo que hoje sofremos é o justo castigo de nossas iniquidades.

2. "(...) jogai nossos pecados nas profundezas do mar", de algum modo o trecho final deste versículo deve também nos inspirar a fazer o mesmo. Devemos jogar nas profundezas do mar todos os instrumentos de pecado, tudo aquilo que nos afasta de Deus: maus livros, ídolos, materiais pornográficos, degenerações heréticas e etc. Quão belo foi quando se ecoou a notícia das estátuas da Pachamama precipitadas no Tibre! Outra alternativa é queimar tudo em uma bela fogueira quase como num doméstico auto de fé

*Obs. Hoje foi utilizada para estas reflexões tradução Bíblia na edição Ave Maria. Creio que neste trecho em específico foi a versão que expressou da maneira mais adequada o sentido do texto. 

domingo, 19 de julho de 2020

Descrença e ativismo


A Sagrada Escritura menciona uma infinidade de personagens, dado, porém, a estrutura narrativa, são narrados de forma secundária, com poucas informações a respeito em contraste com outros nos quais o autor sagrado se foca, tendo o papel de protagonistas da narrativa bíblica. Entretanto, não são meros personagens, mas vidas humanas, heróis sagrados, de tal forma que seria possível contar a mesma narrativa bíblica desde seu ponto de vista, como fossem eles os protagonistas. É a mesma narrativa, mas desde outra perspectiva. É o que acontece em O Apóstolo Tomé, filme italiano do ano 2000.

O princípio da Sola Escritura - tão alardado pelos protestantes mas curiosamente só levado as últimas consequências no cinema por um ateu comunista responsável por um dos melhores, senão o melhor, filme sobre Nosso Senhor Jesus Cristo (O Evangelho Segundo São Matheus) - é brutalmente contrariado nesta obra. Isto porque as informações bíblicas sobre São Tomé são escassas,  mesmo os dados da tradição, de forma que o cineasta utilizou de grande liberdade criativa. Temos assim uma ficção histórica de caráter bíblico-teológico, não o modo real ou provável como ocorreram as coisas, mas como poderia ter ocorrido desde a perspectiva do possível. É uma opção artística ousada, todavia extremamente interessante. Há análogos no romance O Mundo dos Anjos do exorcista Pe. José Antônio Fortea.

O filme se inicia com a crucificação. Tomé chega atrasado, no momento ondo se estão a levar o cadáver de Nosso Senhor ao Santo Sepulcro. Há todo um clima de animosidade dos romanos, de modo a querer se livrar do corpo, afim de por um fim nessa história de cristianismo. Entretanto, a intervenção de José de Arimateia e do soldado Longinus providenciam ao Senhor um lugar de descanso. Longinus, aliás, é um personagem extremamente interessante no filme, de algum modo perturbado por tudo aquilo que viu, vai aos poucos entrando no caminho da fé. Todavia, demora para a piedade cristã penetrar em seu temperamento militar romano. José de Arimateia é outro personagem extremamente interessante no filme, onde vemos seu drama interior e como precisa tomar coragem para se assumir discípulo de cristo ao invés de manter as escondidas a sua fé. 

Após o sepultamento, há entre judeus e romanos certa perplexidade, e o desejo de se livrar do corpo. A mesma perplexidade se dá entre os apóstolos, temendo que os inimigos de Cristo assim o façam, e desejosos de levar o cadáver para ser sepultado na Galileia. A primeira parte do filme trata da saga de Tomé, buscando apoio para retirar o corpo do sepulcro, até que.... Bem, os leitores conhecem a história bíblica, o sepulcro está vazio. Ressuscitou! Tomé. porém, tarda em acreditar, empreendendo uma longa busca pelo corpo, investigando quem poderia tê-lo levado. Os suspeitos? Caifás e os Judeus, Pilatos, ou mesmo os zelotas revolucionários de Barrabás.

O filme mostra Tomé como um homem corajoso, audacioso e impetuoso. Bem como o colégio dos apóstolos como uma organização extremamente viril, a tal ponto em que há brigas físicas que devem ser apartadas. Entretanto creio que o papel de Nossa Senhora na narrativa não foi trabalhado de forma adequada. Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a adição da personagem Joana, um quase par romântico de Tomé. Absolutamente desnecessário.


Até aqui fiz o que qualquer crítico faria, falei do filme, e o texto poderia ter terminado aí. Entretanto, antes de encerrar gostaria de fazer alguns paralelos com uma leitura recente, o livro Christus Vincit, de Dom Athanasius Schneider. Em determinada parte da obra, e de forma muito bem humorada, o bispo menciona sobre o perigo do ativismo. Com o enfraquecimento da fé e da vida de oração, parte do clero cai em uma atividade frenética, com reuniões, congressos, viagens e a produção de pilhas e pilhas de documentos inúteis. Destaco o seguinte trecho:

[...] O movimento Modernista, presente na Igreja desde o século XIX, usou o Concílio Vaticano II como catalizador para a expansão. Assim, depois do Concílio, a Igreja ficou imersa em uma profunda vitória do natural sobre o sobrenatural em muitos aspectos da vida da Igreja. No entanto, é apenas uma vitória aparente, já que a Igreja não pode ser superada pelos poderes do Inferno. Entretanto, temporariamente, estamos testemunhando um eclipse, uma ofuscação do sobrenatural, da primazia de Deus, da eternidade, da primazia da graça, da oração, da sacralidade, da oração. Todos esses sinais do sobrenatural foram de extremamente diminuídos na vida pastoral e na liturgia da Igreja em nossos dias. Em escala global, a crise mais profunda da Igreja é o enfraquecimento do sobrenatural. Isso se manifesta em uma inversão de ordem, de modo que a natureza, os assuntos temporais e o homem ganham supremacia sobre Cristo, sobre o sobrenatural, sobre a oração, sobre a graça e assim por diante. Esse é o problema. Como Jesus Cristo disse: "Sem Mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5). Toda a crise na Igreja, como vista depois do Concílio, manifestou-se em uma incrível inflação de atividade humana frenética para preencher o vazio ou o vácuo de oração e adoração, para preencher o vazio criado pelo abandono do sobrenatural. (pág. 132-133)

De alguma forma vemos isto no filme. Descrente, Tomé empreende uma longa jornada em busca do corpo de Jesus, a qual se mostra inútil. E então, quando se junta aos demais apóstolos para orar, ele O vê; toca os furos de sua mão e o lado que fora perfurado pela lança. Assim, o apóstolo e o bispo chegam a mesma conclusão: a primazia do sobrenatural, da oração, sobre o ativismo. Encerro o artigo uma vez mais citando a Dom Athanasius:

Um dos meios para sair desta crise, e que a curará, é a redescobrir o sobrenatural e dar primazia ao sobrenatural na vida da Igreja. Isso significa dedicar tempo à oração e à adoração Eucarística, dando tempo à beleza da Santa Missa e à liturgia, à prática da penitência corporal, à proclamação da verdade sobrenatural das Últimas Coisas e da verdade do Evangelho. Temos que colocar Cristo e Sua Revelação sobrenatural de novo ao centro, porque somente isso pode curar toda a humanidade. (pág. 137)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Da diferença entre liberdade e tolerância religiosa - Dom Athanasius

Diane Montagna: Vossa Excelência, gostaria de discutir o relacionamento da Igreja com as religiões não cristãs e o problema do indiferentismo religioso, ou seja, a opinião de que as diferenças de crenças religiosas são essencialmente sem importância. Em nossa discussão sobre o Islã, o senhor sugeriu que seria bom para países americanos e europeus olharem para o sistema no Cazaquistão em busca de harmonia social. O senhor acha esse tipo de diálogo inter-religioso eficaz?

Dom Athanasius: É eficaz em nosso país, sim. Não discutimos temas religiosos, mas a necessidade de vivermos pacífica e respeitosamente juntos na sociedade e de mantermos a harmonia na vida social e não abusarmos da religião como pretexto para introduzir-se a violência física na vida comum. A tolerância religiosa sempre fez parte da doutrina Católica, mesmo antes do Concílio. Entretanto, os católicos não podem ser a favor de que religiões que propagam seus erros, porque todas as religiões que não são católicas são errôneas e Deus não as aprova, e por isso são contrárias à vontade de Deus. Elas contém dentro de si veneno espiritual. É claro que não podemos permitir que o veneno espiritual se espalhe pela sociedade.

Portanto, os católicos devem tolerar outras religiões, mas não as promover. Essa é uma diferença essencial. Por mil e seiscentos anos desde que a Igreja conquistou sua liberdade sob Constantino, o Magistério ensinou interruptamente que não era permitido que erros religiosos fossem disseminados livremente na sociedade, porque as pessoas são vulneráveis a serem contaminadas. As autoridades civis tinham, portanto, o dever de evitar a propagação de tais doenças espirituais, e a Igreja deu instruções ao governo, porque a autoridade civil não tem competência em questões de verdade religiosa.

Diane Montagna: O senhor pode explicar a diferença, nesse contexto, entre tolerância e aprovação?

Dom Athanasius: Os Católicos devem tolerar até mesmo as religiões errôneas em vista do bem comum. Um estado Católico concede tolerância a ouras religiões para que elas possam existir, para que possam ter suas próprias igrejas ou casas de oração e escolas. No entanto, uma sociedade Católica oficial e um estado Católico não podem dar ás falsas religiões os mesmos direitos que são devidos a verdadeira religião Católica. Caso contrário, as falsas religiões espalhar-se-iam entre a população católica e levariam jovens e fracos a uma falsa religião.

[...]

Diane Montagna: Houve uma preocupação legítima por parte daqueles que redigiram Dignitatis Humanae que motivou suas formulações?

Dom Athanasius: A questão da liberdade religiosa foi alterada pela situação histórica concreta. Atualmente, vivemos em uma sociedade secularizada e não cristã, com governos ateístas, de fato, na Europa. Estamos em uma nova situação comparável à dos cristãos que viviam sob a sociedade pagã romana. Agora estamos entrando em uma espécie de perseguição. 

Mas não podemos mudar os princípios. Um princípio é que apenas a verdade tem direitos; outra é que toda a sociedade humana, e até governos, devem reconhecer a Cristo e adorá-lO. Essas verdades são imutáveis; são verdades reveladas, como afirma Pio XI, em Quas Primas. O estado, é claro, não deve interferir nos assuntos da Igreja. No entanto, como representantes do povo, eles devem adorar publicamente a Cristo, o verdadeiro Deus, e praticar a verdadeira religião, que é apenas a religião Católica. Essa é a constante verdade Católica, que nenhuma autoridade eclesiástica pode transformar em seu contrário. A aplicação concreta e prática dessa verdade em uma situação histórica alterada é outra questão.

Diane Montagna: O que o senhor quer dizer?

Dom Athanasius: A situação histórico-social mudou no sentido de que precisamos pedir ao governo, exatamente como se estivéssemos sob a perseguição romana: "por favor, dê-nos liberdade para adorar a Deus". Nesse sentido, não podemos dizer ao governo ateísta que só nos temos a verdadeira religião - porque eles são ateus e ririam disso, rejeitando tal argumento. Só podemos usar um argumento do ponto de vista do direito civil: "Conceda-nos liberdade religiosa!" Assim, como cidadãos, de um governo ateísta ou não cristão, todas as pessoas, independentemente de suas religiões, têm o direito ao culto de acordo com suas convicções, tendo os mesmos direitos civis em relação à religião.

- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 103-106.

terça-feira, 14 de julho de 2020

A cidade sob uma perspectiva teológica


15ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Is 7,1-9)
Salmo Responsorial (Sl 47)
Evangelho (Mt 11,20-24)

A liturgia de hoje é permeada pelo tema da cidade. A primeira leitura, um tanto quanto complexa devido a dificuldade de situar o contexto histórico para quem não conhece a história de Israel, trata da tentativa de invasão de Jerusalém pela Síria aliada a tribo de Efraim. Deus, pela boca do profeta anuncia que protegerá sua cidade, e arruinará as cidades do inimigo. O salmo canta louvores a cidade do Senhor. Para além de uma cidade física, da Jerusalém terrestre e histórica, devemos cantar o salmo desde uma perspectiva espiritual, tendo em vista que a cidade do Senhor é a Igreja. Por fim o evangelho repreende as cidades de Betsaida, Corazim e Cafarnaum por não o terem se convertido ante tão estrondosos milagres nelas manifesto. Aí se deve entender tais cidades em toda a sua concretude histórico-geográfica.

Não apenas as pessoas, mas também os lugares tem uma personalidade própria e um papel no plano da salvação. Cada cidade é guardada por um Arcanjo Custódio e será sujeita de algum modo ao julgamento no fim dos tempos. Pergunto ao leitor, como é a cidade onde mora? Conhece ele sua história, suas características peculiares, o ethos que lhe é próprio? No dia do juízo, será ela elevada os céus ou precipitada no inferno? Os integralistas falam muito sobre o conceito de municipalismo, para além de uma perspectiva política e administrativa, pensemos nisto, porém, desde uma abordagem teológica. Sejamos de alguma forma ''municipalistas'' conscientes da história da cidade em que nascemos, das cidades onde moramos e, de algum modo, procuremos colaborar em sua edificação espiritual, para que não sejam alvos de reprimendas no dia do juízo.

sábado, 11 de julho de 2020

Ministério de Cura

Encontrei meio que por acaso um antigo livro de autoria Pe. Alberto Gambarini aqui em casa: Cura das Enfermidades - Benefício de Jesus. Salvo engano o sacerdote possui ligações com o movimento carismático e apresenta um programa de televisão na Rede Vida. O livro, dirigido aos simples, fora escrito como um pequeno devocionário com instruções aos doentes de como proceder para pedir a cura de suas enfermidades. Apesar de proceder uma leitura pouco pretensiosa, me surpreendi. De forma geral considerava curas como ações extraordinárias, limitadas no tempo e espaço, e quase sempre um milagre associado a confirmação de uma verdade, ou a santidade do ministro. O sacerdote, porém, demonstra que o dom da cura é, em linguagem teológica gratum faciens, um dom derivado da missão salvífica que acompanha a Igreja durante toda a sua história. O enfermo deve, pois, recorrer a oração e a Igreja. De alguma forma, porém tanto mais restrita as doenças de natureza psicológica Carl Gustav Jung expressa uma opinião semelhante. O que não significa contudo negligenciar a assistência médica, quando se faz prudente recorrer a esta, conforme o padre ressalta em seu livro.

Chamou-me atenção certo trecho da obra, em que o autor relata um caso onde fora tomado por uma forte emoção a ante notícias de um antigo conhecido o qual lhe tinha feito muito mal, acabou o sacerdote por manifestar sintomas físicos: dores no braço, nas costas, enxaqueca e insônia. Com grande sabedoria e rastreando a raiz emocional de suas chagas físicas, recorreu a oração, pedindo a Deus a graça de perdoar este seu irmão. Após a oração, a emoção negativa se dissipou e com ela suas dores. 

Outro trecho deveras interessante aqui transcrevo, onde o Pe. Gambarini relata o caso da cura de uma senhora que intentava em recorrer a uma benzedeira, e destaca um aspecto um tanto quanto desconhecido do ministério sacerdotal, o poder de orar pelos doentes:
Nem sempre o povo tem presente que um dos serviços do padre é o de rezar pelos doentes. Talvez este seja o motivo por que tantos católicos praticantes buscam fora de sua religião a crua para as enfermidades.

Recordo-me de um caso curioso em que uma mulher me pediu autorização para ir a uma benzedeira. Pela graça de Deus, deixei-a contar sua estória, e ela se expressou nos seguintes termos: "Padre, há anos estou sofrendo do estômago. Sinto mal-estar toda vez que me alimento. Estou cansada de tomar remédios e continuar sempre sofrendo. Ouvi dizer que essa pessoa reza para as dificuldades do estômago. Procurei o senhor porque não quero fazer nada que desagrade a Deus."

Entendendo sua situação, não quis criar um sentimento de culpa adicional ao seu sofrimento. Somente lhe disse: "Vamos pedir a Deus que lhe permita tomar a melhor decisão, e também vou fazer uma oração de benção do estômago".

Passados alguns dias, a mulher me procurou para dizer que não fora ao benzedor e depois da oração seu estômago não a incomodava mais.

Recorramos ao Senhor na saúde e na doença e se Ele assim o quiser, e contribuir para a salvação de nossa alma, Ele nos atenderá.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A Vida e a Compreensão dos Símbolos Bíblico


14ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (Os 14,2-10)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mt 10,16-23)

1. Ovelhas, lobos, pombas e serpentes. De algum modo compreendemos, ou achamos que compreendemos o Evangelho de hoje. São imagens recorrentes e já extensamente explicadas. Todavia...

Certa feita li em um dicionário de símbolos a respeito do simbolismo do gato. Muito interessante, porém demasiado incompleto. Ao observar o gato se nota muitas outras características, muitos outros aspectos simbólicos os quais não foram escritos pelo autor. O que não nos escapa da compreensão da escritura, quando não experimentamos e observamos atentamente os símbolos que se refere? Vi  serpentes algumas poucas vezes, durante a ocasião estava com medo demais para observar atentamente, o significado de sua prudência me a vago. Quanto ao lobo, minha experiência se resume a filmes e documentários, aprecio tanto mais seu aspecto estético que é me forçoso entender o aspecto de perigo, tal qual se é destaque no Evangelho.

Escutamos pois as mesmas palavras, entretanto que diferença entre a clareza em que está se manifestava a um camponês de outrora e a um moderno citadino... O que para eles era algo óbvio e impactante, para nós é um tanto quanto nebuloso, o qual só se torna claro a custa de muito estudo ou da busca de experiências hoje inusuais.

2. O Evangelho também menciona a fuga. Percorrer cidade em cidade, afim de fugir das perseguições... Outra experiência a qual poucos de nós estamos acostumados. Temos uma perspectiva de estabilidade, é o modo como nossa mente burguesa funciona. Percorrer cidade em cidade, a mentalidade do viajante, algo a qual é-nos de difícil compreensão, tanto mais quando somado ao elemento da perseguição e do perigo iminente...

3. Li em algum lugar um sujeito ufanista se gabando que, dado aos avanços da ciência linguística e da pesquisa histórica, compreendemos hoje as escrituras melhor que outrora. Me parece que é o contrário, dado ao modo como nossa vida e experiência destoa dos antigos, a Bíblia Sagrada se torna para nós tanto quanto mais nebulosa, de forma que não fosse a tradição da Igreja, estaríamos no escuro.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Você já sentiu inveja dos pássaros?


Kino no Tabi é um anime inusual, dirigido a um público inusual. Talvez por isso não seja tão popular... Todavia, a opinião das massas nunca valeu de grande coisa desde os tempos de Platão...

A maioria dos animes segue uma narrativa linear, fortemente conectados uns aos outros, trabalhando seus personagens, sua construção de mundo, as regras internas de seu universo: este é o usual. Mas como disse, Kino no Tabi é inusual; o anime é cíclico em ato e infinito em potência.

A premissa é simples: acompanhamos a jornada Kino e seu companheiro Hermes (um moto falante). Neste mundo fictício cada cidade é como fosse um país. Não mais que três dias é o tempo em que nossa protagonista passa em cada um, sendo o suficiente para conhecer a cultura local, bem como um tempo seguro para que esta não se apegue a ponto de desejar ficar e desistir de sua jornada. Qual o objetivo da viagem? Isso fica para depois, falemos agora de Kino.

A protagonista, é tão inusual como o próprio anime. Para quem está acostumado ao esteriótipo shonen recheado de personagens enérgicos e determinados, Kino é demasiado passiva. Apesar de sua expertise com armas de fogo, ela passa quase sempre como mera observadora, alguém que se limita a observar os costumes locais, sem contudo tomar parte nos assuntos internos de cada país. É como fosse tal como você neste texto, um leitor, um expectador, e não um personagem do conflito. No momento oportuno, sempre de forma muito sútil, o anime nos sugere um porquê. 

Em cada episódio, em cada país, através de histórias um tanto quanto absurdas a narrativa explora temas diversos e profundamente complexos: autoridade, democracia, guerra, vingança, trabalho, expressão, tradição, sacrífico e sobretudo o porquê, o sentido da vida humana, não da humanidade como um todo, mas de cada vida em particular.

E toda essa riqueza de roteiro é acompanhada por uma arte característica bem como uma trilha sonora absolutamente linda e recursos cenográfico-expressivos marcantes.


Kino no Tabi - The Beautiful World figura hoje entre meus animes favoritos, o qual pretendo revisitar ainda mais algumas vezes, de forma que no futuro venha a comentar individualmente cada um dos temas abordados.

Por fim, pergunto-lhe caro leitor: você já sentiu inveja dos pássaros? 

Sempre que as pessoas veem pássaros voando através do céu, dizem que elas sentem vontade de ir em uma jornada..

terça-feira, 7 de julho de 2020

Constituíram reis sem minha aprovação, e chefes sem meu conhecimento


14ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Os 8,4-7.11-13)
Salmo Responsorial (Sl 113B)
Evangelho (Mt 9,32-38)

1. A democracia, sobretudo a democracia liberal, é um regime terrível. Acaba por mimar em demasia o povo, alimentando em demasia o orgulho do ''cidadão'', hipertrofiado em direitos, anoréxico em deveres.

Até que consigamos mudar o regime (se é que algum dia consigamos), resta-nos porém tentar manter nossa sanidade, adequando nosso pensar a visão real de povo e autoridade. Na primeira leitura, extraída do livro do profeta Oseias, entre as múltiplas repreensões que Deus faz Israel, encontramos o seguinte trecho: <Constituíram reis sem minha aprovação, e chefes sem meu conhecimento (Os 8, 4a)>. O povo não tem o poder de constituir chefes por si mesmo a revelia de Deus. O poder não emana do povo, como afirma erroneamente a constituição brasileira, mas antes de Deus. Ainda que seja lícito a plebe eleger alguém para liderá-los, este precisa ser apresentado a Deus. Não governamos nações, mas pode ser que tenhamos algum clube ou empresa, procuremos ter em vista a tradicional ideia de autoridade e sempre que for o caso de nomear um novo líder, que este seja apresentado a Deus em oração.

2. O Evangelho também trata das relações entre o povo e a autoridade, desde uma perspectiva ainda mais pura e espiritualista. Trata da autoridade espiritual, das vocações sacerdotais, e ensina-nos a rezar pelas vocações. Devemos fazê-lo sempre, devemos pedir a Deus por pastores para cuidar de seu rebanho. Que essa seja de modo especial nossa intenção no dia hoje durante as orações cotidianas, e que pelas vocações ofereçamos hoje a récita do Santo Terço.

Oração pelas Vocações
Senhor da Messe, Pastor do Rebanho,
Faz ressoar em nossos ouvidos
Teu forte e suave convite:
“Vem e segue-me!”
Derrama sobre nós o Teu Espírito,
Que Ele nos dê sabedoria
Para ver o caminho,
E generosidade para seguir Tua voz!

Senhor, que a messe não se perca
Por falta de operários!
Desperta nossas comunidades para a Missão!
Ensina nossa vida a ser serviço!
Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino
Na vida consagrada e religiosa!

Senhor, que o Rebanho não pereça
Por falta de Pastores!
Sustenta a fidelidade de nossos bispos,
Padres, diáconos e ministros!
Dá perseverança a nossos seminaristas!
Desperta o coração de nossos jovens
Para o ministério pastoral em Tua Igreja!

Senhor da Messe e Pastor do Rebanho,
Chama-nos para o serviço de teu povo.
Maria, Mãe da Igreja, modelo dos servidores do Evangelho,
Ajuda-nos a responder: “SIM”. Amém.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Do simbolismo do gato preto de olhos ímpares



De tempos em tempos costumo fazer alguns experimentos estéticos para com o design do blog. O leitor mais antigo deve ter se alegrado com muitas das versões anteriores, o mais recente talvez só conheça a atual configuração que deve se manter por muito tempo, uma vez que acredito ter conseguido expressar as nuances da filosofia deste espaço, expressão tanto mais perfeita até que muitos de meus textos. Todavia, há que se fazer algumas explicações. Qual o sentido do gato negro de olhos ímpares? Porque da cor roxo? E que raios de nome esquisito para um blog católico?

Tudo isso remete as distinções entre underground e mainstream. No universo da cultura existe uma espécie de centro, a superfície iluminada, a cultura respeitável. No contexto em que escrevo estas linhas, este é gestado sobretudo por duas instituições: mídia e universidades. Este centro, a "superfície" serve sobretudo aos interesses do "sistema", e apesar de ser um construto histórico, um recorte da realidade com uma origem específica no tempo e espaço, é tido por muitos como a totalidade, como o mundo real.  Para além disso, existe um universo escuro, oculto a maioria das pessoas, recheado de fatos que deveriam ter sido esquecidos, e conhecimentos um tanto quanto incômodos. É justamente este universo o qual pretendo explorar.

Sendo um tanto quanto mais concreto daquilo que constitui o mainstream ao qual pretendo constituir oposição e contraste, devo dizer que me refiro especificamente: ao desenvolvimento pós-moderno do mundo criado desde a Revolução Francesa (bem como a própria revolução), ao relativismo, ao feminismo, ao liberalismo, ao estado laico, à democracia liberal, à ilusão burguesa de estabilidade e a tolice de Kant, a perspectiva eclesial vaticanosegundista, enfim, bem poderia afirmar na expressão feliz de um pensador infeliz: "Contra o Mundo Moderno!". Em oposição a isto mergulhamos no submundo da cultura, recrutando, ordenando e "batizando" os elementos para gestar a Contrarrevolução, a que se pretende católica.

O suburbano contrasta com o centro, o roxo é uma cor litúrgica de exceção, utilizada durante a quaresma e o advento em contraste ao verde do tempo comum. O gato é um animal que expressa certa nobreza aristocrática, ao mesmo tempo em que manifesta grande liberdade, livre vaga pelas ruas durante a noite em suas aventuras pela cidade, os olhos ímpares, sua heterocromia, é uma mutação incomum e inusual e expressa o desejo deste espaço em estudar o incomum e o inusual, e trazer ao leitor alguns aspectos deste mundo oculto, oculto não porque o seja secreto e esotérico, mas porque contrasta com os interesses daqueles que hoje governam os destinos do mundo.

domingo, 28 de junho de 2020

Vicente Verner vítima de Libelo de Sangue - Dom Bosco

O jovem Vicente Verner - Naqueles tempos aconteceu um fato atroz que deu a conhecer quanto ódio abrigavam os Judeus contra nossa santa religião. Um jovem camponês de Treves (França) chamado Vicente Verner, tinha-se empregado, na idade de 15 anos, com alguns judeus de Vesel, para trabalhar a pagamento em uma adega. Um dia a mulher que caritativamente lhe dava morada lhe disse: "Verner, chegou a sexta-feira santa, os judeus te vão matar". O inocente jovem respondeu-lhe: "Eu não posso viver senão trabalhando; minha vida está nas mãos do Senhor." Na quinta-feira santa confessou e comungou e depois voltou para seu trabalho. Os judeus desceram com ele à adega: puseram-lhe uma bola de chumbo na boca para não se ouvirem os gritos, e em seguida ataram-no a um pau de cabeça para baixo, para que vomitasse a santa Hóstia; porém não podendo consegui-lo, açoitaram-no cruelmente. Abriram-lhe logo as veias e o espremeram com tenazes para que saísse todo o sangue de seu corpo. Foi conservado suspenso no ar durante três dias, já pelas pernas, já pela cabeça, até que exalou o último suspiro. Isto se deu no ano 1287. Seu cadáver ainda que enterrado em uma gruta, foi descoberto por luz portentosa que apareceu no lugar onde se achava sepultado. Foi tirado dali e com a honra devida, enterrado em uma capela. Martírio parecido a este sofreu em Damasco o Pe. Tomas de Sardenha, nos últimos anos do pontificado de Gregório XVI.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Quarta Época, Cap, III, p.191

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jerusalém


12ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (2Rs 25,1-12)
Salmo Responsorial (Sl 136)
Evangelho (Mt 8,1-4)

1. Somos hiperbólicos em demasia, hipertrofiando por demais nossos próprios sofrimentos. Hoje se diz que a Igreja é perseguida... Embora haja uma oposição por parte do mundo, ao menos no ocidente, o termo perseguição é inadequado. Sofremos certo incômodo, certo antagonismo, mas de modo nenhum podemos comparar isso ao sofrimento dos santos e mártires. A primeira leitura nos dá uma dimensão sobre o que é o sofrimento. Os caldeus fecharam a cidade de Jerusalém, o povo começou a passar fome. Abriu-se uma brecha nos muros da cidade, e o rei fugiu com seus exércitos. Capturado por um dos generais inimigos, o rei foi obrigado a assistir a morte de seus filhos um a um, posteriormente foram-lhe arrancados os olhos, e atado a pesadas correntes, fora levado como escravo a Babilônia. O sofrimento em um grau atroz. A fome, a cena da morte dos filhos como a última imagem clara, os olhos arrancados, a escravidão no exílio... Isso nos dá uma dimensão do sofrimento, ante tão terrível cena deveríamos ter mais pudor ao reclamar de nossas pequenas dificuldades.

2. <A minha língua fique pegada às minhas fauces, se eu não me lembrar de ti. Se eu não me propuser Jerusalém, como o principal objeto de minha alegria. (Sl 136, 6)> ; O salmo foi composto no exílio e tinha um significado histórico bem concreto. Seu significado espiritual refere-se a Jerusalém celeste, ao Reino dos Céus. Todavia, entre o passado e a eternidade, ecoa um chamado histórico também concreto. Jerusalém a cidade santa encontra-se hoje sob domínio dos inimigos da cruz. Isso deveria ser para nós fonte de grande pesar... Um lugar tão santo, abandonado aos judeus. Jerusalém deveria ser a capital da cristandade, um lugar sob domínio da Igreja, pronto a receber peregrinos, repleto de monges, padres, religiosos e religiosas... Entretanto, lá está sob domínio dos descendentes daqueles que crucificaram Jesus, homens estes que não cessam de profanar tal solo sagrado com tão graves pecados (como por exemplo a marcha do orgulho sodomita anualmente ali realizada).

Se não alimentarmos essa dor, esse pesar por ver os lugares santos nas mãos do inimigo, se não nutrimos esse sentimento, acabamos por tratar a cidade sagrada como fosse um lugar qualquer, arriscando a perder nossa identidade, nossa fé, nossa alma... Ainda que hoje não seja possível recuperar Jerusalém, o atual estado da cidade não pode jamais ser tratado como normal, antes deve ser para nós um aviso bem visível de nosso fracasso na missão de edificar o império cristão, motivo de penitência e humilhação.

3. No dia de hoje celebramos a memória de São Josemaria Escrivá. A teologia do padre Escrivá traz um novo sentido as realidades cotidianas, dando ao ordinário uma dimensão extraordinária. De algum modo, São Josemaria trouxe uma dimensão poética a ''vida comum'', tornando aquilo que era fonte de tédio e sofrimento, uma épica aventura sagrada.

São Josemaria Escrivá, rogai por nós!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

São João: a liturgia e as festas profanas


Natividade de São João Batista | Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 49,1-6)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Segunda Leitura (At 13,22-26)
Evangelho (Lc 1,57-66.80)

Em tempos ordinários, o dia de hoje seria no calendário profano ocasião de uma grande festa. A festa de São João é uma data folk em nosso país, marcada por música, dança, comida à vontade bem como certa nostalgia para com a cultura caipira. É tempo onde o citadino faz cosplay da camponês. Desde uma perspectiva cultural, apesar de alguns excessos, no geral meu julgamento sobre este tipo de festa é positivo, entretanto...

Entretanto... ela revela a complexidade e as dificuldades da relação entre a Igreja e cultura. A festa não tem absolutamente nada haver com a personalidade de São João Batista, um homem austero, um asceta, que desde a infância vivia nos desertos. O Batista não marcaria presença de maneira alguma em tais festividades, preferindo antes se refugiar na solidão, fortalecer-se na penitência afim de discernir com mais clareza os desígnios divinos. 

Se assim o é, porque tal festança em dia aparentemente tão inoportuno? Coincidência de calendário, acabou que antigas celebrações cosmológicas relacionadas ao solstício, bem populares entre o povo roça, convergiam com a memória litúrgica de São João Batista, e na busca por cristianizar antigos costumes pagãos, acabou por se realizar tal sobreposição simbólica mais ou menos confusa...

Não pretendo eu reformar os costumes pátrios, tanto menos proferir um julgamento definitivo em tão complexa questão, a qual muitos homens mais sábios do que eu preferiram não tocar. Porém, não posso deixar de manifestar meu estranhamento, bem como certa perturbação ao notar que aqueles que no dia de hoje gritam: "Viva São João!" raramente tem em mente a vida de tão admirável figura, o qual fora chamado pela escritura de ''o maior dos homens nascido de mulher''.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Porque vês tu pois a aréstra no olho de teu irmão, e não vês a trave no teu olho?"


12ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (2Rs 17,5-8.13-15a.18)
Salmo Responsorial (Sl 59)
Evangelho (Mt 7,1-5)

Se deixarmo-nos conduzir pela narrativa, a liturgia da palavra no dia de hoje como que nos eleva aos céus para depois nos deixar cair com o rosto em terra. A primeira leitura fala dos pecados de Israel. Apesar de ser uma realidade dolorosa, dado a estrutura narrativa, assistimos tudo desde fora. Pode ocorrer de que nos sintamos como um dos profetas do Senhor e, a luz da apostasia do Israel de outrora, condenemos os pecados de nossa nação no hoje. Adequado, uma vez que hoje os pecados desta civilização são gravíssimos, e talvez o corona vírus seja a manifestação das primícias de um castigo aterrador. Todavia, ainda assim é uma perspectiva incompleta. Isso porque não somos profetas. Depois de olhar em redor, o Evangelho nos convida a olhar para nós mesmos. O famoso não julgueis ecoa em nossos ouvidos, significando não um relativismo hedonista de que vale tudo, mas uma grande advertência segundo a qual o papel de juiz cabe a Deus e não aos homens. Segue-se a dura repreensão: como queres tirar o cisco do olho de teu irmão se tem uma trave ante seus olhos? Como queremos nós bancar os profetas, os salvadores da civilização ocidental, a nova elite, se, afinal, temos tantos e tão graves pecados em nossa conta? Orgulho, inveja, mentira, preconceito (esse termo é inexato, mas de fato existe uma realidade mais ou menos concreta que este se refere) e tantas outras imundices constituem a trave em nossos olhos, trave que ofusca nossa visão e faz com que ao julgarmos o próximo sejamos parciais e temerários. Se levássemos a sério o Evangelho, as redes sociais não estariam infestadas de tanta fofoca e maledicência.

Examinemos nossa consciência, ou aproveitemos os paradoxos da técnica e examinemos nossos arquivos digitais; nossas últimas postagens e conversas... Se a memória por vezes se torna cúmplice de nossas imundices, muitos dos fatos concretos estão de algum modo registrados nesse oceano virtual, de tal forma que podemos ter alguma ideia de nossa própria imundície. Que mais do que lamentar e longe de aceitar, antes procuremos corrigir-nos.

domingo, 21 de junho de 2020

Maomé e sua religião - Dom Bosco

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Terceira Época, Cap, I, p.77.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Arquétipos - Carl Gustav Jung

[75] Senhoras e senhores, ontem abordamos as funções da consciência e hoje desejo terminar esse tópico relacionado com a estrutura da mente. A discussão sobre a mente humana não estaria completa se nela não incluíssemos a existência dos processos inconscientes. Permitam-me resumir brevemente as reflexões surgidas na noite passada.

[76] Não se pode lidar diretamente com os processos inconscientes por serem eles dotados de uma natureza inatingível. Não são imediatamente captáveis, revelando-se apenas através dos seus produtos, pelos quais inferimos que deve existir uma fonte que os produza. Essa esfera obscura é denominada inconsciente.

[77] Os conteúdos ectopsíquicos da consciência derivam, em primeiro lugar, do ambiente, e são recebidos através dos sentidos. Além disso, também provêm de outras fontes, como a memória e os processos de julgamento, que pertencem aos setores endopsíquicos. Uma terceira fonte de conteúdos conscientes seria o lado obscuro da mente: o inconsciente. Conseguimos uma aproximação dele através das propriedades das funções endopsíquicas, as funções que não se encontram sob o domínio da vontade. São o veículo através do qual os conteúdos inconscientes atingem a superfície da consciência.

[78] Apesar de os processos inconscientes não serem diretamente observáveis, podemos classificar seus produtos, que atingem o limiar da consciência, em duas classes: a primeira contém material reconhecível, de origem definidamente pessoal; são aquisições do indivíduo ou produtos de processos instintivos que completam, inteiram a personalidade. Há ainda os conteúdos esquecidos ou reprimidos, mais os dados criativos. Nada existe de peculiar em tais fatores. Em outras pessoas os elementos a que nos estamos referindo podem ser conscientes; muita gente está consciente de coisas que outras ignoram. Dei a essa classe de conteúdos o nome de mente subconsciente ou inconsciente pessoal, porque, dentro dos limites do nosso julgamento, creio ser tal camada inteiramente composta de elementos pessoais e componentes da personalidade humana em seu todo.

[79] A seguir há uma outra classe de conteúdos, cuja origem é totalmente desconhecida ou, pelo menos, tais fatores têm origem que não pode em hipótese alguma ser atribuída a aquisições individuais. Sua particularidade mais inerente é o caráter mítico. É como se pertencessem à humanidade em geral, e não a uma determinada psique individual. Ao defrontar-me pela primeira vez com tais conteúdos, perguntei-me se sua origem não era hereditária e acreditei que pudessem ser explicados através da herança racial. A fim de esclarecer este problema, fui para os Estados Unidos estudar os sonhos dos negros de raça não misturada e cheguei à conclusão de que tais imagens não têm nada a ver com o problema de sangue ou de herança racial. E também não são adquiridas pelo indivíduo. São próprias da humanidade em geral, sendo, pois de natureza coletiva.

[80] Dei o nome de arquétipos a esses padrões coletivos, valendo-me de uma expressão de Santo Agostinho. Arquétipo significa um “typos” (impressão, marca-impressão), um agrupamento definido de caráter arcaico que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore. Alguns desses motivos mais conhecidos são: a figura do herói, do redentor, do dragão (sempre relacionado com o herói, que deverá vencê-lo), da baleia ou do monstro que engole o herói. Outra variação desse mito do herói e do dragão é a katábasis, a descida ao abismo, ou nekyia. Os senhores se lembram da Odisseia, quando Ulisses desce ad inferos para consultar Tirésias, o vidente. O mito do nekyia encontra-se em toda a Antiguidade e praticamente no mundo todo. Expressa o mecanismo da introversão da mente consciente em direção às camadas mais profundas da psique inconsciente. Desse nível derivam conteúdos de caráter mitológico ou impessoal, em outras palavras, os arquétipos que denominei inconsciente coletivo ou impessoal.

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 51-53.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Mentiras Televisivas

O leitor assíduo já deve ter notado que a maior parte do material deste blog consiste em comentários. Comentários a respeito da sagrada escritura, comentários sobre livros, filmes, séries, doramas, animes etc. E, entre tais comentários uma ou outra ideia original me vem a mente, de modo que com o tempo espero eu conseguir construir algo ao qual possa chamar de "minha filosofia". Tal método pode ser chamado de "impregnação radical" (creio que deva ter kibado do xarope do Olavo), e consiste em alimentar o imaginário com imagens e referências diversas, de modo a ir organizando-o aos poucos. De modo ordinário, é o método que tenho a disposição. Um sujeito relativamente jovem não tem experiência o suficiente para postulados mais amplos e, salvo no caso de um grande místico, fugir desse método denota certo grau de teatro e falsidade.

Dito isto, faço aqui algumas considerações sobre o filme Rede de Intrigas (Network) a maior redpill cinematográfica do século passado. Em plena década de 70, no auge da hegemonia televisa, um sujeito resolve fazer um filme metendo a real e mostrando toda a podridão da mídia mainstream, pautada pelo absoluto desprezo a dignidade humana, pela mentira, infiltrada de comunistas, e controlada de baixo dos panos por certa elite global com vistas a implantar um governo mundial. E sabe o que acontece? O exato roteiro do filme: nada. O povo escolhe a bluepill o filme foi ignorado, caiu no esquecimento, e a televisão continuou a perder almas e destruir mentes ao longo de décadas, até que surgiu a internet. 

Detalhemos um pouco mais sobre o roteiro filme: certo sujeito, jornalista com anos de profissão, recebe a notícia de sua demissão, e então em um de seus últimos programas, ao invés de seguir o padrão, fica revoltado e começa a dizer verdades e atacar o sistema midiático em rede nacional. Curiosamente, isso eleva a audiência, de forma que os diretores da emissora dão cada vez mais destaque ao jornalista, que acaba louco, mas um louco que gera dividendos. Nisso há toda uma subtrama de adultério, comunismo, e manipulação que não vem ao caso agora. No final, as denúncias do sujeito vão se tornando cada vez mais duras e depressivas, de forma que a audiência se esvai. O povo que o idolatrou e elevou as alturas por dizer a verdade doa a quem doer se cansa dele. Não, os populares não querem a verdade, não querem por fim a rede de intrigas e conspirações gestadas desde a televisão, querem apenas distração e entretenimento. 

Assim é ainda hoje e, embora a televisão venha perdendo espaço, seus pretensos substitutos na internet não são muito mais sinceros. A difusão de mentiras, fake news, se mostra um negócio altamente lucrativo. O dizer a verdade, meter a real, coisa chata e tediosa, indigna de atenção. Isso, porém, não é algo novo, tal já está dito no Mito da Caverna de Platão. 

Apesar de não alimentar esperanças temporais, tenho grandes expectativas escatológicas. Sim, a mentira dá o tom a narrativa mundana mas, com a morte, a luz há de dissipar toda e qualquer treva. Aí de nós! Eis que a mentira será desmascarada em absoluto, o brilho da verdade será tamanho que obrigará incluso aqueles que não a quiserem ver, ardendo em fogo que nunca se apaga por toda a eternidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Oculto


11ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (2Rs 2,1.6-14)
Salmo Responsorial (Sl 30)
Evangelho (Mt 6,1-6.16-18)

Sombra, escuridão, segredo. Tais expressões são utilizadas em linguagem figurada com relativa frequência para referir-se ao mal. O desconhecido, o inesperado, o oculto, isso nos torna apreensivos, nos inquieta, faz com que tenhamos medo. É compreensível, todavia não deixa de ser um erro, que passemos a tratar a metáfora como fosse a realidade concreta, num automatismo tolo, como se tudo o que estiver associado a noite, ao segredo, a sombra, fosse necessariamente mal. Quando Jung fala sobre as forças ocultas da mente ou sobre determinado lado obscuro, tem em vista não um juízo moral, mas apenas o simples fato de que se tratam de realidades mais ou menos desconhecidas.

Ante tais considerações poderemos melhor equacionar o Evangelho de hoje, onde Nosso Senhor Jesus Cristo nos ordena que nossos atos de piedade sejam realizados as ocultas, no segredo, no escondido. Há de fato o significado moral imediato, a saber: quando nos esforçamos por publicizar nossas ações, acabamos vivendo uma espécie de teatro, buscando antes agradar a plateia e nos engrandecer do que de fato agradar a Deus. Neste sentido, o segredo nos preserva da tentação da vaidade. Além disso, porém, poderíamos dizer que tal perspectiva trás certa riqueza literária a vida, onde para além do mundo ordinário que aparece nas notícias e do qual ouvimos falar, há toda a riqueza de um mundo oculto, o segredo da vida espiritual dos santos, suas orações, êxtases, penitências heroicas e caridade extraordinária. O vinho novo escondido para o final da festa, do qual só temos acesso a pistas muito vagas e que só nos será revelado plenamente durante o julgamento da história ao fim dos tempos.

domingo, 14 de junho de 2020

Servos do Altar

Antes de terminar este parágrafo, resta dizer algo a respeito do ministro que serve à Santa Missa. Em nossa época dá-se aos meninos e a ignorantes este encargo, de que nem os próprios reis seriam dignos.

Diz São Boaventura que é um mister angélico, pois muitos Anjos assistem ao Santo Sacrifício e servem a DEUS neste santo mistério.

A gloriosa Santa Mectilde viu a alma de um irmão leigo envolta em deslumbrante claridade por ter-se empregado com extremo fervor em servir em todas as Santas Missas que pudera.

São Tomás de Aquino, o sol da Escolástica, conhecia bem o valor inestimável deste ofício de servir no divino Sacrifício, e não se dava por satisfeito se, depois de ter celebrado a Santa Missa, não ajudava outra.

São Tomás More, chanceler da Inglaterra, punha suas delícias nesta santa função; e certo dia, admoestado por um grande do reino que lhe avisava de que o rei Henrique veria com desprazer ação tão pouco digna dum primeiro ministro, respondeu: “Não pode segredar a meu senhor, o rei, que eu sirva o Senhor de meu rei, o qual é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores.”

Aí está o bastante parta confundir essas pessoas, às vezes até piedosas, a quem é preciso pedir e suplicar para que ajudem à Santa Missa, quando deveriam porfiar e apoderar-se do missal a fim de ter a honra de desempenhar emprego tão santo que faz inveja aos próprios Anjos e Santos do Paraíso.

Importa, evidentemente, velar com cuidado para que os que ajudam à Santa Missa sejam bem instruídos quanto a seu papel.

Devem manter os olhos baixos, uma atitude modesta e piedosa; cumpre-lhes pronunciar as palavras, distintamente, docemente, em voz não baixa demais, que o sacerdote não os ouça, nem por demais alta, que incomode os que celebram nos altares próximos.

Dever-se-ia, outrossim, excluir certos meninos muito levianos, que brincam e fazem barulho e perturbam o recolhimento do sacerdote. Rogo a DEUS que inspira aos homens prudentes dedicarem-se a este ofício tão santo e louvável. Competiria aos mais nobres a aos mais instruídos dar este belo exemplo.

- São Leonardo de Porto-Maurício. As Excelências da Santa Missa; p. 61-62.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Monsenhor Viganò sobre Vaticano II


A última carta assinada pelo monsenhor Viganò é corajosa e veraz. O prelado expôs sem escrúpulos a crise eclesial numa linguagem franca e exata, coisa a qual não se via um alto prelado o fazer desde de há muito tempo. Que o Senhor o abençoe, eque  o conteúdo da carta seja difundido por toda a Igreja para a glória de Deus, a alegria dos fiéis e a ira dos hereges.

9 de Junho de 2020
Santo Efrém

Li com muito interesse o ensaio de S.E. Athanasius Schneider publicado, no LifeSiteNews, a 1 de Junho, e posteriormente traduzido por Chiesa e post Concilio, intitulado Não há vontade divina positiva nem direito natural para a diversidade de religiões. O estudo de Sua Excelência compendia, com a clareza que distingue as palavras daqueles que falam segundo Cristo, as objecções à suposta legitimidade ao exercício da liberdade religiosa que o Concílio Vaticano II teorizou, contradizendo o testemunho da Sagrada Escritura, a voz da Tradição e o Magistério Católico, que de ambos é guardião.

O mérito deste ensaio reside, antes de tudo, em ter sido capaz de alcançar a relação causal entre os princípios enunciados ou implicados pelo Vaticano II e o seu consequente e lógico efeito nos desvios doutrinários, morais, litúrgicos e disciplinares que surgiram e se desenvolveram progressivamente até hoje. O monstrum gerado nos círculos dos modernistas poderia, a princípio, ser enganoso, mas, crescendo e fortalecendo-se, hoje mostra-se como realmente é na sua natureza subversiva e rebelde. A criatura, então concebida, é sempre a mesma e seria ingênuo pensar que a sua natureza perversa poderia mudar. As tentativas de corrigir os excessos conciliares – invocando a hermenêutica da continuidade – revelaram-se falhadas: Naturam espellas furca, tamen usque recurret (Horácio Epist. I, 10:24). A Declaração de Abu Dhabi e, como Mons. Schneider justamente observa, os seu prenúncios do pantheon de Assis, «foi concebida no espírito do Concílio Vaticano II», como confirma orgulhosamente Bergoglio.

Este “espírito do Concílio” é a licença de legitimidade que os modernistas opõem aos críticos, sem perceberem que é precisamente confessando aquele legado que se confirma não apenas a erroneidade das declarações actuais, mas também a matriz herética que deveria justificá-las. A bem dizer, nunca na vida da Igreja houve um Concílio que representasse um tal evento histórico a ponto de torná-lo diferente dos outros: nunca foi dado um “espírito do Concílio de Nicéia”, nem o “espírito do Concílio de Ferrara-Florença” e muito menos o “espírito do Concílio de Trento”, assim como nunca tivemos um “pós-concílio” depois do IV de Latrão ou do Vaticano I.

O motivo é evidente: aqueles Concílios eram todos, indistintamente, a expressão da voz uníssona da Santa Madre Igreja e, por essa mesma razão, de Nosso Senhor Jesus Cristo. Significativamente, aqueles que apoiam a novidade do Vaticano II também aderem à doutrina herética que vê contraposto o Deus do Antigo Testamento ao Deus do Novo, como se se pudesse dar uma contradição entre as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Evidentemente, essa contraposição, quase gnóstica ou cabalística, é funcional para a legitimação de um novo sujeito deliberadamente diferente e oposto em relação à Igreja Católica. Os erros doutrinários quase sempre traem também uma heresia trinitária e é, portanto, retornando à proclamação do dogma trinitário que se poderão dispersar as doutrinas que a ele se opõem: ut in confessione veræ sempiternæque deitatis, et in Personis proprietas, et in essentia unitas, et em majestate adoretur æqualitas. Ao professar a verdadeira e eterna divindade, adoramos a propriedade das divinas Pessoas, a unidade na sua essência, a igualdade na sua majestade.

Mons. Schneider cita alguns cânones dos Concílios Ecumênicos que propõem, no seu dizer, doutrinas dificilmente aceitáveis hoje, como a obrigação de reconhecer os Judeus através do vestuário ou a proibição de os cristãos serem empregados de patrões maometanos ou hebreus. Entre estes exemplos, há também a necessidade da traditio instrumentorum, declarada pelo Concílio de Florença, posteriormente corrigida pela Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis de Pio XII. O Bispo Athanasius comenta: «Pode-se legitimamente esperar e acreditar que um futuro papa ou concílio ecuménico corrigirá as afirmações errôneas pronunciadas» pelo Vaticano II. Parece-me um argumento que, mesmo com a melhor das intenções, mina as fundações do edifício católico. Se, de facto, admitirmos que possam haver actos magisteriais que, por uma alterada sensibilidade, sejam, com o passar do tempo, susceptíveis de revogação, de modificação ou de diferente interpretação, caímos inexoravelmente sob a condenação do Decreto Lamentabili e acabamos por dar razão a quem, recentemente, precisamente com base naquela tese errônea, declarou “não conforme ao Evangelho” a pena capital, chegando a alterar o Catecismo da Igreja Católica. E, de certa maneira, poderíamos, pelo mesmo princípio, acreditar que as palavras do Beato Pio IX, na Quanta cura, foram, de alguma forma, corrigidas precisamente no Vaticano II, tal como Sua Excelência espera que possa acontecer com a Dignitatis humanæ. Dos exemplos que usou, nenhum é, por si só, gravemente errôneo ou herético: ter declarado necessária a traditio instrumentorum para a validade da Ordem não comprometeu, de forma algum, o ministério sacerdotal na Igreja, levando-a a conferir invalidamente as Ordens. Também não me parece que se possa afirmar que este aspecto, por mais importante que seja, tenha insinuado doutrinas errôneas nos fiéis, algo que apenas aconteceu com o último Concílio. E quando, no curso da História, as heresias se espalharam, a Igreja sempre interveio prontamente para condená-las, como aconteceu no tempo do Sínodo de Pistoia, de 1786, que foi, de alguma forma, precursor do Vaticano II, especialmente onde aboliu a Comunhão fora da Missa, introduziu a língua vernácula e aboliu as orações em voz baixa do Cânone; mas ainda mais quando teorizou as bases da colegialidade episcopal, limitando o primado do Papa a mera função ministerial. Reler os actos desse Sínodo deixa-nos estupefactos com a formulação servil dos erros que, posteriormente, encontraremos, ainda maiores, no Concílio presidido por João XXIII e Paulo VI. Por outro lado, como a Verdade bebe de Deus, o erro nutre-se e alimenta-se no Adversário, que odeia a Igreja de Cristo e o seu coração, a Santa Missa e a Santíssima Eucaristia.

Chega um momento na nossa vida em que, por disposição da Providência, somos confrontados com uma escolha decisiva para o futuro da Igreja e para a nossa salvação eterna. Falo da escolha entre compreender o erro em que praticamente todos nós caímos, e quase sempre sem más intenções, e o querer continuar a procurar noutro lugar ou justificar-nos a nós mesmos.

Entre outros erros, também cometemos aquele de considerar os nossos interlocutores pessoas que, apesar da diversidade das ideias e da fé, animadas por boas intenções e que, quando se abrissem à nossa fé, estariam dispostas a corrigir os seus erros. Juntamente com numerosos Padres conciliares, pensamos no ecumenismo como um processo, um convite que chama os dissidentes à única Igreja de Cristo; os idólatras e os pagãos ao único Deus verdadeiro; o povo judeu ao Messias prometido. Mas, a partir do momento em que foi teorizado nas Comissões conciliares, passou a estar em oposição directa à doutrina até então expressa no Magistério.

Pensávamos que certos excessos fossem apenas um exagero daqueles que se deixaram levar pelo entusiasmo da novidade; acreditamos sinceramente que ver João Paulo II rodeado por homens santarrões, bonzinhos, imãs, rabinos, pastores protestantes e outros hereges fosse prova da capacidade da Igreja de convocar as pessoas para invocar a paz de Deus, enquanto que o exemplo autorizado daquele gesto deu início a uma sequência desviante de pantheon mais ou menos oficiais, chegando-se até a ver ser transportado aos ombros de alguns Bispos o ídolo imundo da pachamama, sacrilegamente dissimulado sob a presumida aparência de uma sagrada maternidade. Mas se o simulacro de uma divindade infernal foi capaz de entrar em São Pedro, tal faz parte de um crescendo previsto desde o início. Numerosos Católicos praticantes, e talvez até grande parte dos próprios clérigos, estão hoje convencidos de que a Fé Católica já não é necessária para a salvação eterna; acredita-se que o Deus Uno e Trino, revelado aos nossos pais, seja o mesmo deus de Maomé. Ouvia-se repeti-lo dos púlpitos e das cátedras episcopais já há vinte anos, mas recentemente ouve-se afirmar com ênfase até do mais alto Trono.

Sabemos bem que, suportados pelo dito evangélico Littera enim occidit, spiritus autem vivificat, os progressistas e os modernistas souberam ocultar astuciosamente, nos textos conciliares, aquelas expressões ambíguas que, à época, pareciam inofensivas para a maioria, mas que hoje se manifestam na sua valência subversiva. É o método do subsistit in: dizer uma meia verdade não tanto para não ofender o interlocutor (assumindo que seja lícito silenciar a verdade de Deus por respeito a uma Sua criatura), mas com o objectivo de poder usar o meio erro que a verdade inteira dissiparia instantaneamente. Assim, “Ecclesia Christi subsistit na Ecclesia Catholica” não especifica a identidade das duas, mas a existência de uma na outra e, por consistência, também noutras igrejas: eis a passagem aberta às celebrações interconfessionais, às orações ecumênicas, ao fim implacável da necessidade da Igreja em ordem à salvação, da sua singularidade, da sua missionariedade.

Alguns talvez se recordarão que os primeiros encontros ecumênicos eram realizados com os cismáticos do Oriente e, muito prudentemente, com algumas seitas protestantes. Com excepção da Alemanha, da Holanda e da Suíça, os países de tradição católica não acolheram, desde o princípio, as celebrações mistas, com pastores e párocos juntos. Lembro-me que, na época, se falava em remover a penúltima doxologia do Veni Creator para não ferir os Ortodoxos, que não aceitam o Filioque. Hoje, ouvimos recitar as suras do Alcorão dos púlpitos das nossas igrejas, vemos um ídolo de madeira ser adorado por freiras e frades, ouvimos Bispos desdizer o que, até ontem, nos pareciam as desculpas mais plausíveis de tantos extremismos. O que o mundo quer, por instigação da Maçonaria e dos seus tentáculos infernais, é criar uma religião universal, humanitária e ecumênica em que seja banido aquele Deus ciumento que nós adoramos. E se é isto que o mundo quer, qualquer passo na mesma direcção por parte da Igreja é uma escolha infeliz que se voltará contra aqueles que acreditam que podem brincar com Deus. As esperanças da Torre de Babel não podem ser trazidas de volta à vida por um plano globalista que tem como objectivo a eliminação da Igreja Católica para substituí-la por uma confederação de idólatras e hereges unidos pelo ambientalismo e pela fraternidade humana. Não pode haver nenhuma fraternidade senão em Cristo, e só em Cristo: qui non est mecum, contra me est.

É desconcertante que, desta corrida rumo ao abismo, estejam cientes tão poucos e que poucos tenham consciência de qual é a responsabilidade dos líderes da Igreja em apoiar estas ideologias anticristãs, como se quisessem garantir um espaço e um papel na carruagem do pensamento único. E surpreende que ainda persistam em não querer investigar as causas primeiras da crise presente, limitando-se a deplorar os excessos de hoje como se não fossem a consequência lógica e inevitável de um plano orquestrado há décadas atrás. Se a pachamama pôde ter sido adorada numa igreja, devemo-lo à Dignitatis humanae. Se temos uma liturgia protestante e, às vezes, até paganizada, devemo-lo às acções revolucionárias de Mons. Annibale Bugnini e às reformas pós-conciliares. Se se assinou o Documento de Abu Dhabi, deve-se à Nostra Aetate. Se chegamos a delegar as decisões nas Conferências Episcopais – mesmo em gravíssima violação da Concordata, como aconteceu em Itália –, devemo-lo à colegialidade e à sua versão actualizada da sinodalidade. Graças à qual nos encontramos, com a Amoris Laetitia, a dever procurar uma maneira de impedir que aparecesse o que era evidente a todos, ou seja, que aquele documento, preparado por uma impressionante máquina organizacional, deveria legitimar a Comunhão aos divorciados e concubinários, assim como a Querida Amazônia será usada como legitimação de mulheres sacerdotes (o caso de uma “vigária episcopal”, em Friburgo, é muito recente) e a abolição do Sagrado Celibato. Os Prelados que enviaram os Dubia a Francisco, na minha opinião, demonstraram a mesma piedosa ingenuidade: pensar que, quando confrontado com a contestação argumentada do erro, Bergoglio teria compreendido, corrigido os pontos heterodoxos e pedido perdão.

O Concílio foi usado para legitimar, no silêncio da Autoridade, os desvios doutrinais mais aberrantes, as inovações litúrgicas mais ousadas e os abusos mais inescrupulosos. Este Concílio foi tão exaltado a ponto de ser indicado como a única referência legítima para os Católicos, clérigos e bispos, obscurecendo e conotando com um senso de desprezo a doutrina que a Igreja sempre ensinara com autoridade e proibindo a perene liturgia que, por milénios, havia alimentado a fé de uma ininterrupta geração de fiéis, mártires e santos. Entre outras coisas, este Concílio provou ser o único que põe tantos problemas interpretativos e tantas contradições em relação ao Magistério precedente, enquanto não há um – do Concílio de Jerusalém ao Vaticano – que se não harmonize perfeitamente com todo o Magistério e que precise de alguma interpretação.

Confesso-o com serenidade e sem controvérsia: fui um dos muitos que, apesar de muitas perplexidades e medos, que hoje se mostram absolutamente legítimos, confiaram na autoridade da Hierarquia com uma obediência incondicional. Na realidade, penso que muitos, e eu entre eles, não considerámos inicialmente a possibilidade de um conflito entre a obediência a uma ordem da Hierarquia e a fidelidade à própria Igreja. Para tornar tangível a separação inatural, ou melhor, diria perversa, entre Hierarquia e Igreja, entre obediência e fidelidade, foi certamente este último Pontificado.

Na sala das lágrimas, adjacente à Capela Sistina, enquanto Mons. Guido Marini preparava o roquete, a mozeta e a estola para a primeira aparição do “neo-eleito” Papa, Bergoglio exclamou: “O carnaval acabou!”, recusando, com desdém, as insígnias que todos os Papas até então humildemente aceitaram como distintivas do Vigário de Cristo. Mas naquelas palavras havia algo de verdadeiro, mesmo que dito involuntariamente: a 13 de Março de 2013 caía a máscara dos conspiradores, finalmente livres da desconfortável presença de Bento XVI e descaradamente orgulhosos de terem finalmente conseguido promover um Cardeal que encarnava os seus ideais, o seu modo de revolucionar a Igreja, de tornar preterível a doutrina, adaptável a moral, adulterável a liturgia, revogável a disciplina. E tudo isto foi considerado, pelos próprios protagonistas da conspiração, a consequência lógica e a aplicação óbvia do Vaticano II, segundo eles enfraquecido precisamente pelas críticas expressas pelo próprio Bento XVI. A maior afronta daquele Pontificado foi a liberalização da veneranda Liturgia Tridentina, à qual era finalmente reconhecida legitimidade, interrompendo cinquenta anos de ilegítimo ostracismo. Não é por acaso que os apoiantes de Bergoglio são os mesmos que vêem no Concílio o primeiro evento de uma nova igreja, antes da qual havia uma velha religião com uma velha liturgia. Não é precisamente por acaso: aquilo que afirmam impunemente, provocando o escândalo dos moderados, é o que crêem também os Católicos, a saber: que, apesar de todas as tentativas de hermenêutica da continuidade miseravelmente naufragadas no primeiro confronto com a realidade da crise presente, é inegável que, do Vaticano II em diante, foi constituída uma igreja paralela, sobreposta e contraposta à verdadeira Igreja de Cristo. Essa obscureceu progressivamente a divina instituição fundada por Nosso Senhor para substituí-la por uma entidade bastarda, correspondente à desejada religião universal que foi inicialmente teorizada pela Maçonaria. Expressões como novo humanismo, fraternidade universal, dignidade do homem são palavras de ordem do humanitarismo filantrópico que nega o verdadeiro Deus, da solidariedade horizontal de errante inspiração espiritualista e do irenismo ecumênico que a Igreja condena sem apelo. «Nam et loquela tua manifestum te facit» (Mt 26, 73): este recurso frequente, quase obsessivo, ao mesmo vocabulário do inimigo revela a adesão à ideologia em que esse se inspira; por outro lado, a renúncia sistemática à linguagem clara, inequívoca e cristalina própria da Igreja confirma a vontade de se destacar não apenas da forma católica, mas também da sua substância.

Aquilo que, desde há anos, ouvimos enunciado, vagamente e sem claras conotações, do mais alto Trono, encontramo-lo elaborado num verdadeiro e próprio manifesto dos apoiantes do actual Pontificado: a democratização da Igreja não mais pela colegialidade inventada pelo Vaticano II, mas pelo “caminho sinodal” inaugurado no Sínodo sobre a Família; a demolição do sacerdócio ministerial através do seu enfraquecimento, com as derrogações do Celibato eclesiástico e a introdução de figuras femininas com funções quase sacerdotais; a passagem silenciosa do ecumenismo dirigido aos irmãos separados a uma forma de pan-ecumenismo que abaixa a Verdade do único Deus Uno e Trino ao nível das idolatrias e das superstições mais infernais; a aceitação de um diálogo inter-religioso que pressupõe o relativismo religioso e exclui o anúncio missionário; a desmistificação do Papado, perseguida pelo próprio Bergoglio como cifra do Pontificado; a progressiva legitimação do politicamente correto: ideologia de gênero, sodomia, casamentos homossexuais, doutrinas malthusianas, ecologismo, imigracionismo... Não reconhecer as raízes destes desvios nos princípios estabelecidos pelo Concílio impossibilita qualquer cura: se o diagnóstico persistir contra as evidências para excluir a patologia inicial, não pode formular uma terapia adequada.

Esta operação de honestidade intelectual requer uma grande humildade, antes de tudo no reconhecer ter sido enganados durante décadas, em boa fé, por pessoas que, constituídas em autoridade, não foram capazes de vigiar e guardar o rebanho de Cristo: aqueles que vivem em silêncio, alguns por muitos compromissos, outros por conveniência, outros por má-fé ou até mesmo por dolo. Estes últimos, que traíram a Igreja, devem ser identificados, censurados, convidados a emendar-se e, se não se arrependerem, expulsos do recinto sagrado. Assim age um verdadeiro Pastor, que se preocupa com a saúde das ovelhas e que dá a vida por elas; tivemos e ainda temos muitos mercenários para quem a anuência dos inimigos de Cristo é mais importante que a fidelidade à Sua Esposa.

Eis como, com honestidade e serenidade, obedeci, há sessenta anos, a ordens questionáveis, acreditando que representassem a voz amorosa da Igreja, e hoje, com igual serenidade e honestidade, reconheço que me deixei enganar. Ser coerente hoje em dia, perseverando no erro, representaria uma escolha infeliz e tornar-me-ia cúmplice desta fraude. Reivindicar uma lucidez de julgamento desde o início não seria honesto: sabíamos todos que o Concílio representaria, mais ou menos, uma revolução, mas não podíamos imaginar que tal se revelaria tão devastadora, mesmo para o trabalho daqueles que deveriam tê-lo evitado. E se até Bento XVI ainda poderíamos imaginar que o golpe de estado do Vaticano II (que o cardeal Suenens definiu o 1789 da Igreja) conheceria uma desaceleração, nos últimos anos, mesmo os mais ingênuos dentre nós compreenderam que o silêncio, por medo de suscitar um cisma, a tentativa de ajustar os documentos papais no sentido católico para remediar a ambiguidade pretendida, os apelos e os dubia a Francisco, deixados eloquentemente sem resposta, são uma confirmação da situação de gravíssima apostasia à qual estão expostos os líderes da Hierarquia, enquanto o povo cristão e o clero se sentem irremediavelmente afastados e considerados quase com aborrecimento por parte do Episcopado.

A Declaração de Abu Dhabi é o manifesto ideológico de uma ideia de paz e de cooperação entre as religiões que pode ter alguma possibilidade de tolerância se vier de pagãos, privados da luz da Fé e do fogo da Caridade. Mas quem tem a graça de ser filho de Deus, em virtude do Santo Baptismo, deveria ficar horrorizado só com a ideia de poder construir uma blasfema Torre de Babel numa versão moderna, tentando reunir a única verdadeira Igreja de Cristo, herdeira das promessas do Povo eleito, com aqueles que negam o Messias e com aqueles que consideram blasfema só a ideia de um Deus Trino. O amor de Deus não conhece medidas e não tolera compromissos, caso contrário simplesmente não é Caridade, sem a qual não é possível permanecer n’Ele: qui manet in caritate, in Deo manet, et Deus in eo. Pouco importa se é uma declaração ou um documento magisterial: sabemos muito bem que a mens subversiva dos modernistas aposta precisamente nestes cavalos para difundir o erro. E sabemos muito bem que o objectivo destas iniciativas ecumênicas e inter-religiosas não é converter a Cristo quantos estão distantes da única Igreja, mas desviar e corromper aqueles que ainda conservam a Fé católica, levando-os a acreditar ser desejável uma grande religião universal que une “numa única casa” as três grandes religiões abraâmicas: este é o triunfo do plano maçônico em preparação para o reino do Anticristo! Que isto se concretize com uma Bula dogmática, com uma declaração ou com uma entrevista de Scalfari no Repubblica, pouco importa, porque as palavras de Bergoglio são esperadas pelos seus apoiantes como um sinal, ao qual responder com uma série de iniciativas já preparadas e organizadas anteriormente. E se Bergoglio não segue as indicações recebidas, multidões de teólogos e clérigos já estão prontos a lamentar-se da “solidão do Papa Francisco”, qual premissa para a sua demissão (por exemplo, penso em Massimo Faggioli num dos seus recentes escritos). Por outro lado, não seria a primeira vez que estes usam o Papa quando favorece os seus planos e se livram dele ou atacam-no assim que se afasta.

A Igreja celebrou, no passado domingo, a Santíssima Trindade e propõe-nos, no Breviário, a recitação do Symbolum Athanasianum, agora proscrito pela liturgia conciliar e já confinado a apenas duas ocasiões na reforma de 1962. Daquele Símbolo, agora desaparecido, permanecem gravadas em letras de ouro as primeiras palavras: «Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat Catholicam fidem; quam nisi quisque integram invioletamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit».

† Carlo Maria Viganò