segunda-feira, 19 de outubro de 2020

"E as coisas que ajuntastes, de quem serão?"

29ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (Ef 2,1-10)
Salmo Responsorial (Sl 99)
Evangelho (Lc 12,13-21)

''E as coisas que ajuntastes, de quem serão?''; é a pergunta que encerra o Evangelho de hoje. A maioria de nós conhece a parábola, e sabe que seu significado próximo, imediato, se trata de uma crítica a avareza, ao acúmulo de bens materiais, e mais que o acúmulo, mas sobretudo depositar neles a sua confiança. Todavia, não é apenas os encher os estoques um esforço vão, quando dissociado de Deus, há uma outra forma de fazer o mesmo, mais moderna e refinada, e até aparentemente pura, pois não envolve tanto dinheiro assim: a tentativa de edificar a sociedade perfeita. Quantos não se empenham, não gastam toda vida nisso, lutando por ideologias, lutando por um mundo novo o qual não viverão o suficiente para desfrutá-lo...

''E as coisas que ajuntastes, de quem serão?'' E o ''mundo novo'' que construíste? O sujeito bem poderia responder: "não porque as novas gerações.."; mas o que há aí? Um desejo de minar o sonho alheio, de escravizar as gerações futuras em seu próprio devaneio, de querer como que ''viver nelas''. Entretanto, assim não acontece, e não raro os herdeiros do mundo dos ideólogos são bárbaros que se encarregam de destruí-lo, tudo aquilo que o sujeito gastou a vida para construir, é destruído em questão de anos. Irônico, não? Pois é assim esse vale de lágrimas, não há permanência. Os homens passam, tal qual as suas obras. Não podemos, nós, edificar nada perene e duradouro.

Se é assim, e assim o é, então como viver? Como viver sem ambição, sem essa esperança de edificar algo perene? Viver sabendo que a caos e a decadência são como que uma lei da história? A resposta é simples: Verso l'alto ! O céu, lá onde não há traça que corrói, lá onde não há corrupção ou decadência, lá deve estar nosso tesouro, nossa esperança, nosso coração, e é para lá que devemos viver. Usando esse mundo que passa, almejando aquelas coisas que não passam. Lá também nós seremos eternos, e quiçá possamos desfrutar da companhia de nossos herdeiros, mas chegar lá, depende de cada qual...

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O Simbolismo do Sagrado Coração de Jesus


[...] Si, no hay representación más excta que ésta, de los divinos afectos del Salvador: el Corazón com llamas, para significar el ardoroso incendio de sus amores; el Corazón con la herida manando sangre, para demostrar la efusión de este amor sobre todos los mortales; el Corazón con cruz y corona de espinas, para recordar las agonías y sufrimentos que le causó este amor. Simbolo que por sí solo es un poema; simbolo que habla con más elocuencia que las frases del más vehemente discurso; símbolo que puede entender cualquiera aunque no tenga talento, solo con que tenga ojos en la cara para ver, y á su vez en el pecho un corazón para sentir.
- Pe. Félix Sardá y Salvany. El Sagrado Corazón; pág 8-9.

''Mandar-lhes-hei Profetas, e Apóstolos, e elles darão a morte a huns, e preserguirão a outros''


28ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Ef 1,1-10)
Salmo Responsorial (Sl 97)
Evangelho (Lc 11,47-54)

<Por isso também disse a Sabedoria de Deos: Mandar-lhes-hei Profetas, e Apóstolos, e elles darão a morte a huns, e perserguirão a outros (Lc 11, 49)>

A antiga Israel perseguiu apóstolos e profetas enviados por Deus. Embora desejássemos nós que a nova Israel ficasse isenta deste erro, por vezes ocorre que os doutores da lei, o clero, a hierarquia venha a perseguir homens santos e inspirados por Deus. Não queimaram Santa Joana D'Arc? Não excomungaram  Dom Lefebrve? O professor Orlando Fedeli não foi perseguido, caluniado - até hoje existe um site iníquo que o designa como "o Lutero do Brasil'' - e impedido de palestrar em muitas dioceses? Não estou a canonizar ninguém, mas é óbvio que nem sempre a vontade de hierarquia, que nem sempre as ordens dos superiores, estão alinhadas a vontade de Deus, como constatou Monsenhor Viganó.

A Igreja é santa em sua doutrina, santa em seus sacramentos e santa em muitos de seus membros. Mas é formada por pecadores, grandes e pequenos. Há o joio e o trigo, há tanto quem erra por fraqueza quanto por malícia. O clero, o alto clero, por mais admirável e santo que seja seu ministério, não está livre do pecado original e suas funestas consequências pessoais e sociais.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Last Evolution

Já faz, pois, algum tempo que assisti a Digimon Last Evolution Kizuna, que como sugere o nome, trata-se de última evolução da trama original, o final da timeline Digimon Adventure. Levei algum tempo para absorver a narrativa em toda sua força, e refletir sobre os temas propostos, de forma que só agora creio estar preparado a comentar a respeito.

Em meu primeiro texto, mencionei como os digimundo é uma espécie de desculpa; apartados do mundo real, sob a companhia dos digimons, os digescolhidos passam por um processo de amadurecimento e crescimento psicológico. Mas, e quando este processo chega a seu termo? Eis pois a questão a qual o filme nos propõe. 

Uma vez alcançada a maturidade, uma vez que o digiescolhido ingressa na vida adulta, não há mais sentido para seu digimon, sua missão está cumprida, de modo que ele deixa de existir. Sob essa dramática premissa se desenvolve o roteiro do filme, centrado sobretudo em Taichi e Yamato. Os demais digiescolhidos, embora façam uma honrosa participação, são deixadas um tanto quanto em segundo plano, o que é compreensível, é difícil lidar com tantos personagens dispondo de pouco menos que duas horas de filme. Conforme a trama avança, depois de uma boa dose de suspense e ação, notamos que a antagonista do filme tem seus motivos, a vilã de alguma forma procura impedir a dolorosa separação entre digiescolhido e digimon, através da perpetuação da infância. Sob o nome sugestivo de Nerverland, um novo mundo é gestado, um lugar onde é possível conservar as memórias da infância, e permanecer ali junto de seu parceiro. A perspectiva de Himekawa Maki, que não fora suficientemente trabalhada em Adventure Tri, encontra aí, sob outra personagem, um desenvolvimento um tanto quanto mais adequado. 

O roteiro ganha ainda mais força tento em vista o lapso temporal entre a trama original e o filme derradeiro. Vinte anos separam o início do fim de adventure, assim como os digiescolhidos, os espectadores originais estão em uma fase de amadurecimento, um momento em que necessitam deixar de vez as memórias da infância e ingressarem na vida adulta, embora não raro muitos insistam - sobretudo no Japão onde o fenômeno Otaku ganha contornos bizarros - em tentar de alguma forma perpetuar a vida de outrora, o que aliás, é compreensível. A infância é a melhor fase da vida, sobre ela cantam os poetas, dela se admiram os santos, mas...

....ela precisa morrer. Faz parte do ciclo da vida, as coisas são naturalmente assim. Ao procurar perpetuar a infância, a vilã se vale de uma trapaça, de uma ilusão e, de alguma forma, aquilo não é como antes. Ao invés de um mundo novo, cheio de expectativas e potencialidades, temos uma memória perpétua, uma repetição de bons momentos sim, mas tão somente isso. Memórias! Não se tem mais a verdadeira potência (em sentido aristotélico), a expectativa de levar a jornada ao seu termo, ao seu encerramento. A questão da verdade é privilegiada pelos roteiristas e, com a ajuda dos digimons, Taichi e Yamato conseguem escapar a tentação e vencer o combate. A missão dos digimons é ajudar os protagonistas a crescerem e amadurecerem, é esse o sentido de sua existência, é para isso que eles vivem e por isso estão dispostos a morrer, esse é o seu propósito, negar esse amadurecimento, esse crescimento, é um verdadeiro atentado para com os digimons.

O final porém, pode parecer estranho a alguns espectadores. Não é o exato oposto do final canônico em Digimon Adventure Zero Two? Na verdade não. A infância morre, todavia ressuscita! Se durante o processo de amadurecimento temos de superar as lembranças infantis, na vida adulta, quando no seio da família surge uma nova vida, então a partir dos filhos é possível saborear a infância de um novo modo. Com as crianças, recordar-se-á do tempo em que fomos criança. É o que acontece no episódio final de Adventure Zero Two, onde quando seus filhos recebem seus digimons, os protagonistas recuperam os seus parceiros de outrora.

É caro leitor, um dia que sabe, quando nascerem nossos filhos, não iremos uma vez mais revisitar a infância, saboreando uma vez mais as lembranças de outrora? Mas até lá, há de suportar a vida adulta sob esse mundo em ruínas, e sobretudo adquirir força, para construir um ambiente familiar minimamente adequado, onde a infância de nossos filhos possa ser tão boa quanto a nossa. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Concretude


27ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Gl 3,1-5)
Salmo Responsorial (Lc 1,69-75)
Evangelho (Lc 11,5-13)

Os pagãos, para serem atendidos lá por seus demônios, precisam fazer mil estripulias: repetir palavras secretas, fazer poções, sacrificar animais em noites de lua e a paçoca a quatro. E não raro fazem tudo isso e não conseguem nada. Nós católicos só precisamos rezar que Deus nos atende. Mas, não raro rezamos errado. O evangelho de hoje nos trás uma dica: a oração deve ser concreta. O amigo pede pão, o filho lá pede peixes; mas nós, não raro, rezamos de forma tão vaga: pela paz (de quem com quem?), pelas vocações (onde?), pela santificação do clero (por que não citar o nome do padre fulano ou ciclano?). Se não formos concretos, não teremos sequer como avaliar se nossa prece foi atendida, perdendo a oportunidade de dar glória a Deus pela graça recebida. A oração é uma arma tão poderosa, mas precisamos aprender a maneja-la de modo adequado.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O único necessário...


27ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Gl 1,13-24)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Evangelho (Lc 10,38-42)

1. Na Carta aos Gálatas, vemos que São Paulo fez um "seminário" bem curto: uns 15 dias com São Pedro, se encontrou algumas poucas vezes com São Tiago, e cá estava a pregar o Evangelho. É certo que recebeu alguma instrução dos demais cristãos, mas a graça fez seu trabalho desde o interior.

Hoje em dia isso despertaria medo e inveja: "-Em tão pouco tempo não se pode garantir o controle de sua pregação, é precisamos formá-lo segundo a nossa política'', ''Chegou hoje e já quer sentar na janelinha. Olha só!''. Felizmente, a comunidade cristã primitiva não era tão mesquinha e, ao invés de se perturbar e desconfiar, e glorificava a Deus pela graça: aquele que antes os perseguia estava agora a servir o Evangelho. Conseguimos nós fazer o mesmo? Alegar-nos quando vemos outro a pregar, ainda mais outro que até pouco tempo atrás estava perdido e fora salvo por Cristo? Ou pelo contrário, ficamos receosos: "Sujeito não tem nem diploma!'', ''O que ele faz na Igreja para poder falar essas coisas?'', ''Ah lá! Não é nem seminarista e fica falando de tomismo" ?.

A Igreja pertence a Deus. As normas burocráticas nos são uteis, mas Deus pode as ignorar quando quiser, chamar desde de longe e capacitar de forma misteriosa aqueles que chamou. Assim ocorreu tantas vezes ao longo da história sagrada: Davi era um pastor de ovelhas, o profeta Amós cultivava sicómoros, São Francisco de Assis era apenas um leigo... E, entretanto, estes por pura graça divina, excediam em virtude e conhecimento aqueles que eram formados pelos meios burocráticos ordinários.

Que Deus nos dê agraça de acolher sua graça manifesta no irmão, e de não absolutismos nossas regrinhas pessoais, nossas burocraciazinha.

2. Os últimos dias foram bem agitados. O Papa Francisco fez um extenso discurso na ONU elencando os problemas do mundo e suas propostas para solucioná-las. Propostas extremamente técnicas. Saiu também uma nova encíclica, igualmente extensa, dirigida a ''todos os homens de boa vontade'', em vista de tentar estabelecer valores universas para a paz e a ''fraternidade universal''. Mas, em meio a tudo isso faltou algo. O convite a conversão e a oração, o único necessário. Tal como no Evangelho de hoje, se tem a impressão de um ativismo desenfreado; uma busca de soluções técnicas e sociais, que embora inspirados no Evangelho, dissociados dele não tem força e vigor, além de perderem toda a graça. Enquanto lia tudo aquilo, pensava: "Que chatice! É como um coral de crianças cantando imagine na ONU, cafona, bobo. Onde está a melhor parte? Sumiu. Sobrou os serviços ''domésticos'' e minúcias de uma burocracia fria."

Se até o Papa pode cair nessa, o que sobra para nós?

O mundo está uma bagunça, e tantas vezes deixamos que ele nos bagunce por dentro. Deveríamos ser mais como Maria, guardar essa atitude contemplativa: nossa oração, nosso culto, doméstico ou litúrgico, deve ser para nós a melhor parte. Devemos desfrutar dele, nos animar com ele, dar nosso melhor nisso. Coisas aparentemente bobas como organizar um altarzinho em casa, ler a escritura a luz de velas, rezar o santo terço antes de dormir; é isso que muda o mundo, que toca os corações, que atraia as almas a Deus! Não um deus vago e laico, mas o Deus uno e trino, que desceu dos céus e se encarnou na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo! 

É certo que há que se limpar a casa, mas no outro dia ela vai estar suja de novo. Assim também a vida profana, reformamos hoje, amanhã já cheira mal... Este mundo está destinado a danação, o céu, a terra, a lua e as estrelas passarão. Façamos o que é preciso, mas sem jamais esquecer o único necessário, fora do qual tudo é chato, feio e inútil.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Carl Gustav Jung e a Cura pela Fé

[618] Por isso, quando trato de um verdadeiro cristão, de um verdadeiro católico, eu sempre o submeto ao dogma e digo: “Aferre-se a isso! E se você começar a criticá-lo intelectualmente sob qualquer aspecto, eu vou analisá-lo e aí você estará na pior”. Quando um católico praticante me procura, eu lhe pergunto: “Você contou isso a seu confessor?” Ele dirá naturalmente: “Não, ele não entende disso”. Digo-lhe então: “Mas, o que então você confessou?” Ele responde: “Coisas pequenas, sem importância”, mas dos pecados principais nunca falou nada. Como disse, tive como clientes certo número desses católicos – seis. Fiquei orgulhoso de ter tantos e disse-lhes: “Você sabe que aquilo que contou é realmente sério. Agora vá a seu confessor e confesse isso; não importa se ele entende ou não. Isto deve ser levado à presença de Deus, mas se não o fizer você estará fora da Igreja; então começará a análise e as coisas vão esquentar; você estará melhor protegido no seio da Igreja”. Como os senhores percebem, levei essas pessoas de volta à Igreja e recebi uma bênção especial do Papa por ter ensinado a alguns católicos proeminentes a maneira correta de confessar-se.

[619] Houve, por exemplo, uma senhora que teve papel importante na guerra. Era católica fervorosa e costumava passar as férias de verão na Suíça. Existe aqui um célebre mosteiro com vários monges, e era para lá que se dirigia para confessar e receber aconselhamento espiritual. Sendo pessoa prendada, começou a interessar-se um pouco demais pelo confessor e este por sua vez começou a interessar-se um pouco demais por ela; e surgiu o conflito. Ele foi removido para a clausura e ela entrou naturalmente em colapso; sugeriram-lhe que me procurasse. Quando veio, estava cheia de revolta contra as autoridades que haviam interferido. Aconselhei-a a voltar aos seus superiores espirituais e confessar toda a situação. Ao voltar para Roma, onde morava e tinha um confessor, este lhe perguntou: “Já a conheço há muitos anos, como foi que agora a senhora faz uma confissão tão aberta?” E ela declarou que havia aprendido isto de um médico. Esta é a história que me levou a receber uma bênção especial e particular do Papa.

[620] Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

[621] Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinquenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico.

No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

[622] Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. [...]

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 294-296.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Blade é chato

Dias atrás resolvei assistir a trilogia Blade - O Caçador de Vampiros. Fiquei decepcionado. Trata-se de filme ruim. O mito do vampiro é reinterpretado desde uma perspectiva genética: ao invés de corpos sem alma, mortos vivos sedentos de sangue subsistindo por alguma artimanha do demônio, temos uma nova raça, um novo degrau na escala da evolução; cruzes e água benta não funcionam, como faz questão de ressaltar o protagonista por três vezes, mas alho, prata e o sol fazem o seu serviço, e também alguns reagentes químicos como o EDTA. o roteirista parece meio perdido: há apenas dois personagens ''fixos'': Blade e Whistler, de resto em cada filme se tem de criar, trabalhar e desenvolver outros coadjuvantes que logo serão esquecidos. Aliás Whistler morre no primeiro filme, é trazido de volta a vida no segundo para morrer no terceiro, um esquema circular, uma morte sem drama, enfim mais uma prova de que o roteirista fracassou legal. Outra elemento tonto, se manifesta sobretudo no terceiro filme, onde o FBI é facilmente feito de trouxa por meia dúzia de normies, passando o filme inteiro igual barata tonta jogada em meio a conspirações que não entende. Quem sabe o mínimo sobre as maquinações dos federais nos EUA acabará por deixar escapar algumas rizadas involuntárias. O que salva dos filmes é a estética, é legal ver as cenas durante a noite, e as armas exóticas e seus efeitos curiosos sobre os vampiros. Fora isso pouco se aproveita. 

Ah! Tem um jogo de PS1 inspirado no primeiro filme, baixei no emulador, mas este não envelheceu bem: o jogo de câmeras que chega a dar tontura, o gráfico achatado e a jogabilidade bobinha (pular em caixas, dar espadada e tiros nos capangas, caçar remédio pra curar)  não foram capazes de me entreter por muito tempo.

Em suma, ao menos no que diz respeito a franquia cinematográfica e suas extensões, Blade é beem chato.

domingo, 27 de setembro de 2020

A Santa Missa na vida dos Reis, Príncipes e Imperadores

Os exemplos dos grandes causam ordinariamente muito mais impressão que a piedade mesmo singular de simples particulares, conforme o axioma vulgar: “Conforme-se a terra ao exemplo do rei.” “Regis ad exemplum totus componitu orbis.”

Ora, longa seria a lista que eu poderia desenrolar, para animar a seguir o exemplo daqueles que assistiam todos os dias à Santa Missa. 

Citaremos rapidamente alguns: Constantino Magno não só assistia todos os dias à Santa Missa, mas, quando partia em qualquer expedição, em pleno fragor da guerra e ruído das armas, fazia-se acompanhar dum altar portátil no qual mandava celebrar diariamente a Santa Missa, e por este meio alcançou retumbantes vitórias. O Imperador Lotário observava sempre a mesma prática. Em tempos de paz como de guerra, fazia questão de assistir, todos os dias, a três Santas Missas. O piedoso Henrique III, rei da Inglaterra, assistia, do mesmo modo, a três Santas Missas diárias, para grande edificação de sua corte. Singulis diebus três Missas cum nota audire soletat, et piures audire cupiens privatim celebrantibus assidue assistebat. O Senhor recompensou-o, ainda neste mundo, com um feliz reinado de cinquenta e seis anos. 

Mas, para expor à luz a piedade dos monarcas ingleses e sua assiduidade em assistir à Santa Missa, não é preciso remontar aos séculos passados; basta considerar a grande alma de Maria Clementina, a piedosa rainha cuja perda Roma ainda chora. Como ele se dignou dizer-me muitas vezes, punha todas as suas delícias em assistir ao Divino Sacrifício e todos os dias assistia a todas as Santas Missas que podia. Mantinha-se imóvel, sem almofadas, sem apoio, como uma estátua. E por esta devota assistência à Santa Missa, acendeu-se em seu coração amor tão ardente a JESUS-Hóstia, que se esforçava por assistir diariamente a três ou quatro bênçãos do Santíssimo Sacramento. Sua carruagem percorria a toda a velocidade as ruas de Roma, a fim de permitir-lhe chegar a tempo nas diversas igrejas. E quantas lágrimas derramou esta santa mulher para mitigar a fome que tinha de pão dos Anjos, fome tão veemente que lhe causava enlanguescimento noite e dia, porque seu coração se achava a todo instante transportado aonde estava seu tesouro.

DEUS permitiu, entretanto, que tão prementes instâncias não fossem atendidas; permitiu-o para tornar mais heróico o seu amor, mais ainda, para torná-la mártir de amor. Assim, a meu ver, isto lhe acelerou a morte, como posso julgar pela última carta que me escreveu já no leito de morte. É certo que, se lhe foi negada a comunhão frequente, não perdeu ela o mérito, pois, não podendo satisfazer seu amor pela comunhão sacramental, buscava consolo na comunhão espiritual, que fazia não só na Santa Missa, mas renovava-a muitas vezes durante o dia, com grande contentamento de seu coração, seguindo o método indicado no capítulo anterior. 

Ora, dizei-me, este exemplo sublime não basta para rechaçar todas as desculpas dos que demonstram tanta preguiça em assistir, todos os dias à Santa Missa e nela fazer a comunhão espiritual? Não me satisfaz, entretanto, que imiteis esta boa rainha com o fervor do vosso coração em desejar receber JESUS-HÓSTIA; mas quisera que a imitásseis, ocupando vossas mãos nos trabalhos que tão frequentemente ela efetuava, a fim de prover de objetos do culto às igrejas pobres, exemplo seguido em Roma por muitas damas nobres, que se consideravam felizes em trabalhar com suas mãos nos vários paramentos destinados ás igrejas. E fora de Roma, conheço uma grande princesa, ilustre tanto por sua piedade como pelo nascimento, que assistia, todas as manhãs, a várias Santas Missas, e ocupa suas damas nos trabalhos destinados ao altar, a ponto de enviar caixas cheias de corporais, manutérgios e outras peças semelhantes aos missionários e pregadores, para que distribuam ás igrejas pobres e a fim de que o Divino Sacrifício seja oferecido a DEUS com toda a pompa, decência e solenidade adequadas

Terminamos este parágrafo com o exemplo da São Venceslau, rei da Boêmia, que todos devem imitar, se não em tudo, ao menos na medida do possível. Este Santo rei, não contente em assistir diariamente a muitas Santas Missas, de joelhos sobre o chão duro, e de servir aos padres no altar, com mais humildade que um seminarista, presenteava, ainda, as igrejas com as joias mais preciosas de seu tesouro e as mais ricas tapeçarias de seu palácio. Costumava, além disso, confeccionar, com suas próprias mãos, as hóstias destinadas ao santo Sacrifício.  Para este fim e sem receio de diminuir sua dignidade real, com suas mãos feitas para empunhar o cetro, cultivava um campo, conduzindo a charrua, semeava o trigo, fazia a colheita, depois moia os grãos, peneirava a farinha, preparava e cortava as hóstias e as apresentava com o mais profundo respeito aos sacerdotes, para que as convertessem no Corpo do Salvador.  Ó mãos dignas, de São Venceslau, de empunhar o cetro da Terra inteira! Qual foi, porém, a recompensa de tão terna piedade?  Permitiu DEUS que o imperador Oto I concebesse pelo santo rei tal benevolência que lhe concedeu o privilégio de gravar em seu brasão as armas do império: a águia negra sobre fundo branco, favor nunca obtido por nenhum outro príncipe. Deste modo, por intermédio do imperador, quis DEUS recompensar a grande devoção de São Venceslau ao Sacrifício da Eucaristia. Magnífica, porém foi sua recompensa no Céu, quando, por um glorioso martírio, obteve uma bela coroa de glória eterna. E assim, graças a essa afeição profunda à Santa Missa, ele foi duplamente coroado, neste mundo e no outro. 

- São Leonardo de Porto-Maurício. As Excelências da Santa Missa; p. 63-65.

sábado, 26 de setembro de 2020

Recursos literários, más notícias e a hora do herói

25ª Semana do Tempo Comum | São Cosme e São Damião | Sábado 
Primeira Leitura (Ecl 11,9-12,8) 
Salmo Responsorial (Sl 89) 
Evangelho (Lc 9,43b-45) 
 
1. A primeira leitura de hoje é uma preciosidade literária. Usa tantos termos enigmáticos, o ruído do moinho irá enfraquecer, a amendoeira florescerá, os guardas começarão a tremer. Que significa?  É uma analogia para com a velhice. Cada membro do corpo é personificado. Os guardas a tremer são as pernas a enfraquecer e a bambear, a amendoeira a florescer são os cabelos brancos, etc etc... Não vou detalhar o significado de todas essas figuras pois o Pe. Matos Soares já faz isso em seu comentário bíblico, de todo o modo, isso me lembrou o anime Hataraku Saibou, e mais especificamente sua versão ''Black''. No anime, as células do corpo são personificadas, o mesmo recurso literário utilizado outrora pelo Eclesiastes. Muito legal, não? 


2. No Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo torna a ensinar aos apóstolos a respeito de sua Paixão e Morte, mas eles não o entenderam; esse ensinamento, essa palavra, ''era-lhes obscura'' e eles tinham medo de perguntar.  Os apóstolos, assim como ocorre conosco, tinham dificuldades em lidar com más notícias. Antes esperemos o melhor, o progresso, um mundo onde tudo irá bem; onde o sofrimento, a dor, o caos e a morte nunca irão bater a nossa porta. Mas, não é assim que as coisas funcionam. Uma boa história tem sua parcela de drama, e cá estamos em um drama cósmico, vivendo no desterro em meio a uma sangrenta batalha entre as milícias celestes e as potências infernais (ou Reino Negro, como denominou o Eduardo Fauzi). É uma história de guerra e não um conto infantil, não a vida no mundinho dos Teletubbies, de tal forma que o roteiro não ira se desenrolar de forma infantil. Temos de estar preparados a acolher as más notícias, enfrentar com coragem a escuridão que se aproxima, parar de iludir-nos a respeito de dias felizes. Se não formos capazes de fortalecer nossa alma e preparar o nosso espírito, vai acabar que na hora do herói, vamos amarelar. Como fizeram os apóstolos, com exceção de São João, na hora da Crucificação do Divino Mestre. 

Que Deus nos dê coragem, pois não há vitória sem luta, não há ressureição sem morte, não é possível chegar ao céu sem antes passar pela cruz.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"O que aconteceu é o que há de acontecer"

25ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Ecl 1,2-11) 
Salmo Responsorial (Sl 89) 
Evangelho (Lc 9,7-9) 
 
<O que foi é o que será. O que aconteceu é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: "Veja, isto é novo", ela já existia nos tempos passados. (Ecl 1, 9-10)>

Assim o é. Embora exista hoje um avanço da técnica - o qual aliás, não é constante, seguro e imperecível - o repertório de ideias do homem é limitado. Que são tantas novas doutrinas, modernas, progressistas, senão um remake de velhas heresias? O que foi é o que será, de tal modo que a história, o passado, se nos mostra como um código do futuro. O Eclesiastes é a antípoda do mito do progresso. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Virtua Fighter, Artes Marciais e a Black Pill

Naquele tempo as o Ocidente revisitara o Oriente. As cultura das artes marciais estavam em seu auge, pululavam escolas dos mais diversos e curiosos estilos, prometendo técnicas secretas, milenares e mortais. Filmes, animes e games sobre o assunto eram variados e faziam um sucesso tremendo. O grande Bruce Lee codificava o seu Jet Kune Do ... É esse o ambiente cultural em que nasceu Virtua Fighter, anime o qual tive graça de assistir recentemente. O anime se torna tanto mais interessante quanto menos original, tano mais fiel se mostra aos clichês daquele tempo, maior a imersão estética do espectador hodierno.  Carros tunados, ninjas, máfias internacionais, mestres milenares, estilos diversos, robôs e experimentos humanos. Como que o compêndio simbólico de uma era. E não só isso, o roteiro também traz uma mensagem forte sobre liberdade e responsabilidade, do trilhar o próprio caminho, do potencial humano de superar a si mesmo, da superioridade do homem sobre a máquina.

Mas... Algo mudou de 95 para cá. O encanto ante as artes marciais passou, tantas fantasias e charlatões levaram-nas ao descrédito. Os estilos diversos deram lugar a padronização quase industrial do MMA, enquanto crescem as franquias de Jiu-Jitsu e Muay Thai, os diversos estilos de Kung Fu, o Karatê e tantos outros definham. A confiança nos punhos fora abalada, que pode o maior dos mestres ande um homem armado? As máfias soam tanto quanto infantis quando comparadas as maquinações totalitárias gestadas desde o interior dos órgãos oficiais. Não se teme mais as organizações a margem da lei, mas a própria lei, tanto mais iníqua, tanto mais elaborada desde uma perspectiva ideológica totalitária que busca moldar o comportamento humano nos seus mínimos detalhes.

Naquele tempo tudo parecia tão simples: bastava trocar alguns socos e poderíamos resolver os problemas do mundo. Algumas décadas depois, rimos de modo amargo e cínico daquela vã fantasia juvenil.

sábado, 12 de setembro de 2020

Extra Ecclesiam nulla salus

Transcrevo aqui alguns comentários de Carl Gustav Jung a respeito de uma interpretação "psicológico-simbólica" do dogma “extra ecclesiam nulla salus”:

[...] Mas “extra ecclesiam nulla salus” (fora da Igreja não há salvação), então as coisas ficam realmente terríveis, porque não estamos mais protegidos, não estamos mais no consensus gentium (consenso dos povos), não estamos mais no seio da mãe compassiva. Estamos sós, e todas as forças do inferno estão soltas. Isto é o que as pessoas não sabem. Por isso dizem que temos neuroses de ansiedade, medos noturnos, compulsões e tantas coisas mais. A alma ficou solitária; ela está extra ecclesiam e num estado de não salvação. E as pessoas não sabem disso. Consideram seu estado patológico e os médicos confirmam esta suposição. Quando eles o dizem e quando todos são da mesma opinião de que isto é neurótico e patológico, então temos de entrar nessa linguagem.
- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 299.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Tribalismo, Cura e Missão


22ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (1Cor 3,1-9)
Salmo Responsorial (Sl 32)
Evangelho (Lc 4,38-44)

1. Também na Igreja primitiva houve a tentação do tribalismo. Uns diziam-se discípulos de Paulo, outros de Apolo. É o que lemos na primeira leitura. O Apóstolo vem corrigir tal distorção. Quem é Paulo? Quem é Apolo? Meros operários de Cristo, um plantou outro regou... Mas a identidade do cristão não se reside neles, não se reside em quem lhes fez chegar o Evangelho, mas no próprio Evangelho.

Também hoje é assim. Uns se apegam a figura de determinado apostolado, outros de outro, há quem faça guerrinha em busca da hegemonia. Adoram atacar sobretudo apostolados famosos, figuras públicas, e mostrar como seu grupo , a tribo a qual  pertencem, é o mais puro, como seu ''mestre'' é o correto... Coisa de criancinha, de homens carnais.

Acaso importa quem nos converteu e nos levou a fé? Acaso pregam a sua própria doutrina ou a da Igreja? Porque esse apego humano, esse tribalismo, esse fiar-se a identidade em homens, esse dividir o que a doutrina da Igreja procura unir?

Somos, pois, todos católicos. Louvado seja Deus por todos os seus instrumentos, todos aqueles que escolheu para pregar publicamente, para levar seu Evangelho aos homens! Mas o Evangelho é de Cristo, a doutrina é da Igreja, e todos aqueles que a ela chegaram, seja pelos caminhos que for, seja qual for o temperamento, a personalidade ou as escolhas pessoais, são nossos irmãos de fé em Cristo Jesus, com os quais compartilhamos a mesma doutrina e os mesmos sacramentos.

Já é tempo de deixarmos essa infantilidade de homens carnais, e buscarmos verdadeiramente fazer-nos homens espirituais, que pensam não segundo a carne, mas guiados pelo espírito. Que não buscam outra coisa senão a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

2. Cristo cura os doentes e expulsa os demônios. Como outrora assim o faz hoje, cura e liberta a todos que a ele recorrem com fé.

Pediram-lhe pela sogra de Pedro, ele a curou. Também nós deveríamos fazer o mesmo, rezar pelos doentes, apresentá-los ao Senhor para que os cure.

3. Depois das obras realizadas no Evangelho de hoje, o povo vai até Jesus, que orava em um local deserto. Queriam que ficasse mais, que ali se estabelecesse e continuasse as suas obras. Mas ele não fica muito tempo... Era preciso que pregasse nas demais cidades, foi para isso que fora enviado. E nós? Sabemos para que fomos enviados? Qual a nossa missão? Ou antes ficamos errantes por aí, em busca talvez de conforto, de um lugar onde sejamos queridos, buscando resolver tão somente nossos próprios problemas, ao invés de servir a Deus na pessoa do próximo? Para que eu fui enviado? Para que você foi enviado? Com certeza foi para nos preocuparmos com algo tanto mais importante que nós mesmos, não?

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Origem do nome Lúcifer

De mayor interés es outro nombre que damos en español al diablo, es decir, Lucifer. Es un nombre demasiado bonito para um enimigo nuestro tan perverso. Lucifer significa lucero o, más a letra, portador de luz. ¿De dónde ha surgido la idea de darle tan bello apelativo?

Hay un pasaje en el profeta Isaías en el cual se pinta al rey de Babilonia caído del mayor esplendor a la mayor miseria. Esa caida del rey la tomaraon los Santos Padres como ejemplo, como símbolo o semejanza de la caida de Satanás del cielo al inferno, y por lo mismo le aplicaron también el mismo epiteto que el profeta aplica en su texto al rey de Babilonia. El profeta usando de un hebraismo dice: ¿Como has caído del cielo, astro brillante, hijo de la aurora? (Isaías 14,12)

Hay aquí yum indudablemente, una alusion clarísima al planeta Venus, que en ciertas ocasiones surge brillantísimo por las mañanas al miesmo tiempo que la aurora. De ahi que los hebreos, prácticamente, lo llamen hijo suyo. En rigor, podria tambien decirse lo mismo de Mercurio; pero por ser Venus mucho más brillante, a el es a quien mejor le cuadra ese apelativo.

Pero, ¿cómo pasamos de la expresión astro brillantte, hijo de la aurora, al nombre de Lucifer? Muy sencillamente. Los Padres griegos no se servian, en sus explicaciones de la Biblia, del original hebreo, sino de la versión griega de la misma. Los traductores griegos del original hebreo pusieron, en vez de hijo de la aurora, portador de la aurora; y los latinos dijeron sencillamente Lucifer o portador de la luz. Con esto tenemos ya designado al rey de Babilonia con apelativo de Lucifer, lucero matutino, y como el rey de Babilonia es tomado como ejemplo de Satanás, este ultimo es llamado tambiem Lucifer. El nombre Luzbel, que se da al diablo con menos frecuencia que el anterior, viene a tener la misma significacion, es decir, luz bella, como la del planeta Venus.

- Pe. Jesus Bujanda; Angeles, Demonios, Magos... y Teologia Católica; p.86-87.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

"Porque julguei não saber cousa alguma entre vós, senão a Jesus Christo, e este crucificado"


22ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (1Cor 2,1-5)
Salmo Responsorial (Sl 118)
Evangelho (Lc 4,16-30)

<Porque julguei não saber cousa alguma entre vós, senão a Jesus Christo, e este crucificado.(1 Cor 2,2)>

Em tempos de pretensa alta cultura as palavras do apóstolo ressoam com ainda maior gravidade. São Francisco de Assis, na radicalidade do exemplo paulino, recomendava aos seus frades que não lessem livro algum senão as sagradas escrituras. João Batista de La Salle dizia a seus padres que não deviam saber mais que o evangelho e o suficiente para dar a instrução primária as crianças, não muito além disso, de tal forma que sua ordem fora caluniada como os ignorantelli. Não se veja aí uma apologia a incultura, uma condenação a erudição, mas tanto um chamado mais pessoal a radicalidade na vida destes santos, como um eco da justa hierarquia do qual não raro se corre o risco de esquecer. A revelação, a palavra do Senhor, tem poder, poder tal que não se compara a nenhuma palavra ou ciência humana, e é a esta palavra a qual servimos. Quão triste é quando, em tempos de confusão, os homens esquecem desta mesma palavra, como que esquecem de Cristo, e fazem de seu apostolado sua cultura, sua ciência, sua filosofia, sua erudição, como fosse mais que o próprio Evangelho.

"Não, primeiro vamos curar as pessoas de suas neuroses com psicologia, depois, ah , depois a gente prega a doutrina."
"Vamos livrar elas da superstição através da ciência, e daí com que a cereja do bolo, ensinamos o catecismo."
"O infeliz tem que saber alta filosofia, ter grande conhecimento literário, senão nunca vai entender nem praticar a religião corretamente..."

E tantas outras tolices as quais frequentemente se manifesta em palavras e atitudes... Ante tudo isso "fechemos" com São Paulo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A infestação diabólica

A infestação diabólica é uma moléstia que o diabo desenvolve na natureza inanimada (ou animal) para prejudicar com ela o homem. É infestação local quando afecta lugares ou casas (ruídos, passos, movimentos de objectos, etc.).

Mas a infestação pode afectar directamente a pessoa quando o demónio exerce nela uma determinada moléstia, mal físico ou psíquico. Disso nos poderiam falar particularmente os santos como o Cura d' Ars, e às vezes, os próprios exorcistas, sem esquecer os casos de pessoas leigas.

Actualmente, diz o Pe. Amorth, a maioria dos casos que cura não são casos de possessão, mas de infestação pessoal . Neste sentido, aumentam os malefícios que alguém tenta infligir a outrem através da influência do diabo. O próprio Amorth admite apesar de tudo que não se deve acreditar facilmente nos malefícios. «Trata-se sempre de casos raros. Um exame atento dos factos revela muitas vezes causas psíquicas, sugestões, ou falsos medos na base dos inconvenientes de que se queixam». Mas admite casos que ele próprio conseguiu comprovar. 

O Pe. Amorth conta um caso que aconteceu ao seu mestre, o Pe. Cândido, juntamente com outro exorcista também autorizado pelo bispo. Estavam os dois a interrogar uma rapariga num exorcismo, no decorrer do qual souberam que alguém tinha feito um feitiço à rapariga. Tratava-se de uma caixa de madeira de um palmo de largura. Através de um interrogatório, a rapariga contou-lhes que a caixa tinha sido escondida junto a uma árvore, a um metro de profundidade. Foram ao lugar, encontraram a caixa e nela uma figura obscena juntamente com outros trastes. Queimaram-na, mas não tiveram o cuidado de a borrifar com água benta ou fazer uma oração. O resultado foi que o Pe. Cândido ficou três meses de cama com fortes dores de estômago.

- José António Sayés; O Demônio: Realidade ou Mito?; p.153-154.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Senpai


21ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (2Ts 3,6-10.16-18)
Salmo Responsorial (Sl 127)
Evangelho (Mt 23,27-32)

<Nem comemos de graça o pão de algum, antes com trabalho, e fadiga, trabalhando de noute e de dia, por não sermos pezados a nenhum de vós. (2Ts 3 ,8)>

O trecho em questão, extraído da primeira leitura da liturgia de hoje, tem primariamente um significado bem concreto. Diz respeito ao sustento material, cada qual deve esforçar-se por pagar as próprias contas, afim de não ser pesado a ninguém. Mas, não é apenas a vida material um peso aos irmãos. O desequilíbrio emocional é outro. A caridade nos manda auxiliar os irmãos, mas há alguns que se acomodam, seja em sua situação material, seja em sua situação emocional e espiritual, e não buscam melhorar. Gostam da posição de vítima, da perspectiva da criancinha a tudo receber dos seus superiores, sendo-lhes um peso...

Meu irmão, há um momento em que tem de caminhar por suas próprias pernas, que ao invés de apenas sugar os demais, tem que começar a contribuir com eles e ajudar os outros. Usando uma expressão do idioma japonês, hora ou outra todos devemos nós tornar ''senpai'' .

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Mais mansos que cordeiros e mais ferozes que leões


20ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Ez 36,23-28)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mt 22,1-14)

Nos últimos dias, alguns covardes ficaram escandalizados com uma suposta agressividade do movimento pró-vida na tentativa de evitar um aborto e salvar uma alma da danação. Infelizmente, os assassinos tiveram  sucesso em derramar sangue inocente, o qual agora clama ao céu por vingança. No tempo oportuno, porém, cairá sobre suas cabeças o castigo dos céus. No Evangelho de hoje, destaco o trecho o qual trata da cólera divina: <O rei soube e indignou-se em extremo. Enviou suas tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade. (Mt 22, 7)>

Aos covardes, recordo que a liturgia celebra hoje a memória de São Bernardo, que dentre tantos feitos, a história o recorda como mestre espiritual da ordem dos templários. Em um famoso texto, intitulado ''Elogio aos Templários'', diz o santo abade daqueles santos cavaleiros:

<Enfim, vê-se todavia no dia de hoje, por uma graça singular e admirável, que eles são mais mansos que cordeiros e mais ferozes que leões.>

Tal deveria ser o norte de todo o varão católico. Aos amigos, ao próximo, aqueles que ama, deve mostrar-se manso como cordeiro. Aos inimigos, deve combater de forma mais feroz que o leão. Infelizmente, acontece hoje tantas vezes o contrário; ludibriados pelo demônio, muitos são mansos ante os inimigos e ferozes para com amigos e irmãos.

No contexto da peste, qualquer um de nós pode vir a morrer em questão de semanas, de forma súbita, vitimados pelo covid-19. Não é o tempo em que se pode dar ao luxo de covardia. Se há um momento para testemunhar a fidelidade radical a Igreja e sua doutrina, bem como o ódio perfeito aos inimigos da santa cruz,  afim de tentar purgar parte de nossos pecados, esse tempo é agora. Depois pode vir ser tarde demais...

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

As causas do dilúvio - Santa Hildegarda de Binguen

(92) Diluvio: Cuando Adán fue expulsado del Paraíso, el agua anterior al diluvio no era tan veloz en su curso ni tan líquida como se hizo después. Tenía por encima una especie de película que la retardaba un tanto, de modo que fluía poco a poco. La tierra entonces no tenía lodo, sino que era seca y frágil porque aún no estaba impregnada de agua. De acuerdo con su primer precepto daba frutos sin moderación. Y entonces los hombres se olvidaron de Dios, de modo que actuaban más como ganado que según Dios, por lo que muchos estimaban más a sus animales que a los hombres, de suerte que tanto los machos como las hembras se mezclaban y convivían con los animales de tal modo que casi habían desterrado de sí la imagen de Dios. Así que todo el género humano se transmutó y se transformó en monstruos, de modo que algunos hombres tomaban costumbres y voces según las bestias, corriendo, aullando o viviendo como ellas.

Pues las bestias y ganados anteriores al Diluvio no eran tan salvajes como lo fueron después. Los hombres no huían de los animales ni ellos de los hombres, ni se asustaban mutuamente. Las bestias y los rebaños permanecían junto a los hombres y los hombres junto a ellos, porque al principio habían tenido el mismo origen. Las bestias y ganados lamían a los hombres y los hombres a los animales, por lo que se querían más y estaban más unidos en las contrariedades.

Pero Adán había procreado también algunos hijos que estaban llenos de razón divina y no querían mezclarse con ninguna torpeza sino permanecer en la santidad y por eso los llamaban hijos de Dios.

(93) Por qué son hijos de Dios: Éstos investigaban y buscaban dónde estaban los hombres que no se habían mezclado y que no se habían rebajado con las bestias, aunque fueran hijos de pecadores como antes se ha dicho, y por eso a éstos les llamaban hijos de los hombres, porque no se habían rebajado en su aspecto ni con el ganado. Y de las hijas de éstos tomaron los hijos de Dios esposas que dieron a luz como está escrito: “Viendo los hijos de Dios que eran bellas las hijas de los hombres”. Pero aún existían ciertas bestias y ganado que, como se ha dicho, habían contraído muchas cosas de la naturaleza humana y de los hombres. Entonces su gran clamor de iniquidad ascendió hasta los ojos de Dios, porque la imagen de Dios estaba reducida y apartada, y la razón estaba confundida por la fornicación.

Por ello el Espíritu de Dios que se desplazaba sobre las aguas en la creación, envió aguas sobre las aguas y se rompió la membrana que sujetaba las aguas para que no fluyeran con la velocidad con la que corren ahora, y el agua se hizo veloz en su curso y sumergió a los hombres. Y entonces el agua invadió la tierra y la hizo como de hierro y más firme, y produjo en todos los frutos un nuevo jugo más fuerte que el anterior y dio lugar al vino que no existía antes. Las piedras que con la tierra habían sido creadas y estaban cubiertas por ella, aparecieron a causa del agua, y algunas que antes estaban enteras se resquebrajaron. 

- Santa Hildegarda de Binguen; Libro de las causas y remedios de las enfermedades; pág. 55-56.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Protestontismo e Bruxaria - Comentários sobre o filme As Bruxas de Salém

E uma vez mais estamos a falar de bruxas, não ainda sob uma perspectiva histórica, mas puramente ficcional, embora o filme em questão se proponha um drama histórico, seria tolice extrapolar o roteiro inadvertidamente o roteiro para além do universo cinematográfico, sem um exame aprofundado de fontes primarias. O filme o qual hoje pretendo comentar é The Crucible (As Bruxas de Salém), de 1996. Um filme, surpreendentemente, muito bom, aliás, não sei como não fora acusado pela patrulha politicamente correta de "machista". O texto, pra variar, tem spoliers, então caso o leitor seja um sujeito fresco, vá assistir ao filme e volte mais tarde.

Agora que os maricas saíram do recinto, continuemos. O filme se inicia com macumbarias, um grupo de meninas lideradas pela escrava Tituba dançam em volta de uma fogueira e queimam ervas, em uma espécie de ritual amoroso. Pois é, um bando de tontas fazendo macumbarias atrás de omi... Mas, enquanto a maioria das moças pratica algo leve (se é que se pode falar assim, e já adianto que não se pode, nestes casos), uma outra dona se exalta: Abigail. Está pede a morte de uma outra dona, oferece uma galinha preta em sacrifício, bebe seu sangue e começa a dançar pelada. A bagunça é interrompida pelo pastor local (sim, no filme só tem hereges e macumbeiros, nem sinal da verdadeira Igreja). Uma série de coisas acontecem o qual seria excessivo detalhar aqui, mas, adiantando a canoa, para limpar a barra, Abigail começa a fingir e acusar pessoas da aldeia para livrar sua barra. As outras meninas, vão na onda dela. O que começa apenas como um passar a culpa, logo se transforma em uma arma de poder, e cá está Abigail a acusar #azinimiga, mais especificamente Elizabeth, esposa de John Proctor (por quem a guria é apaixonada). O drama é interessante, o roteirista trabalha bem o desenvolvimento do personagem Proctor, bem como da própria vila, mostrando como alguns habitantes usaram dessa histeria toda para benefício próprio e como o clero protestante, absolutamente inapto, hora parecia crer em toda aquela superstição, ora aparentava apenas querer usá-las para seus próprios interesses. Ah! Vale lembrar que o pastor da aldeia é acusado por Proctor como um homem corrupto, apegado ao dinheiro, que usa da religião para obter lucros e luxo. A imagem não soa familiar ainda hoje?

Temos toda uma aldeia manipulada, bem como a morte de inocentes, porque uma moça leviana que queria tomar o marido da outra. Mas, que bom que foi só no filme certo, e hoje não acontecem falsas acusações a torto e a direita por motivos torpes, nem as massas são tão facilmente manipuladas pela histeria feminina, não é? 

Embora a interpretação geral da trama é que tudo não passe de uma mentira, outra perspectiva é possível: a de que Abigail seja a verdadeira bruxa. Vemos como está tomou parte ativa no ritual demoníaco, excedendo as demais e fazendo com que Mary Warren, uma das moças até então dispostas a testemunhar a verdade, embarcar de novo em sua narrativa mentirosa. Nesta perspectiva, Abigail é que tinha trato com o diabo, manipulou todas as demais, causou morte e sofrimento, e depois fugiu com o dinheiro do pastor. 

Ao fim, quase que podemos ver uma sutil apologia ao catolicismo. Proctor questiona ao juri porque a confissão deve ser feita em público, porque deve manchar seu nome e sua honra pelo resto da vida? Pois é, aí está o esquema dos showzinhos protestantes. No catolicismo a confissão se dá em privado, no sigilo sacramental da penitência. Embora, todavia, a situação de John no filme seja um bem mais estranha, uma vez que o estavam obrigando a confessar pecados que não cometeu.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

"Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos"


18ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Jr 31,1-7)
Salmo Responsorial (Jr 31,10-13)
Evangelho (Mt 15,21-28)

<Jesus respondeu-lhe: "Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos" (Mt 15, 26)>; o trecho, extraído do Evangelho de hoje, bem poderia servir de justificativa a uma espécie de nacionalismo. Embora a caridade deva ser praticada para com todos, há porém uma hierarquia a ser observada. Infelizmente, isto está invertido em nossos tempos. As nações, buscam não os interesses de seus filhos, mas antes mimar minorias estrangeiras, alimentar os cães, à custa da fome de seus filhos. Algo análogo parece ocorrer com os pastores da Igreja, tão preocupados em bom mocismos e diplomacia com membros de outras religiões, negligenciando as necessidades de seu próprio rebanho. A entrega das relíquias dos santos aos (t)ortodoxos ilustra isso de forma escandalosa; se joga aos cães o alimento dos filhos...  Quiça consigamos reverter isso.

Que Deus nos dê bons pastores, tanto no âmbito espiritual quanto temporal, homens comprometidos com o bem se sua casa.

sábado, 1 de agosto de 2020

Dom Athanasius: "O Cristianismo é (...) uma crença sobrenatural em uma doutrina"

Diane Montagna: Então o senhor acha que a ênfase principal no Cristianismo está no aprendizado, por meio do intelecto?

Dom Athanasius: O nome original dos cristãos, dos seguidores de Jesus Cristo, era "discípulos" ("alunos", "aprendentes"), aqueles que foram instruídos em uma doutrina, na doutrina revelada por Deus. Além do ato de oferecer o sacrifício de Seu Corpo e Sangue na Cruz, para a salvação de toda a humanidade, a principal obra de Jesus Cristo na terra era ensinar a doutrina de Deus Pai, embora essa última obra estivesse subordinada ao ato salvífico de Seu Sacrifício na Cruz. Cristo disse: "A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou" (Jo 7:16).

O solene mandamento divino que Cristo deu aos Seus Apóstolos e à Sua Igreja para todos os tempos consiste principalmente no ensino, na transmissão de uma doutrina de verdades. "Portanto, ide e instruí todas as nações, ensinando para que observem tudo que vos ordenei" (Mt 28:19-20). O Cristianismo é, portanto, essencialmente uma fé e crença sobrenatural em uma doutrina divinamente revelada com a implementação inseparável da doutrina na vida moral, por meio de boas obras, com a ajuda da graça de Deus. De acordo com Atos 2:42, os primeiros cristãos de Jerusalém foram caracterizados por quatro características: "perseverar na doutrina dos Apóstolos" (doctrina fidei, vertatis), "comunhão" (koinonia, comunhão hierárquica), "partir o pão" (Fractio panis, Santa Eucaristia) e "orações" (orationes, especialmente a liturgia). É significativo que um apego fiel a doutrina e à verdade seja mencionado como a primeira característica dos cristãos. A sugestão de que ser cristão não é aderir à doutrina é uma contradição e negação direta do ensino divino, que diz que um cristão deve "perseverar na doutrina dos Apóstolos".

- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 232.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

"(...) porque o coração deste povo se endureceu"


16ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jr 2,1-3.7-8.12-13)
Salmo Responsorial (Sl 35)
Evangelho (Mt 13,10-17)

"(...) porque o coração deste povo se endureceu" - diz a Escritura. A Vulgata usa o termo corações insensíveis. Há algo em nosso interior, um desejo por Deus, uma espécie de marca nas profundezas de nosso ser que clama pelo absoluto. Deveríamos nós buscar escutar tais sussurros internos, investigar este enigma e nos abrirmos aos chamados do Senhor. Mas, tantas vezes ocorre como outrora ocorreu com Israel, nossos pecados, nossos vícios, as agitações do mundo, todo esse barulho vem a silenciar este apelo, a luta cotidiana vem insensibilizar nosso coração. E então, entre corações duros e insensíveis aos sinais divinos, estamos ante o vazio descrito por Augusto Frederico Schmidt...

VAZIO

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

"Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro" - Dom Athanasius

Diane Montagna: Quais são os elementos positivos que o senhor vê no Vaticano II?

Dom Athanasius: Se olharmos para o período da história da Igreja, foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico fez um apelo solene aos leigos para levar a sério seus votos batismais de lutar pela santidade. O capítulo em Lumem Gentium sobre os leigos é lindo e profundo. Os fiéis são chamados a viver seu Batismo e sua Confirmação como testemunhas corajosas da fé na sociedade secular. Esse apelo foi profético.

Imediatamente após o Concílio, esse apelo aos leigos foi abusado pelo establishment progressista da Igreja, e também por muitos funcionários e burocratas que trabalhavam nos escritórios e chancelarias da Igreja. Muitas vezes, os novos burocratas leigos não eram, eles mesmos, as testemunhas, mas ajudaram a destruir a fé nos Conselhos paroquiais e diocesanos e em outros comitês oficiais. Infelizmente, esses burocratas leigos eram, muitas vezes, enganados pelo clero, pelos bispos e curas de almas.
[...]

Diane Montagna: Obviamente, o Concílio continua controverso. Como podemos ultrapassar visões simplistas ou unilaterais?

Dom Athanasius: Ao abordar questões relacionadas ao Concílio Vaticano II e seus documentos, é preciso evitar interpretações forçadas ou o método da "quadratura do círculo", mantendo, é claro, todo o respeito e senso eclesiástico (sentire cum ecclesia). A aplicação do princípio da "hermenêutica da continuidade" não pode ser usada cegamente para eliminar inquestionavelmente quaisquer problemas, evidentemente, existentes. De fato, tal abordagem transmitiria artificialmente e pouco convincente a mensagem de que toda palavra do Concílio Vaticano II é infalível e em perfeita continuidade doutrinal com o Magistério anterior. Tal método violaria a razão, a evidência e a honestidade, e não honraria a Igreja, pois, mais cedo ou mais tarde (talvez depois de cem anos), a verdade será declarada como realmente é. Existem livros com fontes documentadas reproduzíveis, que fornecem informações historicamente mais realistas e verdadeiras sobre os fatos e as consequências no que diz respeito ao evento do Concílio Vaticano II, à edição de seus documentos e ao processo de interpretação de seus documentos e reformas nas últimas cinco décadas. Recomendo, por exemplo, os seguintes livros que podem ser lidos com proveito: Romano Americo, Iota Unum: Studio delle variazoni della Chiesa cattolica nel secolo XX; Roberto de Mattei (2009), O Concílio Vaticano II - Uma História Nunca Escrita (2013) ; Alfinso Gávels, El Invierno Eclesial (2011).

[...]

Diane Montagna: O senhor acha que, talvez, daqui a cinquenta anos, o Concílio seja visto como um passo para se livrar da heresia modernista na Igreja, porque, sem querer, expôs a infestação dessa heresia e mostrou-a como ela é?

Dom Athanasius: Sim, eu queria mencionar isso também. Deus sempre usa fenômenos negativos para produzir um bem ainda maior.

A atual participação vigilante e comprometida de leigos de mentalidade tradicional na vida da Igreja expressa o verdadeiro significado do Vaticano II em relação aos leigos. Nos tempos difíceis de perseguição sob o Comunismo, foram os leigos que transmitiram principalmente a pura fé Católica. Recebi a fé na Igreja clandestina de leigos de meus avós, de minha mãe, de meu pai e de outros homens e mulheres e leigos. Nosso próprio tempo é a hora das famílias Católicas, famílias numerosas. De fato, uma contribuição muito positiva do Concílio foi a bela doutrina da família como Igreja doméstica. Já encontramos esse pensamento nos Padres da Igreja, em Santo Agostinho, por exemplo, mas ele foi renovado pelo Concílio. Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro, quando a crise terminar, nas famílias Católicas renovadas, nas Igrejas domésticas e no testemunho corajoso da fé pelos leigos.

Quero mencionar outra contribuição positiva, o capítulo sobre Nossa Senhora em Lumen Gentium. Foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico falou de maneira tão ampla e profunda sobre o papel de Nossa Senhora na Igreja e na história da salvação. O título "Mãe da Igreja", Mater Ecclesiae, que o Papa Paulo VI deu a Nossa Senhora durante o Concílio, foi baseado nos ensinamentos da Lumen Gentium. Desde a época de Santo Irineu, Maria é chamada de "a nova Eva". O Papa Bento XVI ensinou: "Maria é a Mãe Espiritual de toda a humanidade, porque Jesus na Cruz derramou o seu sangue por todos nós e da Cruz ele confiou todos nós aos cuidados maternos dela" (Homilia, 1 de janeiro de 2007). Seu papel como Mãe Espiritual da humanidade manifesta-se por meio dessas funções maternas específicas, à medida que ela coopera "no trabalho do Salvador em restaurar a vida sobrenatural às almas" (Lumen Gentium, n°. 61), como Medianeira das graças, dispensando as graças de Cristo, e como Advogada, com seu poder intercessor.

Esses pontos - o chamado universal a santidade, o papel dos leigos na defesa e no testemunho da fé, a família como igreja doméstica e os ensinamentos sobre Nossa Senhora - são o que considero as contribuições verdadeiramente positivas e duradouras do Concílio Vaticano II. 
[...]

Diane Montagna: A Igreja definiu-se pela primeira vez, no Vaticano II, como a "serva da Palavra".

Dom Athanasius: Mas, pelo contrário, quando se olham as fotografias daquela época, o Vaticano II como demonstração de triunfalismo clerical. Não estou confortável com isso. O lema "Somos a Igreja" deixa alguns com a impressão de grande triunfalismo. Observa-se aqui uma falta de modéstia. Quando olho as fotos e os relatórios históricos do Concílio, tenho a impressão de que, de alguma maneira, os bispos se colocam no centro. No entanto, somos apenas servos.

O magistério ficou tão sobrecarregado nos últimos anos com um ultramontanismo não sadio que emergiu uma atmosfera de "eclesiocentrismo", que por sua vez é um antropocentrismo oculto, e isso não era saudável. O Concílio, que infelizmente foi uma demonstração de um raro "eclesiocentrismo" e "Magisteriocentrismo" - este Concílio propôs uma bela descrição do que é o Magistério, que nunca fora dado na história da Igreja. Pode ser encontrada em Dei Verbum, n°.10, onde está escrito: "O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve". Isso é lindo. Nunca li isso antes em um texto de outro Concílio.

[...]

Diane Montagna: Alguns que criticam o Concílio dizem que, embora haja aspectos positivos, é como um bolo com um pouco de veneno que precisa ser jogado fora.

Dom Athanasius: Ouvi essa comparação da Sociedade de São Pio X. Não podemos aceitá-la porque o Concílio Vaticano II foi um evento de toda a Igreja, Em um fenômeno importante, mesmo que haja pontos negativos, temos que manter uma atitude de respeito. Temos que avaliar e estimar tudo o que é real e verdadeiramente bom nos textos do Concílio, sem fechar, de maneira irracional e desonesta, os olhos da razão para o que é objetivo e evidentemente ambíguo e até errôneo em alguns textos. É preciso sempre lembrar que os textos do Concílio Vaticano II não são a Palavra de Deus inspirada, nem são julgamentos dogmáticos definitivos ou pronunciamentos infalíveis do Magistério, porque o próprio Concílio não tinha essa intenção. [...]


- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 146-152.

terça-feira, 21 de julho de 2020

"(...) jogai nossos pecados nas profundezas da mar"


16ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Mq 7,14-15.18-20)
Salmo Responsorial (Sl 84)
Evangelho (Mt 12,46-50)

<Uma vez mais, tende piedade de nós! Esquecei as nossas faltas e jogai nossos pecados nas profundezas da mar. (Mq 7, 19)>*

1. Está foi a prece do profeta Miqueias, conforme lemos a primeira leitura da missa. Embora não sejamos nós profetas, também podemos e devemos clamar a Deus por misericórdia para com o povo a qual pertencemos. A causa primeira desta pandemia são os nossos pecados. Aquilo que hoje sofremos é o justo castigo de nossas iniquidades.

2. "(...) jogai nossos pecados nas profundezas do mar", de algum modo o trecho final deste versículo deve também nos inspirar a fazer o mesmo. Devemos jogar nas profundezas do mar todos os instrumentos de pecado, tudo aquilo que nos afasta de Deus: maus livros, ídolos, materiais pornográficos, degenerações heréticas e etc. Quão belo foi quando se ecoou a notícia das estátuas da Pachamama precipitadas no Tibre! Outra alternativa é queimar tudo em uma bela fogueira quase como num doméstico auto de fé

*Obs. Hoje foi utilizada para estas reflexões tradução Bíblia na edição Ave Maria. Creio que neste trecho em específico foi a versão que expressou da maneira mais adequada o sentido do texto. 

domingo, 19 de julho de 2020

Descrença e ativismo


A Sagrada Escritura menciona uma infinidade de personagens, dado, porém, a estrutura narrativa, são narrados de forma secundária, com poucas informações a respeito em contraste com outros nos quais o autor sagrado se foca, tendo o papel de protagonistas da narrativa bíblica. Entretanto, não são meros personagens, mas vidas humanas, heróis sagrados, de tal forma que seria possível contar a mesma narrativa bíblica desde seu ponto de vista, como fossem eles os protagonistas. É a mesma narrativa, mas desde outra perspectiva. É o que acontece em O Apóstolo Tomé, filme italiano do ano 2000.

O princípio da Sola Escritura - tão alardado pelos protestantes mas curiosamente só levado as últimas consequências no cinema por um ateu comunista responsável por um dos melhores, senão o melhor, filme sobre Nosso Senhor Jesus Cristo (O Evangelho Segundo São Matheus) - é brutalmente contrariado nesta obra. Isto porque as informações bíblicas sobre São Tomé são escassas,  mesmo os dados da tradição, de forma que o cineasta utilizou de grande liberdade criativa. Temos assim uma ficção histórica de caráter bíblico-teológico, não o modo real ou provável como ocorreram as coisas, mas como poderia ter ocorrido desde a perspectiva do possível. É uma opção artística ousada, todavia extremamente interessante. Há análogos no romance O Mundo dos Anjos do exorcista Pe. José Antônio Fortea.

O filme se inicia com a crucificação. Tomé chega atrasado, no momento ondo se estão a levar o cadáver de Nosso Senhor ao Santo Sepulcro. Há todo um clima de animosidade dos romanos, de modo a querer se livrar do corpo, afim de por um fim nessa história de cristianismo. Entretanto, a intervenção de José de Arimateia e do soldado Longinus providenciam ao Senhor um lugar de descanso. Longinus, aliás, é um personagem extremamente interessante no filme, de algum modo perturbado por tudo aquilo que viu, vai aos poucos entrando no caminho da fé. Todavia, demora para a piedade cristã penetrar em seu temperamento militar romano. José de Arimateia é outro personagem extremamente interessante no filme, onde vemos seu drama interior e como precisa tomar coragem para se assumir discípulo de cristo ao invés de manter as escondidas a sua fé. 

Após o sepultamento, há entre judeus e romanos certa perplexidade, e o desejo de se livrar do corpo. A mesma perplexidade se dá entre os apóstolos, temendo que os inimigos de Cristo assim o façam, e desejosos de levar o cadáver para ser sepultado na Galileia. A primeira parte do filme trata da saga de Tomé, buscando apoio para retirar o corpo do sepulcro, até que.... Bem, os leitores conhecem a história bíblica, o sepulcro está vazio. Ressuscitou! Tomé. porém, tarda em acreditar, empreendendo uma longa busca pelo corpo, investigando quem poderia tê-lo levado. Os suspeitos? Caifás e os Judeus, Pilatos, ou mesmo os zelotas revolucionários de Barrabás.

O filme mostra Tomé como um homem corajoso, audacioso e impetuoso. Bem como o colégio dos apóstolos como uma organização extremamente viril, a tal ponto em que há brigas físicas que devem ser apartadas. Entretanto creio que o papel de Nossa Senhora na narrativa não foi trabalhado de forma adequada. Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a adição da personagem Joana, um quase par romântico de Tomé. Absolutamente desnecessário.


Até aqui fiz o que qualquer crítico faria, falei do filme, e o texto poderia ter terminado aí. Entretanto, antes de encerrar gostaria de fazer alguns paralelos com uma leitura recente, o livro Christus Vincit, de Dom Athanasius Schneider. Em determinada parte da obra, e de forma muito bem humorada, o bispo menciona sobre o perigo do ativismo. Com o enfraquecimento da fé e da vida de oração, parte do clero cai em uma atividade frenética, com reuniões, congressos, viagens e a produção de pilhas e pilhas de documentos inúteis. Destaco o seguinte trecho:

[...] O movimento Modernista, presente na Igreja desde o século XIX, usou o Concílio Vaticano II como catalizador para a expansão. Assim, depois do Concílio, a Igreja ficou imersa em uma profunda vitória do natural sobre o sobrenatural em muitos aspectos da vida da Igreja. No entanto, é apenas uma vitória aparente, já que a Igreja não pode ser superada pelos poderes do Inferno. Entretanto, temporariamente, estamos testemunhando um eclipse, uma ofuscação do sobrenatural, da primazia de Deus, da eternidade, da primazia da graça, da oração, da sacralidade, da oração. Todos esses sinais do sobrenatural foram de extremamente diminuídos na vida pastoral e na liturgia da Igreja em nossos dias. Em escala global, a crise mais profunda da Igreja é o enfraquecimento do sobrenatural. Isso se manifesta em uma inversão de ordem, de modo que a natureza, os assuntos temporais e o homem ganham supremacia sobre Cristo, sobre o sobrenatural, sobre a oração, sobre a graça e assim por diante. Esse é o problema. Como Jesus Cristo disse: "Sem Mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5). Toda a crise na Igreja, como vista depois do Concílio, manifestou-se em uma incrível inflação de atividade humana frenética para preencher o vazio ou o vácuo de oração e adoração, para preencher o vazio criado pelo abandono do sobrenatural. (pág. 132-133)

De alguma forma vemos isto no filme. Descrente, Tomé empreende uma longa jornada em busca do corpo de Jesus, a qual se mostra inútil. E então, quando se junta aos demais apóstolos para orar, ele O vê; toca os furos de sua mão e o lado que fora perfurado pela lança. Assim, o apóstolo e o bispo chegam a mesma conclusão: a primazia do sobrenatural, da oração, sobre o ativismo. Encerro o artigo uma vez mais citando a Dom Athanasius:

Um dos meios para sair desta crise, e que a curará, é a redescobrir o sobrenatural e dar primazia ao sobrenatural na vida da Igreja. Isso significa dedicar tempo à oração e à adoração Eucarística, dando tempo à beleza da Santa Missa e à liturgia, à prática da penitência corporal, à proclamação da verdade sobrenatural das Últimas Coisas e da verdade do Evangelho. Temos que colocar Cristo e Sua Revelação sobrenatural de novo ao centro, porque somente isso pode curar toda a humanidade. (pág. 137)