segunda-feira, 25 de maio de 2020

Coragem!

7ª Semana da Páscoa | Segunda-feira
Primeira Leitura (At 19,1-8)
Salmo Responsorial (Sl 67)
Evangelho (Jo 16,29-33)

O sofrimento faz parte do roteiro. "No mundo havereis de ter aflições, Coragem!"; assim o diz Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho que hoje lemos. A sociedade burguesa, na qual vivíamos até então, fora a sociedade da covardia, a qual a tal nível chegara que procurava efeminar os homens afim de extinguir a coragem, vista como fonte de guerras e discórdias. Queriam uma sociedade de escravos castrados submissos a vontade dos poderosos, assim se sacrificava a dignidade em vista de uma promessa vazia de um "mundo melhor", um mundo de paz onde não há sofrimento. De algum modo, todos nós fomos afetados por isso. Na primeira leitura lemos que São Paulo falava com desassombro, argumentando na sinagoga contra os judeus em favor do cristianismo. Quando foi a última vez que assim o fizemos? Tanto tempo faz que amarrados por escrúpulos diplomáticos nos acovardamos de polemizar com os incrédulos, quiça o fazê-lo em seus próprios templos. São Paulo tinha coragem, já nós cristãos burgueses do século XXI somos uns fracos, homens de geleia, mofinos, patéticos. Até quando? O tempo avança e o dia da prova, da realização das profecias, há de chegar. Coragem! Que o Divino Espírito nos conceda o dom da fortaleza!

sábado, 23 de maio de 2020

O erro do Budão (Kaguya está certa!)


Existem certas estruturas de pensamento, certos lugares comuns, reducionismos um tanto quanto saborosos que costumam dar soluções simples a problemas complexos, de tal modo que o orador sente-se como que possuído da mais profunda sabedoria. Mais do que a verdade, a maioria das pessoas anseia por segurança, a qual tais discursos parecem proporcionar. Um destes lugares comuns é o contraste entre uma suposta pureza presente na cultura popular, contrastada com a degeneração da cultura pop, da indústria do entretenimento. As coisas porém são tanto mais complicadas, sobretudo quando pensamos no Japão, o qual de forma admirável tem conseguido sintetizar tesouros do passado com técnicas do presente em vistas do futuro, em não poucas obras. O Studio Ghibli, mundialmente renomado pela beleza e profundidade de suas obras desafia qualquer crítico, seus filmes são tão belos e profundos refletem os valores do espírito japonês ao mesmo tempo em que encantam espectadores das mais diversas nações. No Ocidente, a Disney já desempenhou um papel semelhante, embora me parece que há algumas décadas tenha perdido seu encanto e se transformado em um instrumento de engenharia social.

No momento em que estou a escrever estás linhas o mundo está parado, a pandemia causada pelo COVID-19 tem ceifado vidas e causado impactos dolorosos na economia. Que raios há que se falar de cinema? Que importa antigas fábulas orientais? A arte alegra o espírito. Tão somente isso seria o suficiente, mas, existe algo mais. Há em determinadas obras certas indagações, certos inspirações que nos instigam a pensar, a investigar, a questionar! É neste processo, e não em máximas vazias, onde podemos encontrar alguma orientação para nossa vida, sobretudo quando empreendemos em profunda unidade, procurando responder estas indagações desde o nosso ser, com toda a sinceridade, usando todos os nossos conhecimentos, tudo aquilo no qual acreditamos. A arte alegra o espírito e instiga o pensamento.

O Conto da Princesa Kaguya é inspirado em uma lenda japonesa do século X: O Conto do Cortador de Bambu. A lenda original soa um tanto quanto simplista, quando comparado a riqueza de detalhes do filme, que segundo alguns, procura ilustrar aspectos do ensino budista, mas quanto a isso aguarde o leitor o final do texto e não espere de minha parte alguma ingenuidade ecumênica tal qual o Encontro de Assis. Um velho contador de bambu encontra uma pequena princesa no interior de uma árvore, ele a leva para sua casa, e a criatura tão logo se transforma em um bebê, que é adotado por ele e sua esposa. O bebê cresce de forma estranhamente rápida, se torna uma alegre meninha, que brinca pelos campos, faz amigos, e tem, afinal, uma infância feliz. No mesmo bosque onde a encontrou, o velho cortador de bambu encontra posteriormente belas e roupas e muito ouro, acreditando ser um sinal dos céus, ele usa o dinheiro para fazer daquela criança uma verdadeira princesa. Aí há o primeiro dos contrastes do filme, na vida simples do campo a moça era feliz, mudando-se para cidade, habitando um castelo, tendo a companhia dos nobres e educada como uma princesa, a jovem se entristece, estava vivendo uma vida de aparências a que todos se referiam como feliz, mas que na verdade era uma chateação. Não bastasse isso, a beleza de Kaguya atrai a atenção dos nobres do Japão, que tão logo apressam-se em propor-lhe o casamento, mas um casamento motivado tão somente por luxúria, sem amor algum. Para fugir dos pretendentes, inventa ela tarefas impossíveis, as quais obviamente não conseguem os homens realizar. 

Uma vida nobre, repleta de aparências e chateações, na capital contrastada com uma vida pobre na aldeia, com os amigos em harmonia com a natureza...

Retornemos a história. Acaba que o próprio imperador se interessa pela moça, e a agarra a força, para escapar ela deseja ardentemente em seu interior deixar aquele mundo, naquele momento consegue manifestar alguns poderes sobrenaturais e escapar do imperador mas, estava feito, o povo da lua viria buscá-la. No tempo marcado chega da lua um cortejo de seres "celestiais" liderados por um Budão.


A moça deveria voltar para a lua e deixar a terra. Mas neste processo, além de se ver separada de seus pais e amigos, perderia todas as suas memórias. Chama a atenção o diálogo entre Kaguya e uma das criaturas, onde esta exorta a princesa a deixar este mundo impuro, ao qual responde a moça que este mundo não é impuro, mas repleto de coisas belas como a natureza, os passarinhos e sentimentos. No fim, porém, o Budão se mantém indiferente aos lamentos da princesa, a coroa é colocada sobre sua cabeça, ela perde toda e qualquer emoção e retorna a seu mundo olhando para a Terra de forma nostálgica.  

Segundo a explicação budista do filme, Kaguya seria uma jovem tola apegada a um mundo impuro e efêmero, esse apego seria a fonte de seu sofrimento. Como católico posso discordar absolutamente. Não é que esse mundo seja intrinsecamente impuro, mas antes ele está corrompido. Note a diferença entre os verbos: "ser" e "estar" (se estiver lendo isso em inglês, capaz de não ser capaz de discernir, mas acho que não tenho muitos leitores estrangeiros). Deus criou o mundo e viu que era bom. A Kaguya não está errada. Há, porém, a realidade do pecado que é fonte de sofrimento e corrupção, mas isto convive com a graça e com as belezas da Criação. A moça sofre e é feliz, não são ciclos efêmeros mas a própria dinâmica deste mundo belo, porém marcado pelo pecado. O paraíso não é a apatia budista e o esquecimento da Terra! No céu, Jesus Cristo (e não Buda!) virá nos buscar, e lá poderemos encontrar muitos de nossos amigos, familiares e entes queridos. Vamos nos lembrar da Terra. Não apenas isso, mas poderemos rezar por quem fica, de algum modo misterioso lutar junto deles e, ao final, no final definitivo, no fim dos tempos, toda a criação será redimida, teremos de volta nossos corpos e correremos pelos campos, brincaremos com os animais, voaremos pelos céus, verdadeiramente alegres, longe daquela indiferença apática do Budão.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Promessas e Votos


6ª Semana da Páscoa | Sexta-feira
Primeira Leitura (At 18,9-18)
Salmo Responsorial (Sl 46)
Evangelho (Jo 16,20-23a)

Ao final da primeira leitura de hoje, se diz que São Paulo cortara os cabelos, pois havia terminado um voto. De algum modo este tipo de devoção fora comum nestas terras tropicais sob o nome de "promessas". Afim de alcançar uma graça particular, o fiel se comprometeria com determinado ato, com determinada prática concluindo-a quando a graça fosse alcançada. Em Aparecida, ou em Trindade no Santuário do Divino Pai Eterno, há um verdadeiro museu de "ex-votos", objetos deixados pelos fiéis em memória e agradecimento a graça alcançada. Mas, não raro acontecem abusos, como retratado no filme O Pagador de Promessas, um filme muito ruim e de má doutrina, onde um sujeito com ideias religiosas sincréticas faz uma promessa em um terreiro de macumba e a quer pagar deixando certo item na Igreja. De todo o modo, abusos a parte, este tipo de devoção fundamentada na bíblia e na tradição recebeu ao longo da história tantas confirmações neste país que não deveria ser negligenciada.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Terra Amaldiçoada: Breves comentários sobre um romance de José Lins do Rego

Não raro é comum ver certas em certas manifestações da cultura nordestina certa romantização do cangaço. Os cangaceiros seriam heróis, homens valentes a se rebelar contra as elites locais, há quem apele para a suposta devoção de tais personagens, sua relação com Padre Cícero. Triste povo que tem entre seus heróis bandidos, ladrões assassinos e estupradores. Após a leitura de Cangaceiros de José Lins do Rego minha repugnância para este tipo de ufanismo regionalista para com bandido cresceu ainda mais. O escritor patrício retrata a crueldade do cangaço e todos os suas ambiguidades, fugindo da armadilha romântica de tantos de seus conterrâneos. Na obra do autor os cangaceiros são o que são: monstros, quase que endemoniadas a destruir a própria vida e de quem cruzar seu caminho. Aliás, a descrição de tão numerosos e cruéis feitos dos "cabras" chega a ser incômoda a sensibilidade católica. 

O livro é profundamente pessimista. Se há os demônios do cangaço, a autoridade local não fica atrás:  os soldados do governo são nada além de bandidos fardados, "mata-cachorros" a repetir as mesmas crueldades com mandato oficial. A religião por ali toma ares de superstição, mais do que uma doutrina a dirigir a vida rumo aos céus, tornar-se uma espécie de mágica, afim de garantir proteção, "corpo-fechado" e força no "fogo". E naquela colônia do inferno, lá está o sertanejo sem outra alternativa senão fugir, fugir daquela terra amaldiçoada, do contrário há de perder a a vida, alma, a decência e a sanidade. 

Antes de encerrar estas breves linhas, faço alguns comentários técnicos. O autor é competente, mas suas limitações são manifestas. O recurso a morte é conveniente demais. Tão conveniente e frequente que chega a ser inverossímil. Quando o autor não sabe o que fazer com o personagem ou mata ou faz ele ficar louco sem qualquer outra explicação satisfatória. 

Por fim, destaco que a tentativa de apropriação literária do ambiente para mim não colou. José Lins do Rego cita as flora e a fauna da caatinga, esforça-se por traçar um relação ora paradoxal ora de espelho entre o ambiente externo e o estado interno de seus personagens, mas, soa estranho... Talvez seja nossa língua, mas é difícil ver poesia em algo chamado Umbuzeiro, ou dado a analogia maliciosa vulgar, não estranhar a comparação entre a jovem moça e as rolinhas.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O mal do mundo provém da sua impureza - Plínio Salgado


Começando do começo, diremos nós, católicos. Que começo é esse? Aquele que nos revelou a Virgem em Fátima falando dos horrores da guerra como consequência do pecado da sensualidade e do esquecimento dos deveres da caridade.

O mal do mundo provém da sua impureza. Ser puro é renunciar aos prazeres ilícitos, os inconvenientes, e muitas vezes até mesmo aos lícitos e inofensivos. Habituar-se ao domínio de si mesmo é preparar-se para o exercício da caridade, a qual consiste, noventa e nove por cento, em renunciar. Quem não mortifica os sentidos, quem não contraria a sua ambição, a sua vingança, a sua vaidade, nunca poderá estabelecer a verdadeira paz dentro e em torno de si.

A luxúria gera a violência e a violência gera a luxúria. Ambas cultuam apenas o que há de físico no ser humano. Uma se utiliza da força, a outra da beleza. Sendo a força o instrumento da violência, as grandes épocas da brutalidade coincidem com a exaltação corpórea dos heróis, o louvor dos músculos nos arremessos fulmíneos, a glorificação dos ritmos plásticos. E sendo a beleza física a matéria-prima da lascívia, as gerações que divinizam a força bruta são as mesmas que cantam loas a Frinéia.

Não se conclua que condenamos a força e a beleza físicas. Pelo contrário, dignas são elas da nossa admiração como obras do Criador, morada da alma e templo de Deus; e a prova é que ambas estão santificadas em santos que foram atletas e santas que foram formosas. O que devemos reprovar é o mau aproveitamento de uma e de outra, empregando-as de sorte a divorciá-las dos fins comuns do Espírito e do Corpo.

Esse foi o pensamento cristão na aurora do século I, quando os Apóstolos espalharam pelo Império dos Césares, onde predominavam degradações e violências unidas ao culto dos deuses fortes e belos, as duas soluções para as dores do Género Humano: a CASTIDADE e a CARIDADE, ambas tão intimamente irmanadas, que uma parece condição da outra e ambas a mesma expressão do Redentor do Mundo.

- Plínio Salgado. Primeiro, Cristo!; p.10-11 .

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Amakusa Shiro (1962) - Reflexões católicas desde cinema japonês


Apesar da globalização e da ascensão do Japão como potência cultural, os ecos do catolicismo japonês sobre a intelectualidade nacional são remotos. Poderíamos dizer quase tratar-se de um ilustre desconhecido. Quando se olha para o exterior afim de encontrar inspiração nas lutas de nossos irmãos e contextos culturais diversos, normalmente se tem em vista a Europa, sobretudo a França, e em alguns casos os EUA. O episódio de que o filme que me inspira a escrever tais linhas tenha sido encontrado legendado tão somente em inglês e castelhano soa um tanto quanto ilustrativo.

Que temos nós com esses povos distantes, alguns devem estar se perguntando? Muita coisa, creio eu. A natureza humana e o vínculo de fé nos fazem irmãos. Além disso, em tempos onde tanto se insiste no aspecto ocidental da Igreja, contemplar sua face no oriente é um bom remédio contra certo etnocentrismo, bem como nos dá algum material para começarmos a pensar as relações entre Igreja e cultura, evitando certos bairrismos anacronismos tão comuns a certos grupos tradicionalistas.

O filme em questão tem títulos diversos, ora denominado como The Revolutionary, El Rebelde, ou simplesmente Amakusa Shiro Tokisada, conta a história da Rebelião de Shimabara. O samurai católico, líder da revolta, é uma figura relativamente influente sobre a cultura pop japonesa, tendo influenciado diversos personagens, dentre eles Amakusa Shogo de Samurai X. Voltemos a História, com "h" maiúsculo mesmo: depois de um início relativamente tranquilo e frutuoso, a presença missionária no japão passou a ser objeto de forte oposição, uma vez que as potências europeias procuravam usar da religião como forma de dominação política. Tal oposição tornar-se-ia uma violenta perseguição, tal qual não se via desdes o paganismo romano. O filme se inicia já neste contexto estável, onde não mais há a presença missionária no Japão, tendo os fiéis, pequenos camponeses, de sustentar a sua fé sem o auxílio dos sacerdotes e missionários. Além da perseguição religiosa, havia forte injustiça social, de modo que os camponeses eram obrigados a pagar elevados impostos afim de sustentar os luxos da nobreza local, isto é os samurais, os quais os governavam de forma cruel. Tensão social e perseguição religiosa, fatores explosivos os quais motivaram aqueles pacíficos camponeses a uma revolta suicida contra o governo Tokugawa. Aliás, não sei como a Teologia da Libertação (corrente teológica da qual sou profundamente crítico como bem sabe o leitor assíduo) não se deteve atentamente sobre o fato, uma vez que ali se encontra perfeitamente a perspectiva de um casamento enter política e religião, onde a religião se faz instrumento de libertação; ou quase, uma vez que a distância histórica nos mostra como tragicamente viera a fracassar tal revolta. Da história vamos para o filme propriamente dito. Raramente filmes históricos são "históricos". O cinema não existe para documentar o passado, mas tão somente para demonstrar a visão do presente a partir dos olhos do diretor, dos acontecimentos de outrora. O diretor, Nagisa Ôshima, é tanto mais simpático a Shiro que a própria historiografia católica. Se os historiadores retratam o protagonista com incômodos traços sincréticos, no filme temos um bom homem, genuinamente católico. Todavia, apesar disso a revolta não fora inspirada por religião. Na película, os motivos sociais falam tanto mais forte. Chama a atenção que embora no início do filme existam belas cenas de oração, conforme a revolta avança essas cenas se fazem mais frequentes. Não há mais por parte dos personagens um esforço por discernir a vontade de Deus nos acontecimentos da história, mas tão somente (e com toda a justiça) reagir a uma situação insustentável, reagir aos desmandos, as torturas e a opressão dos samurais de Tokugawa, aliás, vale ressaltar que Tokugawa teve o apoio dos protestantes holandeses (hoje preferem ser chamados evangélicos), os quais posicionaram seus canhões contra os católicos japoneses.

Sobre os aspectos artísticos, o filme apesar de antigo me agradou bastante. A trilha sonora é discreta, porém adequada. As cenas de tortura sutis, ainda que suficientemente impactantes. As cenas de combate "crus", um grande acerto, uma vez que um detalhamento e romantização excessiva destas acabariam por desviar a atenção de toda a sua selvageira.

Dito isto, que conclusão há de se tirar do filme? A arte é um tanto quanto subjetiva e pode vir a inspirar reações diversas ao expectador, entretanto a mim ressalto que a mim chamou a atenção o modo como a revolta tornou-se um fim em si mesmo e a fé foi passando ao segundo plano, as orações foram escasseando-se, e se deixou de interrogar a Deus quanto a sua vontade. Até que ponto não me comporto de forma análoga, embora, felizmente, com contornos não tão graves e dramáticos? Outro ponto o qual me coloco a pensar é sobre a realidade da perseguição. É certo que hoje há no ocidente alguma hostilidade ao cristianismo, mas, até que ponto podemos comparar esta hostilidade a violenta perseguição a qual foram submetidos tantos santos e mártires? Falar de perseguição hoje é uma hipérbole descabida. Que tortura sofremos nós? Quando foi a última vez que fomos encarcerados por motivos de religião? Ao invés disso queremos coroar nossa covardia, comparando uma mera hostilidade, certas limitações de ação tanto maiores devido a nossa covardia, a pesada cruz que carregaram os heróis da fé?

Haveria ainda outras coisas a se dizer, mas fica para textos futuros. Por hora indico o filme, bem como sugiro ao leitor para que se reze pela conversão dos japoneses a fé católica, e por Amakusa Shiro, que Deus tenha piedade de sua alma!

sábado, 9 de maio de 2020

Ruína de Jerusalém e dispersão dos Judeus

A destruição de Jerusalém é um dos acontecimentos mais terríveis que se registram nas páginas da história. Os profetas tinham predito, com muitos séculos de antecipação, que os Judeus, por sua obstinação por desprezar o Evangelho, e como castigo do deicídio que tinham cometido na pessoa do Salvador, seriam expulsos dos seus países e viveriam dispersos por todo o mundo, sem rei, sem templos e sem sacerdotes, Jesus em termos ainda mais claros, também tinha vaticinado que os judeus seriam sitiados em Jerusalém e reduzidos a uma penúria inaudita; que se destruiria sua cidade, se incendiaria seu templo, e que se dispersaria seu povo; e acrescentou ainda que todas essas coisas se cumpririam antes que morresse aquela geração a que ele falava.

Deus, infinitamente, misericordioso, quis avisar mais uma vez aquele povo por meio da pregação, das admoestações dos Apóstolos, e de muitos sinais espantosos que nos narram vários historiadores entre eles alguns judeus. José Flavio, por exemplo, judeu douto, que teve grande parte naqueles desastres, conta, entre outras coisas, que no dia de Pentecostes se fez ouvir uma voz no templo, que sem se saber de onde saia, fazia ressoar estas palavras: "saiamos daqui, saiamos daqui". Um homem chamado Anano que tinha ido da roça a Jerusalém para assistir à festa dos Tabernáculos, ainda antes de que se falasse da guerra, começou a gritar de improviso pelos ângulos da cidade: "Ai do Templo, ai de Jerusalém! voz do oriente, voz do ocidente, voz dos quatro ventos; ai do Templo, ai de Jerusalém!" Foi preso, encarcerado, e açoitado quase até a morte; porém nem assim deixou de gritar pela cidade em voz alta as mesmas palavras durante três anos, até que um dia correndo sobre os muros, enquanto gritava: "Ai de mim mesmo!" foi ferido por uma pedra e morreu.

Certa vez, pelas nove da noite resplandeceu ao redor do templo e do altar uma luz tão viva, que pelo espaço de meia hora pareceu estar em pleno dia; outra vez uma porta do templo, de bronze tão pesada que para move-la eram precisos vinte homens, achou-se aberta por si, e sem que ninguém a tocasse. Alguns dias depois, em todas as povoações circunvizinhas viram-se no ar, ao redor de Jerusalém, exércitos em ordem de batalha, que cercavam e davam sinais de querer tomá-la de assalto. Apareceu também um cometa que dardejava chamas com raios, e uma estrela em forma de espada que permaneceu um ano no mesmo lugar, tendo sempre a ponta voltada para a cidade. Estes sinais pressagiaram que deviam cair sobre Jerusalém graves e iminentes desastres. Com efeito, os romanos sob o mando sucessivo de Vespasiano e de Tito foram, sem saber, os instrumentos de que se valeu a ira de Deus para cumprir seus desígnios. A Nero, como já foi dito, sucedeu um imperador chamado Galba e a este, outro chamado Vitélio; ambos foram despojados do trono por seus próprios vícios e sua tirania, e se proclamou em seu lugar a um grande general chamado Vespasiano, Este amava a justiça, quanto podia amá-la um imperador idólatra, e era querido por todos por sua afabilidade e valor. O próprio Nero já o havia enviado para combater os judeus; porém quando o elegeram imperador, ele deixou seu filho sob os muros de Jerusalém para que continuasse a guerra, enquanto voltava à Roma.

Ainda viviam muitos dos que se achavam presentes à morte do Salvador, quando os exércitos romanos foram sitiar Jerusalém. Como o sítio começasse naqueles mesmos dias em que se achavam ali reunidos um grande número de judeus que tinham acudido de toda a Palestina e dos países limítrofes para celebrar as festas da Páscoa, aconteceu que achando-se aquela desgraçada cidade cheia de gente, de pronto começassem a faltar alimentos, chegando a tal extremo a fome que seus habitantes arrancavam-se uns aos outros das mãos as coisas mais imundas para não morrer. Houve mães que naquele estado de desespero, (coisa horrível!) chegaram a alimentar-se de seus próprios filhos. Tomada de assalto a cidade, foram mortos um milhão e cem mil judeus, e outros tantos foram reduzidos à escravidão. Estes como não fossem vendidos, por não haver compradores para tão grande número de escravos, foram em parte doados e outros mortos porque não havia quem os quisesse nem de graça. Destruídas em grande parte as casas e queimado o templo, todo o povo que se pode salvar da morte ou da escravidão dispersou-se pelas demais cidades; contudo a total dispersão dos judeus não se realizou até princípios do segundo século. O Papa São Lino pode ver os infelizes judeus escravizados por Tito, chegarem a Roma aos montões, par serem condenados a penosíssimos trabalhos, entre outros o de erigir um arco do triunfo a seu vencedor. Ainda vê-se presentemente o candelabro com sete braços, tirado do templo de Jerusalém e o magnífico anfiteatro chamado de Flávio Tito, cujas ruínas admiráveis ainda existem em Roma, e é conhecido sob o nome de Coliseu.

São Lino valeu-se deste terrível acontecimento para confirmar na fé os judeus, que se tinham convertido e para atrair a ela os menos obstinados no erro.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Cap, VI, p.39-42.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O Caminho


4ª Semana da Páscoa | Sexta-feira
Primeira Leitura (At 13,26-33)
Salmo Responsorial (Sl 2)
Evangelho (Jo 14,1-6)

A filosofia de Lao Tsé gira em torno do "Tao", o termo chinês que significa "caminho", "via" ou "princípio". No taoismo, especificamente, o termo designa a fonte, a dinâmica e a força motriz por trás de tudo que existe. No Evangelho de hoje ensina nosso Senhor Jesus Cristo: "Eu sou o Caminho [...]" O Didaquê, o catecismo dos primeiros séculos, fala também do cristianismo como o Caminho.

São Justino, mártir e teólogo leigo, fala de algo o qual designa por ''sementes do verbo'', como que pequenos sinais da Revelação presentes na filosofia grega as quais deveriam ser germinadas pelos pregadores afim de levar aquele povo a conversão. Não estariam tais sementes também presentes na filosofia chinesa?
Há algo completamente entorpecido
Anterior à criação do céu e da terra
Quieto e êrmo
Independente e inalterável
Move-se em círculo e não se exaure [...]
Chamo-o de Caminho
Esforçando-me por denominá-lo, chamo-o de Grande [...] 


- Lao Tsé

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os Sentidos da Escritura


115. Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, subdividindo-se este último em sentido alegórico, moral e anagógico. A concordância profunda dos quatro sentidos assegura a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja:

116. O sentido literal. É o expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as regras da recta interpretação. «Omnes sensus (sc. Sacrae Scripturae) fundentur super litteralem»«Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) se fundamentam no literal».

117. O sentido espiritual. Graças à unidade do desígnio de Deus, não só o texto da Escritura, mas também as realidades e acontecimentos de que fala, podem ser sinais.

1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo o seu significado em Cristo: por exemplo, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e, assim, do Baptismo.

2. O sentido moral. Os acontecimentos referidos na Escritura podem conduzir-nos a um comportamento justo. Foram escritos «para nossa instrução» (1 Cor 10, 11).

3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos no seu significado eterno, o qual nos conduz (em grego: «anagoge») em direcção à nossa Pátria. Assim, a Igreja terrestre é sinal da Jerusalém celeste.

118. Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos:

«Littera gesta docet, quid credas allegoria.
Moralis quid agas, quo tendas anagogia».

«A letra ensina-te os factos (passados), a alegoria o que deves crer,
a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender».

119. «Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Sagrada Escritura, para que, mercê deste estudo, de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus»:

«Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas»«Quanto a mim, não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica».

- Catecismo da Igreja Católica, §115-119.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Catolicidade, o bom pastor e o mercenário

4ª Semana da Páscoa | Segunda-feira
Primeira Leitura (At 11,1-18)
Salmo Responsorial (Sl 41)
Evangelho (Jo 10,11-18)

1. Nos primeiros anos do cristianismo houve uma discussão entre judeus conversos se os gentios também eram chamados a promessa e se estes deviam assumir os costumes judaicos. A solução nos já o sabemos. Mas, ah, tantos parecem revivificar as polêmicas de outrora, contrariar o que foi definido: a ''civilização ocidental'' se transforma no novo judaísmo; aos costumes judaicos se substitui os modos da Europa, como se ocidentalização fosse critério fundamental para a conversão dos povos; se nem a lei de Moisés o era, porque julgas que seu horizonte cultural limitado no tempo e no espaço o seria, oh, homem estulto?

2. O bom pastor chama suas ovelhas pelo nome e arrisca sua vida por elas. O mercenário foge e as deixa entregue a morte, aos lobos. 

Nesta pandemia, tanta irracionalidade se manifesta. Os bispos que suspenderam as missas públicas são chamados de covardes, acusados de maus pastores, enquanto a temerária atitude dos hereges, a realizar cultos lotados, expondo as ovelhas ao contágio e a morte, a estes louvam aqueles que estão cegos pela ideologia. Isto inserido em um contexto maior onde o presidente que convoca toma parte em manifestação de massas, que infla o povo incuto ao boicote da quarentena, expondo-os ao risco de morte e, quando questionado sobre os cadáveres responde cinicamente: ''e daí!?''; oh, homens de inteligência limitada, já muito tempo transcorreu, o comportamento de vossos líderes é ada vez mais claro e não o sabeis discernir entre o pastor e o mercenário?

domingo, 3 de maio de 2020

A Bíblia e a Tradição - Dom Bosco

Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de haver pregado de viva voz sua doutrina, subiu aos Céus sem deixá-la escrita nem reunida em livro algum ditado por Ele. Por que o fez assim? Para nos ensinar que Ele tinha feito depositários de sua doutrina os Apóstolos, isto é, a Igreja que devia depois explicá-la aos fiéis: ensinando-nos também que o principal instrumento da sua palavra devia ser a viva voz da sua Igreja. Com efeito, nos primeiros tempos, durante o curso de não poucos anos, o santo Evangelho foi conservado, ensinado e professado tão somente por meio da palavra viva dos Apóstolos e dos primeiros crentes. Nosso Senhor Jesus Cristo querendo, por outra parte, que ao menos uma grande parte da sua doutrina fosse confiada à palavra escrita, por inspiração divina moveu alguns dos Apóstolos e primeiros discípulos a por escrito sua vida e doutrina; e os livros por eles escritos formam juntos o que nós chamamos de Novo Testamento. Foram estes escritos: os quatro Evangelhos, escritos por São Matheus, São Marcos, São Lucas e São João; os Atos dos Apóstolos; as quatorze epístolas de São Paulo, duas de São Pedro, uma de São Tiago, uma de São Judas, e finalmente, três epístolas e o Apocalipse de São João. Estes livros sempre têm sido conservados em grande veneração por todos os cristãos, pois que foram inspirados por Deus. Sem embargo, como já foi dito, não se acham neles todos os feitos da vida de Jesus Cristo, nem todas as verdades ensinadas por Ele. As verdades não escritas foram ensinadas e transmitidas pelos Apóstolos e seus sucessores como um sagrado depósito que se chama Tradição divino-apostólica. A Tradição divino-apostólica contém as verdades que não se encontram escritas nos livros sagrados, a interpretação destes mesmos livros: por isso, quando a Igreja define um artigo de fé que não está manifesto na sagrada Escritura, o tira desse depósito chamado Tradição. Daí se tirou o dogma da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria e da infalibilidade Pontifícia.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Cap, V, p.32-33.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Como poderei entender, se não houver alguem que mo explique?


3ª Semana da Páscoa | Quinta-feira
Primeira Leitura (At 8,26-40)
Salmo Responsorial (Sl 65)
Evangelho (Jo 6,44-51)

E correndo logo Filippe, ouvio que o Eunuco lia no Profeta Isaias, e lhe disse: Crês por ventura que entende o que estás lendo?
Elle lhe respondeo: Como poderei entender, se não houver alguem que mo explique? E rogou a Filippe que montasse, e se assentasse com elle. (At 8, 30-31)

O diálogo entre Felipe e o eunuco ecoa e se repete pelos séculos sem fim. Mais do que nos tempos de outrora, a Sagrada Escritura está acessível, seja em edições de bolso ou versões digitais, em línguas diversas, isto sem falar que hoje o índice de alfabetização cresceu admiravelmente. Tantos e tantos homens estão a ler a Bíblia, mas se encontram na mesma situação do Eunuco, leem mas não a compreendem, pois não há quem lhes explique.

E a quem cabe explicar as Escrituras? A Igreja. Mais especificamente a Igreja docente. A este respeito, recordemos o que diz o Catecismo Maior de São Pio X:

179) Há alguma distinção entre os membros que compõem a Igreja?
Entre os membros que compõem a Igreja há distinção muito importante, porque há uns que mandam, outros que obedecem, uns que ensinam, outros que são ensinados.

180) Como se chama a parte da Igreja que ensina?
A parte da Igreja que ensina chama-se docente, ou ensinante.

181) E a parte da Igreja que é ensinada, como se chama?
A parte da Igreja que é ensinada chama-se discente.

182) Quem estabeleceu esta distinção na Igreja?
Esta distinção na Igreja estabeleceu-a o próprio Jesus Cristo.

183) A Igreja docente e a Igreja discente são, pois, duas Igrejas distintas?
A Igreja docente e a Igreja discente são duas partes distintas de uma só e mesma Igreja, como no corpo humano a cabeça é distinta dos outros membros, e, não obstante, forma com eles um corpo só.

184) De que pessoas se compõe a Igreja docente?
A Igreja docente compõe-se de todos os Bispos (quer se encontrem dispersos, quer se encontrem reunidos em Concílio), unidos à sua cabeça, o Romano Pontífice.

185) E a Igreja discente, de que pessoas é composta?
Á Igreja discente é composta de todos os fiéis.

186) Quais são as pessoas que têm na Igreja autoridade de ensinar?
Os que têm na Igreja o poder de ensinar são o Papa e os Bispos e, sob a dependência destes, os outros ministros sagrados.

187) Somos obrigados a ouvir a Igreja docente?
Sim, sem dúvida, somos todos obrigados a ouvir a Igreja docente, sob pena de condenação eterna, porque Jesus Cristo disse aos Pastores da Igreja, na pessoa dos Apóstolos: Quem vos ouve, a Mim ouve, e quem vos despreza, a Mim despreza.

188) Além da autoridade de ensinar, tem a Igreja mais algum poder?
Sim, além da autoridade de ensinar, a Igreja tem especialmente o poder de administrar as coisas santas, de fazer leis e de exigir a sua observância.

189) Virá do povo o poder que têm os membros da hierarquia eclesiástica?
O poder que têm os membros da hierarquia eclesiástica não vem do Povo, e seria heresia o dizê-lo: vem unicamente de Deus.

190) A quem compete o exercício destes poderes?
O exercício destes poderes compete unicamente ao corpo hierárquico, isto é, ao Papa e aos Bispos a ele subordinados.

Quão triste é, porém, quando é escasso o clero. Tanto mais triste quando este mesmo clero não é bem bem preparado, quando não conhece em profundidade as Sagradas Escrituras, antes perdendo tempo em tantas tolices.

O padre existe para celebrar os sacramentos e explicar a sã doutrina ao povo. É esta a essência do sacerdócio. Não é para fazer politicagem, não é para ser animador de auditório, diplomata interreligioso ou artista de TV.

Tivéssemos nós um clero zeloso e santo, esta nação não estaria entregue a balbúrdia das seitas protestantes. Tivesse o povo quem lhes explicasse as escrituras, nossos costumes não o seriam tão repugnastes. Mas, a culpa é também nossa, de nós leigos que negligenciamos nosso dever de oração pelo clero.

Se não houver alguma mudança, estas terras tropicais hão de retornar a barbárie dos tempos primitivos. Uma terra de ignorância e selvageria. Que Deus tenha misericórdia desta nação!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra...


2ª Semana da Páscoa - Quinta-feira
Primeira Leitura (At 5,27-33)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 3,31-36)

1. Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra... 
Numa triste ironia, nós que pelo batismo fomos adotados como filhos do céu, cá estamos a brigar pelas miudezas da terra. Não se pensa mais no céu. Não se fala mais do céu. Houve quem criticasse os teólogos medievais por especular sobre o sexo dos anjos, mas, estes nada mais faziam que manter a fidelidade a seu chamado de tratar das coisas de Deus. É certo que por vezes é preciso descer o Tabor e deixar a contemplação com afim de se ocupar das coisas da terra, afim de contribuir para a salvação das almas. Sempre, porém. com vistas ao céu. Onde está teu tesouro, ali está seu coração.

Aí de nós quando esquecemos do céu, dos milagres, das maravilhas que nos aguardam no além mundo, pensando tão somente neste. De alguma forma iníqua acabamos por imanentizar a religião, transformando-a numa espécie de ideologia, esperando não o banquete nupcial do cordeiro nos palácios celestiais, mas uma efêmero domínio da religião sobre as realidades temporais, dominância essa tratada não mais como meio, mas como um fim em si mesmo.

2. São Jorge era um soldado de alta patente. Poderia ter mobilizado seus subordinados contra o imperador ao invés de se entregar ao martírio. Curiosamente tais revoltas tendem a fracassar. Não porque sejam erradas em si mesmas, mas porque a guerra não raro é ocasião de muitos pecados. Fracassaram as cruzadas. Muitos dos soldados mundanizaram a guerra que deveria ser santa. Fracassou a Conspiração da Pólvora. Lendas locais falam inclusive que visões miraculosas teriam avisado Fawkes que tal operação não era do agrado de Deus:  ''Se a forma que eu vi é a de Santa Vinifrida - e assim foi, não posso duvidar - o empreendimento em que estamos engajados fracassará. Não é aprovado pelo céu. A visão me avisou para desistir". Fracassou a Rebelião de Shimabara, a historiografia não raro menciona abusos e sincretismos de Amakusa Shiro. Fracassou o Guerra de Canudos que desde o início jamais contou com o apoio da hierarquia.

Existem duas espadas, a temporal e a espiritual. No entanto, com que frequência o manejo da espada temporal não acaba terminando em abusos cruéis? Não atoa, a escritura destaca a ordem do Divino Mestre a São Pedro para que embainhe a espada.

terça-feira, 21 de abril de 2020

''Vós formastes o universo inabalável''


2ª Semana da Páscoa - Terça-feira
Primeira Leitura (At 4,32-37)
Salmo Responsorial (Sl 92)
Evangelho (Jo 3,7b-15)

1. Hoje é um daqueles poucos dias onde a tradução litúrgica soa tanto melhor que o antigo texto da Vulgata. Diz a tradução do Pe. Figueiredo: <Porque elle firmou o vasto corpo da terra, de sorte que elle não será abalado (Sl 92,1b)>, enquanto por sua vez canta o salmista: "'Vós firmastes o universo inabalável''. Com algum conhecimento de astronomia, aquilo que hoje cantamos no salmo se torna ainda mais sublime.

Nosso planeta está localizado em algum lugar na galáxia da Via Láctea. No centro de nossa galáxia, como em todas as galáxias, há um buraco negro. Toda a galáxia orbita em torno dele. A força gravitacional do buraco aumenta a cada instante, engolindo os corpos celestes em suas proximidades e rearranjando a distribuição espacial. Não só isso, os buracos negros de cada galáxia se atraem mutualmente, podendo chegar o momento em que haja um choque galáctico. Em escala um tanto menor, nosso sistema solar é governado por uma estrela em constante explosão interna, gerando luz e calor. Mas, tais explosões dependem de uma espécie de combustível atômico, quando este combustível se acabar, a tensão gravitacional irá matar a estrela, numa épica explosão conhecida como supernova, e todo o sistema em seu entorno, morrerá na escuridão. Pelo que sabemos, o universo é absolutamente instável. Entretanto, ''coincidente'' vivemos em uma era espacial de relativo equilíbrio, o qual é capaz de sustentar a vida. Muita sorte, não? Ou antes um ato de vontade do Criador.

''Vós formastes o universo inabalável''

É pela vontade do Senhor que toda essa instabilidade externa se mantém em equilíbrio inabalável e somos nós capazes de seguir em nossa vidinha...

2. <O espírito assopra onde quer: e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde elle vem, nem para onde ele vai: assim he todo aquelle, que he nascido do espirito. (Jo 3, 8)>

O vento sopra onde quer, assim é o Espirito. Mas, quão difícil é para nos a docilidade a seu chamado. Queremos ter o controle, um plano de vida estável, fixar raízes como plantas e não andar para lá e para cá ao sabor do vento, vivendo na incerteza, sem saber o dia de amanhã. Mas, por trás dessa agitação, dessa instabilidade, se exerce a virtude da Fé, a confiança naquele que conduz a história, a nossa historia, que nos ama, e tudo dispõe para o nosso bem, para que nossa aventura neste mundo seja lembrada como uma épica narrativa. É preciso Fé para deixar-se guiar pelo Espírito, vigilância para estar atento a seu chamado, discernimento para não confundir a sua voz. Que Deus nos conceda tais dons.

"Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra."

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Erro de Confúcio



É interessante que mesmo Confúcio, uma das mais esplêndidas inteligências que a humanidade conheceu, não soube avaliar o poder destruidor dos grupos mais capazes. Pretendendo colocar um ponto final na divergência entre reinos chineses, assim como dotar o Estado de gente competente a governá-lo, formatou a equipe dos integradores do poder ou da burocracia oficial chinesa. É Confúcio o Pai da burocracia moderna.

Partia o admirável filósofo do princípio que a cultura e o saber são valores superiores ao ouro e ao poder. Para ele, quem fosse mais capaz e culto é que deveria governar, porque as suas ambições seriam mais nobres que as dos demais detentores do poder. Em outras palavras, os burocratas serviriam melhor ao povo que os políticos, pois sendo o saber o objeto de sua ambição maior, não iriam deixá-lo para se vincularem à luta pequena e mesquinha pelo poder e pelo ouro, própria dos políticos.

O resultado foi o inverso do que pretendeu. Fortalecidos, os burocratas passaram a governar mais do que os governantes, pois detinham conhecimento maior, mais habilidade, não se afastando, todavia, do culto ao poder e ao dinheiro. Desta forma, passaram a concorrer com os próprios governantes na ambição pelo poder e pelo enriquecimento fácil. Atestam alguns historiadores que a época dos “Reinos Combatentes”, na China, só ocorreu em virtude da força dos integradores do poder.

É que, como Montesquieu afirmou, o homem não é confiável no poder, razão pela qual é necessário que o poder controle o poder.

O certo é que a burocracia nunca foi a solução dos problemas de governabilidade nem o conhecimento antídoto contra as ambições do poder e de riqueza. Confúcio errou por ter nascido muito antes que Montesquieu, que não errou porque entendeu melhor a história produzida a partir da burocracia chinesa.

- Ives Gandra Martins. Uma Visão do Mundo Contemporâneo; p.41-42.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"(...) dize-me onde o pozeste: e eu o levarei"

Oitava da Páscoa - Terça-feira
Primeira Leitura (At 2,36-41)
Salmo Responsorial (Sl 32)
Evangelho (Jo 20,11-18)

O Evangelho de hoje é surpreendente. Vemos subsistir no coração de Santa Maria Madalena o amor e a fidelidade mesmo estando a fé profundamente abalada.

Julgava Maria que Jesus estava morto, mas ainda assim se dirigiu até o sepulcro para terminar a preparação do cadáver. Não o encontrando, se põe a chorar, de tal modo que nem os anjos são capazes de consolá-la. Jesus lhe aparece, mas ela , inicialmente, não o reconhece, pensando ser ele o jardineiro,:

<Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? a quem buscas? ella julgando que era o hortelão. disse-lhe: Senhor se tu o tiraste, dize-me onde o pozeste: e eu o levarei. (Jo 20, 15)> 

"(...) dize-me onde o pozeste: e eu o levarei" . Maria está disposta a carregar um cadáver já a dias falecido e segundo a lógica provavelmente em decomposição e cheirando mau. E tanto mais forte se torna o episódio se nos recordarmos que Maria era judia, e na antiga religião judaica o contato com os mortos significava uma séria violação da lei, uma contaminação impura. Maria está disposta a violar a lei de seu povo e sofrer as consequências sociais disto, está disposta a colocar sua saúde em risco no contato com um corpo em decomposição, a vencer as naturais repugnâncias da própria natureza ante um cadáver. É uma fidelidade tamanha que não se vê nem nos próprios apóstolos. São João e São Pedro só se dirigiram ao túmulo depois de saber da Ressurreição. A fidelidade de Maria é recompensada pelo Senhor, que a permite ver o seu corpo ressurrecto de imediato. Os apóstolos viram tão somente os panos, tiveram, pois, que se dirigir a Galileia, tiveram que esperar, para ver a Jesus.

Que na contemplação desta cena, possamos ao menos procurar imitar um pouco da fidelidade de tão grande santa, tão injustamente caluniada por corações perversos e degenerados. Que Santa Maria Madalena interceda por nós!

domingo, 12 de abril de 2020

A Cósmica Renovação Pascal

Nada há de novo debaixo do Sol, dizia o Eclesiastes. Mas o autor inspirado não viveu o suficiente para contemplar a Ressurreição daquele o qual anuncia: "Eis que faço novas todas as coisas!". A Ressurreição foi uma ação sem precedentes em toda história cósmia universal. Se a Encarnação já foi uma realidade espantosa, e a Paixão algo inimaginável, a Ressurreição é a coroação estrondosa de tão santos mistérios. Em Deus que levanta dos mortos há a esperança ao homem de poder habitar com a divindade na eternidade; há o início dos tempos últimos, onde a Sinagoga dá lugar a Igreja, onde o povo de Deus se estende sua peregrinação pelo o universo, onde de tal modo a esperança cristã alimenta a alma, que os fiéis não mais temem a morte! Há uma profusão inédita de graças e milagres, distribuídas em todos os povos e nações. Há. pois, algo de novo debaixo do Sol!

A Ressurreição é o incio da nova criação, uma fonte criativa das mais mais diversas surpresas. Todos os anos a Igreja quer renovar a experiência pascal. Não se trata apenas de um recordar, de um fazer memória, mas é como se o evento de outrora se tornar-se presente uma vez mais, e a renovação que se deu naquele tempo, tomasse lugar em nossos corações, em nosso mundo, em todo o universo. Nestes dias tantos homens e mulheres estão em suas casas atentos pela primeira vez aos sussurros de sua alma. A peste parou a indústria, os ecologistas falam em linguagem complicada sobre um recuo da poluição, a terra começa a se recuperar, se renovar, de tal forma que até mesmo se pode notar estranhos ruídos no céus. Este ano, a renovação pascal é quase que palpável. É certo que, embora avancemos mais um capítulo no processo desta nova Criação, está ainda não se dá por finalizada. Em meio a tantas surpresas e novidades, tantas vicissitudes, marcas do pecado original, permanecem. Fissuras que devem ser recriadas no futuro. Ano após ano, em cada Páscoa, algo de novo desponta no horizonte. Chegará um tempo, porém, onde a obra encontrará o seu término. Onde a Jerusalém Celeste irá se manifestar em toda a sua glória, o tempo onde haverá novos céus e nova Terra.  

Deus se encarnou, habitou entre nós, morreu e ressuscitou! Passou da morte a vida, e deu início a um processo misterioso e sublime, o qual no dia de hoje atinge um novo marco. Um novo mundo nos aguarda a partir de hoje, surpresas e desafios virão. Coragem, Ele está conosco, ressuscitou! 

Para além do episódio concreto da ressurreição, os costumes populares tendem a falar de um coelho branco, que trás consigo ovos de chocolate para alegrar as crianças. Que coisa mais inusitada, não? Mas tal coisa se torna possível na liberdade criativa da obra divina, cujo marco é a ressurreição de seu divino Filho. Quem sabe não encontraremos nós tão adorável criatura com seus saborosos ovos naquele mundo futuro? Que outras míticas criaturas não habitarão aquele mundo esperado? Aspiremos pois as coisas do alto, os tesouros e maravilhas o qual olho nenhum viu, ouvido jamais ouviu! 

Desejo a todos os irmãos de fé uma feliz e santa Páscoa!

 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Mudança


Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor
Primeira Leitura (Êx 12,1-8.11-14)
Salmo Responsorial (Sl 115)
Segunda Leitura (1Cor 11,23-26)
Evangelho (Jo 13,1-15)


<Eis aqui porém como haveis de comer. Cingireis os vossos rins, e tereis sapatos nos pés, e bordões nas mãos, e comereis à pressa: porque é a Paschoa, isto é, a Passagem do Senhor. (Ex 12, 11)>

Comer às pressas, com os sapatos nos pés e com bordão (cajado) nas mãos, como quem está a partir em uma viagem. E assim foi naquele tempo, logo após a morte dos primogênitos, partiram os judeus do Egito para a terra de Canaã. Apesar de, até então, vivermos uma era de turismo intenso e grande migração, curiosamente não nos acostumamos a mentalidade de peregrino. Antes pensamos desde a perspectiva de um fixismo burguês, um conservadorismo boboca de que o presente há de perpetuar-se eternamente. Quão frágil é a paz, quão instáveis o são as fronteiras das nações? Ao longo do último século, quantos países nasceram e morreram, o quanto as fronteiras nacionais se alteraram? Recordo-me do Império Austro-Húngaro que desapareceu; da União Soviética absorveu uma quantidade considerável de nações e depois as vomitou; das nações europeias perderam suas colônias. E ainda mais instável o é a prosperidade econômica e, que se dirá da ordem política? Nos últimos anos, tanto ódio fora dirigido aos imigrantes, mas dado a instabilidade do mundo, nós poderemos vir a desempenhar esse papel... Estamos prontos para isso? Prontos para deixar nossa base, nossa comodidade, e partir em viagem? A maioria de nós não está. Antes esperamos ficar plantados onde estamos. Na mesma cidade, no mesmo emprego, na mesma rotina. Não reagimos bem a mínima mudança, seja geográfica ou não.

Soa estranho que se venha a falar de mudança e viagem enquanto estamos nós confinados em casa devido a pandemia. Mas, não estavam também os israelitas confinados, esperando a passagem do anjo exterminador?

sábado, 4 de abril de 2020

O aborto e o caos na estrutura social chinesa


O principal argumento contra o aborto é de natureza moral. Nenhuma pessoa honesta pode admitir tamanha crueldade: o violento assassinato de bebês no ventre materno. Todavia, uma miríade de outros argumentos podem ser elencados contra esta prática montuosa. Cito o caso da China, onde a legalização do aborto trouxe consigo o assassinato em massa de meninas, gerando uma gigantesca desproporção demográfica, de modo que há um número reduzido de mulheres disponíveis para o casamento.

Ao que parece ter um único filho foi uma forma implementada para evitar que a população alcançasse a casa dos 1,6 bilhão de habitantes. Esse controle de natalidade é feito com o uso de um sistema de prêmios e castigos, que fornece vantagens para aqueles que têm apenas um filho e penas severas para quem desrespeita a regra, como multas pesadas e perda do emprego. Um detalhe: na China o aborto é legal e é feito por aproximadamente US$ 50,00.

Eis que encontramos um dos principais problemas na estrutura social chinesa. Isso porque a população possui uma preferência que dura até hoje por bebês do sexo masculino o que, juntando com o custo do aborto, levou à atual situação de desequilíbrio entre os sexos. Hoje o número de homens supera o de mulheres em 40 milhões. Isso faz com que os especialistas tenham um número mais grave para 2020, que, segundo as projeções, fará com que milhões de rapazes não se casem por “absoluta falta de parceiras disponíveis”.

Autoridades e especialistas chegam a uma mesma opinião: a de que desse desequilíbrio possa surgir problemas mais graves como o aumento da violência dentro e fora do país, o seqüestro de mulheres, a grande incidência de casamentos por dinheiro e, claro, prostituição.

E por que as coisas chegaram a esse ponto? Simples: os casais usam os exames de ultra-sonografia para verificar o sexo do bebê. Como preferem que seja menino, se caso confirme que se trata de uma menina basta abortar e começar de novo. Claudia Trevisan divulgou alguns números que são verdadeiramente assustadores: no mundo nascem entre 106 e 107 meninos para cada grupo de meninas, enquanto na China esse número sobre para 117 para cada 100. E em alguns lugares da zona rural, chega a 130 para cada 100.

O último censo chinês estima que, dos 40 milhões de homens que sobram atualmente, cerca de 23 milhões possuem menos de 19 anos. Quando a idade vai para a faixa dos 0 a 4 anos, a relação é de 122,69 meninos para cada 100 meninas, um índice pior do que o da faixa de 5 a 9 anos, que registra 119 para cada 100.

O crescente número de homens em seu contingente é uma constante preocupação para governo e entidades de defesa de mulheres e crianças porque os casos de violência contra mulheres têm aumentado. Entre 2001 e 2003, para se ter uma idéia, cerca de 42,2 mil mulheres e crianças foram libertadas de um tráfico que as leva não só para outras regiões do país como também expande seus tentáculos para alcançar outros países asiáticos, como Tailândia, Vietnã e Coréia do Norte. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) trabalha regularmente com o governo chinês para minimizar essa atividade no interior do país.

Essa preferência por filhos homens tem suas raízes na própria tradição chinesa. Os homens são, dentro da filosofia confuciana ainda em voga, aqueles que garantem a aposentadoria dos pais num país em que o sistema de seguridade social é precário, principalmente no campo. Para eles, é o filho e não a filha que é responsável por cuidar de pais e avós na velhice. Elas, por sua vez, têm a obrigação de cuidar da família do marido após o casamento.

Se formos para o campo a situação se agrava, pois pela própria natureza do trabalho (e o uso de força bruta) os filhos homens são bem mais valorizados. Assim são eles caracterizados como a garantia da aposentadoria de seus progenitores e caracterizam a mão-de-obra necessária na economia rural. Porém, como no interior é uma situação bem diferente da cidade, há um relaxamento na lei: um casal que tem uma filha, por exemplo, pode ter um segundo filho desde que se espere pelo menos quatro anos. Esse “benefício” não é estendido para um casal que ganha um filho homem logo de cara.

Especialistas da Brigham Young University, nos Estados Unidos, e da University of Kent em Canterbury, na Inglaterra, dizem que, do ponto de vista histórico, a maior parte dos crimes são cometidos por homens jovens e sem laços familiares. Essa preocupação é latente pelas tentativas dos governos de diversos países com grande parte da população masculina nesses quesitos, quando são criadas campanhas militares em que os jovens são necessários. Para esses pesquisadores, o desequilíbrio sexual na China visto nos últimos anos é um fato completamente novo na história da humanidade, pois nunca se havia chegado a um ponto similar.

- Sergio Pereira Couto. A Extraordinária História da China; p.132-133.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

"Stat Crux dum volvitur orbis"


5ª Semana da Quaresma - Quarta-feira
Primeira Leitura (Dn 3,14-20.24.49a.91-92.95)
Salmo Responsorial (Dn 3,52-56)
Evangelho (Jo 8,31-42)

A quarentena já está torrando a paciência. Muitos só querem que isso acabe logo e as coisas retornem a normalidade. Mas, essa normalidade burguesa é uma ilusão.A sociedade humana é instável e impressível, sendo impossível a perpetuação do passado ou do presente na história. Aliás, este é um dos aspectos mais infantis da ideologia marxista: sonhar com um futuro fim da história desde uma perspectiva imanente, como se pudessem perpetuar-se e fazer de seu regime eterno; chega mesmo a ser cômico!

Retornando o raciocínio, o Corona já transformou nossas vidas, o mundo de outrora passou. A peste ceifou a milhares de vidas (no momento em que escrevo este texto, por volta de 40 mil) e tudo indica que sua sede por sangue ainda não foi saciada. Tantos perderam amigos, familiares e levam agora  uma marca indelével n'alma. Muitos perderam empregos, outros tantos ''perderam o CNPJ''. Foi gestada uma crise de oferta e demanda, de modo que toda a animação de recuperação econômica desaparece e o otimismo de outrora dá lugar a um pessimismo agonizante. A paralisação acelerou o processo de virtualização da sociedade e a marcha tecnológica, o amanhã será online. A crise sanitária também remanejou as peças do jogo político; no âmbito nacional, a direita que vivia uma fase de vigorosa acensão se transforma agora em um poder frágil prestes a se desintegrar. No estrangeiro, foi a pá de cal na era de dominação americana e o marco do mundo chinês. Se a crise terminar hoje, ainda assim o mundo que fica não é mais ou mesmo de antes. E, quanto mais se prolonga esta guerra sanitária contra a virose mortífera, tanto mais irreconhecível será o mundo futuro.

O mundo futuro, porém, logo se transformará em passado e será substituído por outro construto ainda mais imprevisível. A história é assim, um mar revolto e instável. Se assim o é, onde encontraremos a segurança e a estabilidade para edificar nossas vidas? A liturgia de hoje, uma vez mais, nos trás uma resposta oportuna: oportuna ao tempo em que estamos vivendo.

<Pelo que dizia Jesus aos Judeus, que n'elle crêram: Se vós permanecer es na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discipulos: E conhecereis a verdade, e a verdade vos livrará.“ (Jo 8, 31-32)>

"Stat Crux dum volvitur orbis" ("A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita"),

Entre todas a instabilidade desta época, em que numa sutil ironia o mundo parado seja o motor de uma radical mudança civilizacional, se permanecermos em Sua palavra, seremos verdadeiramente livres! E tal liberdade nos dará forças para perseverar em nossa jornada no novo mundo que virá.

QUE NÃO MUDOU

A noite desabou sobre o cáes
pesada, côr de carvão.
Uivam cães na escuridão.
Quando o dia se elevar
outras sombras cairão.
Todas as coisas mudarão.
Gloria Áquele que não mudou.
As sombras se despenharam
pesadas côr de carvão.
A geografia mudou.
Gloria Áquele que não mudou.
As estrelas já morreram
O velho tempo secou.
Na Gloria eterna caminha
Aquele que não mudou.

- Jorge de Lima

A vós louvor, honra e glória eternamente!

segunda-feira, 30 de março de 2020

Juvenil Surrealismo Quarentenário

Foi em um recente artigo de Aleksandr Dugin, entre a peste e Resident Evil que encontrei a referência deste filme que é tido como um clássico cult da história do cinema.; O Anjo Exterminador de Luis Buñuel. Quando se trata de um clássico, a tendência entre os críticos tardios é entoar loas a "genialidade" da obra, o que não o farei. É certo que o roteiro é sugestivo, tanto mais hoje. Temos um grupo de aristocratas que misteriosamente ficam presos dentro da sala de uma rica mansão. Misteriosamente, pois não há barreiras físicas e nenhuma revolução exterior que impeça sua saída, antes, num recurso bem surrealista, uma espécie de bloqueio mental. É sugestivo pensar sobre isso em tempos de pandemia, onde muitos estão confinados em suas casas, tanto mais por um análogo bloqueio mental gerado pelo medo (o que não entrarei no mérito se é ou não justificado) que pela repressão estatal. A criatividade acaba aí, de resto temos uma crítica adolescente ao teatro social burguês, e um cair das máscaras da aristocracia, que em situações extremas manifesta toda a animalidade de uma natureza humana profundamente corrompida. Este tipo de tolice pode vir a impressionar a juventude, intrinsecamente tola e impressionável, embora para qualquer homem maduro seja algo um tanto quanto tedioso. Sim, o mundo burguês é um teatrinho social, que há de novo nisso? Acaso alguém não o sabe? Aliás, o que verdadeiramente impressiona no filme é que os personagens perseverem tanto em um simulacro de civilidade, tendo alguns de fato manifestando verdadeira virtude (apesar das troças do diretor); meus contemporâneos já teriam perdido compostura bem mais cedo. Poderia terminar o artigo por aqui uma vez que o filme é basicamente isso; o autor se limita uma contemplação sádica da baixeza humana aliado há simbolismos desconexos, e sutis alfinetadas a Igreja. Não há. pois, nada de propositivo, nenhum argumento estético sobre como transcender as limitações e superar a perspectiva hipócrita em favor de uma sinceridade existencial. Buñuel é fraco, e seu Exterminador não tem nada de genial. Estilo sem substância. E mesmo o estilo é limitado a premissa, pois para um filme surrealista, o impacto visual é quase insignificante, a fotografia não choca, tampouco fixa na lembrança, passados poucos dias desde que assisti ao filme,são poucas as imagens das quais me recordo. 

Sobre o filme, nada mais há a dizer senão que talvez Resident Evil possa vir a ser uma obra mais interessante.

sexta-feira, 27 de março de 2020

"não era ainda chegada a sua hora"

4ª Semana da Quaresma - Sexta-feira
Primeira Leitura (Sb 2,1a.12-22)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 7,1-2.10.25-30)


<Procuravão pois os Judeos prendello: mas ninguem lhe lançou as mãos, porque não era ainda chegada a sua hora. (Jo 7, 30)>

Deus é o Senhor da história e, em mais um paradoxo quase que incompreensível para nós homens, há uma harmonia entre a liberdade humana e como que alguns ''marcos de roteiro'' estabelecidos pelo Divino Autor. Desde essa perspectiva devemos nós entender nosso encontro com a morte. Por mais que o episódio aparente desde nossa perspectiva uma simples e terrível fatalidade, na verdade o fim dos nossos dias já tinha sido determinado desde antes de nascermos. Quando chegar a nossa hora, haveremos de pegar o expresso para o outro mundo, uma passagem só de ida, cujo destino não o sabemos... Em um belo dia cá estamos aqui, despreocupados, no outro lá estaremos a no entremundos, a espera do maquinista em companhia da morte. Ou quem sabe um barqueiro, os gregos falavam de Caronte; mas, isto deve ser tomado apenas como analogia. Seja de trem, de barco ou dirigível, o certo é que nossa passagem já foi comprada desde antes da concepção e tal viagem não pode ser adiantada ou adiada, ao menos de nossa parte... Digo de nossa parte, pois, o Divino Autor tem absoluta liberdade para mudar seus planos, prorrogando ou reduzindo o tempo de cena de seus personagens. Há nas Cantigas de Santa Maria uma linda história a respeito de um frade, que pela intercessão da Imaculada, pode retornar a vida afim de se arrepender de seus pecados e escapar do inferno. Como nos Bodas de Caná, por intermédio da Virgem Santíssima, Deus mudou seus planos para com aquele pobre frade. Ou quem sabe também já estivesse em seus planos? Podemos perguntar isso a Ele em oração, pode ser que nos responda algum dia...

quinta-feira, 26 de março de 2020

"Pro multis"


As palavras que se ajuntam "por vós e por muitos", foram tomadas parte de São Mateus, parte de São Lucas. A Santa Igreja, guiada pelo Espírito de Deus, coordenou-as numa só frase, para que exprimissem o fruto e a vantagem da Paixão.

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a "muitos" homens.

Dizendo, pois, "por vós", Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar "por muitos", queria aludir aos outros eleitos, fossem eles judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer "por todos", visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo : "Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos"; e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: "Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós Me destes, porque eles são Vossos".

Catecismo Romano, II Parte: Dos Sacramentos; VI. Da Eucaristia; p.269-270.

"a gloria que vem só de Deos"


4ª Semana da Quaresma - Quinta-feira,
Primeira Leitura (Êx 32,7-14)
Salmo Responsorial (Sl 105)
Evangelho (Jo 5,31-47)

<Eu não recebo dos homens a minha glória . (Jo 5, 41)>

<Como podeis crer vós outros, que recebeis a glória uns dos outros: e que não buscais a gloria que vem só de Deos? (Jo 5, 44.)>

A glória de Deus. Esta deveria ser a bússola que conduz a vida de todo o cristão. Entretanto, nem sempre é assim... Quantos não estão a buscar a glória dos homens, a fama, a vaidade? Quantos, por vezes, não se utilizam até da palavra de Deus para tal? A radicalidade profética do Evangelho é tida tão somente como uma obra de arte a ser admirada ao invés de um modelo a se imitar e uma doutrina a se seguir. É bonito, é aesthetic pensar sobre a figura do homem de Deus, aquele que busca a vontade do Pai acima de tudo, que não tem medo da pobreza, da hostilidade do mundo, da morte. Quão belo é assistir tudo... Mas, nos reduziremos apenas a isso: uma legião de fãs gordos e sedentários que procuram apenas assistir o drama cósmico da ao guerra ente os exércitos de Deus e do diabo na história sem, contudo, tomar parte nesta luta? Nos furtaremos de tomar a sério o Evangelho e verdadeiramente nos esforçar-mo-nos por segui-lo? Que Deus nos livre de tamanha covardia.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O "plano de poder" da Igreja


4ª Semana da Quaresma - Anunciação do Senhor - Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 7,10-14;8,10)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Segunda Leitura (Hb 10,4-10)
Evangelho (Lc 1,26-38)

<Porque a Deos nada é impossível.  Então disse Maria: Eis-aqui a escrava do Senhor , faça-se em mim, segundo a tua palavra. (Lc 1, 27-28b)>

Para Deus NADA é impossível, mas, as maravilhas de Deus só se manifestam em nossa vida na medida em que nos dispomos a fazer a Sua vontade. É, mais um, dos grandes paradoxos de nossa santa religião. Um poder tremendo, aquele que é abençoado por Deus pode realizar o impossível, mas apenas na medida em que se dispõe a renunciar a própria vontade e fazer-se escravo do Senhor. É uma dinâmica absolutamente diferente daquilo que estamos acostumados. Eis o gládio espiritual, o qual se distingue de forma radical do gládio temporal,  o qual estamos acostumados a manejar. Se o poder dos homens consiste na capacidade de fazer valer pela força a própria vontade; ao contrário, o poder de Deus em nós se manifesta na fragilidade e na renúncia de nosso querer. Uma mulher humana colocada acima dos anjos, terrível como exércitos em ordem de batalha; a escrava do Senhor, tornou-se rainha do céu e da terra, dos anjos e santos. A doutrina dos dois gládios não é apenas uma limitação arbitrária imposta por algum papa medieval. é, antes, a perfeita descrição da estrutura do real!. Os dois gládios, as duas espadas, seguem lógicas diferentes, possuem uma técnica de manejo distintas; não se pode aplicar uma na outra nem a outra na uma.

A Virgem Santíssima é também imagem da Igreja. Apenas na medida em que esta (a Igreja) submete-se, como escrava do Senhor, conseguirá reinar. Não pela é diplomacia, nem pela bajulação aos poderosos a esquerda ou a direita,  tampouco pelo dinheiro, mas se submetendo inteiramente a vontade de Deus. Eis, pois, o ''plano de poder'' da Igreja. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

"De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria"


4ª Semana da Quaresma - Segunda-feira
Primeira Leitura (Is 65,17-21)
Salmo Responsorial (Sl 29)
Evangelho (Jo 4,43-54)

1. <Porque eis aqui estou eu que crio uns Ceos novos, e uma terra nova: e não persistirão na memoria as primeiras calamidades, nem subirão sobre o coração. (Is 65, 17)>; a primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías fala do advento de novos céus e nova terra. Tal profecia não deve ser tida em sentido figurado, mas de forma literal, e como tal ainda não se realizou, antes ainda esperamos sua realização para o fim dos tempos, conforme ensina o príncipe dos Apóstolos.

O mundo natural nos parece tão estável, tanto mais que nossa caótica sociedade, porem, até mesmo o universo, os céu e a terra passarão. E então virá um novo céu e uma nova terra... Isso nos devia inspirar uma atitude de humildade e encantamento ante a criação. Se nem o céu nem a terra são eternos, que podemos dizer de espécies diversas de plantas e animais? Quantos belos pássaros voaram de uma extremidade a outra, dos quais não mais ouviremos seu cantar? Quantas belas frutas não mais poderemos saborear? Tanta coisa do passado já não existe, assim como parte do presente não chegará ao futuro. O universo não é eterno. Se a própria criação é transitória, não deveríamos nós contempla-la com mais amor e zelar por ela com maior responsabilidade? É certo que no fim haverá de ser melhor, mas nossa jornada até lá...

2. <Porque ele nos fere na sua ira: e ele nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria. (Sl 29, 6)>; rezemos nesta tarde dos tempos, e sobretudo na escura noite que se avizinha, é tempo de pranto e sofrimento. Mas, ansiemos pela aurora, onde uma vez mais vem saudar-nos a alegria.