sexta-feira, 27 de março de 2020

"não era ainda chegada a sua hora"

4ª Semana da Quaresma - Sexta-feira
Primeira Leitura (Sb 2,1a.12-22)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 7,1-2.10.25-30)


<Procuravão pois os Judeos prendello: mas ninguem lhe lançou as mãos, porque não era ainda chegada a sua hora. (Jo 7, 30)>

Deus é o Senhor da história e, em mais um paradoxo quase que incompreensível para nós homens, há uma harmonia entre a liberdade humana e como que alguns ''marcos de roteiro'' estabelecidos pelo Divino Autor. Desde essa perspectiva devemos nós entender nosso encontro com a morte. Por mais que o episódio aparente desde nossa perspectiva uma simples e terrível fatalidade, na verdade o fim dos nossos dias já tinha sido determinado desde antes de nascermos. Quando chegar a nossa hora, haveremos de pegar o expresso para o outro mundo, uma passagem só de ida, cujo destino não o sabemos... Em um belo dia cá estamos aqui, despreocupados, no outro lá estaremos a no entremundos, a espera do maquinista em companhia da morte. Ou quem sabe um barqueiro, os gregos falavam de Caronte; mas, isto deve ser tomado apenas como analogia. Seja de trem, de barco ou dirigível, o certo é que nossa passagem já foi comprada desde antes da concepção e tal viagem não pode ser adiantada ou adiada, ao menos de nossa parte... Digo de nossa parte, pois, o Divino Autor tem absoluta liberdade para mudar seus planos, prorrogando ou reduzindo o tempo de cena de seus personagens. Há nas Cantigas de Santa Maria uma linda história a respeito de um frade, que pela intercessão da Imaculada, pode retornar a vida afim de se arrepender de seus pecados e escapar do inferno. Como nos Bodas de Caná, por intermédio da Virgem Santíssima, Deus mudou seus planos para com aquele pobre frade. Ou quem sabe também já estivesse em seus planos? Podemos perguntar isso a Ele em oração, pode ser que nos responda algum dia...

quinta-feira, 26 de março de 2020

"Pro multis"


As palavras que se ajuntam "por vós e por muitos", foram tomadas parte de São Mateus, parte de São Lucas. A Santa Igreja, guiada pelo Espírito de Deus, coordenou-as numa só frase, para que exprimissem o fruto e a vantagem da Paixão.

De fato, se considerarmos sua virtude, devemos reconhecer que o Salvador derramou Seu Sangue pela salvação de todos os homens. Se atendermos, porém, ao fruto real que os homens dele auferem, não nos custa compreender que sua eficácia se não estende a todos, mas só a "muitos" homens.

Dizendo, pois, "por vós", Nosso Senhor tinha em vista, quer as pessoas presentes, quer os eleitos dentre os judeus, como o eram os Discípulos a quem falava, com exceção de Judas.

No entanto, ao acrescentar "por muitos", queria aludir aos outros eleitos, fossem eles judeus ou gentios. Houve, pois, muito acerto em não se dizer "por todos", visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta sortiu efeito salutar unicamente para os escolhidos.

Tal é o sentido a que se referem aquelas palavras do Apóstolo : "Cristo imolou-Se uma só vez, para remover totalmente os pecados de muitos"; e as que disse Nosso Senhor no Evangelho de São João: "Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por estes que Vós Me destes, porque eles são Vossos".

Catecismo Romano, II Parte: Dos Sacramentos; VI. Da Eucaristia; p.269-270.

"a gloria que vem só de Deos"


4ª Semana da Quaresma - Quinta-feira,
Primeira Leitura (Êx 32,7-14)
Salmo Responsorial (Sl 105)
Evangelho (Jo 5,31-47)

<Eu não recebo dos homens a minha glória . (Jo 5, 41)>

<Como podeis crer vós outros, que recebeis a glória uns dos outros: e que não buscais a gloria que vem só de Deos? (Jo 5, 44.)>

A glória de Deus. Esta deveria ser a bússola que conduz a vida de todo o cristão. Entretanto, nem sempre é assim... Quantos não estão a buscar a glória dos homens, a fama, a vaidade? Quantos, por vezes, não se utilizam até da palavra de Deus para tal? A radicalidade profética do Evangelho é tida tão somente como uma obra de arte a ser admirada ao invés de um modelo a se imitar e uma doutrina a se seguir. É bonito, é aesthetic pensar sobre a figura do homem de Deus, aquele que busca a vontade do Pai acima de tudo, que não tem medo da pobreza, da hostilidade do mundo, da morte. Quão belo é assistir tudo... Mas, nos reduziremos apenas a isso: uma legião de fãs gordos e sedentários que procuram apenas assistir o drama cósmico da ao guerra ente os exércitos de Deus e do diabo na história sem, contudo, tomar parte nesta luta? Nos furtaremos de tomar a sério o Evangelho e verdadeiramente nos esforçar-mo-nos por segui-lo? Que Deus nos livre de tamanha covardia.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O "plano de poder" da Igreja


4ª Semana da Quaresma - Anunciação do Senhor - Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 7,10-14;8,10)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Segunda Leitura (Hb 10,4-10)
Evangelho (Lc 1,26-38)

<Porque a Deos nada é impossível.  Então disse Maria: Eis-aqui a escrava do Senhor , faça-se em mim, segundo a tua palavra. (Lc 1, 27-28b)>

Para Deus NADA é impossível, mas, as maravilhas de Deus só se manifestam em nossa vida na medida em que nos dispomos a fazer a Sua vontade. É, mais um, dos grandes paradoxos de nossa santa religião. Um poder tremendo, aquele que é abençoado por Deus pode realizar o impossível, mas apenas na medida em que se dispõe a renunciar a própria vontade e fazer-se escravo do Senhor. É uma dinâmica absolutamente diferente daquilo que estamos acostumados. Eis o gládio espiritual, o qual se distingue de forma radical do gládio temporal,  o qual estamos acostumados a manejar. Se o poder dos homens consiste na capacidade de fazer valer pela força a própria vontade; ao contrário, o poder de Deus em nós se manifesta na fragilidade e na renúncia de nosso querer. Uma mulher humana colocada acima dos anjos, terrível como exércitos em ordem de batalha; a escrava do Senhor, tornou-se rainha do céu e da terra, dos anjos e santos. A doutrina dos dois gládios não é apenas uma limitação arbitrária imposta por algum papa medieval. é, antes, a perfeita descrição da estrutura do real!. Os dois gládios, as duas espadas, seguem lógicas diferentes, possuem uma técnica de manejo distintas; não se pode aplicar uma na outra nem a outra na uma.

A Virgem Santíssima é também imagem da Igreja. Apenas na medida em que esta (a Igreja) submete-se, como escrava do Senhor, conseguirá reinar. Não pela é diplomacia, nem pela bajulação aos poderosos a esquerda ou a direita,  tampouco pelo dinheiro, mas se submetendo inteiramente a vontade de Deus. Eis, pois, o ''plano de poder'' da Igreja. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

"De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria"


4ª Semana da Quaresma - Segunda-feira
Primeira Leitura (Is 65,17-21)
Salmo Responsorial (Sl 29)
Evangelho (Jo 4,43-54)

1. <Porque eis aqui estou eu que crio uns Ceos novos, e uma terra nova: e não persistirão na memoria as primeiras calamidades, nem subirão sobre o coração. (Is 65, 17)>; a primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías fala do advento de novos céus e nova terra. Tal profecia não deve ser tida em sentido figurado, mas de forma literal, e como tal ainda não se realizou, antes ainda esperamos sua realização para o fim dos tempos, conforme ensina o príncipe dos Apóstolos.

O mundo natural nos parece tão estável, tanto mais que nossa caótica sociedade, porem, até mesmo o universo, os céu e a terra passarão. E então virá um novo céu e uma nova terra... Isso nos devia inspirar uma atitude de humildade e encantamento ante a criação. Se nem o céu nem a terra são eternos, que podemos dizer de espécies diversas de plantas e animais? Quantos belos pássaros voaram de uma extremidade a outra, dos quais não mais ouviremos seu cantar? Quantas belas frutas não mais poderemos saborear? Tanta coisa do passado já não existe, assim como parte do presente não chegará ao futuro. O universo não é eterno. Se a própria criação é transitória, não deveríamos nós contempla-la com mais amor e zelar por ela com maior responsabilidade? É certo que no fim haverá de ser melhor, mas nossa jornada até lá...

2. <Porque ele nos fere na sua ira: e ele nos dá a vida na sua boa vontade. De tarde estaremos em lagrimas: e de manhã em alegria. (Sl 29, 6)>; rezemos nesta tarde dos tempos, e sobretudo na escura noite que se avizinha, é tempo de pranto e sofrimento. Mas, ansiemos pela aurora, onde uma vez mais vem saudar-nos a alegria.

sábado, 21 de março de 2020

Breves considerações sobre uma "teologia" da estrutura narrativa...

E no final a Greta estava certa... Ao menos no mundo dos animes, onde a ganância humana levou o planeta Terra a uma situação onde não mais pode suportar a vida, de tal modo que foram os homens obrigados a espalhar-se pelo universo. Todavia, o trauma da destruição do planeta natal fez com que os homens se submetessem a uma violenta tecnocracia, entregando o governo a um totalitário algorítimo de computador conhecido como Grande Mãe. Nesta situação todos os aspectos da vida humana são rigorosamente controlados, sendo a reprodução realizada tão somente em laboratório, com a criança gerada confiada a um casal selecionado, onde são criadas até os 14 anos, época em que devem se submeter ao exame de maioridade onde, posteriormente, tem todas as suas memórias apagadas, estando prontos para tomar parte no sistema e iniciar a vida adulta. Acontece que durante este exame, algumas crianças manifestam poderes tremendos, são os Mu, uma nova raça, que deve ser eliminada do universo. Está é a premissa de Toward the Terra.

Apesar de um começo entediante e um traço não muito original, por volta do décimo episódio o anime encontra o tom, harmonizando um drama profundo com uma riquíssima trilha sonora. O salto temporal aliado ao recurso da longevidade dos Mu ajuda a abreviar o longo processo narrativo de evolução dos personagens. Igualmente, estes, embora sejam tipos de personalidade mais ou menos unidimensionais, estão perfeitamente integrados aos arquétipos que o inspiram, não há, pois o que reclamar.

A história, inicialmente segue uma trama análoga ao livro do Êxodo. Um povo oprimido que procura a libertação. Blue e depois Jomy encarnam uma espécie de Moisés a conduzir os Mu para uma vida longe dos humanos, em busca de paz. O anime tem já mais de 4 anos, o mangá algumas décadas, todavia o roteiro se mostra tanto mais forte visto desde hoje, onde um individualismo insano aliado a globalização capitalista destruiu o sentido de povo. O que é um povo? O que é um líder? A saga dos Mu nos traz uma luz ao mesmo tempo ancestral e futurista para essas questões.

O algorítimo da ''Grande Mãe'' nos traz a temática da idolatria em sentido estrito. Os homens fabricam para si falsos deuses, ídolos, e dão o controle total sobre si, pois temem as consequências nefastas da liberdade desregrada. Há de se temer que, no futuro, os hereges e idólatras do amanhã tentem confeccionar seus ídolos cibernéticos....

Mas a história não fica só nisso. É como se partisse do Antigo para o Novo Testamento, e a libertação, outrora confinada a um único povo, é ampliada para todo universo. Jomy não quer apenas libertar os Mu, mas também salvar a humanidade do tirania na qual se envolveu.

Outra questão interessante é o equilíbrio entre tradição e liberdade. O "soldado"  herda o seu cargo da geração anterior, é escolhido por seu antecessor moribundo, herda uma missão, um legado, ao mesmo tempo em que goza de liberdade para tomar decisões substancialmente diferentes as deste mesmo antecessor. Blue confiou a Jomy a missão de levar os Mu a Terra, Jomy confiou a seu sucessor a missão de conduzir os humanos e os Mu para fora da Terra.

Já em seus capítulos finais, houve um aspecto um tanto quanto marginal que me chamou bastante atenção. Falo do desfecho do capitão Murdock, em como no último momento, através de um ato heroico, deu sentido a toda a sua vida até então não muito admirável. Esse, aliás, é um aspecto curiosíssimo e interessantíssimo da existência humana. Nossos caminhos não estão definidos, nossa vida é uma aposta, cujo resultado pode mudar a qualquer momento. Ao final do jogo, toda uma existência vazia pode encontrar sentido em um único ato, assim como uma vida virtuosa corre o risco de perder todo o seu significado por uma covardia final. E tais atos não adquirem sua gravidade apenas ante a nossa história na terra, mas também sobre o destino eterno de nossa alma. Quantos não salvaram, e quantos não se condenaram no último minuto? Os calvinistas falam de predestinação... Se assim o fosse, seria um recuso de roteiro monótono e previsível que esvaziaria a existência humana de toda a sua identidade dramática. Não atoa a heresia presbiteriana é coisa de gente chata.

É pouco provável que o autor seja cristão ou tenha conhecimento sobre a História Sagrada, mas, as estruturas narrativas destas estão ali presentes. Como isso é possível? Tolkien responde, embora poucos o compreenderam. Deus é o autor por excelência, a revelação devidamente absorvida e explicitada é a narrativa por excelência. Todo o autor, na busca da excelência artística, há de, em maior ou menor grau, fazer com que sua criação se assemelhe a revelação, sem contudo constituir uma paródia.

Todos os caminhos levam a Roma, incluso o da Teoria Literária.

Não sei se consegui me explicar muito bem, mas não importa.

Deus é a bom, o belo e o verdadeiro. Toda verdade, beleza e bondade são como imãs que, devidamente purificadas, levam a Ele, o autor por excelência.

sexta-feira, 20 de março de 2020

"porque pela tua iniquidade é que caiste"


3ª Semana da Quaresma - Sexta-feira
Primeira Leitura (Os 14,2-10)
Salmo Responsorial (Sl 80,67-1)
Evangelho (Mc 12,28b-34)

A liturgia de hoje tem muito a nos dizer sobre o significado da epidemia com a qual hoje sofremos. A primeira leitura se inicia com o oráculo do profeta Oseas: <Converte-te, ó Israel, ao Senhor teu Deus: porque pela tua iniquidade é que caiste. (Os 14, 2)>. Depois da constatação de que o sofrimento é consequência advinda do pecado do próprio povo, segue uma oração penitencial, onde Israel é o eu lírico. Chama atenção nesta oração, segundo o texto da Vulgata, o trecho em que Israel renuncia a colocar sua esperança nas ''obras de nossas mãos''

<Assur não nos salvará, nós não montaremos em cavallos, nem diremos jámais: Os nossos Deuses são as obras das nossas mãos: porque tu te compadecerás d'aquelle Pupillo, que descança em ti (Os 14,4) >

Naquele contexto, tratava-se da idolatria, dos deuses de barro fabricados pelo povo a imitação dos povos pagãos.  Mas, não só isso, antes da referência aos ídolos se diz ''Assur não nos salvará''; e uma aparentemente confusa referencia segundo o qual ''não montaremos em cavalos". Assur se trata da Assíria, montar em cavalos se refere ao poder bélico de Israel. A idolatria não fora apenas manifesta materialmente, mas também ''politicamente''. Israel confiara nos ídolos, nas obras de suas mãos, nas suas alianças políticas e militares...Caiu.

Não é conosco a mesma coisa? Intentamos criar uma sociedade sem Deus, confiando apenas ''nas obras de nossas mãos''  e, um microscópico vírus invisível gerou um caos tremendo, expondo toda a nossa fragilidade. O Corona não é um castigo outrora profetizado, mas apenas uma advertência. Advertência que vem em tempo oportuno, justamente no período quaresmal. Quem dera consigamos discernir a voz de Deus em meio aos acontecimentos da história...

<Ouve, Povo meu, e eu te declararei a minha vontade: Israel, se me ouvires (Sl 80, 9)>

Estamos nós escutando? Prestamos atenção a tantas mortes, a exposição de nossa fragilidade, compreendemos a rígida medida a qual estamos submetidos, privados dos sacramentos, privados da comunhão no Corpo e Sangue de Cristo?

<Se o meu Povo me houvera ouvido: se Israel tivera andado nos meus caminhos (Sl 80, 14)>

Se escutássemos o Senhor, quantas graças receberíamos... Seria uma idade de ouro. Mas, se insistirmos em nossa dureza de coração, as profecias continuaram em seu ritmo inexorável, o trote dos quatro cavaleiros se fará escutar cada vez mais próximo, "Paris será queimada, e Marselha engolida [pelas águas]" ; "várias grandes cidades serão abaladas e tragadas por tremores de terra."; Roma se reduzirá a ruínas infestadas de cadáveres e chegará o tempo onde "os vivos invejarão os mortos".

Shemá Israel!

quarta-feira, 18 de março de 2020

"Não julgueis que vim destruir a Lei, ou os Prophetas"


3ª Semana da Quaresma - Quarta-feira
Primeira Leitura (Dt 4,1.5-9)
Salmo Responsorial (Sl 147)
Evangelho (Mt 5,17-19)

1. <Não julgueis que vim destruir a Lei, ou os Prophetas: não vim a destruil-os, mas sim a dar-lhes cumprimento. (Mt 5, 17)>; infelizmente, tantos agem como assim fosse, não de forma clara, como o herege Marcião (ou seus sucessores nazistas), mas de forma mais ou menos inconsciente e dissimulada. Quantos não ignoram as riquezas escondidas no Antigo Testamento? Quantos outros tolos não opõe sua teologia tacanha ao que está claramente expresso na Revelação?  Há, por exemplo, quem negue os castigos divinos, outros tantos condenam em absoluto toda a espécie de perspectiva guerreira e combativa.

Quão tolos são os homens! A Sagrada Escritura, o livro inspirado por Deus, um tesouro tremendo, tão desconhecido... Por vezes pelos próprios teólogos hodiernos que ao invés de explicitá-la acabam por distorce-la e instrumentaliza-la.

2. Por fim, trago algumas belas e oportunas linhas da Constituição Dogmática Dei Verbum, para a meditação neste dia de hoje. 

A história da salvação consignada nos livros do Antigo Testamento

14. Deus amantíssimo, desejando e preparando com solicitude a salvação de todo o género humano, escolheu por especial providência um povo a quem confiar as suas promessas. Tendo estabelecido aliança com Abraão (cfr. Gén. 15,18), e com o povo de Israel por meio de Moisés (cfr. Ex. 24,8), revelou-se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens (cfr. Salm. 21, 28-29; 95, 1-3; Is. 2, 1-4; Jer. 3,17). A «economia» da salvação de antemão anunciada, narrada e explicada pelos autores sagrados, encontra-se nos livros do Antigo Testamento como verdadeira palavra de Deus. Por isso, estes livros divinamente inspirados conservam um valor perene: «Tudo quanto está escrito, para nossa instrução está escrito, para que, por meio da paciência e consolação que nos vem da Escritura, tenhamos esperança» (Rom. 15,4).

Importância do Antigo Testamento para os cristãos

15. A «economia» do Antigo Testamento destinava-se sobretudo a preparar, a anunciar profèticamente (cfr. Lc. 24,44; Jo. 5,39; 1 Ped. 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cfr. 1 Cor. 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do género humano antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens. Tais livros, apesar de conterem também coisas imperfeitas e transitórias, revelam, contudo, a verdadeira pedagogia divina (1). Por isso, os fieis devem receber com devoção estes livros que exprimem o vivo sentido de Deus, nos quais se encontram sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces, nos quais, finalmente, está latente o mistério da nossa salvação.

Unidade de ambos ao Testamentos

16. Foi por isso que Deus, inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs tão sàbiamente as coisas, que o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo (2). Pois, apesar de Cristo ter alicerçado à nova Aliança no seu sangue (cfr. Lc. 22,20; 1 Cor. 11,25), os livros do Antigo Testamento, ao serem integralmente assumidos na pregação evangélica (3) adquirem e manifestam a sua plena significação no Novo Testamento (cfr. Mt. 5,17; Lc. 24,27; Rom. 16, 25-26; 2 Cor. 3, 1416), que por sua vez iluminam e explicam.

terça-feira, 17 de março de 2020

URGENTE: A Contrição Perfeita


No atual contexto de pandemia, onde muitos ficaram privados do sacramento da confissão, urge difundir os ensinamentos a respeito da contrição perfeita, que pode vir a ser a última tábua de salvação dos doentes e moribundos. Conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica:

1451. Entre os actos do penitente, a contrição ocupa o primeiro lugar. Ela é «uma dor da alma e uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais pecar no futuro» (43).

1452. Quando procedente do amor de Deus, amado sobre todas as coisas, a contrição é dita «perfeita» (contrição de caridade). Uma tal contrição perdoa as faltas veniais: obtém igualmente o perdão dos pecados mortais, se incluir o propósito firme de recorrer, logo que possível, à confissão sacramental (44).

Desta forma, trago ao leitor um breve e oportuno trecho da obra do padre Johann von den Driesch sobre o tema. Tal livro pode ser encontrado em .pdf na internet. Peço aos leitores que divulguem-no, e façam chegar a todos os quais estão privados do sacramento da confissão nestes tempos de peste.

Como se excita a contrição perfeita?

Hás de pressupor que a contrição perfeita é graça e grande graça do amor e misericórdia de Deus; e, se assim é, hás, portanto, de pedi-la com instância. Porém, não te contentes com fazê-lo somente quanto trates de excitar a contrição, porque o desejo de alcançá-la deve ser um dos mais ardentes anseios de tua alma. Pede-a, pois, dizendo: Senhor, dai-me a graça do perfeito arrependimento, da perfeita contrição dos meus pecados. E Deus não te faltará com a sua graça, se tiveres boa vontade.

Posto isto, repara como poderás facilmente conseguir a contrição perfeita.

Põe-te diante de um crucifixo, na igreja ou na casa de tua habitação, ou senão imagina que o tens diante de ti, e, chorando de compaixão à vista das feridas do Senhor, pensa uns momentos com fervor: Quem é este que está pendente da Cruz e sofrendo nela? — É Jesus, meu Deus e Salvador. Que sofre? — As mais terríveis dores no corpo, tem-no ensangüentado e coberto de feridas; a alma, tem-na lacerada pelas dores e afrontas. Por que sofre tudo isso? — Pelos pecados dos homens e... também pelos meus pecados; em meio de suas amarguradas dores, também pensa em mim, também sofre por mim, também quer expiar os meus pecados. — Entretanto, deixa que o sangue redentor do Salvador, quente ainda, caia sobre ti, gota a gota, e pergunta a ti mesmo como tens correspondido ao teu Salvador, tão atormentado por ti.

Pensa um momento, recorda teus pecados, e esquece-te, se quiseres, do Céu, do inferno, e arrepende-te principalmente porque são eles que a tão miserando estado reduziram o teu Salvador; promete-lhe que não tornarás a crucificá-Lo com mais pecados e, por fim, reza, pausadamente e com fervor, acompanhando com sentimento interno, as palavras, a fórmula da contrição.

Esta oração ou fórmula pode ser diversa e ainda pode cada um servir-se para ela de suas próprias palavras. No fim do livrinho, encontrarás algumas; contudo juntarei aqui uma bastante vulgar:

Senhor meu e Deus meu: pesa-me, do mais íntimo do coração, de todos os pecados de minha vida, porque com eles tenho merecido que a vossa divina Justiça me castigasse na vida e na eternidade; porque tenho correspondido ao vosso amor com tanta ingratidão, sendo como sois o meu maior benfeitor; porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Proponho firmemente emendar-me e não mais pecar. Dai-me, meu Jesus, a graça para cumpri-lo. Amém.

Três porquês contém esta oração, e a cada porquê acompanha um motivo de contrição, primeiro da imperfeita, depois da perfeita; pois, da imperfeita se passa mais facilmente para a perfeita e é por isto conveniente unir as duas espécies de contrição. Em outras palavras, convém que se excite em primeiro lugar a contrição imperfeita e depois a perfeita. Dize, pois:

1 — “porque com eles, tenho merecido...” Isto é ainda contrição imperfeita.
2 — “porque tenho correspondido...” Esta vai já se aproximando da contrição perfeita e até se reduz a ela; porque, se deveras sinto ter correspondido com ingratidão e com pecados ao amor e bondade de Deus, necessariamente hei de querer ressarcir com amor esta ingratidão; e o sentir por amor a ofensa do benfeitor, a quem até agora se desconhecia, é já contrição perfeita, contrição de caridade para com Deus.
3 — “porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido...” Se voltares a ler o capítulo I, entenderás o que isto significa e, entendendo-o, verás mais claramente expressado aqui o amor perfeito e a contrição perfeita. Para consegui-lo mais facilmente, podes acrescentar, mentalmente ou por palavras, o que segue: “porém, sobretudo, porque com eles Vos tenho ofendido a Vós, meu bem supremo e digno de todo o amor. Salvador meu que, por meus pecados, morrestes na Cruz”.

Depois vem o propósito: “Proponho...”
— Porém, padre — dir-me-ás talvez — para outros, será isso muito fácil, mas para mim, é coisa muito difícil, quase impossível. — Parece-te isso? Pois não o julgues tal.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Roncalli modernista?

É inegável a qualquer observador honesto o aspecto desastroso do Concílio Vaticano II, não só em sua recepção e interpretação, como também na letra de muitos de seus documentos, fruto de conspirações de atores diversos que vão desde os hereges modernistas até os maçons e judeus. Entretanto, de tal constatação, não raro advém da parte de alguns uma simplificação temerária (por vezes beirando ao cisma) de tomar os pontífices do contexto conciliar e pós-conciliar como tomando parte ativa e consciente no processo de demolição da Igreja, sendo eles agentes infiltrados destes atores ocultos. Com relação a Angelo Giuseppe Roncalli, hoje venerado como São João XXIII, a acusação mais comum é que este seria um herege modernista, adepto das teses condenadas na Pascendi por São Pio X. Afim de confrontar tais acusações, trago ao leitor alguns trechos selecionados do diário de Roncalli, publicado integralmente pala Paulus no ano 2000, que demonstram a profunda admiração e devoção que João XXIII nutria para com São Pio X, bem aqueles em que refletem alguns aspectos de sua espiritualidade. 

  • Sobre São Pio X
O estudo não deveria ser considerado assim tão importante: o segundo elemento de uma vida Sacerdotal eficaz e também uma segunda tábua de salvação nos nossos tempos. Deus me livre de ter o estudo em pouca conta, mas também devemos precaver-nos para não darmos ao estudo um valor excessivo e absoluto. O estudo é um olho, o esquerdo; mas, se faltar o direito, de que valerá um só olho, só o do estudo? Afinal, o que é que eu sou com o meu doutoramento? Nada, um pobre ignorante... Estudar sempre, sem permitir-me descansar: “Digo a cada um de vós que não se considere mais do que deve, mas que procure pensar sempre de si com simplicidade”... Como é sábia a frase do nosso Santo Padre Pio X aos jovens seminaristas: - “Meus filhos, estudai, estudai muito; mas sede bons, amor a Deus”... devo procurar estudar mais para a vida do que para os exames...”. - (1904)

Audiência com Pio X: ...o Papa, permanecendo inclinado e pondo-me a mão na cabeça, quase falando-me ao ouvido, disse-me: “Meu filho, vou pedir ao Senhor que abençoe especialmente esses bons propósitos para que sejas, verdadeiramente, um Sacerdote segundo o Seu Coração. Abençoo também todas as tuas outras intenções e todas as pessoas que, nestes dias, se alegram contigo”. Abençoou-me, e deu-me a mão a beijar. Depois, segui e falou com outros; creio que com um polaco. Mas, de repente, como que retomando o fio do seu pensamento, voltou para mim e perguntou-me quando regressaria eu a casa. Disse-lhe: No dia da Assunção. “Que grande festa – respondeu – haverá na sua terra (antes tinha me perguntado qual era) e como tocarão nesse dia os belos sinos de Bérgamo”. E continuou o seu caminho a sorrir. - (1904)

Deverei praticar uma delicada reserva nas palavras: falar pouco e bem e, sobretudo, saber calar-me, embora sem ostentação e sem me tornar pesado a ninguém, mas, antes, conservando a máxima tranqüilidade de espírito e serenidade com todos, a máxima cortesia nas maneiras e nas palavras, de modo que ninguém se ofenda. Em suma, seguirei o preceito de São Paulo a Tito: Apresentando-te como exemplo de boas obras, e nunca me esquecerei do que o Santo Padre Pio X desse quando veio a Bérgamo como o senhor Bispo: “Deste modo, Dom Ângelo, servo fiel e prudente... e prudente. Quanto às observações do mundo, alegrar-me e fazer o bem e deixar que os pássaros cantem”. - (1907)

Depois da minha primeira Missa no túmulo de São Pedro, as mãos do Santo Pio X pousaram na minha cabeça em bênção de augúrio para mim e para minha vida sacerdotal incipiente; mais de meio século depois (exatamente cinqüenta e seis anos), as minhas pobres mãos abrem-se sobre os Católicos – e não só sobre os Católicos – do mundo inteiro em gesto de paternidade Universal, como sucessor do mesmo Pio X proclamado Santo, e que sobrevive nesse seu Sacerdócio e dos seus antecessores e sucessores, encarregados como São Pedro do governo de toda a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. - (1961)

  • Modernismo
Jesus Bendito houve por bem conceder-me, nestes exercícios, uma luz especial para compreender ainda mais vivamente a necessidade de manter íntegro e puríssimo o meu sentido de fé e o meu sentir com a Igreja, mostrando-me também, a uma luz mais resplandecente, a sabedoria, a oportunidade e a beleza das medidas pontifícias dirigidas para defender principalmente o Clero do contágio dos erros modernos (chamados modernistas) que, de maneira enganadora e fascinante, pretendem abalar os alicerces da doutrina. - (1910)

  • Carnaval
O carnaval. Graças a Deus, também este ano já acabou. Entretanto, nesta última noite, o mundo continua entregue às suas loucuras e em que medida, com que descaramento, nos teatros, nos bailes de máscaras, nas casas de pecado, nos jardins e até nas ruas e praças. Entretanto, o Coração amoroso do meu Jesus é ofendido. Ó Jesus, vou dormir participando da Vossa dor, e pensando na Vossa dolorosa Paixão. Que o meu vivo desejo de vos amar, vos faça esquecer os diabólicos desejos de tantos desgraçados irmãos meus e a alcance para todos que amanhã desçam, solenes e fecundas de melhores propósitos, as palavras da Igreja, recordando que somos e o que seremos no dia maior da nossa vida: “és pó e em pó te hás de tornar”. - (1903)

  • Proselitismo
Pedirei na minha oração, e farei que outros peçam, ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e aos Santos, pala conversão do Oriente e, sobretudo, pela união das Igrejas dissidentes. - (1896)

Na outra noite, por volta de uma, chovia a cântaros, mas os pescadores estavam lá, impávidos na sua rude tarefa. Que confusão para mim – para nós os Sacerdotes, pescadores de homens – perante este exemplo. Passado da figura ao figurado, que panorama de trabalho, zelo Apostólico que se oferece à nossa atividade. Do Reino do Senhor Jesus Cristo resta aqui bem pouca coisa. Restos e sementes. Mas há tantas almas a ganhar para Cristo, que vogam neste mar do Islamismo, do Judaísmo, e da Ortodoxia. Imitar os pescadores do Bósforo, trabalhar dia e noite com as lâmpadas acesas, cada um no seu barco, às ordens dos chefes espirituais: é esse o nosso grave e Santo dever. - (1939)

  • Espiritualidade
É isto que devo fazer: nunca dizer aos outros algo que não me esforce imediatamente por em prática, pois até agora fiz o contrário. - (1897)

Propósitos: Com mulheres de qualquer condição, mesmo que sejam parentes ou santas, terei um cuidado especial, fugindo da familiaridade com elas, da sua companhia ou conversação, particularmente se se tratar de jovens; nunca fixarei os olhos no seu rosto. Jamais lhes darei a mínima confiança e quando, por necessidade, tiver que falar com elas, procurarei ser breve e prudente.

Jamais terei nas minhas mãos, nem porei os olhos, em livros de frivolidades ou imagens que ofendam o pudor.

Além de dar exemplo de suma modéstia no falar, procurarei afastar das conversas, quando em família, temas pouco convenientes para a Santa Pureza.

Corrigirei sempre com caridade qualquer imodéstia que outros cometam, e se persistirem, afastar-me-ei, mostrando o mais vivo desagrado. - (1897)

Deus é o meu grande dono que, por inaudita bondade, me tirou do nada para que o louve, o ame, o sirva e procure a sua honra. Sou, portanto, uma coisa toda de Deus, e não posso nem devo fazer senão o que Deus quer, o que for para a Sua Glória.  -  (1898)

Devo convencer-me, para sempre, desta grande verdade: Jesus não quer de mim somente uma virtude medíocre, mas a máxima virtude. - (1898)

Como era a vida de Jesus em Nazaré? Uma vida oculta. Ninguém sabia nada Dele; exteriormente, só viam Nele o filho de Maria, o filho do carpinteiro. Que bela lição para mim, que tão cheio estou de mim mesmo, e a quem o amor próprio incita sempre a manifestar os poucos dons naturais, acompanhados, por outro lado, dos inumeráveis defeitos que possuo. Devo permanecer oculto para que, longe do estrépito do mundo, possa ouvir a voz do meu Jesus que me fala ao coração. O meu maior cuidado deve ser ocultar o pouco bem que, com a Graça de Deus, conseguir fazer, não vá a vaidade prejudicá-lo, e o demônio roubar-mo. - (1900)

Devo considerar-me sempre nesta condição de servo; não tenho um único momento em que possa ocupar-me de mim mesmo, servir o meu capricho, a minha vaidade, etc. Se o fizer, sou ladrão, porque roubo um templo que não é meu, sou um servo infiel, indigno de recompensa. - (1902)

Amigo, a que vieste? A conhecer a Deus, a amá-lo, a servi-lo durante toda a vida; depois da morte, a gozá-lo para sempre no paraíso... Os deveres da minha vida resumem-me nestas, três palavras, é só isto que tenho que fazer: conhecer, amar, servir a Deus, sempre e a todo o custo; a Vontade de Deus deve ser a minha, a única que devo procurar. - (1903)

O talento, a memória, são dons de Deus. Porquê entristecer-me se outro é mais rico neste aspecto do que eu?... se tiver feito tudo o que Deus queira de mim, que importa o êxito ou o fracasso dos meus estudos? - (1903)

São Sebastião... Santa Inês: dois jovens, dois heróis, um soldado, uma virgem. Para eles dirijo o meu fervoroso pensamento, a minha oração, para que, à coragem, ao entusiasmo do soldado e à imaculada pureza da virgem, se junte em mim a sua perseverança de mártires. - (1903)

O sorriso habitual que aflora aos meus lábios deve saber ocultar a luta interior, por vezes tremenda, do egoísmo, e representar, quando for necessário, as vitórias, do espírito sobre os movimentos, dos sentidos ou do amor próprio, de maneira que Deus e o meu próximo tenham sempre a melhor parte de mim mesmo. - (1914)

Qualquer forma de desconfiança ou de tratamento de descortês com alguém – sobretudo se se tratar de fracos, pobres ou inferiores –, qualquer dureza ou inflexão de juízo me provocam pena e sofrimento íntimo. Calo, mas o meu coração sangra. Estes meus colaboradores são uns magníficos eclesiásticos: aprecio as suas qualidades excelentes, estimo-os e merecem tudo. Mas sofro por o meu espírito discordar deles. Há dias e circunstâncias em que sou tentado a reagir com decisão. Mas prefiro o silêncio, esperando que ele seja mais eloqüente e eficaz para a sua educação. Mas isto não será fraqueza? Devo e quero continuar a levar em paz esta leve Cruz, que se junta ao sentimento já mortificante da minha pequenez, e deixarei que o Senhor atue, Ele que penetra os corações e os atrai para as delicadezas da sua caridade. - (1948)

Mas o que é esta vida do Papa senão uma continuação diária de verdadeiro exercício espiritual pela salvação da sua alma, ocupada em salvar as almas de todos os redimidos de Cristo Jesus, salvador do mundo?  (1951)

Amabilidade, calma e paciência imperturbável. Devo lembrar-me sempre de que a palavra delicada amansa a ira. Quantos fracassos nascem da dureza, da impulsividade e da falta de contensão. - (1952)

O Evangelho é imutável, de que o ensino de Jesus no Evangelho é a mansidão e a humildade; naturalmente que não é a fraqueza nem a burrice. Tudo o que tem ares e tom de imposição pessoal não passa de egoísmo e fracasso. - (1956)

As portas do Paraíso são duas: inocência e penitência. Quem pode pretender, pobre homem frágil, achar a primeira porta? Mas a segunda também é segura. Por ela passou Jesus, com a Cruz às costas, como expiação dos nossos pecados e convida-nos a segui-Lo. E segui-Lo significa fazer penitência, deixar-se flagelar e flagelar-se um pouco também. Meu Jesus, as minhas circunstâncias permitem-me uma vida de mortificação, entre tantas consolações que o meu ministério me oferece. Aceito-as com todo o prazer. Por vezes, fazem sofrer um pouco o meu amor próprio; mas, mesmo sofrendo, gozo e repito-o diante de Deus: “A humilhação é um bem para mim”. A grande frase de Santo Agostinho acompanha-me e conforta-me. - (1957)

  • Último Registo:
Querido São Bernardino, predileto entre os meus Santos. Com a ternura da tua lembrança deste-me vários sinais da continuação de uma grande dor física que não me dá tréguas e me faz pensar e sofrer muito. Esta manhã, pela terceira vez, tive de conformar-me com receber a Comunhão na cama, em vez de gozar da Celebração da Missa. Paciência, paciência, mas não pude renunciar a receber, em visita de despedida, o Cardeal Wyszinski, Primaz da Polônia, Arcebispo de Gniezco e de Varsóvia, com quatro dos seus Bispos recentemente regressados à Pátria. O resto do dia na cama, com vários ataques de intensa dor física. Assistem-me sempre, com grande caridade, os meus familiares, o Cardeal Cicognani, Mons. Capovilla, Frederico Belotti e criados. - (1963)

O leitor pode encontrar um pequeno resumo deste mesmo diário disponível para download na Alexandria Católica.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Vulnerabilidade


2ª Semana da Quaresma - Quarta-feira
Primeira Leitura (Jr 18,18-20)
Salmo Responsorial (Sl 30)
Evangelho (Mt 20,17-28)

Nas histórias por nós confeccionadas, normalmente o elemento sobrenatural torna seu portador um super-homem, ou antes um Übermensch, invulnerável aos comuns, que só encontra adversário digno em outro seu semelhante. Somos nós, autores bem medíocres, não é mesmo? Mas, Deus é o autor por excelência e suas histórias são bem mais interessantes. A ação da graça sobre o homem, embora por vezes dê a este habilidades extraordinárias, por outro, não anula suas vulnerabilidades, fraquezas e inseguranças. Vemos isso na primeira leitura, onde Jeremias, um profeta, um homem ungido por Deus, pede socorro ao Senhor pois seus inimigos conspiram contra si. De modo mais ou menos análogo vemos essa tensão entre graça e vulnerabilidade no Evangelho, onde Nosso Senhor Jesus Cristo anuncia sua Paixão: <Eis aqui vamos para Jerusalem, e e Filho do Homem será entregue aos Principes dos Sacerdotes, e aos Escribas, que o condemnarão á morte, e entregal-o-hão aos Gentios para ser escarnecido, e açoutado, e crucifi cado, mas ao terceiro dia resurgirá. (Mt 20, 18-19)>. A graça age, a esperança firme no Senhor nos promete a vitória, mas não nos poupa de toda a tensão dramática, de todo o sofrimento e vulnerabilizar inerentes a existência humana. É um roteiro absolutamente empolgante, não? Pensemos, pois, nossa vida, desde os parâmetros revelados pelo divino autor, tendo a coragem de encará-la e vivê-la em toda a sua radicalidade e tensão, ao invés de esperarmos a invulnerabilidade de um roteiro ruim, onde nenhum mal há de nos atingir e todos os nossos problemas hão de ser solucionados magicamente. Além de tornar a historia uma chatice, tal perspectiva falsa contradiz o ensinamento evangélico segundo o qual: <Assim como o Filho do Homem não veiu para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em redempção por muitos. (Mt 20, 28)>; assim também nós não estamos nesta terra a turismo, mas para tomar parte em uma cósmico combate, e morrer em batalha, misturando nosso sangue, suor e lágrimas ao sangue do cordeiro (como na missa, durante o ofertório onde uma colherzinha de água é adicionada ao cálice com vinho), para que nossa vida possa ser gasta em favor das almas e pela graça divina, possa produzir algum fruto.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Dos Sacramentos - Razão de serem sete


VI. Número dos Sacramentos
[14] A seguir, deve indicar-se o número dos Sacramentos. Esta explicação têm a vantagem de levar o povo a engrandecer a singular bondade de Deus para conosco. E ele o fará com tanto mais fervor da alma, ao reconhecer quão abundantes são os auxílios que Deus aprestou, para a nossa eterna salvação e bem-aventurança.

São sete os Sacramentos da Igreja. Disso temos prova nas Escrituras, na doutrina tradicional dos Santos Padres, e na autoridade dos Concílios.

1. Razão de serem sete.
[15] A razão de não ser maior, nem menor o seu número, podemos mostrá-la, de modo provável, por uma analogia entre a vida natural e a sobrenatural.

Para viver, conservar-se, levar uma vida útil a si mesmo e à sociedade, precisa o homem de sete coisas: nascer, crescer, nutrir-se; curar-se, quando adoece; recuperar as forças perdidas; ser guiado na vida social por chefes revestidos de poder c autoridade; conservar-se a si mesmo e ao gênero humano, pela legitima propagação da espécie. Todas estas funções também se adaptam, índubitàvelmente, àquela outra vida pela qual a alma vive para Deus. Dessa correlação se pode obviamente inferir o número dos Sacramentos .

2. Sua enumeração
O primeiro é o Batismo, a bem dizer, a porta dos outros Sacramentos, e pelo qual renascemos para Cristo.

Depois vem a Confirmação, por cuja virtude crescemos e nos fortalecemos na graça divina. Como observa Santo Agostinho, só depois de batizados é que Nosso Senhor disse aos Apóstolos : "Deixai-vos ficar na cidade, até serdes revestidos da força que vem do alto".

Em seguida, temos a Eucaristia, alimento verdadeiramente celestial, que nutre e conserva nossa alma, conforme disse Nosso Salvador: "Minha carne é verdadeiramente uma comida, e Meu Sangue é verdadeiramente uma bebida".

O quarto lugar ocupa a Penitência, .por cuja virtude recobramos a saúde, se a tivermos perdido com as lesões do pecado.

Depois, a Extrema-Unção nos tira os remanescentes do pecado, e restaura as forças da alma. Com relação a este Sacramento, declarou Santiago : "E se estiver em pecados, ser-lhe-ão remitidos".

A seguir, vem a Ordem que confere o poder de perpetuar a administração pública dos Sacramentos e o exercício de todas as funções sagradas no seio da Igreja.

Como derradeiro, existe o Matrimônio, instituído a fim de que da legitima união do homem com a mulher procedam os filhos, e sejam piamente educados para o serviço de Deus, e para a conservação do gênero humano.

Catecismo Romano; II Parte: Dos Sacramentos; I. Dos Sacramentos em Geral; pág. 206-207.

terça-feira, 3 de março de 2020

"Não queiraes portanto parecer-vos com elles"


1ª Semana da Quaresma - Terça-feira
Primeira Leitura (Is 55,10-11)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Mt 6,7-15)
E quando oraes não falleis muito, como os Gentios: pois cuidam que pelo seu muito fallar serão ouvidos. Não queiraes portanto parecer-vos com elles: porque vosso Pae sabe o que vos é necessario, primeiro que vós lh'o peçaes. (Mt 6, 7-8)

Assim começa o Evangelho de hoje com maior ou menor beleza literária dependendo da tradução. "Não queiraes portanto parecer-vos com elles", os gentios, os pagãos; há pois, neste simples versículo introdutório uma lição um tanto quanto negligenciada. Hoje em dia, seja por um ecumenismo tosco, seja por um perenealismo safado, se quer dissolver a identidade cristã no caldo das religiões, na imitação de velhas práticas pagãs. Se acredita que os antigos bárbaros primitivos sejam modelo, que conservam ainda alguma sabedoria ancestral por nós perdida. Mas, no Santo Evangelho, Nosso Senhor Jesus Cristo coloca antes os pagãos como anti-modelo, ao menos no âmbito religioso. Diz a primeira leitura que nenhuma que sai da boca de Deus retorna a ele sem antes dar seu fruto. Olhemos para a nossa Bíblia, grande, espessa, quantos e quantos livros, quantas palavras, quantas narrativas e mistérios... E tantos, ao invés de encontrar impulso criativo neste tesouro sagrado, querem macaquear as religiões pagãs, na busca de aprender com eles o modo correto de se relacionar com a divindade, a qual suas superstições demoníacas possuíam uma vaga e distorcida imagem. Néscios!

domingo, 1 de março de 2020

Teologia e criptozoologia em filme de gato

Se Aleksandr Dugin pode criticar a pós-modernidade a partir de Pequenos Espiões 2, quem pode me repreender por falar de religião tomando como ponto de partida o filme de gato do Stephen King? Exatamente: ninguém; absolutamente ninguém 😛.

O filme em questão é nada menos que Cat's Eye , um terror da década de 80 que hoje já não assusta mais ninguém... A trama se inicia com um gato contemplando uma vitrine, onde vê uma menina ou um fantasma de uma menina, que o envia em missão. Mas, no caminho até a realização desta misteriosa missão, o gato se envolve em alguns problemas, e nestas intempéries somos introduzidos a duas outros sagas onde se expressa grande sadismo e crueldade. Recurso de roteiro simples, mas que funciona: usar o gato como elo de ligação entre narrativas diversas até então desconexas. 

A respeito de tais sagas, temos inicialmente um caso bizarro e cruel de uma clínica para tratamento de fumantes que usa de métodos desumanos para libertar seus pacientes do vício. A cada tragada um membro da família do infeliz é punido de forma violenta. No segundo ato, temos um apostador maníaco que resolve vingar-se do amante de sua esposa submetendo-o a um jogo mortal. No segundo arco de Kaiji temos um roteiro análogo e melhor desenvolvido:  os poderosos se divertem submetendo aqueles sob seu domínio joguinhos sádicos e mortíferos, nada muito diferente do que fazem as redes de televisão que usam dos pobres como peões em seus programas e reallity shows, brincando com suas emoções, fazendo do drama pessoal de tantos o divertimento da audiência. Uma afronta a dignidade humana!

No terceiro e último arco o gato finalmente está próximo a cumprir sua missão: salvar uma menininha de um monstro em miniatura, um troll, que aparece durante a noite para roubar-lhe o fôlego e a alma. Dado a crueldade manifesta pelos homens nas duas histórias precedentes, a impressão que me ficou é que a natureza humana corrompida pelo pecado já é suficientemente cruel por si mesma para dispensar a necessidade de criaturas míticas como monstros e trolls. De todo o modo, apesar da dispensa, a existência de tais terrores noturnos para além da maldade humana, torna de fato o horror tanto mais intenso, isto é, se os efeitos especiais não tivessem envelhecido tão mal...

Troll dos anos 80.

Até pouco tempo atrás, a existência de monstros eram uma das poucas constantes na cultura humana. Diversas tribos, povos e nações tinham seu bestiário folclórico: trolls, fadas, duendes, bruxas, vampiros, lobisomens, fantasmas, sacis, yokais, pé-grande e etc. Hoje em dia, tais criaturas são vistas como meras superstições campesinas de um povo inculto. Argumento este que se assenta sob base sólida, a saber: a total ausência de registros claros de tais criaturas em tempos onde qualquer um tem uma câmera no celular. 

Note o leitor que os argumentos usados foram de natureza científica (falta de evidências) e não teológica. E assim se dá porque as censuras da Igreja a criptozoologia (o estudo das criaturas míticas) é pontual. De forma geral, o que sabemos pela revelação é que os mortos não saem por aí perambulando e assombrando os vivos, de forma que a crença em fantasmas não raro beira a heresia, embora possa ser equacionada de forma a não ferir a doutrina em casos específicos. Também sabemos que existem os demônios, anjos caídos de hierarquias diversas que atuam a fim de perder as almas e que tais criaturas, de natureza exclusivamente espiritual, embora possam atuar sobre o mundo material, não são capazes de cruzamentos, sendo híbridos humano-demônio uma impossibilidade metafísica. Dito isto, nada obriga a inexistência de outras criaturas espirituais ou semi-espirituais, e tampouco que tais criaturas devam ser necessariamente categorizaras no dualismo anjos e demônios.

Apesar da abertura teológica para o encaixe da existência de tais criaturas míticas na cosmologia cristã, a falta de evidências é, entretanto, um argumento forte em favor da teoria de que tudo não passa de superstição. De todo o modo, um mundo habitado por tais criaturas, apesar de aterrorizante, seria um tanto quanto mais divertido, não? 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Ying Yang e o Paradoxo Aristocrático-Populista


Sábado depois das Cinzas
Primeira Leitura (Is 58,9b-14)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Lc 5,27-32)

1. Na primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías. uma diferença de tradução entre o leccionário e o texto da Vulgata, altera significativamente o sentido do texto. O lecionário fala de deixar a ''linguagem maldosa'' , enquanto a Vugata, tanto na tradução do Pe. Figueiredo quanto do Pe. Matos Soares exorta a abster-se a de ''falar o que não aproveita''. É certo que substancialmente, o que não se aproveita consiste em linguagem maldosa, acontece que de forma ordinária a assembléia não é constituída de filósofos tomistas, de forma que a tradução atual soa tanto mais restrita enquanto a pretérita bem mais ampla. Ao vulgo, há tantas inutilidades que embora não se aproveitam, não constituiriam em si linguagem maldosa, que para este se resumiria apenas em ofensas e ataques; ou em termos modernos: linguagem violenta. Acontece que a escritura não se refere tão somente a isso. Como ecoado pelo ensino dos santos e manifesto na santa tradição, há que ter certa prudência, certa economia no falar. É preciso cultivar o silêncio e adestrar a linguagem de tal modo que seja específica, e o tema de nossas conversações consista tão somente naquilo que é digno e do qual se aproveita. Neste sentido, quanta luz não nos joga este versículo com relação ao ''Zap-Zap'', onde não raro tantos grupos ingredam em um redemoinho de conversas superficiais, intermináveis, sem a devida seriedade e aprofundamento, ou até mesmo caindo, infelizmente, para o terreno das fofocas.

Evitemos, pois aquilo que não se aproveita. Sobretudo em tempos de redes sociais.

2. O Evangelho de hoje trata do chamado da Levi, um publicano, que na época significava um traidor e muito provavelmente um ladrão. Traidor porque os publicanos ou cobradores de impostos eram judeus que trabalhavam para o Império Romano, Isto é, lesa-pátrias a serviço do dominador contra o próprio povo. Ladrão porque, não raro, cobravam a mais do que ordenava a autoridade, afim de retirar um quinhão para si. Um homem em tal condição seria chamado a conversão, e constituído apóstolo, um dos doze, das doze colunas que profeticamente substituiriam os antigos alicerces representados pelas doze tribos de Israel, os doze filhos de Jacó. A Divina Providência é sem dúvida surpreendente. O Evangelho se encerra com a memorável expressão: <Eu vim chamar, não os justos, mas os peccadores á penitencia. (Lc 5, 32)>; tal versículo, além de seus ecos teológicos, cria para a própria identidade dos cristãos uma tensão cultural.

Já disse em outra ocasião que a Igreja é de natureza aristocrática. Acontece que esta não pode ser perfeitamente aristocrática, ao menos não no sentido o qual a palavra adquiriu na aristocracia pós-medieval, onde os nobres deixaram de viver em meio ao povo para adotar a vida nas cortes. Um aristocrata neste sentido cortesão é alguém que vive longe dos vulgos, cultivando, ao menos em tese, pensamentos mais belos e elevados, afim de se distinguir destes. Acontece que essa distinção gera um ''afastamento'', o que a Igreja não pode consentir, pois ela é chamada justamente a aproximar-se dos populares, dos pecadores, das realidades mais feias e aparentemente sem solução, e convidá-los a penitência e a conversão. Neste sentido ALGUMAS das reformas recentes foram positivas afim de atenuar o caráter aristocrático da Igreja, acentuando seu aspecto populista. Mas, mesmo esse aspecto populista não pode ser total, isto por que a Igreja não é chamada a se identificar as estas realidades ''baixas'', mas antes aproximar-se delas para daí elevar os que nelas se encontram. Estamos, pois, ante mais um dos paradoxos do catolicismo: a Igreja é ao mesmo tempo aristocrática e populista, sem o ser, contudo, nenhuma das duas realidades em absoluto. Em certo sentido poderíamos ilustrar tal paradoxo por um símbolo, que apesar de não ser de origem cristã e nem comumente ser interpretado desta forma, pode ser usado tal; falo do Ying Yang. Há, pois, um perfeito equilíbrio entre o preto e branco, de forma que nenhum deles preenche o círculo absolutamente, assim é a Igreja com relação ao aspecto populista e aristocrático, onde nenhum destes pode prevalecer e esgotar absolutamente a identidade cultural dos seguidores de Jesus Cristo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

''(..) na sua Lei meditará de dia e de noite''


Quinta-feira depois das Cinzas
Primeira Leitura (Dt 30,15-20)
Responsório (Sl 1)
Evangelho (Lc 9,22-25)

Canta o salmista:
Bem aventurado  varão, que não se deixou ir após o conselho dos impios, e que não se deteve no caminho dos peccadores, e que não se assentou na cadeira da pestilencia: Mas a sua vontade está posta na Lei do Senhor, e na sua Lei meditará de dia e de noite. (Sl 1. 1-2)

Já comentei em outras ocasiões sobre o começo do versículo, quero hoje me centrar-me em seu final; isto é:  bem aventurado é todo aquele a qual <sua vontade está posta na Lei do Senhor, e na sua Lei meditará de dia e de noite.>. Na época do salmista, além dos Dez Mandamentos, da lei de Deus dada a Israel faziam parte as normas cultuais e étnicas, expressas nos livros de Levítico e Deuteronômio. Havia, portanto, um material amplo para meditação. De algum modo, temos nós também um material análogo com as normativas disciplinares e rituais da Igreja. Note o leitor que o salmista não se refere a mera obediência da lei, mas também na meditação desta. Há uma sabedoria por trás de tais normativas, há todo um código de simbólico e uma miríade de argumentos teológicos, de tal forma que tais leis não são mera arbitrariedade. Feliz somos se formos capazes de adentrar em seu sentido profundo!

A religião é um mistério. A vida religiosa não se resume a seguir certas normas e a macaquear certos gestos rituais por si mesmo. Isso é reduzir e muito a riqueza de tal instituição. Antes, em meio a nossa prática religiosa devemos tomar uma atitude investigativa, procurando desvendar o significado de cada prática, de cada mistério, desde a arquitetura de uma Igreja gótica as normas de jejum, passando para o sentido dos gestos, dos textos litúrgicos, até a lei de Deus propriamente dita, isto é os mandamentos. Sem dúvida, vivendo a fé desta forma, seremos gente feliz.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Contrastes


7ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Tg 4,1-10)
Responsório (Sl 54)
Evangelho (Mc 9,30-37)

A liturgia para este carnaval não poderia ser mais apropriada, a seleção das leituras foi deveras providencial. Escreve o apóstolo: <Adulteros, não sabeis que a amizade d’este mundo é inimiga de Deus? Logo todo aquelle que quizer ser amigo d’este seculo, se constitue inimigo de Deus. (Tg 4, 4)>. Quão difícil é para nós brasileiros entender tais contrastes. Este povo infeliz têm como dado antropológico a busca incessante de conciliar o irreconciliável em uma mistura sincrética e adúltera. Nestes infelizes dias de carnaval, quantos ditos cristãos não aderiram ao mundo participando de desfiles impudicos e não raro blasfemos. Até clérigos tomaram parte em tais festividades. Homens fracos incapazes de suportar o contraste, a oposição entre o mundo, isto é toda uma cultura erigida sob influência do demônio, e o Reino.

Continua o apóstolo: <Afligi-vos a vós mesmos, e lamentae, e chorae: converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria em tristeza. Humilhae-vos na presença do Senhor, e elle vos exaltará. (Tg 4, 9-10)> .Quão oposta é a atitude penitencial recomendada pelo apóstolo, da alegria fútil, ébria e vulgar destes tempos carnavalescos.

Ah! Mas não faltam aqueles que procuram justificar tal promiscuidade entre o sacro e o profano através de uma mal entendida dinâmica de guerra cultural. É preciso, dizem eles, que a Igreja se aproprie de tais festividades e procure inculturar-se na cultura carnavalesca. Justificam assim essa mistura pecaminosa por uma busca de poder mais ou menos sincera. A estes, a liturgia também têm uma resposta: <se algum quer ser o primeiro, será o ultimo de todos, e o servo de todos. (Mc 9, 35b)>; a Igreja não alçará o poder por maquinações pecaminosas. Antes, pela penitência e humildade. Este é o caminho cristão! De tanto andar em adúltero romance com o mundo, estes homens já não pensam segundo o Evangelho, e sim pela lógica da carne.

<Lança sobre o Senhor o teu cuidado, e ele te sustentará: não deixará que fluctue o justo para sempre. (Sl 54, 23)>

Tenhamos coragem de aceitar o contraste barroco, optando pelo Partido de Deus, ao invés de numa covardia imunda, procurar a amizade do mundo na conciliação do inconciliável.

***
Obs. As citações bíblicas foram retiradas da bela tradução bíblica do Pe. Figueiredo em português arcaico do texto da Vulgata Latina. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Lifestyle


7ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Tg 3,13-18)
Responsório (Sl 18)
Evangelho (Mc 9,14-29)

Quem dentre vós se julga sábio e inteligente, que demonstre sua sabedoria no seu proceder, isto é, na sua vida prática. Com este ensinamento se inicia a primeira leitura retirada da carta de São Tiago. E o apóstolo prossegue contrastando a verdadeira sabedoria que vem do alto, com a sabedoria terrena, carnal, inspirada por um zelo amargo e um gosto por contendas (em linguagem moderna: tretas). Aliás, como é ruim a tradução do lecionário hoje: "carnal" foi substituído por ''materialista'', "zelo" trocado por ''ciúme''... De todo o modo, mais do que usar o texto para marretar os irmãos pretensamente sábios mas com uma vida bagunçada, creio que antes, nós como leigos devemos aproveitar o impulso criativo que traz o trecho selecionado. E que impulso é este? Ora, o de usar nossa vida pessoal e nossa conduta como ''cobaia'' de experimentação de nossas ideias. Se a sabedoria encontra expressão na própria vida, como posso aplicar meus estudos em minha conduta? Mais do que uma sanha amalucada por reformar a sociedade, antes, que nossos estudos alimentem um potência criativa afim de confeccionar rotinas e costumes que tornem nossa existência tanto mais divertida e agradável a nós e aqueles que nos rodeiam.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Peste do Catolicismo Burguês


6ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Tg 2,14-24.26)
Responsório (Sl 111)
Evangelho (Mc 8,34–9,1)

As seitas e falsas religiões, a perseguição, a imoralidade dos mundanos, são estes males externos que chamam muita atenção. Mas, por seu caráter oculto, a podridão interna, aquele velho catolicismo burguês de meras aparências tão comum nessas terras selvagens, talvez seja tanto mais terrível e perigoso. Que é esse catolicismo burguês? É um fingimento, um teatro, onde o sujeito mais ou menos frequenta culto público e faz questão de ostentar sua identidade como membro da Igreja, porém o faz sem qualquer devoção, ora distorce ora renega totalmente a doutrina para não ter de mudar seu comportamento. Apesar de seu caráter oculto, bem podemos notar a manifestação de tal podridão interna na típica frase ''eu sou católico, mas...''. A fé é uma entrega radical, não há reserva técnica, não há espaço para ''mas''.

A liturgia de hoje nos trás o remédio contra tal podridão. São Tiago exorta a manifestar a fé com a prática de boas obras e prossegue, taxativamente, afirmando que a fé sem obras é morta. O salmista canta em honra ao homem ''caridoso e prestativo'', Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina a tomar a cruz e renunciar a nós mesmos. Organizando de forma pedagógica temos que é pela renúncia de si mesmo somado ao enfrentamento e a tomada corajosa da cruz que o homem se torna caridoso e prestativo, capaz de manifestar sua fé em obras. Ao contrário, se não há essa renúncia do eu, não há obras, a fé morre, e aquela podridão interna do cristianismo burguês expõe toda sua nojeira pulverulenta.

Renunciar a si mesmo significa contrariar o que queremos e sentimos. Fazer algo que não estamos a fim, que nos é custoso e desagradável, por amor a Deus e obediência a sua doutrina. Não há, nesta terra, vida tranquila para o cristão. A agitação impede o parasita de se desenvolver, na tranquilidade burguesa porém, a peste espiritual se desenvolve levando a alma a putrefação.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Distinção na discrição


6ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Tg 1,19-27)
Responsório (Sl 14)
Evangelho (Mc 8,22-26)

1. A primeira leitura de hoje nos trás ensinamentos de suma importância. São Tiago escreve sobre a necessidade de refrear a cólera e mortificar a língua. Ensinamentos um tanto quanto impopulares nos dias de hoje, sobretudo nos meios ditos ''conservadores'', onde se incensa certo modelo de comportamento grosseiro marcado por uma cólera destemperada, que ante a mínima contrariedade já cobre o próximo com uma miríade de insultos. E há quem veja nisso sinal de ''macheza'', como fosse muito viril ceder aos instintos ao invés de subjugá-los pelo império da razão iluminada pela fé. Examinemos com atenção os modelos de comportamento que nos são propostos pelos meios culturais em nosso entorno, mesmo que tais meios se proclamam ''católicos'' e contrastemos com aquilo que nos ensina a Igreja, sobretudo expresso de forma sublime nos conselhos neotestamentários. Não raro, ficará o leitor surpreso. Mas, não basta a surpresa... Mesmo que seja uma surpresa acompanhada de admiração e encanto para com a doutrina da Igreja, como alguém que contempla uma obra de arte. A Igreja não é um fanclube, antes congrega os discípulos de Jesus, e como discípulos, devemos praticar os ensinamentos do mestre. Que Deus nos dê a graça de praticar sua doutrina por amor a seu nome. Que nossa admiração se concretize em obras, pela glória de seu nome e o bem de toda a santa Igreja!

2. O Evangelho de hoje uma vez mais insiste no pudor religioso e na discrição. Deve-se ter em vista as distinções que citei em outra ocasião no que diz respeito a "Gratum faciens" et "Gratis data". Na cena que hoje contemplamos Jesus cura um cego. Mas, para além da cura que por si mesmo é um fato incrível, chama a atenção todo o contexto da cena. Jesus toma o cego e vai com ele para longe da multidão e, depois da cura, manda que vá direto para casa e não volte a aldeia. O afastar-se da multidão, das massas... Quão bem isso faz a tantos que o experimentam. Gustav Le Bon, que nem católico era já notava o perigo das multidões...

Em tempos de internet, antes queremos fazer showzinho, e encantar as multidões. A ideia da discrição, sobretudo com relação as nossas boas ações (que em nosso caso são coisa rara, porque afinal, não prestamos!) e da solidão nos soa estranho. Tanto mais na pós-modernidade, onde o homem vive uma crise de identidade terrível e anseia mais do que tudo a dissolver sua individualidade em algum coletivo ou gangue ideológica. E quantas há hoje não? Para além das multidões amorfas de outrora, temos hoje as massas gourmet... Grupos feministas, masculinistas, nacionalistas, esquerdistas, conservadores e até aparentemente religiosos, que entretanto mais se assemelham a seitas que a religião de fato. Contrastes.

Escolhamos, pois, os caminhos de Deus e rejeitemos a lógica mundana. Recordemos que a salvação está na porta estreita e tenhamos a coragem de nos distinguir da massa, distinção esta que se dá justamente pela prática da discrição. Paradoxal, não? Eis mais um dos belos paradoxos de nossa santa religião.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O perigo de uma vida tranquila

6ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Tg 1,1-11)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Mc 8,11-13)

A primeira leitura de hoje é como que um mini tratado anti-teologia da prosperidade. O salmo vem para complementá-lo.  O Apóstolo São Tiago começa por exortar os que sofrem a alegrarem-se. Tal sofrimento é para eles uma prova, prova esta que produz paciência e edifica a fé. Em linguagem moderna, a ocasião faz o herói... Uma vida prosaica, sem desafios, sem perseguições e humilhações nos tornaria fracos. Assim nos mostra a história da Igreja, onde períodos de grande bonança e progresso são seguidos de uma decadência espiritual tamanha, onde a religião se resume a mero formalismo. Não precisamos retornar a França pré-revolucionária para observar tal fenômeno, basta-nos o nosso catolicismo tupiniquim de outrora.

Continua o apóstolo advertindo aos ricos. Tal trecho pode ser interpretado desde várias perspectivas conservando toda a radicalidade e fidelidade de seu sentido original. Hoje, insisto na questão do conflito e do perigo da tranquilidade que traz a riqueza. Li recentemente um artigo medíocre em um jornal ruim, que todavia traz alguns tesouros de sabedoria. O autor perguntava-se como se pode definir o que chamamos de classe média, e por consequência, também ricos e pobres. Para além de um economicismo vulgar, baseando-se em uma autora norte-americana, o redator classifica ricos como aqueles que acumularam tal quantidade de dinheiro que não precisam mais trabalhar para manter o mesmo padrão de vida para si e seus filhos. Pobres seriam aqueles cuja existência é insegura, e qualquer eventual interrupção no trabalho geraria crises tamanhas. As classes médias, por sua vez, seriam aqueles que conquistaram certo padrão de vida tranquilo com base no trabalho, mas tal padrão depende de si, não tendo estoque de dinheiro suficiente para assegurar o mesmo padrão aos filhos ou ficar muito tempo ''de boa'', sem trabalhar. Note o leitor o aspecto ''tranquilo'' da vida dos ricos em tal definição. E ai mora o perigo...Uma vida tranquila, sem dramas, sem lutas, sem contrastes , é uma prosa medíocre. Acontece que a fé é um drama heroico. Note o leitor o contraste narrativo... Alguém que vive em tal mediocridade de roteiro há de confiar em si mesmo, não encontrando muitas situações que o impulsionem a recorrer a Deus. O resultado de tal prosa enfadonha é a tragédia do inferno.

Chega a soar estranha a prece de hoje, mas, que Deus nos livre de uma vida tranquila e luxuosa. É em meio a luta, as batalhas, quedas e soerguimentos que nos tornamos heróis. O sofrimento gera a paciência, e a paciência fortalece-nos na fé.