sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Luxúria, Castigo e o Poder da Semente


3ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (2Sm 11,1-4a.5-10a.13-17)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,26-34)

1. Na liturgia de hoje, a saga de Davi exibe aquele que é um de seus mais tristes episódios. O rei virtuoso que suportou com mansidão as perseguições de Saul, que lutou com valentia guerras diversas pela causa do Senhor, que no campo de batalha suportou com valentia e firmeza a fome, o medo e o frio, este homem caí miseravelmente, cometendo atos ignóbeis. Depois de adulterar com a mulher de Urias, o rei tenta ludibria-lo, afim de fazer passar por filho do heteu o fruto de seu pecado e, não tendo sucesso em tal empreitada, conspira a morte de seu soldado. Adultério, mentira e assassinato. Um pecado puxa o outro.

Quão forte deve ter sido o incêndio da luxúria capaz de fazer ceder aquele homem virtuoso? Em Fátima, fora revelado aos pastorinhos que os pecados da carne são aqueles os quais conduzem mais homens ao inferno,  entretanto, hoje a gravidade destes é tão negligenciada. Há poucos dias, houve certa polêmica nas redes onde vergonhosamente ditos católicos estavam a defender meretrícios...

Que Deus nos dê a graça de mortificar o olhar, de procurar evitar desde as primeiras fagulhas, pois uma vez que começa o incêndio, fica tudo mais difícil. Davi tinha tantas virtudes, e caiu de tal forma vergonhosa, que resta para nós que passamos longe de tais virtudes heroicas?

São Luís Gonzaga, rogai por nós!

2. Ainda sobre a primeira leitura, o texto bíblico destaca a culpa de Davi, isto porque do ponto de vista narrativo na história em questão, é ele o personagem mais importante. Entretanto, o rei não adulterou sozinho. A culpa da dona é tanto maior uma vez que ela era casada e cabia-lhe respeitar e honrar o marido, que estava fora, na guerra, combatendo por Deus e trazendo o sustento para a casa.

Nos capítulos posteriores da narrativa, a Betsabé seria castigada com a perda de seu filho. A escritura não entra em detalhes, mas suponho que deva ter sido uma dor emocional considerável, afim de reparar a ofensa desta a Urias. Como uma das esposas de Davi, teve ela de dividir o novo marido com outras mulheres, pois a poligamia era uma prática da época. Não deixa de ser curioso. Urias a amava e a tinha como única esposa, já para Davi, ela era mais uma em seu ''harém''. Por fim, teria ela concebido Salomão, e com a coroação de seu filho, fora ela finalmente reconhecida como rainha.

Deus castiga, e perdoa. Ainda assim, confesso que é difícil, sobretudo a um homem lidar o perdão e a misericórdia divina em tais casos, onde há adultério da esposa contra o marido que a amou, a traição de tão grande confiança depositada... Enfim, não atoa São Paulo recomendou o celibato, seria extremamente difícil, dramático, e triste viver essa história desde a perspectiva de Urias...

3. No Evangelho, Jesus fala ao povo em parábolas, mas explica o sentido destas aos discípulos em particular. Assim o é ainda hoje... Quantos não leem os Evangelhos? Entretanto, fora da Igreja não encontram a interpretação correta, e tudo lhes parece confuso, enigmático; ou pior, acabam interpretando tudo em sentido diverso daquilo que foi dito. Mas na Igreja, Jesus explica o sentido das Escrituras; através do Espírito Santo, usando do magistério como instrumento.

4. Ainda sobre o Evangelho de hoje, Jesus compara o reino a uma semente que cresce no escondido, longe dos olhos de semeador. Diferente do que ocorre com uma educação formal, o semeador, o pregador o ''tutor'', não tem um papel definitivamente ativo. Não é ele o responsável por formar os pupilos em uma rígida disciplina, acompanha-los passo a passo, sendo responsável pelos mínimos detalhes. Antes ele joga a semente, e a semente, a força da Palavra, com a ação misteriosa da graça e intervenção do Espirito Santo se encarregam de fazer a semente crescer, emergir e tornar-se uma árvore grandiosa.

Nesse sentido, a humildade cristã segundo a qual não é o pregador quem converte nem forma ninguém, mas a ação do Espírito, não é mera retórica, mas a exata descrição da realidade. O semeador por vezes nem sabe o que aconteceu. É a força da palavra, é a ação da graça que faz crescer o reino de Deus, e não o carisma (em sentido vulgar e moderno do termo) de tal ou qual sujeito. O importante é a mensagem e não o mensageiro, a semente e não o semeador. De tal forma que mesmo a semeadura de homens maus, podem vir a gerar uma farta colheita. Imaginemos quanta gente a pregação de Judas não teria convertido. Se o traidor habita as profundezas do inferno, tantos e tantos que receberam a sua pregação, podem ter alcançado o céu. O poder está semente e não o semeador....

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sem Jeito


3ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (2Sm 7,18-19.24-29)
Salmo Responsorial (Sl 131)
Evangelho (Mc 4,21-25)

As leituras de hoje estão perfeitamente harmônicas. No Evangelho, Jesus afirma que ao que tem, será dado ainda mais (Mc 4,25a). É a realidade da generosidade de Deus. No primeira leitura, continuando o contexto da saga de Davi, vemos a reação do rei ao ouvir no oráculo do profeta Natan sobre as gloriosas promessas de Deus a ele e a sua descendência. Davi fica surpreso e até um pouco sem jeito, ante a generosidade divina:
O rei Davi veio apresentar-se ao Senhor e disse-lhe: “Quem sou eu, Senhor Javé, e quem é a minha família, para que me tenhais trazido até aqui? E como se isso parecesse pouco aos vossos olhos, Senhor Javé, fizestes promessas à casa de vosso servo para tempos futuros! Acaso isso é normal para um homem, Senhor Javé? (2Sm, 7 18-19)

A maioria de nós já deve ter experimentado a mesma situação de Davi. E talvez até com mais realismo que o grande rei, podemos nós repetir: <“Quem sou eu, Senhor Javé, e quem é a minha família, para que me tenhais trazido até aqui?>. Deus é tão bom conosco, tanto no âmbito espiritual quanto também no âmbito temporal. Tantas e tantas vezes Ele intervém, nos presenteia com graças e maravilhas que não merecemos de modo algum. Davi, para usar uma expressão contemporânea um tanto cômica, ainda era ''alguém na fila do pão''; era um homem de virtude, um herói de guera, nós não, e entretanto o Senhor ainda assim é tão bom conosco.

É uma sensação estranha, não? Receber algo sabendo que não o merece... É para ficar sem jeito mesmo. Creio que ainda vão alguns bons anos até que aprendamos a expressar a devida gratidão em tal cenário.

Mas, além do que foi dito, há o que não foi dito :P. Se recebermos as bençãos de Deus com humildade, ele nos dará ainda mais, mas se formos como crianças mimadas, se tivermos a ousadia de pensar que Ele "não faz mais que a obrigação", pensar que temos direito a alguma coisa, daí é-nos dirigida as palavras finais do Evangelho de hoje; leiamos com atenção: <e ao que não tem, se lhe tirará até mesmo o tem. (Mc 4,25b)>.

Que mandemos o orgulho catar coquinho, e cultivemos a gratidão, ou caso não nos é possível agradecer adequadamente, ao menos manifestemos essa ''semjeitisse'' tal qual o Rei Davi. Não tenho ideia de como Deus vê essa nossa caipirice desajeitada, mas creio que Nossa Mãe do Céu, a Virgem Santíssima, acharia isso fofo, pois tal atitude nos faz semelhantes a criancinhas, e fora aos pequeninos a quem fora prometido o reino dos céus.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O Tempo de Deus


3ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 5,1-7.10)
Salmo Responsorial (Sl 88)
Evangelho (Mc 3,22-30)

1. Davi era muito jovem quando fora ungido por Samuel, o futuro rei não tinha ainda sequer chegado aos vinte anos. Apenas anos depois, por volta dos 30 anos, é que o filho de Jessé viria a reinar de facto, primeiro sobre Hebron, e posteriormente sobre todo o Israel.

As coisas de Deus acontecem no tempo de Deus. Neste mundo capitalista, queremos tudo para ontem, tudo de imediato, pois tempo é dinheiro. Mas Deus não é um capitalista, antes age como que um artista, como um sábio diretor de cinema, a introduzir no devido tempo os elementos necessários ao desenvolvimento da trama. Se tudo com relação a um personagem se resolver logo no início do filme, que graça teria? Desde uma perspectiva artística podemos melhor vislumbrar as "demoras" de Deus. É certo que é uma perspectiva ainda incompleta e incapaz de perscrutar todos os insondáveis mistérios da Divina Providencia, mas ainda assim é uma ferramenta válida que nos ajuda a desenvolver a virtude da paciência.

2. No Evangelho de hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo nos alerta sobre a gravidade do pecado contra o Espírito Santo. De tal forma que, creio ser oportuno recordar os esclarecimentos do catecismo a respeito do tema:

961) Quantos são os pecados contra o Espírito Santo?
Os pecados contra o Espírito Santo são seis:
1º desesperar da salvação;
2º Presunção de se salvar sem merecimentos;
3º combater a verdade conhecida;
4º ter inveja das graças que Deus dá a outrem;
5º obstinar-se no pecado;
6º morrer na impenitência final.

962) Por que se chamam estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo?
Chamam-se estes pecados particularmente pecados contra o Espírito Santo, porque se cometem por pura malícia, o que é contrário à bondade que se atribui ao Espírito Santo.

- Catecismo Maior de São Pio X

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Santo Patrono

É comum entre os fiéis colocar seus empreendimentos sob a proteção de um santo patrono, afim de conseguir as bençãos do céu para tais projetos. Já há algum tempo, quando este blog tomou contornos mais sérios, intento fazer o mesmo, entretanto me vejo na grande dificuldade de escolher um, dentre tantos veneráveis. Pois bem, depois de mais de três anos, acho que finalmente consegui tomar uma decisão.

Segundo Chesterton, cada época é convertida pelo santo que mais a contradiz, como sou ''do contra'', tal postulado me pareceu extremamente agradável, e me pus a questão de quem dentre os servos de Deus seria sinal de contradição mais evidente para com está época iníqua; não só para com este quando, mas também para este quando inserido dentro deste onde, da realidade pós-moderna dentro deste país esquecido do terceiro-mundo. Embora considerasse várias hipóteses, a resposta me veio ao rememorar um episódio recente...

Há alguns dias atrás, assisti à missa na catedral diocesana.  É certo que não se trata de nenhuma gótica européia (estou a falar de igrejas e não das mocinhas), mas ainda assim temos a beleza do barroco colonial adornado com belas pinturas. Apesar disso, as missas da qual participei era feia. Feias no que diz respeito a sonoridade: usando de instrumentos e ritmos inadequados e irritadiços. Feias no sentido da letra dos cânticos: sentimentalismo barato. E feia no sentido do conteúdo da homilia onde o padre abusava lugares comuns da oratória midiática e demonstrava pouco conhecimento de exegese bíblica. Foi uma experiência tanto estranha... Se a arquitetura e a natureza do sacramento elevam a alma ao céu e fazem-nos experimentar o outro mundo, a fuzarca litúrgica ''puxa seu pé'' impedindo a ascensão. 

Tendo em vista tal episódio, cheguei a conclusão que ninguém mais contradiz essa época de grande mau gosto senão Santa Cecília. Cecília é a padroeira dos músicos, e, creio eu, o que mais precisamos neste nosso quando e onde é de boa música... Precisamos de boa sonoridade, precisamos de letras poéticas, fundamentadas em boa doutrina, e que expressem a beleza dos céus. Pesquisando ainda mais a respeito desta grande santa, as contradições com realçam ao mundo e aos costumes brasileiros chamam ainda mais atenção: Cecília era de família nobre, uma verdadeira patrícia romana. Desde cedo, Cecília consagrou sua virgindade ao Senhor e manteve seus votos mesmo dentro do casamento que lhe fora imposto, antes a santa fora responsável pela conversão do marido e do cunhado. Sua vida também demonstra extrema valentia ao afrontar as autoridades temporais romanas, zombar da idolatria dos pagãos, e mostrar profundo descaso pela vida terrena, tendo em vista as promessas do céu. Por fim, destaco que após o martírio seu corpo manteve-se incorrupto por mais de um milênio.

Dito isto, imploro a intercessão e proteção de Santa Cecília sobre este blog e seus leitores, e destaco sua vida como modelo e síntese dos ideias perseguidos nesta iniciativa: que este blog se configure em uma melodia sonora e poética para o louvor de Deus, a conversão dos pagãos, o bem das almas, e de toda a santa Igreja. Santa Cecília, rogai por nós!


Sadio Despotismo


2ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Sm 24,3-21)
Salmo Responsorial (Sl 56)
Evangelho (Mc 3,13-19)

1. Não que minha opinião neste âmbito seja relevante, mas, o modo como as leituras foram organizadas desde a reforma conciliar muito me agrada. É como se estivéssemos a assistir a cada dia um novo capítulo de alguma série, e o ciclo trienal (na verdade, bianual para os dias de semana) afasta a sensação de monotonia e repetição. Há alguns dias vimos o drama de Ana, seguiu-se o nascimento de Samuel, sua infância, sua velhice, a unção de Saul, a queda de Saul, a unção de Davi, a vitória de Davi contra Golias, e agora cá estamos em um dos episódios da guerra de Saul contra Davi. Episódio esse que bem poderia ser o final. Saul é tocado pela bondade de Davi, pede a ele perdão e o abençoa. O rei era um homem bom... Mas, como a distância histórica dos fatos nos deu alguns spoilers, sabemos que infelizmente a saga não termina aí, Saul será consumido pelo pecado, e virá a ter um trágico fim. Dado isto, contemplamos o episódio de hoje com um misto de alegria e tristeza. Alegria pela cena de reconciliação e virtude, tristeza ao saber o que se seguirá.

2. O Evangelho de hoje é interessantíssimo e em certo aspecto até um tanto engraçado. Jesus escolhe os 12 apóstolos e, ressalta o evangelista, escolhe os que Ele quis. Não há concurso público ou meritocracia, mas o puro arbítrio divino. "Fi-lo porque qui-lo"; diria Jânio Quadros. Em tempos democráticos, o arbítrio é visto com maus olhos, parece que tudo tem que ter uma explicação, um argumento socialmente aceitável que justifique a decisão. O Evangelho, na contramão do mundo moderno, nos ensina um sadio despotismo. Não precisamos explicar tudo para todo mundo. Fiz porque quis.

3. Ainda sobre o santo Evangelho, notamos hoje o bom humor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diz o evangelista, que Tiago e João, por conta de seu temperamento, receberam um apelido: filhos do trovão. Tento imaginar a cena onde o termo fora cunhado, a surpresa seguida das gargalhadas o clima de alegria e descontração entre o mestre e seus discípulos. E desde uma distância histórica, a piada se torna ainda mais engraçada, uma vez que conhecemos o tom narrativo extremamente dócil e amável do apóstolo São João em suas cartas. O mesmo homem que designa carinhosamente os fiéis por "filhinhos" era um alguém colérico, conhecido como um "filho do trovão"? São João deve ter rido de si mesmo ao notar o aspecto contrastante da mudança.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

As Sete Chaves de Satanás - Plínio Salgado


[...]

Em todas as épocas da História em que predominaram civilizações epicuristas apresentaram-se os aspectos mais tenebrosos da miséria popular, da opressão dos humildes, da sua revolta suscitada pelo ateísmo que os gozadores lhes ensinam.

Tanto mais se quer, menos se dá, porque mais se tenha menos se avaliará o que significa o não ter, sendo este grave perigo que correm as almas dos ricos. Grande perigo para as almas e grande instrumento de castigo social. Porque esta cegueira e esta surdez do coração não permitem escutar o tropel das revoluções e, entretanto, elas se aproximam das sociedades esquecidas de Deus.

Abrem-lhe as portas aqueles mesmos que ela procura destruir. Abrem-lhe as portas com as sete chaves com que trancaram os corações. Estas chaves que são forjadas com o mesmo metal dos sete pecados capitais, tomam hoje as formas das loucuras modernas que se chamam: Irreligiosidade, Sensualismo, Ambição, Indisciplina, Orgulho, Desunião, Impenitência.

A Irreligiosidade não permitirá que se distinga o Bem do Mal e como este se apresenta quase sempre com as roupas do Bem, será recebido.

O Sensualismo folgará com as doutrinas e regimes que facultem libertação de peias morais e, trazendo estes a destruição da família, o homem cai no individualismo e fica indefeso em face do Estado absorvente ao qual não poderá opor nenhum argumento a favor da sua liberdade.

A Ambição impedirá de ver outra coisa além do próprio interesse e, por ela, o homem nega-se a colaborar em tudo aquilo que representa a defesa da sociedade, uma vez que não ganha dinheiro, nem prazeres com isso; e os males destrutores da sociedade acabam solapando-lhe a casa.

A Indisciplina leva-o a revoltar-se contra os mandamentos de Deus e da Igreja e contra as hierarquias familiares e públicas inspiradas nos princípios que a mesma Igreja manda respeitar e assim se enfraquece a ordem moral e a ordem social, expondo-se a Nação à anarquia de que se aproveitam os aventureiros e déspotas, disfarçados em libertadores.

O Orgulho a si mesmo se outorga carta de habilitação em todos os assuntos, sorri das advertências que se lhe fazem e entrega-se de mãos atadas a quem melhor o lisonjeie, e desse modo a intrujice, que hoje campeia a alardear foros de cidadania, facilmente o convence com aquilo que o imortal gênio de Shakespeare profeticamente denominou "caviar para a plebe", pois lábios bem untados de lisonjas são lábios que dizem sim.

A Desunião é filha da vaidade fátua e da ausência do espírito do cristianismo, tendo o próprio Jesus dito que toda a casa dividida é casa destruída; e se nas épocas normais a divisão é um erro, nas horas de perigo constitui uma loucura.

A Impenitência é surda, cega, insensível e paralítica; não ouve a palavra de Deus, não vê os males do mundo, não sente as dores alheias, não se move; chega o inimigo e usa dela como de achas secas de lenha, onde tudo morreu, não prestando senão para ser lançado ao fogo.

-  Plínio Salgado. Primeiro, Cristo!; p.166-168 .

''Impus a coroa a um herói''


2ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Sm 16,1-13)
Salmo Responsorial (Sl 88)
Evangelho (Mc 2,23-28)

<Impus a coroa a um herói, escolhi o meu eleito dentre o povo (Sl 88, 20b)>; eis o oráculo divino o qual canta hoje o salmista. O salmo, em continuidade com a primeira leitura, trata da unção de Davi como Rei de Israel. Uma vez mais, a liturgia ecoa o aspecto aristocrático da história. Deus escolhe um herói. Que é um herói? É alguém que prática as virtudes de modo ''heroico'', que se eleva acima da mediocridade, e que é chamado a uma missão épica, para além das fronteiras da vida comum. Davi foi um herói, um herói da fé, e em certo sentido um herói nacional para o antigo Israel. Também hoje precisamos de heróis. Rezemos ao Senhor clamando por heróis, heróis como Sansão, Samuel e Davi que liderem o povo na luta contra os inimigos de Deus.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A guerra santa começa a mundanizar-se


2ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Sm 15,16-23)
Salmo Responsorial (Sl 49)
Evangelho (Mc 2,18-22)

Para melhor compreendermos a primeira leitura na liturgia de hoje, é preciso exercitar a imaginação épica. Estamos em um contexto de guerra, Israel está cercado por inimigos de todos os lados; Deus se manifesta ao povo por intermédio do profeta Samuel. Ainda que usando de um homem, há uma manifestação clara da vontade divina. Não são especulações teológicas, não são investigações e achismos, mas a palavra Deus mesmo que fala claramente. Deus atente o clamor do povo e lhes dá um rei, unge Saul, um jovem pequeno e pobre que cuidava das jumentas de seu pai, como líder de Israel. Deus o abençoa, cuida dele, lhe dá a vitória em incontáveis batalhas. Em determinada ocasião Ele lhe dá uma ordem clara, não basta aniquilar os inimigos, é preciso também apagar da face da terra os rastros de sua existência, queimando incluso seus rebanhos e pertences. Saul desobedece,  deixa o povo se apropriar dos despojos. Nesse ato o próprio sentido da guerra é desvirtuado. De uma guerra santa, uma guerra para a defesa de sua nação, a tomada de posse do território, e o extermínio dos inimigos conforme as determinações da Providência, o combate passa a ser motivado pela cobiça, pelo saque dos bens alheios.... A guerra santa começa a mundanizar-se.

Samuel repreende Saul, que tenta dar uma de bobo. Joga as culpas nas costas do povo, diz que os bens serão oferecidos em sacrifício ao Senhor. Mas Saul é rei, e cabe a ele controlar e educar o povo. Não só isso, Deus quer obediência e não sacríficos. Os ritos religiosos, se não acompanhados de uma obediência interior, não lhe são agradáveis. Diz a Vulgata que a rebelião é um verdadeiro pecado de magia, e assim o é, pois se pretende obrigar a Deus a dar suas bençãos ao povo pela força do ritual, sem que o povo seja dócil aos desígnios divinos e estes venham do alto como sinal de bondade e amor de Deus para com seus fiéis. Inspirado pelo Senhor, Samuel anuncia o oráculo: Saul foi rejeitado por Deus e irá perder a realeza. Assim foi feito, como veremos nos próximos dias.

sábado, 18 de janeiro de 2020

Brasil Profundo em Filme Pastelão

Não sei se por temperamento ou vício de época, mas confesso ao leitor que tenho um fraco pela complexidade. Ante os enigmas que se me apresentam, procuro sempre uma compreensão profunda, explorando sobretudo seus aspectos mais marginais e obscuros. Assim também se dá no estudo da religião. Procurando manter a devida prudência, é certo, as questões que mais me atraem são aquelas as quais apresentam maior dissonância para com a mentalidade moderna, a saber hoje: a realidade dos seres espirituais (anjos e demônios) e os aspectos hierárquicos e aristocráticos da revelação. Temas estes que não foram muito explorados por meus conterrâneos. Antes, o ethos brasileiro parece dedicar especial atenção ao aspecto moral e social do catolicismo. Tal perspectiva, válida, sem dúvida, encontra um especial eco em um velho filme datado de 1984: Padre Pedro e a Revolta das Crianças.

O roteiro, embora belo, é terrivelmente simples: um padre novo chega na cidade para restabelecer a vida religiosa à sete anos interrompida. Uma espécie de mafioso local começa a conspirar pela expulsão do sacerdote, pois teme que este possa vir a comprometer seus negócios imorais. O sacerdote é interpretado pelo comediante Pedro de Lara, o vilão é ninguém menos que a excêntrica figura do senhor Zé do Caixão.  O filme é marcado por aquele velho humor pastelão, com diálogos em linguagem escrachada, efeitos especiais risíveis e atuação caricata. Apesar disso, ou justamente por causa disso, é um bom filme.

Comentários técnicos a parte, ainda fico a pensar a respeito da narrativa. Temos um padre machão que vem para moralizar a cidade; ricos iníquos mancomunados com políticos temendo a ação justiceira da Igreja, um povo refém dos poderosos que encontra no sacerdote a defesa e a proteção contra os senhores do mundo. As coisas são tão simples... Não há heresias, não há conspirações, não há complexas especulações teológicas, mas a coragem de um homem inspirado por Deus que faz o que tem de ser feito. É simples, perturbadoramente simples, e ainda assim tocante. Creio que falta ao mundo de hoje esta simplicidade rústica daquilo que chamo catolicismo folk. Histórias locais contam que em uma metodologia análoga a do Padre Pedro, um sacerdote local teria impedido a construção de uma loja maçônica nos arredores da Igreja, todavia, com a morte deste valente padre, seu sucessor, com toda politicagem e diplomacia não conseguiu lograr o mesmo resultado, de modo que em frente ao Templo de Deus se edificou a Sinagoga de Satanás. Lembro de uma história que ouvi em Goiás, a respeito de um padre que ameaçado de morte, por contrariar um coronel local, teria respondido e acusado publicamente seus adversários durante homilia (em linguagem popular, o sermão): "Se querem me matar, que tentem! Eu sou padre na batina, e macho na carabina!".  

Em tempos de grande passividade, onde blasfêmias são realizadas em plena luz do dia e ninguém faz nada, quão luminoso é assistir este velho filme pastelão, contemplar toda a força e carisma do bom e velho catolicismo folk, macho e porradeiro, e contrastá-lo com essa gosma efeminada e dialogante do catolicismo vaticanosegundista. Quando o padre é macho, o diabo não tem vez! Já quando é frouxo, o povo caminha rumo ao inferno.... Conforme disse outrora, é urgente restaurar a alta macheza!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Fidelidade, Obediência e os Mártires Franciscanos


1ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Sm 4,1-11)
Salmo Responsorial (Sl 43)
Evangelho (Mc 1,40-45)

1. A primeira leitura trata da vergonhosa derrota de Israel ante os filisteus. O salmo expressa a consternação do povo ante o abandono de Deus. As palavras usadas são de uma ousadia que soa até um pouco estranha: "Senhor , porque dormis?". Não é que Deus durma, mas que sua proteção não é um dado automático, uma garantia, uma lei física. Antes suas promessas são condicionadas, se não formos profundamente fiéis a Ele, não adianta que nos arroguemos pertencer a seu povo. Se não formos fiéis, mesmo que sejamos identitária e ideologicamente católicos, podemos até mesmo terminar no inferno.

Pensemos nisto.

2. No Evangelho que hoje contemplamos, Cristo cura um leproso, mas em seguida o ordena certa discrição. O ex-leproso crê que tem uma ideia melhor e sai por aí falando mais que "veia fofoqueira". Como resultado, Jesus acaba encontrando dificuldades em adentrar as cidades da região.

Se não obedecermos as ordens de Cristo, mas antes acreditarmos em nossos próprios planos, mesmo que sejam planos apostólicos recheados de boa intenção, só criaremos problemas ao divino mestre. Que Deus nos ajude a obedece-lo, e a mortificar nossa vontade, a esquecer nossas ideias tolas que contrariam a vontade de Cristo.

3. Hoje a Igreja celebra a memória dos primeiros mártires franciscanos: São Beraldo e seus companheiros. Homens que foram ao Marrocos pregar pela conversão dos seguidores do falso profeta Maomé. A história é deveras interessante, São Francisco queria ir, mas se adoentou, seus irmãos seguiriam viajem sem ele. Pela sua pregação foram presos diversas vezes, alguns cristãos com contatos entre os infiéis conseguiram libertá-los umas duas ou três vezes, mas estes homens eram santos e tornavam a pregar, de modo que receberam a glória do martírio. Martírio este que motivou uma profunda transformação na vida de um certo cônego que viria a se tornar o grande Santo Antônio.

Dias atrás vi católicos apoiando o Irã e se contentando com uma situação onde embora os cristãos possam se reunir, lhes é proibido, aos que ali habitam, pregar o evangelho aos maometanos. Aqui  onde moro houve um infeliz evento ecumênico, onde membros da ordem franciscana foram a mesquita, sem intenção de converter ninguém, mas para pagar de gente boa com os agarenos e parecer bonzinhos perante a mídia. A memória dos mártires de hoje é um balde de água fria nessas inciativas tontas. É a manifestação da profunda diferença entre a caridade dos santos, dóceis a vontade divina, e as maquinações dos homens e sua vã politicagem.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O discipulado de Samuel e a bondade de Simão Pedro


1ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Sm 3,1-10.19-20)
Salmo Responsorial (Sl 39)
Evangelho (Mc 1,29-39)

1. Samuel servia no templo, desde pequeno, sob a direção de Heli. Diferente de outros estados de vida, salvo no que diz respeito a sua instituição primordial, o sacerdócio não é algo que possa ser aprendido de forma auto-ditada, antes exige a realidade do discipulado: um mestre, um superior que diretamente instruí e dirige seu aprendiz. O Senhor chama a Samuel, e este vai a Heli. Cabe a ele, seu mestre, o discernimento e a tarefa de preparar seu discípulo para receber o Senhor e ser dócil a suas inspirações.

2. O Senhor se faz ouvir no templo, e em tenra idade. A luz da forma como se manifestou a vocação de Samuel, a Igreja abre o serviço do altar as crianças, acólitos e coroinhas, afim de que no templo, nas proximidades do altar, sob a direção do sacerdote, Deus possa chamar aqueles que destinou desde a eternidade a vocação clerical e, que estes encontrem o ambiente propício para responder a seu chamado desde cedo. É certo que o chamado pode se manifestar mais tarde, mas, o ordinário é algo análogo ao que ocorreu com Samuel.

3. Ainda sobre a primeira leitura, é interessante notar a profunda humildade exigida no discipulado, sobretudo no discipulado para a função sacerdotal. Por três vezes chama o Senhor a Samuel e por três vezes o garoto vai ter com Heli.

Quantos de nós temos tal docilidade? Depois da primeira ou segunda vez que Heli nos mandasse dormir, muitos provavelmente reagiríamos aos chamados posteriores com certo mau humor: ''-Ele já me chamou duas vezes e quando fui lá me mandou de volta dormir, o sujeito está me trollando grr! Vou é ficar aqui, já basta de ser feito de bobo!". A presença desse tipo de impaciência,é um grande obstáculo a vocação sacerdotal; uma vez que para este estado de vida são a humildade e a obediência virtudes fundamentais.

4. Canta hoje o salmista: <Feliz o homem que pôs sua esperança no Senhor, e não segue os idólatras e apóstatas. (Sl 39,5)>; creio que o versículo fala por si e dispensa comentários.

5. Hoje, no Santo Evangelho, Jesus vai com Tiago e João a casa de Pedro e André. A reunião dos discípulos mal começou e a amizade entre eles já começa a estreitar-se, de modo que vão todos a casa de Pedro. A casa é um lugar íntimo para o qual não se convida a qualquer um. É lugar para a reunião com amigos e familiares. O seguimento de Cristo, pois, forja amizades íntimas e duradouras. O episódio é ainda mais interessante. Diz o Evangelho que a casa era de Simão (Pedro) e André. Pedro já era a este tempo alguém relativamente velho para os padrões da época, e morava junto de seu irmão. Cuidava de seu irmão. Para tempos individualistas como os nossos é algo contrastante. Há aí uma profunda relação de irmandade, onde o irmão mais velho cuida do mais novo...Cuidado este que não se restringe a infância. Quantos de nós temos tal relação com nossos irmãos de carne? Digo, não sem certa vergonha, que dificilmente suportaria um convívio com os meus por muito tempo já na vida adulta... Mas a riqueza ''social'' do relato não para por aí! Quem mais estava na casa? A sogra de Pedro, uma senhora idosa e doente. Pedro cuidava da sogra. Enquanto hoje tantos filhos descartam impiedosamente seus pais em asilos, Pedro cuidava de uma senhora que nem sua mãe era, mas sua sogra! E não só cuidava, como a trouxe para morar consigo. E a esposa de Pedro, onde estava? Nos conta a tradição que por essa época, estava morta e enterrada. Isso torna a história ainda mais forte, Pedro cuidava da mãe da esposa falecida.

Pensemos nisso? Pedro, um sujeito já de certa idade, que poderia muito bem viver sozinho cuidando de seus assuntos, ou quem sabe arranjar uma nova esposa e recomeçar a vida, lá estava ele a cuidar do irmão mais novo e da sogra idosa e doente e a morar com eles. Antes mesmos de conhecer o Senhor, o pescador já era um homem bom. Um homem muito bom. Um homem melhor que a maioria de nós que a tanto tempo conhecemos e seguimos a Jesus e apesar disso nos comportamos de forma tão egoísta...

sábado, 11 de janeiro de 2020

Santa Burguesia (?)

Há poucos dias foi divulgada um lista a respeito dos livros mais vendidos em 2019[1]; a lista gerou, não sem razão, um verdadeiro furdúncio entre a pretensa nova intelectualidade, tanto católica quanto laica. "-Não há literatura de verdade!'' - vociferavam alguns; ''-A cultura brasileira está se americanizando!'' - lamentavam outros; ''Só dinheirismo, nosso povo está possesso pelo espírito burguês!'' - diagnosticava este que voz escreve, em uma primeira impressão que, embora não fosse incorreta, era deveras incompletas. Confira o leitor a lista dos títulos, e reserve alguns minutos para manifestar suas sinceras reações interiores.
Os 15 livros mais vendidos no Brasil em 2019:

– A Sutil Arte De Ligar O F*da-Se, de Mark Manson
– O Milagre da Manhã, de Hal Elrod
– Do Mil Ao Milhão. Sem Cortar o Cafezinho, de Thiago Nigro
– Seja Foda!, de Caio Carneiro
– Brincando com Luccas Neto, de Luccas Neto
– As Aventuras na Netoland com Luccas Neto, de Luccas Neto
– O Poder da Autorresponsabilidade, de Paulo Viera
– Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker
– Me Poupe!, de Nathalia Arcuri
– O Poder da Ação: Faça sua Vida Ideal Sair do Papel, de Paulo Vieira
– Pai Rico, Pai Pobre – Edição de 20 Anos: Atualizado e Ampliado, de Robert Kiyosaki
– Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie
– Mindset, de Carol S. Dweck
– O Poder do Hábito, de Charles Duhigg
– Mais Esperto Que o Diabo, de Napoleon Hill 

Encolerizou-se, caro leitor? Já pronunciou alguns xingamentos eruditos e outros não tão eruditos assim? Não precisa se sentir culpado, eu fiz a mesma coisa, todavia, é preciso ir além disso. De modo geral os títulos mostram que o público nacional busca por duas coisas: psicologia (barata) e dinheiro. A busca por conteúdo psicológico, autoajuda barata, regrinhas de comportamento, é manifestação de uma alma doente e uma cultura confusa. Em uma cultura sadia as pessoas sabem mais ou menos o que fazer e não precisam recorrer a gurus de ocasião... Provavelmente que quer acha que vai se tornar F*da lendo um livrinho boboca não faz parte do seleto público deste honroso blog, mas vocês podem levar o recado ao gado, essa doença d'alma a qual sofre o brasileiro médio  não há mindset que cure. A cura da alma se dá pela doutrina e pelos sacramentos...  Esqueça as novidades do mercado e vá ler as velharias empeiradas escritas pelos  santos doutores! Dito isto, falemos das verdinhas. O pessoal quer ficar rico. Rico não, milionário! Esse é um desejo bem comum na era capitalista, onde o dinheiro se torna praticamente o único critério de valoração social. Como nobre templário que sou (vai nessa rsrs!), desejaria ver meus compatriotas libertos do espírito burguês, e munidos de heroica valentia no combate cultural contra a modernidade iníqua... Todavia, como nem todos vão ler Plínio Salgado[2], nem nasceram para vida de soldado, resta ao menos rezar para que sejam não apenas bom burgueses, mas santos burgueses. E isso existe? É possível? É sim!

Convido o leitor a abrir a sua bíblia, vamos lá pegue aquela edição de bolso da ave-maria com zíper e capinha de couro... Não tem? Bom, então vou facilitar as coisas para você meu amigo e transcrever o trecho em questão (e vou fazer um favorzão: ainda usar a tradução da Vulgata):

Mas Jabes foi mais ilustre do que seus irmãos e sua mãe pôs-lhe o nome de Jabes, dizendo: Porque o dei à luz com dor. Ora Jabes invocou o Deus de Israel dizendo: Oh! Se tu me cumulasses de bençãos, dilatasses os meus limites, a tua mão fosse comigo e não permitisses que eu fosse oprimido pela malícia! E Deus concedeu-lhe o que ele pediu. (I Cr 4, 9-10)

''Dilatasses os meus limites'' significa que Jabes estava pedindo que Deus desse prosperidade a seus negócios para que ele expandisse suas propriedades. Ele estava basicamente pedindo prosperidade, posses, dinheiro. E sabe o que é o mais curioso? Deus atendeu sua oração! Eita, é isso mesmo produção? Jabez pediu dinheiro e o Senhor o abençoou? Sim, é assim mesmo. "-Ma-s, que teologia da prosperidade é essa?" Calma, sigamos, vamos sair da antiguidade veterotestamentaria para a idade média, falemos sobre Santo Homobono:

Santo Homobono (Cremona, 1117 — Cremona, 13 de novembro de 1197) é o padroeiro dos empresários, comerciantes, alfaiates e sapateiros, bem como de Cremona, na Itália.

Ele foi canonizado em 1199 a pedido urgente dos cidadãos de Cremona. Ele morreu em 13 de novembro de 1197 e seu dia de festa é comemorado em 13 de novembro.

Ele era um comerciante de Cremona, norte da Itália . Nascido Omobono Tucenghi, ele era um leigo casado que acreditava que Deus havia permitido que ele trabalhasse para poder apoiar pessoas que viviam em estado de pobreza. Seu nome é derivado do bônus homo, latino ("homem bom").

Homobono foi capaz de perseguir esse chamado na vida facilmente como resultado da herança que recebeu de seu pai, um próspero alfaiate e comerciante. Ele praticava seus negócios em Cremona com honestidade escrupulosa. Ele também doou uma grande proporção de seus lucros para o alívio dos pobres.
Homobono era frequentador intenso da igreja, e participava da Eucaristia todos os dias. Enquanto participava da missa, prostrado na forma de uma cruz, em 13 de novembro de 1197, Homobono morreu. Quatorze meses depois, Homobono foi canonizado pelo Papa Inocêncio III . Na bula da canonização, o papa o chamou de "pai dos pobres", "consolador dos aflitos", "assíduo em oração constante", "homem de paz e pacificador", "homem de bom nome e ação", e "esse santo ainda é como uma árvore plantada por correntes de água que produzem frutos em nossos dias". [3]

O que Jabes e Santo Homobono tem em comum? Ambos foram abençoados pelo senhor com a fortuna. E, embora não saibamos muito mais sobre a história de Jabez, com relação ao santo comerciante temos conhecimento o suficiente de sua vida para entender que este usou de seus bens e suas riquezas em favor do reino de Deus, na caridade para com os pobres. Então meu caro amigo, se você tem alma burguesa e aspira antes as riquezas que o combate, ao menos procure imitar Homobono e dar uma generosa e católica serventia a tais bens; ajudando os pobres, patrocinando o bom apostolado, sendo patrono de artistas dignos e piedosos e armando cavalerios templários para uma nova cruzada contra o mundo moderno... Enfim, seja também um empreendedor espiritual, e Deus o recompensará! 

P.S. Encerremos o artigo com algumas lições bíblicas de empreendedorismo 😜

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

The Guest: Sincretismo Coreano

Há neste desterro tantos povos e nações. Se outrora para os conhecermos deveríamos ser aventureiros, viajantes, missionários ou vagabundos, hoje, com a internet e a cultura pop, podemos nos aproximar e aprofundar um pouco mais a respeito das diversas potencialidades da sociedade humana. Embora para mim a Coréia seja para mim um tanto quanto desconhecida, sua indústria cultural já a muito penetrou terras tupiniquins, o K-Pop empolga mocinhas de todas as classes sociais, e centenas de doromas ganham legendas na língua de Camões; e é justamente um dorama (ou k-drama?) o assunto do post...

The Guest, é um intrigante, porém sincrético, suspense que aborda a temática do exorcismo. Antes de tratar do principal (ao menos para este falido blog católico que se pretende ortodoxo), que é o roteiro, quero comentar sobre alguns aspectos secundários, mas que chamaram atenção a este principiante no entretenimento coreano. Dentre estes ínfimos detalhes, está o fato de que a Coréia, ao menos da forma como fora retratada no dorama, me pareceu em demasia ocidentalizada. As praias, a grande metrópole, a delegacia de polícia, as roupas dos personagens; não fosse pelos olhos puxados e nomes complicados, a imaginação poderia devanear até algum filme americano; não há nada de especificamente coreano e identitário naqueles cenários. Salvo pela pequena aldeia rural, uma aldeia de pescadores, e em alguns detalhes da arquitetura das igrejas, foi difícil experimentar o sensação de alteridade ante uma cultura estranha, sensação essa que aflora, por exemplo, no consumo do entretenimento japonês. Aliás, já que citei a terra dos samurais, gostaria de contrastar certa diferença na construção dos personagens. Uma das características do moderno entretenimento japonês é a riqueza na construção destes: sua história, sua personalidade, sua psicologia, sua evolução ao longo da história... Senti falta disso no dorama; os personagens são um tanto quanto apáticos, não cativam, e não mudam nem aprendem muita coisa no decorrer da trama. Não me entenda mal, a história, o suspense em The Guest, são muito atrativos, mas os personagens não o são.

Até agora eu só resmunguei; mas isso não significa que eu não tenha gostado da história. Eu gostei,  a estrutura narrativa me cativou. Comparando agora com os americanos, cuja a estrutura faz com que suas sérias acumulem episódios inúteis e desconexos, The Guest está perfeitamente conectado. Não há episódio inútil, não há perda de tempo, não há mera apelação ao ''monstro da semana''; tudo está adequado como um quebra-cabeça onde as peças vão pouco a pouco se encaixando.

Ainda antes de entramos no que de facto me interessa nessa texto, falemos sobre a ação. Apesar dos efeitos especiais não serem do nível de Hollywood, eles são bem utilizados, as cenas de exorcismo e perseguição são muito boas, embora as cenas de luta tenham deixado um pouco a desejar; não que estejam superficiais, é só que os golpes usados não tem estética, seriam úteis, talvez, na realidade, mas para o entretenimento são ''sóbrios'' demais, não geram a sensação de catarse. 

Falemos da Igreja, que foi afinal o que direcionou meu interesse nesta obra. Por um lado os roteiristas fizeram uma boa pesquisa: as orações utilizadas correspondem a realidade (embora não sei se se por erro de tradução, pois não falo coreano, se utilize o termo ''divindades'' no plural), a cena da missa (nos capítulos finais) mostra certo conhecimento da teologia sacramental (usando água ao invés de vinho não há consagração válida por falha na matéria); por outro lado a história não escapou do sincretismo. O cosmos de The Guest não é um cosmos católicos, mas pagão. Fantasmas, e não demônios (Park Il Do é o único capeta ''puro sangue'' da narrativa), são os responsáveis pela possessão, xamãs e padres convivem amigavelmente, não há o mínimo esforço de evangelização... Detalho um pouco mais para o eventual leitor não católico: segundo a doutrina, após a morte a alma vai para o seu destino eterno (céu [ás vezes precedido por uma passagem pelo purgatório] ou inferno), não fica vagando, não fica assombrando os vivos; aquilo que os exorcistas enfrentam são demônios e não fantasmas! Existe, uma ÚNICA menção de almas humanas possuindo vivos na literatura dos padres exorcistas. Em dois mil anos de Igreja, um único testemunho, cuja validade é, não raro, posto em dúvida. Sobre a convivência harmônica com os pagãos, apesar de certa diplomacia ser buscada, nada além disso pode ser obtido. Segundo a Sagrada Escritura, os deuses dos pagãos são demônios. A partir disto, não seria de modo algum católico, procurar a colaboração de xamãs, tanto menos para o exorcismo.

The Guest foi minha ''introdução'' no mundo do entretenimento coreano, pretendo ainda investigar algumas outras obras; caso o leitor quiser me ajudar, pode deixar suas indicações nos comentários. Isso é tudo pessoal!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Fama, anti-QTPismo e as aventuras do viajante


Segunda-feira depois da Epifania
Primeira Leitura (1Jo 3,22-4,6)
Salmo Responsorial (Sl 2)
Evangelho (Mt 4,12-17.23-25)

1. Nos ensina São João: o mundo escuta os que são do mundo. Mutatis mutandis, o mundo não há não vai escutar quem não é do mundo. Raramente um cristão vai ficar famosinho... Mas não tem problema, pois ainda segundo o apóstolo, quem conhece a Deus escutar-nos-á. Ao menos não vamos ficar falando sozinho 😛; mas isso tão somente se nós formos de Deus. Se quisermos bancar o isentão, se formos mornos, os que são de Deus não vão nos ouvir. Tampouco o mundão, que prefere as degenerações mais modernas e mais radicias.

2. O salmo de hoje é anti-QTPista. Dugin quer um mundo multipolar onde os povos tenham uma autonomia étnica para viver cada qual segundo a sua tradição, segundo sua ''religião tradicional''. Nesse sentido, que tenhamos lá um território cristão, mas também devemos ter um território muçulmano e um budista; e porque não algumas aldeias pagãs? Responde o salmista; aliás, vamos antes a algumas lições de poesia bíblica: no caso deste salmo, o eu lírico é Deus mesmo, e aquele a quem se refere, profeticamente é Cristo. Continuando, diz o salmista: <Pede-me; te darei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo. (Sl 2,8)>. Não são apenas os cristãos étnicos, não é só apenas os países da Europa e a América Latina. São os TODAS as nações. Repito TODAS até os confins do mundo. Não tem bairro muçulmano, não tem cota pagã.. Cristo deve reinar sobre toda a terra, sobre todas as nações e este é um norte que o cristão nunca pode perder de vista, sob pena de heresia. E continua o o autor sagrado: <Agora, ó reis, compreendeis isso; instruí-vos, ó juízes da terra. Servi ao Senhor com respeito e exultai em sua presença; prestai-lhe homenagem com tremor, para que não se irrite e não pereçais quando, em breve, se acender sua cólera. Felizes, entretanto, todos os que nele confiam. (Sl 2, 10-11)>; isso é imperialismo! É globalismo! É etnocentrismo! - Choram os incrédulos. Que chorem a vontade, nós soldados de Cristo lutaremos , viveremos e morreremos por este ideal!

''Liberdade, Justiça e Revolução'' é a vovozinha metaleira. Meu brado é ''Viva Cristo Rei!''.

3. Nosso divino meste era, enquanto homem, bem viajado. Nos últimos dias quantas regiões diversas a liturgia não nos leva a percorrer? Cito de memória : Ele nasceu em Belém; fora levado ao templo em Jerusalém; fugiu para o Egito donde ficou até a morte de Herodes. Dali foi para a Judeia, mas temendo a tirania de Arquelau, São José o levou a Nazaré na Galileia e, finalmente, hoje, lemos que se mudou de Nazaré para Cafarnaum. E de Cafarnaum, percorria as cidades da região, curando, expulsando demônios, ensinando e anunciando o Evangelho. Do ponto de vista meramente humano se pode dizer: foram altas aventuras! Mas, em muitos cristãos vive certo espírito de poltronice, que, os inspira o desejo de ficarem longe das agitações de Cristo, tando como modelo a calmaria de Immanuel Kant, que nunca saiu de sua cidadezinha e raramente alterou sua rotina monótona... Que Deus nos conceda a alegria e a agitação das viagens peregrinações!