segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A guerra santa começa a mundanizar-se


2ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Sm 15,16-23)
Salmo Responsorial (Sl 49)
Evangelho (Mc 2,18-22)

Para melhor compreendermos a primeira leitura na liturgia de hoje, é preciso exercitar a imaginação épica. Estamos em um contexto de guerra, Israel está cercado por inimigos de todos os lados; Deus se manifesta ao povo por intermédio do profeta Samuel. Ainda que usando de um homem, há uma manifestação clara da vontade divina. Não são especulações teológicas, não são investigações e achismos, mas a palavra Deus mesmo que fala claramente. Deus atente o clamor do povo e lhes dá um rei, unge Saul, um jovem pequeno e pobre que cuidava das jumentas de seu pai, como líder de Israel. Deus o abençoa, cuida dele, lhe dá a vitória em incontáveis batalhas. Em determinada ocasião Ele lhe dá uma ordem clara, não basta aniquilar os inimigos, é preciso também apagar da face da terra os rastros de sua existência, queimando incluso seus rebanhos e pertences. Saul desobedece,  deixa o povo se apropriar dos despojos. Nesse ato o próprio sentido da guerra é desvirtuado. De uma guerra santa, uma guerra para a defesa de sua nação, a tomada de posse do território, e o extermínio dos inimigos conforme as determinações da Providência, o combate passa a ser motivado pela cobiça, pelo saque dos bens alheios.... A guerra santa começa a mundanizar-se.

Samuel repreende Saul, que tenta dar uma de bobo. Joga as culpas nas costas do povo, diz que os bens serão oferecidos em sacrifício ao Senhor. Mas Saul é rei, e cabe a ele controlar e educar o povo. Não só isso, Deus quer obediência e não sacríficos. Os ritos religiosos, se não acompanhados de uma obediência interior, não lhe são agradáveis. Diz a Vulgata que a rebelião é um verdadeiro pecado de magia, e assim o é, pois se pretende obrigar a Deus a dar suas bençãos ao povo pela força do ritual, sem que o povo seja dócil aos desígnios divinos e estes venham do alto como sinal de bondade e amor de Deus para com seus fiéis. Inspirado pelo Senhor, Samuel anuncia o oráculo: Saul foi rejeitado por Deus e irá perder a realeza. Assim foi feito, como veremos nos próximos dias.

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