sábado, 18 de janeiro de 2020

Brasil Profundo em Filme Pastelão

Não sei se por temperamento ou vício de época, mas confesso ao leitor que tenho um fraco pela complexidade. Ante os enigmas que se me apresentam, procuro sempre uma compreensão profunda, explorando sobretudo seus aspectos mais marginais e obscuros. Assim também se dá no estudo da religião. Procurando manter a devida prudência, é certo, as questões que mais me atraem são aquelas as quais apresentam maior dissonância para com a mentalidade moderna, a saber hoje: a realidade dos seres espirituais (anjos e demônios) e os aspectos hierárquicos e aristocráticos da revelação. Temas estes que não foram muito explorados por meus conterrâneos. Antes, o ethos brasileiro parece dedicar especial atenção ao aspecto moral e social do catolicismo. Tal perspectiva, válida, sem dúvida, encontra um especial eco em um velho filme datado de 1984: Padre Pedro e a Revolta das Crianças.

O roteiro, embora belo, é terrivelmente simples: um padre novo chega na cidade para restabelecer a vida religiosa à sete anos interrompida. Uma espécie de mafioso local começa a conspirar pela expulsão do sacerdote, pois teme que este possa vir a comprometer seus negócios imorais. O sacerdote é interpretado pelo comediante Pedro de Lara, o vilão é ninguém menos que a excêntrica figura do senhor Zé do Caixão.  O filme é marcado por aquele velho humor pastelão, com diálogos em linguagem escrachada, efeitos especiais risíveis e atuação caricata. Apesar disso, ou justamente por causa disso, é um bom filme.

Comentários técnicos a parte, ainda fico a pensar a respeito da narrativa. Temos um padre machão que vem para moralizar a cidade; ricos iníquos mancomunados com políticos temendo a ação justiceira da Igreja, um povo refém dos poderosos que encontra no sacerdote a defesa e a proteção contra os senhores do mundo. As coisas são tão simples... Não há heresias, não há conspirações, não há complexas especulações teológicas, mas a coragem de um homem inspirado por Deus que faz o que tem de ser feito. É simples, perturbadoramente simples, e ainda assim tocante. Creio que falta ao mundo de hoje esta simplicidade rústica daquilo que chamo catolicismo folk. Histórias locais contam que em uma metodologia análoga a do Padre Pedro, um sacerdote local teria impedido a construção de uma loja maçônica nos arredores da Igreja, todavia, com a morte deste valente padre, seu sucessor, com toda politicagem e diplomacia não conseguiu lograr o mesmo resultado, de modo que em frente ao Templo de Deus se edificou a Sinagoga de Satanás. Lembro de uma história que ouvi em Goiás, a respeito de um padre que ameaçado de morte, por contrariar um coronel local, teria respondido e acusado publicamente seus adversários durante homilia (em linguagem popular, o sermão): "Se querem me matar, que tentem! Eu sou padre na batina, e macho na carabina!".  

Em tempos de grande passividade, onde blasfêmias são realizadas em plena luz do dia e ninguém faz nada, quão luminoso é assistir este velho filme pastelão, contemplar toda a força e carisma do bom e velho catolicismo folk, macho e porradeiro, e contrastá-lo com essa gosma efeminada e dialogante do catolicismo vaticanosegundista. Quando o padre é macho, o diabo não tem vez! Já quando é frouxo, o povo caminha rumo ao inferno.... Conforme disse outrora, é urgente restaurar a alta macheza!

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