sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Luxúria, Castigo e o Poder da Semente


3ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (2Sm 11,1-4a.5-10a.13-17)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,26-34)

1. Na liturgia de hoje, a saga de Davi exibe aquele que é um de seus mais tristes episódios. O rei virtuoso que suportou com mansidão as perseguições de Saul, que lutou com valentia guerras diversas pela causa do Senhor, que no campo de batalha suportou com valentia e firmeza a fome, o medo e o frio, este homem caí miseravelmente, cometendo atos ignóbeis. Depois de adulterar com a mulher de Urias, o rei tenta ludibria-lo, afim de fazer passar por filho do heteu o fruto de seu pecado e, não tendo sucesso em tal empreitada, conspira a morte de seu soldado. Adultério, mentira e assassinato. Um pecado puxa o outro.

Quão forte deve ter sido o incêndio da luxúria capaz de fazer ceder aquele homem virtuoso? Em Fátima, fora revelado aos pastorinhos que os pecados da carne são aqueles os quais conduzem mais homens ao inferno,  entretanto, hoje a gravidade destes é tão negligenciada. Há poucos dias, houve certa polêmica nas redes onde vergonhosamente ditos católicos estavam a defender meretrícios...

Que Deus nos dê a graça de mortificar o olhar, de procurar evitar desde as primeiras fagulhas, pois uma vez que começa o incêndio, fica tudo mais difícil. Davi tinha tantas virtudes, e caiu de tal forma vergonhosa, que resta para nós que passamos longe de tais virtudes heroicas?

São Luís Gonzaga, rogai por nós!

2. Ainda sobre a primeira leitura, o texto bíblico destaca a culpa de Davi, isto porque do ponto de vista narrativo na história em questão, é ele o personagem mais importante. Entretanto, o rei não adulterou sozinho. A culpa da dona é tanto maior uma vez que ela era casada e cabia-lhe respeitar e honrar o marido, que estava fora, na guerra, combatendo por Deus e trazendo o sustento para a casa.

Nos capítulos posteriores da narrativa, a Betsabé seria castigada com a perda de seu filho. A escritura não entra em detalhes, mas suponho que deva ter sido uma dor emocional considerável, afim de reparar a ofensa desta a Urias. Como uma das esposas de Davi, teve ela de dividir o novo marido com outras mulheres, pois a poligamia era uma prática da época. Não deixa de ser curioso. Urias a amava e a tinha como única esposa, já para Davi, ela era mais uma em seu ''harém''. Por fim, teria ela concebido Salomão, e com a coroação de seu filho, fora ela finalmente reconhecida como rainha.

Deus castiga, e perdoa. Ainda assim, confesso que é difícil, sobretudo a um homem lidar o perdão e a misericórdia divina em tais casos, onde há adultério da esposa contra o marido que a amou, a traição de tão grande confiança depositada... Enfim, não atoa São Paulo recomendou o celibato, seria extremamente difícil, dramático, e triste viver essa história desde a perspectiva de Urias...

3. No Evangelho, Jesus fala ao povo em parábolas, mas explica o sentido destas aos discípulos em particular. Assim o é ainda hoje... Quantos não leem os Evangelhos? Entretanto, fora da Igreja não encontram a interpretação correta, e tudo lhes parece confuso, enigmático; ou pior, acabam interpretando tudo em sentido diverso daquilo que foi dito. Mas na Igreja, Jesus explica o sentido das Escrituras; através do Espírito Santo, usando do magistério como instrumento.

4. Ainda sobre o Evangelho de hoje, Jesus compara o reino a uma semente que cresce no escondido, longe dos olhos de semeador. Diferente do que ocorre com uma educação formal, o semeador, o pregador o ''tutor'', não tem um papel definitivamente ativo. Não é ele o responsável por formar os pupilos em uma rígida disciplina, acompanha-los passo a passo, sendo responsável pelos mínimos detalhes. Antes ele joga a semente, e a semente, a força da Palavra, com a ação misteriosa da graça e intervenção do Espirito Santo se encarregam de fazer a semente crescer, emergir e tornar-se uma árvore grandiosa.

Nesse sentido, a humildade cristã segundo a qual não é o pregador quem converte nem forma ninguém, mas a ação do Espírito, não é mera retórica, mas a exata descrição da realidade. O semeador por vezes nem sabe o que aconteceu. É a força da palavra, é a ação da graça que faz crescer o reino de Deus, e não o carisma (em sentido vulgar e moderno do termo) de tal ou qual sujeito. O importante é a mensagem e não o mensageiro, a semente e não o semeador. De tal forma que mesmo a semeadura de homens maus, podem vir a gerar uma farta colheita. Imaginemos quanta gente a pregação de Judas não teria convertido. Se o traidor habita as profundezas do inferno, tantos e tantos que receberam a sua pregação, podem ter alcançado o céu. O poder está semente e não o semeador....

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