sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Sadio Despotismo


2ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Sm 24,3-21)
Salmo Responsorial (Sl 56)
Evangelho (Mc 3,13-19)

1. Não que minha opinião neste âmbito seja relevante, mas, o modo como as leituras foram organizadas desde a reforma conciliar muito me agrada. É como se estivéssemos a assistir a cada dia um novo capítulo de alguma série, e o ciclo trienal (na verdade, bianual para os dias de semana) afasta a sensação de monotonia e repetição. Há alguns dias vimos o drama de Ana, seguiu-se o nascimento de Samuel, sua infância, sua velhice, a unção de Saul, a queda de Saul, a unção de Davi, a vitória de Davi contra Golias, e agora cá estamos em um dos episódios da guerra de Saul contra Davi. Episódio esse que bem poderia ser o final. Saul é tocado pela bondade de Davi, pede a ele perdão e o abençoa. O rei era um homem bom... Mas, como a distância histórica dos fatos nos deu alguns spoilers, sabemos que infelizmente a saga não termina aí, Saul será consumido pelo pecado, e virá a ter um trágico fim. Dado isto, contemplamos o episódio de hoje com um misto de alegria e tristeza. Alegria pela cena de reconciliação e virtude, tristeza ao saber o que se seguirá.

2. O Evangelho de hoje é interessantíssimo e em certo aspecto até um tanto engraçado. Jesus escolhe os 12 apóstolos e, ressalta o evangelista, escolhe os que Ele quis. Não há concurso público ou meritocracia, mas o puro arbítrio divino. "Fi-lo porque qui-lo"; diria Jânio Quadros. Em tempos democráticos, o arbítrio é visto com maus olhos, parece que tudo tem que ter uma explicação, um argumento socialmente aceitável que justifique a decisão. O Evangelho, na contramão do mundo moderno, nos ensina um sadio despotismo. Não precisamos explicar tudo para todo mundo. Fiz porque quis.

3. Ainda sobre o santo Evangelho, notamos hoje o bom humor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diz o evangelista, que Tiago e João, por conta de seu temperamento, receberam um apelido: filhos do trovão. Tento imaginar a cena onde o termo fora cunhado, a surpresa seguida das gargalhadas o clima de alegria e descontração entre o mestre e seus discípulos. E desde uma distância histórica, a piada se torna ainda mais engraçada, uma vez que conhecemos o tom narrativo extremamente dócil e amável do apóstolo São João em suas cartas. O mesmo homem que designa carinhosamente os fiéis por "filhinhos" era um alguém colérico, conhecido como um "filho do trovão"? São João deve ter rido de si mesmo ao notar o aspecto contrastante da mudança.

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