quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

The Guest: Sincretismo Coreano

Há neste desterro tantos povos e nações. Se outrora para os conhecermos deveríamos ser aventureiros, viajantes, missionários ou vagabundos, hoje, com a internet e a cultura pop, podemos nos aproximar e aprofundar um pouco mais a respeito das diversas potencialidades da sociedade humana. Embora para mim a Coréia seja para mim um tanto quanto desconhecida, sua indústria cultural já a muito penetrou terras tupiniquins, o K-Pop empolga mocinhas de todas as classes sociais, e centenas de doromas ganham legendas na língua de Camões; e é justamente um dorama (ou k-drama?) o assunto do post...

The Guest, é um intrigante, porém sincrético, suspense que aborda a temática do exorcismo. Antes de tratar do principal (ao menos para este falido blog católico que se pretende ortodoxo), que é o roteiro, quero comentar sobre alguns aspectos secundários, mas que chamaram atenção a este principiante no entretenimento coreano. Dentre estes ínfimos detalhes, está o fato de que a Coréia, ao menos da forma como fora retratada no dorama, me pareceu em demasia ocidentalizada. As praias, a grande metrópole, a delegacia de polícia, as roupas dos personagens; não fosse pelos olhos puxados e nomes complicados, a imaginação poderia devanear até algum filme americano; não há nada de especificamente coreano e identitário naqueles cenários. Salvo pela pequena aldeia rural, uma aldeia de pescadores, e em alguns detalhes da arquitetura das igrejas, foi difícil experimentar o sensação de alteridade ante uma cultura estranha, sensação essa que aflora, por exemplo, no consumo do entretenimento japonês. Aliás, já que citei a terra dos samurais, gostaria de contrastar certa diferença na construção dos personagens. Uma das características do moderno entretenimento japonês é a riqueza na construção destes: sua história, sua personalidade, sua psicologia, sua evolução ao longo da história... Senti falta disso no dorama; os personagens são um tanto quanto apáticos, não cativam, e não mudam nem aprendem muita coisa no decorrer da trama. Não me entenda mal, a história, o suspense em The Guest, são muito atrativos, mas os personagens não o são.

Até agora eu só resmunguei; mas isso não significa que eu não tenha gostado da história. Eu gostei,  a estrutura narrativa me cativou. Comparando agora com os americanos, cuja a estrutura faz com que suas sérias acumulem episódios inúteis e desconexos, The Guest está perfeitamente conectado. Não há episódio inútil, não há perda de tempo, não há mera apelação ao ''monstro da semana''; tudo está adequado como um quebra-cabeça onde as peças vão pouco a pouco se encaixando.

Ainda antes de entramos no que de facto me interessa nessa texto, falemos sobre a ação. Apesar dos efeitos especiais não serem do nível de Hollywood, eles são bem utilizados, as cenas de exorcismo e perseguição são muito boas, embora as cenas de luta tenham deixado um pouco a desejar; não que estejam superficiais, é só que os golpes usados não tem estética, seriam úteis, talvez, na realidade, mas para o entretenimento são ''sóbrios'' demais, não geram a sensação de catarse. 

Falemos da Igreja, que foi afinal o que direcionou meu interesse nesta obra. Por um lado os roteiristas fizeram uma boa pesquisa: as orações utilizadas correspondem a realidade (embora não sei se se por erro de tradução, pois não falo coreano, se utilize o termo ''divindades'' no plural), a cena da missa (nos capítulos finais) mostra certo conhecimento da teologia sacramental (usando água ao invés de vinho não há consagração válida por falha na matéria); por outro lado a história não escapou do sincretismo. O cosmos de The Guest não é um cosmos católicos, mas pagão. Fantasmas, e não demônios (Park Il Do é o único capeta ''puro sangue'' da narrativa), são os responsáveis pela possessão, xamãs e padres convivem amigavelmente, não há o mínimo esforço de evangelização... Detalho um pouco mais para o eventual leitor não católico: segundo a doutrina, após a morte a alma vai para o seu destino eterno (céu [ás vezes precedido por uma passagem pelo purgatório] ou inferno), não fica vagando, não fica assombrando os vivos; aquilo que os exorcistas enfrentam são demônios e não fantasmas! Existe, uma ÚNICA menção de almas humanas possuindo vivos na literatura dos padres exorcistas. Em dois mil anos de Igreja, um único testemunho, cuja validade é, não raro, posto em dúvida. Sobre a convivência harmônica com os pagãos, apesar de certa diplomacia ser buscada, nada além disso pode ser obtido. Segundo a Sagrada Escritura, os deuses dos pagãos são demônios. A partir disto, não seria de modo algum católico, procurar a colaboração de xamãs, tanto menos para o exorcismo.

The Guest foi minha ''introdução'' no mundo do entretenimento coreano, pretendo ainda investigar algumas outras obras; caso o leitor quiser me ajudar, pode deixar suas indicações nos comentários. Isso é tudo pessoal!

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