sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Ying Yang e o Paradoxo Aristocrático-Populista


Sábado depois das Cinzas
Primeira Leitura (Is 58,9b-14)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Lc 5,27-32)

1. Na primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías. uma diferença de tradução entre o leccionário e o texto da Vulgata, altera significativamente o sentido do texto. O lecionário fala de deixar a ''linguagem maldosa'' , enquanto a Vugata, tanto na tradução do Pe. Figueiredo quanto do Pe. Matos Soares exorta a abster-se a de ''falar o que não aproveita''. É certo que substancialmente, o que não se aproveita consiste em linguagem maldosa, acontece que de forma ordinária a assembléia não é constituída de filósofos tomistas, de forma que a tradução atual soa tanto mais restrita enquanto a pretérita bem mais ampla. Ao vulgo, há tantas inutilidades que embora não se aproveitam, não constituiriam em si linguagem maldosa, que para este se resumiria apenas em ofensas e ataques; ou em termos modernos: linguagem violenta. Acontece que a escritura não se refere tão somente a isso. Como ecoado pelo ensino dos santos e manifesto na santa tradição, há que ter certa prudência, certa economia no falar. É preciso cultivar o silêncio e adestrar a linguagem de tal modo que seja específica, e o tema de nossas conversações consista tão somente naquilo que é digno e do qual se aproveita. Neste sentido, quanta luz não nos joga este versículo com relação ao ''Zap-Zap'', onde não raro tantos grupos ingredam em um redemoinho de conversas superficiais, intermináveis, sem a devida seriedade e aprofundamento, ou até mesmo caindo, infelizmente, para o terreno das fofocas.

Evitemos, pois aquilo que não se aproveita. Sobretudo em tempos de redes sociais.

2. O Evangelho de hoje trata do chamado da Levi, um publicano, que na época significava um traidor e muito provavelmente um ladrão. Traidor porque os publicanos ou cobradores de impostos eram judeus que trabalhavam para o Império Romano, Isto é, lesa-pátrias a serviço do dominador contra o próprio povo. Ladrão porque, não raro, cobravam a mais do que ordenava a autoridade, afim de retirar um quinhão para si. Um homem em tal condição seria chamado a conversão, e constituído apóstolo, um dos doze, das doze colunas que profeticamente substituiriam os antigos alicerces representados pelas doze tribos de Israel, os doze filhos de Jacó. A Divina Providência é sem dúvida surpreendente. O Evangelho se encerra com a memorável expressão: <Eu vim chamar, não os justos, mas os peccadores á penitencia. (Lc 5, 32)>; tal versículo, além de seus ecos teológicos, cria para a própria identidade dos cristãos uma tensão cultural.

Já disse em outra ocasião que a Igreja é de natureza aristocrática. Acontece que esta não pode ser perfeitamente aristocrática, ao menos não no sentido o qual a palavra adquiriu na aristocracia pós-medieval, onde os nobres deixaram de viver em meio ao povo para adotar a vida nas cortes. Um aristocrata neste sentido cortesão é alguém que vive longe dos vulgos, cultivando, ao menos em tese, pensamentos mais belos e elevados, afim de se distinguir destes. Acontece que essa distinção gera um ''afastamento'', o que a Igreja não pode consentir, pois ela é chamada justamente a aproximar-se dos populares, dos pecadores, das realidades mais feias e aparentemente sem solução, e convidá-los a penitência e a conversão. Neste sentido ALGUMAS das reformas recentes foram positivas afim de atenuar o caráter aristocrático da Igreja, acentuando seu aspecto populista. Mas, mesmo esse aspecto populista não pode ser total, isto por que a Igreja não é chamada a se identificar as estas realidades ''baixas'', mas antes aproximar-se delas para daí elevar os que nelas se encontram. Estamos, pois, ante mais um dos paradoxos do catolicismo: a Igreja é ao mesmo tempo aristocrática e populista, sem o ser, contudo, nenhuma das duas realidades em absoluto. Em certo sentido poderíamos ilustrar tal paradoxo por um símbolo, que apesar de não ser de origem cristã e nem comumente ser interpretado desta forma, pode ser usado tal; falo do Ying Yang. Há, pois, um perfeito equilíbrio entre o preto e branco, de forma que nenhum deles preenche o círculo absolutamente, assim é a Igreja com relação ao aspecto populista e aristocrático, onde nenhum destes pode prevalecer e esgotar absolutamente a identidade cultural dos seguidores de Jesus Cristo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

''(..) na sua Lei meditará de dia e de noite''


Quinta-feira depois das Cinzas
Primeira Leitura (Dt 30,15-20)
Responsório (Sl 1)
Evangelho (Lc 9,22-25)

Canta o salmista:
Bem aventurado  varão, que não se deixou ir após o conselho dos impios, e que não se deteve no caminho dos peccadores, e que não se assentou na cadeira da pestilencia: Mas a sua vontade está posta na Lei do Senhor, e na sua Lei meditará de dia e de noite. (Sl 1. 1-2)

Já comentei em outras ocasiões sobre o começo do versículo, quero hoje me centrar-me em seu final; isto é:  bem aventurado é todo aquele a qual <sua vontade está posta na Lei do Senhor, e na sua Lei meditará de dia e de noite.>. Na época do salmista, além dos Dez Mandamentos, da lei de Deus dada a Israel faziam parte as normas cultuais e étnicas, expressas nos livros de Levítico e Deuteronômio. Havia, portanto, um material amplo para meditação. De algum modo, temos nós também um material análogo com as normativas disciplinares e rituais da Igreja. Note o leitor que o salmista não se refere a mera obediência da lei, mas também na meditação desta. Há uma sabedoria por trás de tais normativas, há todo um código de simbólico e uma miríade de argumentos teológicos, de tal forma que tais leis não são mera arbitrariedade. Feliz somos se formos capazes de adentrar em seu sentido profundo!

A religião é um mistério. A vida religiosa não se resume a seguir certas normas e a macaquear certos gestos rituais por si mesmo. Isso é reduzir e muito a riqueza de tal instituição. Antes, em meio a nossa prática religiosa devemos tomar uma atitude investigativa, procurando desvendar o significado de cada prática, de cada mistério, desde a arquitetura de uma Igreja gótica as normas de jejum, passando para o sentido dos gestos, dos textos litúrgicos, até a lei de Deus propriamente dita, isto é os mandamentos. Sem dúvida, vivendo a fé desta forma, seremos gente feliz.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Contrastes


7ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (Tg 4,1-10)
Responsório (Sl 54)
Evangelho (Mc 9,30-37)

A liturgia para este carnaval não poderia ser mais apropriada, a seleção das leituras foi deveras providencial. Escreve o apóstolo: <Adulteros, não sabeis que a amizade d’este mundo é inimiga de Deus? Logo todo aquelle que quizer ser amigo d’este seculo, se constitue inimigo de Deus. (Tg 4, 4)>. Quão difícil é para nós brasileiros entender tais contrastes. Este povo infeliz têm como dado antropológico a busca incessante de conciliar o irreconciliável em uma mistura sincrética e adúltera. Nestes infelizes dias de carnaval, quantos ditos cristãos não aderiram ao mundo participando de desfiles impudicos e não raro blasfemos. Até clérigos tomaram parte em tais festividades. Homens fracos incapazes de suportar o contraste, a oposição entre o mundo, isto é toda uma cultura erigida sob influência do demônio, e o Reino.

Continua o apóstolo: <Afligi-vos a vós mesmos, e lamentae, e chorae: converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria em tristeza. Humilhae-vos na presença do Senhor, e elle vos exaltará. (Tg 4, 9-10)> .Quão oposta é a atitude penitencial recomendada pelo apóstolo, da alegria fútil, ébria e vulgar destes tempos carnavalescos.

Ah! Mas não faltam aqueles que procuram justificar tal promiscuidade entre o sacro e o profano através de uma mal entendida dinâmica de guerra cultural. É preciso, dizem eles, que a Igreja se aproprie de tais festividades e procure inculturar-se na cultura carnavalesca. Justificam assim essa mistura pecaminosa por uma busca de poder mais ou menos sincera. A estes, a liturgia também têm uma resposta: <se algum quer ser o primeiro, será o ultimo de todos, e o servo de todos. (Mc 9, 35b)>; a Igreja não alçará o poder por maquinações pecaminosas. Antes, pela penitência e humildade. Este é o caminho cristão! De tanto andar em adúltero romance com o mundo, estes homens já não pensam segundo o Evangelho, e sim pela lógica da carne.

<Lança sobre o Senhor o teu cuidado, e ele te sustentará: não deixará que fluctue o justo para sempre. (Sl 54, 23)>

Tenhamos coragem de aceitar o contraste barroco, optando pelo Partido de Deus, ao invés de numa covardia imunda, procurar a amizade do mundo na conciliação do inconciliável.

***
Obs. As citações bíblicas foram retiradas da bela tradução bíblica do Pe. Figueiredo em português arcaico do texto da Vulgata Latina. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Lifestyle


7ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Tg 3,13-18)
Responsório (Sl 18)
Evangelho (Mc 9,14-29)

Quem dentre vós se julga sábio e inteligente, que demonstre sua sabedoria no seu proceder, isto é, na sua vida prática. Com este ensinamento se inicia a primeira leitura retirada da carta de São Tiago. E o apóstolo prossegue contrastando a verdadeira sabedoria que vem do alto, com a sabedoria terrena, carnal, inspirada por um zelo amargo e um gosto por contendas (em linguagem moderna: tretas). Aliás, como é ruim a tradução do lecionário hoje: "carnal" foi substituído por ''materialista'', "zelo" trocado por ''ciúme''... De todo o modo, mais do que usar o texto para marretar os irmãos pretensamente sábios mas com uma vida bagunçada, creio que antes, nós como leigos devemos aproveitar o impulso criativo que traz o trecho selecionado. E que impulso é este? Ora, o de usar nossa vida pessoal e nossa conduta como ''cobaia'' de experimentação de nossas ideias. Se a sabedoria encontra expressão na própria vida, como posso aplicar meus estudos em minha conduta? Mais do que uma sanha amalucada por reformar a sociedade, antes, que nossos estudos alimentem um potência criativa afim de confeccionar rotinas e costumes que tornem nossa existência tanto mais divertida e agradável a nós e aqueles que nos rodeiam.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Peste do Catolicismo Burguês


6ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Tg 2,14-24.26)
Responsório (Sl 111)
Evangelho (Mc 8,34–9,1)

As seitas e falsas religiões, a perseguição, a imoralidade dos mundanos, são estes males externos que chamam muita atenção. Mas, por seu caráter oculto, a podridão interna, aquele velho catolicismo burguês de meras aparências tão comum nessas terras selvagens, talvez seja tanto mais terrível e perigoso. Que é esse catolicismo burguês? É um fingimento, um teatro, onde o sujeito mais ou menos frequenta culto público e faz questão de ostentar sua identidade como membro da Igreja, porém o faz sem qualquer devoção, ora distorce ora renega totalmente a doutrina para não ter de mudar seu comportamento. Apesar de seu caráter oculto, bem podemos notar a manifestação de tal podridão interna na típica frase ''eu sou católico, mas...''. A fé é uma entrega radical, não há reserva técnica, não há espaço para ''mas''.

A liturgia de hoje nos trás o remédio contra tal podridão. São Tiago exorta a manifestar a fé com a prática de boas obras e prossegue, taxativamente, afirmando que a fé sem obras é morta. O salmista canta em honra ao homem ''caridoso e prestativo'', Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina a tomar a cruz e renunciar a nós mesmos. Organizando de forma pedagógica temos que é pela renúncia de si mesmo somado ao enfrentamento e a tomada corajosa da cruz que o homem se torna caridoso e prestativo, capaz de manifestar sua fé em obras. Ao contrário, se não há essa renúncia do eu, não há obras, a fé morre, e aquela podridão interna do cristianismo burguês expõe toda sua nojeira pulverulenta.

Renunciar a si mesmo significa contrariar o que queremos e sentimos. Fazer algo que não estamos a fim, que nos é custoso e desagradável, por amor a Deus e obediência a sua doutrina. Não há, nesta terra, vida tranquila para o cristão. A agitação impede o parasita de se desenvolver, na tranquilidade burguesa porém, a peste espiritual se desenvolve levando a alma a putrefação.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Distinção na discrição


6ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Tg 1,19-27)
Responsório (Sl 14)
Evangelho (Mc 8,22-26)

1. A primeira leitura de hoje nos trás ensinamentos de suma importância. São Tiago escreve sobre a necessidade de refrear a cólera e mortificar a língua. Ensinamentos um tanto quanto impopulares nos dias de hoje, sobretudo nos meios ditos ''conservadores'', onde se incensa certo modelo de comportamento grosseiro marcado por uma cólera destemperada, que ante a mínima contrariedade já cobre o próximo com uma miríade de insultos. E há quem veja nisso sinal de ''macheza'', como fosse muito viril ceder aos instintos ao invés de subjugá-los pelo império da razão iluminada pela fé. Examinemos com atenção os modelos de comportamento que nos são propostos pelos meios culturais em nosso entorno, mesmo que tais meios se proclamam ''católicos'' e contrastemos com aquilo que nos ensina a Igreja, sobretudo expresso de forma sublime nos conselhos neotestamentários. Não raro, ficará o leitor surpreso. Mas, não basta a surpresa... Mesmo que seja uma surpresa acompanhada de admiração e encanto para com a doutrina da Igreja, como alguém que contempla uma obra de arte. A Igreja não é um fanclube, antes congrega os discípulos de Jesus, e como discípulos, devemos praticar os ensinamentos do mestre. Que Deus nos dê a graça de praticar sua doutrina por amor a seu nome. Que nossa admiração se concretize em obras, pela glória de seu nome e o bem de toda a santa Igreja!

2. O Evangelho de hoje uma vez mais insiste no pudor religioso e na discrição. Deve-se ter em vista as distinções que citei em outra ocasião no que diz respeito a "Gratum faciens" et "Gratis data". Na cena que hoje contemplamos Jesus cura um cego. Mas, para além da cura que por si mesmo é um fato incrível, chama a atenção todo o contexto da cena. Jesus toma o cego e vai com ele para longe da multidão e, depois da cura, manda que vá direto para casa e não volte a aldeia. O afastar-se da multidão, das massas... Quão bem isso faz a tantos que o experimentam. Gustav Le Bon, que nem católico era já notava o perigo das multidões...

Em tempos de internet, antes queremos fazer showzinho, e encantar as multidões. A ideia da discrição, sobretudo com relação as nossas boas ações (que em nosso caso são coisa rara, porque afinal, não prestamos!) e da solidão nos soa estranho. Tanto mais na pós-modernidade, onde o homem vive uma crise de identidade terrível e anseia mais do que tudo a dissolver sua individualidade em algum coletivo ou gangue ideológica. E quantas há hoje não? Para além das multidões amorfas de outrora, temos hoje as massas gourmet... Grupos feministas, masculinistas, nacionalistas, esquerdistas, conservadores e até aparentemente religiosos, que entretanto mais se assemelham a seitas que a religião de fato. Contrastes.

Escolhamos, pois, os caminhos de Deus e rejeitemos a lógica mundana. Recordemos que a salvação está na porta estreita e tenhamos a coragem de nos distinguir da massa, distinção esta que se dá justamente pela prática da discrição. Paradoxal, não? Eis mais um dos belos paradoxos de nossa santa religião.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O perigo de uma vida tranquila

6ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Tg 1,1-11)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Mc 8,11-13)

A primeira leitura de hoje é como que um mini tratado anti-teologia da prosperidade. O salmo vem para complementá-lo.  O Apóstolo São Tiago começa por exortar os que sofrem a alegrarem-se. Tal sofrimento é para eles uma prova, prova esta que produz paciência e edifica a fé. Em linguagem moderna, a ocasião faz o herói... Uma vida prosaica, sem desafios, sem perseguições e humilhações nos tornaria fracos. Assim nos mostra a história da Igreja, onde períodos de grande bonança e progresso são seguidos de uma decadência espiritual tamanha, onde a religião se resume a mero formalismo. Não precisamos retornar a França pré-revolucionária para observar tal fenômeno, basta-nos o nosso catolicismo tupiniquim de outrora.

Continua o apóstolo advertindo aos ricos. Tal trecho pode ser interpretado desde várias perspectivas conservando toda a radicalidade e fidelidade de seu sentido original. Hoje, insisto na questão do conflito e do perigo da tranquilidade que traz a riqueza. Li recentemente um artigo medíocre em um jornal ruim, que todavia traz alguns tesouros de sabedoria. O autor perguntava-se como se pode definir o que chamamos de classe média, e por consequência, também ricos e pobres. Para além de um economicismo vulgar, baseando-se em uma autora norte-americana, o redator classifica ricos como aqueles que acumularam tal quantidade de dinheiro que não precisam mais trabalhar para manter o mesmo padrão de vida para si e seus filhos. Pobres seriam aqueles cuja existência é insegura, e qualquer eventual interrupção no trabalho geraria crises tamanhas. As classes médias, por sua vez, seriam aqueles que conquistaram certo padrão de vida tranquilo com base no trabalho, mas tal padrão depende de si, não tendo estoque de dinheiro suficiente para assegurar o mesmo padrão aos filhos ou ficar muito tempo ''de boa'', sem trabalhar. Note o leitor o aspecto ''tranquilo'' da vida dos ricos em tal definição. E ai mora o perigo...Uma vida tranquila, sem dramas, sem lutas, sem contrastes , é uma prosa medíocre. Acontece que a fé é um drama heroico. Note o leitor o contraste narrativo... Alguém que vive em tal mediocridade de roteiro há de confiar em si mesmo, não encontrando muitas situações que o impulsionem a recorrer a Deus. O resultado de tal prosa enfadonha é a tragédia do inferno.

Chega a soar estranha a prece de hoje, mas, que Deus nos livre de uma vida tranquila e luxuosa. É em meio a luta, as batalhas, quedas e soerguimentos que nos tornamos heróis. O sofrimento gera a paciência, e a paciência fortalece-nos na fé.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Religioso Pudor

5ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (1Rs 11,29-32; 12,19)
Responsório (Sl 80)
Evangelho (Mc 7,31-37)

O Evangelho de hoje soa um tanto quanto estranho. No mesmo dia em que a Igreja celebra dois grandes missionários, São Cirilo e São Metódio, temos um Evangelho em que, após realizar um milagre, Jesus ordena discrição ao agora ex-surdo mudo. Em tempos de mídias sociais, em que cada um expõe toda a sua vida na internet sem zelar pelo mínimo de privacidade, isso soa ainda mais estranho.

Uma velha distinção teológica, talvez nos ajude compreender melhor este episódio. Falo da distinção entre "Gratum faciens" e "Gratis data". Os termos latinos embora tragam estilo a escrita, podem confundir o leitor, então procedamos com algumas explicações: <De modo que existe dupla graça; uma pela qual o homem fica unido individual e imediatamente a Deus, é a graça “Gratum faciens”, e outra pela qual coopera com alguém para converter; é a graça “Gratis data"' (graça dada para bem dos outros).[1]>. Ou seja, existem graças as quais são dadas para o bem da comunidade, e devem tornar-se públicas, enquanto exitem graças dadas na intimidade, para a própria conversão e santificação pessoal, as quais pedem silêncio e discrição. Há tantos e tantos santos da qual pouco ou nada sabemos da riqueza de sua vida interior. Diz-se, por exemplo, que São Luís Maria Grignion de Montfort tenha recebido revelações privadas da Santíssima Virgem Maria, entretanto, ele nunca se manifestou a respeito. A quantos santos não devem ter ocorrido o mesmo? Mesmo com relação as pessoas comuns, há tantos que recebem graças, curas, sonhos, visões, e numa espécie de santo pudor mantém tudo no segredo.

Que Deus nos dê a graça do discernimento e do pudor, para que possamos ora manifestar, ora ocultar, tudo segundo a vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Distância Histórica e a Liberdade Cristã


5ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (1Rs 10,1-10)
Responsório (Sl 36)
Evangelho (Mc 7,14-23)

1. Em mais um capítulo da saga de Salomão, a primeira leitura nos apresenta o episódio da visita da rainha de Sabá. Apesar da riqueza de detalhes da escritura, a distância histórica e cultural faz com que tal episódio seja um tanto quanto nebuloso, uma vez que não temos lá muitas experiências análogas no século XXI. Uma rainha chega ao reino, rodeada por sua corte, trazendo presentes e manjares diversos. Quem já viu isso? Lá está você em sua vendinha, e vê uma bela dona, vestida de roupas finas e exóticas, trazendo consigo um cortejo, uma fila imensa de camelos, servos, e malas; é de fato um evento para parar a cidade. E mais, a dona deixou seu reino e empreendeu tal jornada tão somente para conhecer Salomão, o qual tinha fama de sabedoria, e testá-lo com enigmas. Quem hoje viaja só para conhecer um fulano com fama de sábio? Basta assistir uns vídeos do youtube, ler alguns textos seus, ou quando muito, entrar em contato pelas redes sociais.... E mais, testar os outros com enigmas não é uma prática muito comum hoje em dia, não? Para um cristão na época do Império Romano, tal episódio seria mais claro. Havia uma proximidade histórica e cultural... Eis aliás, mais um argumento contra a tolice protestante: a distância histórica e cultural faz com que o texto dos livros sagrados vão se enevoando, de modo que sem uma instituição que conserve seu sentido tradicional e ligue-nos aos tempos remotos, chegaria um tempo em que a Bíblia tornar-se ia incompreensível, exceto para quem tivesse a sabedoria de Salomão, o que não parece ser o caso dos protestontos 😛.

2. No Evangelho de hoje, o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo revoga as antigas proibições étnicas com relação a alimentação. O que pode ou não comer, fica a cargo do individuo e da cultura, sem contudo uma chancela religiosa; sendo a única proibição ainda em voga o consumo de carne humana.

São Paulo insiste muito em contrastar a liberdade cristã com a escravidão judaica ante a Lei. A nova religião estabelecida por Cristo é universal, diferindo das antigas religiões nacionais (incluso a judaica veterotestamentária, que era uma religião verdadeira ao contrário das invencionices pagãs), que, por ser caráter étnico, tinham entre outros encargos, o papel de sacralizar determinadas práticas culturais afim de manter a identidade étnica do povo em questão. Em nossa santa religião, não existem mais leis étnicas, de modo que, não só o indivíduo, como as culturas gozam de grande liberdade. Há, contudo, nestes nossos tempos de confusão e crise de identidade, quem queira submeter o cristianismo a lógica identitária da idade antiga, inventando normas estéticas, gastronômicas e não sei mais o que... Fiquemos atentos a esta tentação, e lembremo-nos com alegria da grande liberdade que nos proporciona a nossa santa religião.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Lei Divina e Costumes Humanos


5ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Rs 8,22-23.27-30)
Responsório (Sl 83)
Evangelho (Mc 7,1-13)

1. Hoje, excepcionalmente, festa de Nossa Senhora de Lourdes, o presidente da celebração pode escolher se seguirá no lecionário o ritmo normal das leituras do tempo comum, ou se optará por seguir as normativas para as festas marianas. Como o subsídio litúrgico que sigo em minhas reflexões optou por seguir as leituras do tempo comum, é com base nelas que segue as reflexões do dia.

2. A primeira leitura trata dos festejos e celebrações na consagração do recém-construído Templo de Jerusalém. O salmo vai na mesma linha, com louvores ao templo, louvores estes que podem ser aplicados ainda com mais propriedade a Igreja, uma vez que o antigo templo era apenas figura, quando comparado a glória da Igreja.


Canta o salmista:

<Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha faz um ninho para por seus filhos. Ah, vossos altares, Senhor dos exércitos, meu rei e meu Deus! (Sl 83, 4)>, e com base nestes versículos me permito há alguns devaneios... Tive a graça de visitar algumas basílicas e santuários, e é realmente curioso como os animais se achegam em seu interior, aves diversas a fazer morada dentro de templo. Seria interessante se as modernas construções procurassem oferecer também algum abrigo a outros tipos de animais, cães, gatos, e também acolher algumas belas plantas, de modo que as maravilhas da criação possam ser contempladas também na casa do do Criador. Quem sabe, em tempos onde, por bem ou por mal, certo ecologismo influência a Igreja, alguém não acolhe este desafio arquitetônico.

3. A respeito do Evangelho, hoje não muito agradável aos tradicionalistas (em sentido amplo), é interessante notar como a Bíblia é um livro incomum. Coloquemo-nos a pensar como roteiristas, fosse eu fundar uma religião em um mundo imaginário, o livro sagrado de tal religião seria constituído não de narrativas, mas em um conjunto de narrativas e ordens imperativas, de modo a alicerçar e fortalecer o poder e a autoridade da casta sacerdotal. Mas, Deus não age assim... A Bíblia Sagrada é uma mistura de gêneros narrativos e, ao mesmo tempo em que institui o clero, a autoridade e o sistema religioso, guarda em seu interior a crítica a este mesmo sistema, e os fundamentos para sua reforma constante, sobretudo em tempos de crise. Nesse sentido o Evangelho de hoje parece, mas atenção, apenas parece, subversivo. Temos um sistema religioso com uma autoridade firme, costumes estáveis, e então, Jesus Cristo, o esperado, aquele que veio para cumprir as profecias vem para ''destruir'' tudo, algumas vezes fazendo pouco caso, outras repreendendo duramente os costumes religiosos de sua época, e consequentemente toda a estabilidade da sociedade judaica. Todavia, olhemos para além das aparências. A religião não deve ser vista desde uma perspectiva sociológica, mas, neste caso em específico, desde o céu. Deus vem para restaurar a pureza original de sua obra, corrompida pelos homens, justamente pelos líderes daquela religião! Acontece que os fariseus são os verdadeiros revolucionários, que violaram a hierarquia legal; elevando seus costumes, suas tradições, preferências pessoais ao estatuto de Lei Divina, capaz de até mesmo revogar os decretos de Deus. Uma blasfêmia tamanha! É a lei divina que julga os costumes e os molda, não o contrário. Que roteiro tremendo! E se hoje temos de captar tal estrutura nas entrelinhas, em outra ocasião, na parábola dos vinhateiros, Jesus nos mostra claramente que assim o é, é disto que se trata, uma traição da casta sacerdotal querendo usurpar o papel de legislador do Deus que juraram adorar.

É possível que o leitor não seja muito afeito a arte, e deva estar pensando que raios esse negócio tem haver com sua vida; é certo que foi um episódio dramático, mas já passou, certo? Na verdade essa é uma tentação constante. A tentação de violar a hierarquia divina e dar a nossas opiniões e costumes uma autoridade que não tem. O Evangelho de hoje é um convite ao discernimento e a humildade. Discernimento para entender aquilo que vem da lei de Deus, aquilo que vem de nossas opções pessoais ou sociais. Humildade para não impor aos nossos irmãos de fé aquilo que deriva não da revelação, mas de nossa personalidade, de nossas opções, usos e costumes próprios.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O Enigma da Doença


5ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (1Rs 8,1-7.9-13)
Responsório (Sl 131)
Evangelho (Mc 6,53-56)

1. A primeira leitura trata do solene translado da Arca da Aliança do Tabernáculo ao Templo. O Tabernáculo era uma espécie de cabana, um templo móvel, tal estrutura era própria a realidade do Êxodo, onde Israel peregrinava no deserto. Com a estabilidade do reino, o próprio culto se transforma, e a presença de Deus ganha um sinal estável no Templo de Jerusalém. Sim, naquela época se tratava apenas de sinal, dentro da arca havia tão somente as tábuas da lei. Um sinal poderoso, mas ainda assim um sinal, da presença de Deus. No dia de hoje temos mais que sinais, em nossos templos o próprio Deus habita fisicamente de modo misterioso e insondável na divina eucaristia. Não causa ao leitor perturbação notar o quanto honravam os israelitas a arca e o quão limitado é nosso culto pessoal e comunitário a Divina Eucaristia? Façamos o propósito de adentrar com mais frequência e devoção ao santo dos santos, isto é, as proximidades do sacrário, para adorar o Senhor Deus dos Exércitos


2. O Evangelho de hoje é relativamente simples, Jesus chega com os discípulos a Genesaré, as pessoas trazem os doentes para serem por Ele curados, e o trecho termina dizendo todos quanto o tocavam ficavam sãos. É o poder da graça que excede a natureza e restabelece a saúde. Ainda assim é um mistério. Porque tantos são curados de forma tão maravilhosa, enquanto outros habitam em seus leitos pelo resto da vida? Jesus curou mutos cegos, coxos, doidos e paralíticos, mas Santa Alexandrina passou quase toda a vida na cama, João Paulo II sofreu com o parkinson, São Damião de Molokai contraiu a lepra, São Luís Gonzaga morreu pelo tifo. É uma questão complexa, que uma teologia simplista, como a que está em voga nos meios neopentecostais, não é capaz de responder. A maioria de nós gostaria que a fé se transmutasse em uma espécie de superpoder, que o batizado estivesse para sempre livre da peste, sendo a doença algo para infiéis, mas as coisas não funcionam assim. Na verdade o enigma se torna ainda mais complexo quando analisamos o fenômeno dos estigmas, homens e mulheres que receberam a graça de sofrer e portar os mesmos ferimentos de Cristo na Cruz. Não tenho eu a solução para tal enigma. Apenas quero notar que não estamos ante uma lei física, mas sim diante da vontade divina, que pode decidir por curar-nos, deixar-nos doentes, ou nos infligir com estas. Ante tal mistérios, resta-nos confiar na bondade divina, que tudo procede para o bem das almas, e submetermo-nos a vontade do criador. No céu, talvez cheguemos a entender os motivos de tal modo de proceder em nossa vida e na de nossos irmãos.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Oração de Salomão


4ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (1Rs 3,4-13)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Mc 6,30-34)

1. De Davi, passamos agora a Salomão. E a liturgia nos inicia na saga do novo rei com o episódio de sua oração, ainda na juventude. Uma linda oração, que fora agradável a Deus, de tal modo que o Senhor lhe deu muito mais do que Salomão havia pedido.

Reitero que além do que foi dito, há de se atentar ao que não foi dito, mas fica subentendido. Se a oração de Salomão agradou a Deus, existem certas modalidades de oração que não Lhe agradam, e por isso aqueles que assim procedem não são atendidos. A oração por excelência é o Pai Nosso, entretanto, em certa medida a oração de Salomão também oferece um modelo para nossas preces pessoais. Atentemos a sua estrutura:
(I) Ação de Graças: Por primeiro, começa o rei bendizendo o Senhor, agradecendo pelas bençãos que deste a seu pai Davi e a todo o Israel.
(II) Consciência da Própria Insignificância: Segue, pois, o jovem rei a discorrer sobre a grandeza da tarefa que é chamado a realizar, e suas limitadas capacidades, sua juventude e ingenuidade.
(III) Pedido: Por fim, Salomão pede a Deus o dom da sabedoria, pede com humildade, e não pede para si como um fim, mas como um meio para servir ao povo, para bem governar e julgar Israel.

Atentemo-nos a tal estrutura em nossas orações e, quem sabe não se tornam elas mais agradáveis aos olhos do Senhor, de modo que nos sejam mais eficazes.

2. O Evangelho de hoje é a continuação direta do de ontem. Depois da missão, os apóstolos retornam para contar a Jesus todas as suas aventuras, mas o povo não lhes dá sossego... Jesus se retira com os apóstolos para um lugar solitário, eles precisam de um pouco de descanso. Entram na barca, e seguem viajem, mas, mal saem da barca, lá encontram uma vez mais a multidão.

Ainda hoje o fenômeno se repete de alguma forma, o clero é reduzido e a multidão, numerosa e perdida como ovelhas são pastor, não lhes dá sossego. Rezemos ao senhor para que envie mais operários a sua messe; para que nos dê um clero numeroso e santo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Música, Dança e a Mortificação do Olhar


4ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Eclo 47,2-13)
Responsório (Sl 17)
Evangelho (Mc 6,14-29)

1. Na primeira leitura há um panegírico a Davi. O autor elogia o rei, entre tantos aspectos, pelo seu zelo no serviço litúrgico da época, sobretudo na composição dos salmos. É uma pena, porém, que a distância linguística, nos afasta um pouco dessa experiência com a beleza de outrora... Traduzidos para o português, os salmos, embora conservem sua força teológica e algumas de suas alusões poéticas, perdem muito de sua musicalidade... No fim, a música e a poesia acabam sendo uma arte restrita, que pode ser verdadeiramente apreciada tão somente pelos conterrâneos do poeta, de modo que toda e qualquer tradução constitui quase que um crime estético.

Quem dera tivéssemos mais poetas e músicos verdadeiramente competentes em nosso país, ajudaria a enriquecer e muito nossa liturgia, que atualmente vive períodos de escandaloso mau gosto. Imploremos a intercessão de Santa Cecilia, para que Deus abençoe nossa terra com bons músicos e poetas.

2. O Evangelho de hoje utiliza de algumas técnicas narrativas bem interessantes, São Marcos é sem dúvida um escritor muito talentoso. A cena se inicia com a fama de Jesus espalhando-se pela região, por conta de seus estrondosos milagres. O povo fica perturbado, quem seria esse homem? Herodes está tanto mais perturbado, pensa que Jesus é João Batista que ressuscitou dos mortos. A seguir, a cena volta ao passado, ao episódio que culminou na morte de João. A mudança do tempo narrativo é suave, coisa difícil de se empreender adequadamente mesmo em tempos modernos. De todo o modo, considerações estilísticas a parte, olhemos para aquilo que tal narrativa nos ensina, e tal ensinamento não é muito popular.... Herodes estava em pecado, havia tomado a mulher de seu irmão, ainda assim, sua consciência o incomodava, e o rei ouvia com temor as repreensões de João Batista, apesar de ter colocado o profeta em cárcere. Por trás do que foi dito, havia uma batalha no interior da alma de Herodes, uma batalha entre o bem e o mal, cuja vitória, infelizmente viria a ser do Diabo.

Aconteceu que Herodes deu uma festa, e nessa festa a filha de Herodíades dançou para ele e seus convivas. A dançarina agradou tanto ao rei, que este ficou bobo. Isso é mais comum do que se imagina. Ao ver uma mocinha jovem dançando, não raro, nós homens, nos encantamos e tendemos a bobice; eu fico assim ás vezes ao ver japonesinhas dançando, embora queira acreditar que não fique tão apatetado como Herodes. Ainda assim, é um perigo, e exercitar na mortificação do olhar faz-se (e sobretudo faz-me) necessário. A cena segue, e o embobado Herodes promete a mocinha realizar qualquer que fosse o seu desejo. Aconselhada pela mãe adúltera, a moça pede a cabeça de João Batista. Herodes se perturba... Quase dá para imaginar a cena: o rei bonachão com cara abobada, mudar repentinamente a expressão facial expressando a tristeza e a perturbação interior. Herodes sabe que estará a cometer um pecado ainda mais terrível, que vai ser responsável pela morte de um profeta, entretanto olha em volta, vê os convidados, e, para não passar vergonha ante a turma, segue em frente com tal iniquidade.

É provável que não estejamos nós com profetas em cárcere, ainda assim, aqueles elementos que levaram Herodes ao pecado estão bem presentes: a pressão social (ao qual a teologia chama de respeito humano) e a fascinação embobada ante a beleza apreciada de forma imprudente. Segundo o ditado popular e a propaganda médica, é melhor prevenir do que remediar, de tal forma que a narrativa de hoje se converte em uma exortação a mortificação; a mortificação do olhar, e a certa ''mortificação social'', não fazendo conta de passar má impressão ante a turma.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Porta-te como homem!


4ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Rs 2,1-4.10-12)
Responsório (1Cr 29,10-12)
Evangelho (Mc 6,7-13)

1. Hoje se encerra a saga de Davi. A longo desses dias, em trechos selecionados do livros de 1Samuel, 2Samuel e 1Reis estivemos imersos e uma longa e intrigante narrativa. Em meio a tantas críticas, faço aqui um elogio aos responsáveis pela reforma litúrgica que demonstraram grande conhecimento bíblico na seleção e organização dos textos. 

Voltemos agora nossos olhos a cena final da vida de Davi. O rei, em seu leito de morte, dirige suas últimas palavras a seu filho Salomão, aquele que o irá suceder no trono de Israel: "se forte, e porta-te como homem"; assim disse Davi há milênios e ainda hoje tais palavras ecoam em nossos corações.

"Porta-te como homem"; que isso significa? Que o ser homem, a identidade masculina tem um código de conduta que lhe é próprio, sendo a virtude da fortaleza o fundamenta e o início de tal código. Um homem deve ser forte, firme, e responsável. Qual o antonino do portar-se como homem? Comportar-se como um moleque: de forma irresponsável; ou como maricas: sendo fraco e inconstante.

Alguns autores modernos[1] citam 5 virtudes, essenciais a identidade masculina, são elas: Força, Coragem, Destreza e Honra.  Força é a capacidade de impor a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre outras pessoas. Coragem é a vontade de arriscar a se prejudicar para obter benefícios para si ou para outros. Em sua forma amoral mais elementar, coragem é uma vontade ou desejo impetuoso de combater ou de se defender a qualquer custo (combatividade, coração, disposição de espírito, thumos). Em sua forma mais evoluída, civilizada e moral, coragem é a vontade deliberada e decidida de arriscar a se prejudicar para garantir o êxito ou a sobrevivência de grupo ou de outra pessoa (coragem, virtus, andreia). Destreza é o desejo e a capacidade do homem de cultivar e demonstrar competência e expertise em conhecimentos técnicos que o ajudem a exercer a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza, sobre as mulheres e sobre outros homens.  Honra é a reputação de força, coragem e destreza da qual um homem desfrute no contexto de um quadro de honra constituído principalmente de outros homens.

2. No santo Evangelho que hoje contemplamos, Cristo envia os apóstolos a missão. Se os envia dois a dois, para que encontrem amparo na companhia um do outro, também os envia na pobreza, sem duas túnicas, sem alforge, e tantas outras necessidades que um bom viajante não poderia negligenciar naquele tempo. Lá vão aqueles homens, com a cara e a coragem, desprovidos de auxílios materiais, ao mesmo tempo, providos do poder de realizar milagres, curar os doentes e expulsar os demônios. Temos aí mais um paradoxo de nossa santa religião, para ter parte na potestade espiritual, no poder sagrado, para manejar com eficiência o gládio espiritual, é preciso renunciar, privar-se do poder temporal, da confiança nos meios humanos ordinários. Conta uma velha história que o Papa chamara São Domingos a Roma, para ver sua nova basílica: -Veja Domingos, dizia o Pontífice, agora Pedro não pode mais dizer "não tenho ouro nem prata"; o qual o frade teria respondido de mal humor: - ... e nem "levanta e anda". Tal fato é aludido pelo famoso escritor inglês G.K. Chesterton, histórico ou não, este ainda guarda seu significado teológico: o poder espiritual exige a renúncia, e aqueles os quais Deus chama a determinada missão especial, relacionadas sobretudo ao caráter sacerdotal e missionário, devem proceder de forma radical em tal renúncia, abandonando-se a Divina Providencia. Nós, que não somos padres ou missionários, talvez não precisemos de tanto, mas também de forma mais ou menos análoga precisamos fazer renúncias e confiar na Providência, cito a vocação das famílias que devem estar abertas a vida, e aos numerosos filhos que Deus quiser enviar, renunciando ao luxos e as seguranças materiais para acolher tal graça.

[1] O Código dos Homens - Jack Donovan

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Desconfiança, Castigo (III) e a relação entre o líder e seus subordinados


4ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (2Sm 24,2.9-17)
Responsório (Sl 31)
Evangelho (Mc 6,1-6)

E cá estamos uma vez mais a acompanhar os passos de Davi. No episódio de hoje o rei ordena um recenseamento em Israel,e pouco tempo depois sua consciência o acusa. O pecado de Davi é grave, porém de difícil percepção para esta época mergulhada na mesma miséria. Não que contar as pessoas seja pecado, não é nada disso! A questão é que depois de repetidas provas do auxílio de Deus nas batalhas, Davi desconfia do Senhor, pondo sua confiança em seus exércitos. Davi prefere apostar tão somente em meios humanos, tidos por ele com mais segurança, que nas promessas do altíssimo. Esse é o pecado dos cristãos desse século, que preferem antes confiar nas suas maquinações políticas que nos meios do Senhor, em sua doutrina, em suas promessas... A história continua e, por conta do pecado de Davi todo o povo é castigo, morrendo milhares. A pergunta de Davi ao final da leitura de hoje também deve inquietar a muitos: porque o povo deve pagar pelo pecado de um homem? A resposta irrita nosso individualismo liberal: o povo e seu líder estão profundamente ligados, de modo que os pecados daquele afetam a todos sob o seu domínio. Tendo isto em vista o dever de rezar por nossos líderes se torna cada vez mais imperativo. Temos de rezar pelos que nos governam, para o nosso próprio bem.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Memento mori!


4ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (2Sm 18,9-10.14b.24-25a.30-19,3)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Mc 5,21-43)

1. A primeira leitura de hoje é tragicômica. Absalão estava passeando com seu burrico, bate na árvore, o burrico vai ele fica, fica preso lá no alto, onde é encontrado por Joab, aliado de Davi, que executa o príncipe traidor. É uma morte bem ridícula, não? Ser pego vulnerável em um acidente de burrico. Dentre aqueles entre nós que ainda pensa na morte, a maioria sonha com algo romântico. Uma morte de herói. Ninguém quer uma morte ridícula em um acidente doméstico, mas isso não está sob nosso controle; exceto se formos suicidas como Yukio Mishima, mas em tal caso, o inferno espera; então não é um negócio muito lucrativo querer dirigir o epílogo final da própria vida. Deus é o roteirista de nossa vida, se quisermos, peçamos a ele a graça de uma boa morte, quando esta vier, de modo que nossa vida não termine sendo comédia. Mas, ainda se assim acontecer, que pelo menos possamos rir disso no céu, ao invés de chorar no inferno.

2. A sombra da morte, antecipada pelos três outros cavaleiros: a fome, a peste e a guerra, torna nossa existência dramática, e é em tal drama que Deus se manifesta. É o que vemos hoje no santo Evangelho: Jairo chefe da sinagoga está desesperado, sua filha está morrendo, e ele vai em busca da ajuda de Jesus. Estivesse a menina saudável, Jairo se comportaria da mesma forma? Buscaria a Cristo, ou estaria confortável com sua posição de chefe da Sinagoga local? É difícil imaginar aquilo que não foi dito, é possível que a instrução na lei e na profecia também tivessem conduzido a Jairo, entretanto, foi a peste e a morte quem o levaram a Jesus. Exemplo ainda mais forte o da hemorroíssa. Uma mulher outrora rica, e ser rico naquele tempo era fazer parte de uma elite ainda mais restrita, a quantas tentações não se estaria ela exposta? Retornemos a história, aquela mulher rica ficara doente, e gastara toda a sua fortuna com médicos em busca da cura, mas estes só pioraram a situação. Chagada pela doença, ela vai procurar a Jesus munida de profunda humildade, tendo, pois, obtido a  cura.

Reitero: a sombra da morte torna a existência dramática, e em tal drama Deus se manifesta. Nossa sociedade, esforça-se porém por fazer-se, por artimanha do demônio, prosaica. Não que seja possível eliminar a fome a peste a guerra e a morte, tais são constantes na história humana, consequência do pecado original. Entretanto, é possível varrer tudo isso lata debaixo do tapete. Feito isto, sem consciência da fragilidade e instabilidade da vida, os homens tendem a se esquecer de Deus.

Contemplar de frente os quatro cavaleiros, tanto de forma pessoal como "social" dará a nós mesmos e a nossa sociedade a consciência de nossa fragilidade, e nos tornará conscientes da necessidade que temos de um Salvador. Então, buscaremos Jesus com humildade, como a hemorroíssa e Jairo...

Que me desculpem as alminhas burguesas mas é preciso falar sobre a morte, e seus imediatos: a fome, a peste e a guerra; pois esses terríveis cavaleiros são exímios apologetas e evangelizadores.

Memento mori!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Castigo (II) e Rejeição


4ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (2Sm 15,13-14.30;16,5-13a)
Responsório (Sl 3)
Evangelho (Mc 5,1-20)

1. A primeira leitura de hoje é verdadeiramente dramática. Davi, já velho, foge do reino, perseguido de morte por seu filho Absalão. Imaginemos a tristeza do rei na viagem rememorando cenas da infância de seu filho, as primeiras palavras, quando começou a andar, a alegria quando recebeu do pai a primeira espada, as estripulias do garoto... Seu filho, o sangue de seu sangue, fruto de suas entranhas agora o perseguia e intentava matá-lo para tomar o trono. E como isso não fosse suficiente, um os homem da família de Saul o encontra pelo caminho e começa a amaldiçoá-lo, acusando-o de matar a Saul e usurpar-lhe o trono. Ora, sabemos que não foi assim; Davi suportou com mansidão as perseguições de Saul, teve oportunidade de matá-lo diversas vezes e não o fez, inclusive chorou quando soube da morte do antigo rei. Os soldados de Davi ficam indignados, querem matar (ou ao menos surrar) aquele velho maledicente, mas o rei não permite; antes, suporta tudo, com espírito de penitência, clamando ao Senhor por misericórdia.

É triste ver o rei assim. Davi um herói de guerra sujeito a tal intenso sofrimento... Qual o motivo disto? A resposta nos foi dada há alguns dias atrás, isto é o castigo por seu pecado contra Urias. A mão de Deus é pesada, a vingança do altíssimo cobra o quádruplo. Atente-se, porém. o leitor ao intervalo temporal: na época do adultério Davi ainda não tinha filhos; hoje, na cena do castigo, Davi está velho, e seu terceiro filho que conspira contra contra o pai já é adulto. Aos olhos humanos a vingança de Deus costuma demorar, mas ela vem. Não há crime que fique sem paga, seja neste mundo ou no próximo.

Pensemos em nossos pecados de outrora, muitos de nossos sofrimentos presentes podem ser a consequência direta, a devida reparação, por aquelas atitudes do passado.... E se acaso hoje não sofremos, tendo consciência de nossos erros, é para se temer o futuro.

2. No Evangelho de hoje, Jesus liberta um possesso em Gerása. O homem estava possesso por uma legião. Não era um, mas multidões de demônios... Mas, o que chama mais atenção no texto, é o fato dos homens preferirem a convivência o Diabo. Cristo liberta o homem, mas os gerasenos podem para que Ele se retire da cidade. Preferem a companhia do capeta e uma aparente tranquilidade, a confusão inicial do processo de cura e libertação.

Assim o é ainda hoje, tantas e tantas pessoas, e mesmo cidades e civilizações, rejeitam a Cristo, preferindo a escravidão demoníaca ao invés libertação católica.  Mistério de Iniquidade.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Necessidade do Santo Sacrifício

Se não houvesse o Sol, que seria da Terra? Oh! Tudo seria trevas, horror, esterilidade e desolação.

E se o Mundo não tivesse a Santa Missa, que seria de nós? Infelizes! Ficaríamos privados de todos os bens sobrecarregados de todos os males. Estaríamos expostos a todos os raios da cólera de DEUS.

Alguns há que se admiram, e acham que, de certo modo DEUS mudou a sua maneira de governar. Antigamente Ele se nomeava de DEUS dos exércitos, e falava ao povo do meio das nuvens, manejando o trovão; e de fato, era com todo o rigor da justiça que castigava os pecados. Por um único adultério, mandou passar a fio de espada vinte e cinco mil homens da tribo de Benjamim. (Jz 20,46).

Por um leve pecado de orgulho de Davi em computar o povo, enviou Ele uma peste tão terrível que, em poucas horas pereceram setenta mil pessoas (II Sam. 24,15). Por um só olhar curioso e desrespeitoso dos betsamitas, fez que cinqüenta mil deles perecessem. (I Sam. 6, 19).

E agora suporta, com paciência, não só vaidades e irreverências, mas adultérios, os mais vergonhosos, escândalos gravíssimos, e tantas blasfêmias horríveis que muitos cristãos vomitam contra Seu Nome Santíssimo.

Porque assim acontece? Por que tão grande mudança de conduta? Serão as ingratidões dos homens mais escusáveis hoje do que outrora? Bem ao contrário, são muito mais culpáveis, já que os imensos benefícios de DEUS se multiplicam cada dia.

A verdadeira razão desta clemência espantosa é a Santa Missa, pela qual esta grande Vítima, que se chama JESUS, se oferece ao Eterno PAI. Eis aí o sol da santa Igreja que dissipa as nuvens e torna sereno o céu.

Eis aí o arco-íris que detém os raios da Divina Justiça. Creio para mim que, não fosse a Santa Missa, o Mundo estaria já no abismo, incapaz de suportar o imenso fardo de suas iniqüidades.

A Santa Missa é o poderoso sustentáculo que lhe permite subsistir.

Concluí, de tudo isto, quanto este divino Sacrifício é necessário; assim então, sabei aproveitá-lo o máximo que for possível.

Para isto, quando participamos da Santa Missa, devemos imitar Afonso de Albuquerque. Achando-se, com sua frota, em perigo de naufragar numa horrível tempestade, teve uma inspiração: tomou nos braços uma criança que viajava em sua nau, e, elevando-a ao alto, exclamou: “Se todos somos pecadores, esta criaturinha é certamente sem mácula, Ah! Senhor por amor deste inocente compadecei-vos dos culpados!” Acreditareis? A vista dessa criança inocente agradou tanto a DEUS, que Ele acalmou o mar e devolveu a alegria àqueles infelizes, gelados já pelo terror da morte certa.

Ora, qual pensais seja a atitude do Eterno Pai, quando o sacerdote, levantando a Santa Hóstia, lhe apresenta o Divino FILHO? Ah! seu amor não pode resistir à vista do inocente JESUS; Ele se sente forçado a acalmar nossas tormentas, e acudir a todas as nossas necessidades. Sem esta santa vítima, portanto, sem JESUS sacrificado por nós, primeiro sobre a Cruz, e todos os dias sobre nossos altares, estaríamos perdidos, e poderia cada um dizer a seu companheiro: “Até à vista no inferno! Sim, sim, no inferno, no inferno! Até à vista no inferno!”

Mas, com este tesouro da Santa Missa a nosso alcance, nossa esperança renasce; e se não opusermos obstáculos, teremos assegurado o Paraíso.

Deveríamos, portanto, beijar nossos altares, perfumá-los de incenso, e sobretudo honrá-los com nosso máximo respeito, pois que deles nos vêem tantos bens.

Juntai as mãos e agradecei a DEUS PAI que nos deu o mandamento tão doce de oferecer-Lhe muitas vezes a Vítima celeste. Agradecei-Lhe, sobretudo, pelo imenso proveito que dela recebeis, se sois fiel não somente em oferecê-la, mas de fazê-lo para os fins a que nos foi concedido este dom tão precioso.

 - São Leonardo de Porto-Maurício.As Excelências da Santa Missa; p. 14-17.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Castigo, Pureza e Arte


3ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (2Sm 12,1-7a.10-17)
Responsório (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,35-41)

1. Na primeira leitura, o profeta Natan repreende Davi por seu pecado, e lhe anuncia uma série de maldições que posteriormente viriam a recair sobre sua casa. E assim foi. Quatro dos filhos de Davi vieram a morrer, houve até dentre eles quem guerreasse contra seu pai. Sua filha e dez de suas esposas foram violadas. Davi pagou caro, muito caro pelo seu pecado contra Urias. Deveríamos nós ter medo. O pecado exige reparação e castigo; e o castigo vem com "juros": o quádruplo da dívida ou mais...

2. A liturgia hoje soa quase como que providencial. Em tempos onde há católicos que defendem meretrícios, canta ao Senhor salmista: <Ó meu Deus, cria em mim um coração puro, e renovai-me no espírito de firmeza (Sl 50, 12)>.

Para usar os termos de nossos adversários, que sejamos "católicos limpinhos" e não putanheiros sugismundos, enlameados nos pecados da carne e do espírito (cuja gravidade é ainda maior). A ofensa aos sacerdotes ante a justa repreensão, a distorção da doutrina dos santos são tanto mais graves que a defesa do meretrício.

3. No Evangelho, Jesus repreende o vento, cala o mar, e acalma a tempestade. Em outro trecho da escritura, que não foi lido hoje, se diz que Deus conhece cada uma das estrelas do céu e as chama pelo nome. São Francisco cantava ao Sol a Lua e a Morte, chamando-os de irmãos. Santo Antônio pregou aos peixes. Para nós, homens modernos, isso soa estranho. Fossemos protestontos, isso seria visto com maus olhos, como fosse algum resquício pagão. Mas, pela teologia antiga, sabemos que se trata de um dom relacionado a inocência primeva, que permite uma relação íntima com a criação (isso explicaria, por exemplo, a serpente que fala no Gênesis sem apelar ao recurso metafórico, mas esse tipo de exegese complexa e disputada fica para outra ocasião). Como não temos tal grau de santidade, só podemos intuir vagamente essa íntima relação com a criação através da arte. Por ela podemos dialogar com língua, jogar xadrez com a morte e elogiar a lua. Imagino quão ricas devem ser as conversas no céu entre os santos e poetas... Quem dera Deus nos conceda a graça de delas um dia participar.