sábado, 1 de fevereiro de 2020

Castigo, Pureza e Arte


3ª Semana do Tempo Comum - Sábado
Primeira Leitura (2Sm 12,1-7a.10-17)
Responsório (Sl 50)
Evangelho (Mc 4,35-41)

1. Na primeira leitura, o profeta Natan repreende Davi por seu pecado, e lhe anuncia uma série de maldições que posteriormente viriam a recair sobre sua casa. E assim foi. Quatro dos filhos de Davi vieram a morrer, houve até dentre eles quem guerreasse contra seu pai. Sua filha e dez de suas esposas foram violadas. Davi pagou caro, muito caro pelo seu pecado contra Urias. Deveríamos nós ter medo. O pecado exige reparação e castigo; e o castigo vem com "juros": o quádruplo da dívida ou mais...

2. A liturgia hoje soa quase como que providencial. Em tempos onde há católicos que defendem meretrícios, canta ao Senhor salmista: <Ó meu Deus, cria em mim um coração puro, e renovai-me no espírito de firmeza (Sl 50, 12)>.

Para usar os termos de nossos adversários, que sejamos "católicos limpinhos" e não putanheiros sugismundos, enlameados nos pecados da carne e do espírito (cuja gravidade é ainda maior). A ofensa aos sacerdotes ante a justa repreensão, a distorção da doutrina dos santos são tanto mais graves que a defesa do meretrício.

3. No Evangelho, Jesus repreende o vento, cala o mar, e acalma a tempestade. Em outro trecho da escritura, que não foi lido hoje, se diz que Deus conhece cada uma das estrelas do céu e as chama pelo nome. São Francisco cantava ao Sol a Lua e a Morte, chamando-os de irmãos. Santo Antônio pregou aos peixes. Para nós, homens modernos, isso soa estranho. Fossemos protestontos, isso seria visto com maus olhos, como fosse algum resquício pagão. Mas, pela teologia antiga, sabemos que se trata de um dom relacionado a inocência primeva, que permite uma relação íntima com a criação (isso explicaria, por exemplo, a serpente que fala no Gênesis sem apelar ao recurso metafórico, mas esse tipo de exegese complexa e disputada fica para outra ocasião). Como não temos tal grau de santidade, só podemos intuir vagamente essa íntima relação com a criação através da arte. Por ela podemos dialogar com língua, jogar xadrez com a morte e elogiar a lua. Imagino quão ricas devem ser as conversas no céu entre os santos e poetas... Quem dera Deus nos conceda a graça de delas um dia participar.

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