quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Distinção na discrição


6ª Semana do Tempo Comum - Quarta-feira
Primeira Leitura (Tg 1,19-27)
Responsório (Sl 14)
Evangelho (Mc 8,22-26)

1. A primeira leitura de hoje nos trás ensinamentos de suma importância. São Tiago escreve sobre a necessidade de refrear a cólera e mortificar a língua. Ensinamentos um tanto quanto impopulares nos dias de hoje, sobretudo nos meios ditos ''conservadores'', onde se incensa certo modelo de comportamento grosseiro marcado por uma cólera destemperada, que ante a mínima contrariedade já cobre o próximo com uma miríade de insultos. E há quem veja nisso sinal de ''macheza'', como fosse muito viril ceder aos instintos ao invés de subjugá-los pelo império da razão iluminada pela fé. Examinemos com atenção os modelos de comportamento que nos são propostos pelos meios culturais em nosso entorno, mesmo que tais meios se proclamam ''católicos'' e contrastemos com aquilo que nos ensina a Igreja, sobretudo expresso de forma sublime nos conselhos neotestamentários. Não raro, ficará o leitor surpreso. Mas, não basta a surpresa... Mesmo que seja uma surpresa acompanhada de admiração e encanto para com a doutrina da Igreja, como alguém que contempla uma obra de arte. A Igreja não é um fanclube, antes congrega os discípulos de Jesus, e como discípulos, devemos praticar os ensinamentos do mestre. Que Deus nos dê a graça de praticar sua doutrina por amor a seu nome. Que nossa admiração se concretize em obras, pela glória de seu nome e o bem de toda a santa Igreja!

2. O Evangelho de hoje uma vez mais insiste no pudor religioso e na discrição. Deve-se ter em vista as distinções que citei em outra ocasião no que diz respeito a "Gratum faciens" et "Gratis data". Na cena que hoje contemplamos Jesus cura um cego. Mas, para além da cura que por si mesmo é um fato incrível, chama a atenção todo o contexto da cena. Jesus toma o cego e vai com ele para longe da multidão e, depois da cura, manda que vá direto para casa e não volte a aldeia. O afastar-se da multidão, das massas... Quão bem isso faz a tantos que o experimentam. Gustav Le Bon, que nem católico era já notava o perigo das multidões...

Em tempos de internet, antes queremos fazer showzinho, e encantar as multidões. A ideia da discrição, sobretudo com relação as nossas boas ações (que em nosso caso são coisa rara, porque afinal, não prestamos!) e da solidão nos soa estranho. Tanto mais na pós-modernidade, onde o homem vive uma crise de identidade terrível e anseia mais do que tudo a dissolver sua individualidade em algum coletivo ou gangue ideológica. E quantas há hoje não? Para além das multidões amorfas de outrora, temos hoje as massas gourmet... Grupos feministas, masculinistas, nacionalistas, esquerdistas, conservadores e até aparentemente religiosos, que entretanto mais se assemelham a seitas que a religião de fato. Contrastes.

Escolhamos, pois, os caminhos de Deus e rejeitemos a lógica mundana. Recordemos que a salvação está na porta estreita e tenhamos a coragem de nos distinguir da massa, distinção esta que se dá justamente pela prática da discrição. Paradoxal, não? Eis mais um dos belos paradoxos de nossa santa religião.

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