terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Lei Divina e Costumes Humanos


5ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (1Rs 8,22-23.27-30)
Responsório (Sl 83)
Evangelho (Mc 7,1-13)

1. Hoje, excepcionalmente, festa de Nossa Senhora de Lourdes, o presidente da celebração pode escolher se seguirá no lecionário o ritmo normal das leituras do tempo comum, ou se optará por seguir as normativas para as festas marianas. Como o subsídio litúrgico que sigo em minhas reflexões optou por seguir as leituras do tempo comum, é com base nelas que segue as reflexões do dia.

2. A primeira leitura trata dos festejos e celebrações na consagração do recém-construído Templo de Jerusalém. O salmo vai na mesma linha, com louvores ao templo, louvores estes que podem ser aplicados ainda com mais propriedade a Igreja, uma vez que o antigo templo era apenas figura, quando comparado a glória da Igreja.


Canta o salmista:

<Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha faz um ninho para por seus filhos. Ah, vossos altares, Senhor dos exércitos, meu rei e meu Deus! (Sl 83, 4)>, e com base nestes versículos me permito há alguns devaneios... Tive a graça de visitar algumas basílicas e santuários, e é realmente curioso como os animais se achegam em seu interior, aves diversas a fazer morada dentro de templo. Seria interessante se as modernas construções procurassem oferecer também algum abrigo a outros tipos de animais, cães, gatos, e também acolher algumas belas plantas, de modo que as maravilhas da criação possam ser contempladas também na casa do do Criador. Quem sabe, em tempos onde, por bem ou por mal, certo ecologismo influência a Igreja, alguém não acolhe este desafio arquitetônico.

3. A respeito do Evangelho, hoje não muito agradável aos tradicionalistas (em sentido amplo), é interessante notar como a Bíblia é um livro incomum. Coloquemo-nos a pensar como roteiristas, fosse eu fundar uma religião em um mundo imaginário, o livro sagrado de tal religião seria constituído não de narrativas, mas em um conjunto de narrativas e ordens imperativas, de modo a alicerçar e fortalecer o poder e a autoridade da casta sacerdotal. Mas, Deus não age assim... A Bíblia Sagrada é uma mistura de gêneros narrativos e, ao mesmo tempo em que institui o clero, a autoridade e o sistema religioso, guarda em seu interior a crítica a este mesmo sistema, e os fundamentos para sua reforma constante, sobretudo em tempos de crise. Nesse sentido o Evangelho de hoje parece, mas atenção, apenas parece, subversivo. Temos um sistema religioso com uma autoridade firme, costumes estáveis, e então, Jesus Cristo, o esperado, aquele que veio para cumprir as profecias vem para ''destruir'' tudo, algumas vezes fazendo pouco caso, outras repreendendo duramente os costumes religiosos de sua época, e consequentemente toda a estabilidade da sociedade judaica. Todavia, olhemos para além das aparências. A religião não deve ser vista desde uma perspectiva sociológica, mas, neste caso em específico, desde o céu. Deus vem para restaurar a pureza original de sua obra, corrompida pelos homens, justamente pelos líderes daquela religião! Acontece que os fariseus são os verdadeiros revolucionários, que violaram a hierarquia legal; elevando seus costumes, suas tradições, preferências pessoais ao estatuto de Lei Divina, capaz de até mesmo revogar os decretos de Deus. Uma blasfêmia tamanha! É a lei divina que julga os costumes e os molda, não o contrário. Que roteiro tremendo! E se hoje temos de captar tal estrutura nas entrelinhas, em outra ocasião, na parábola dos vinhateiros, Jesus nos mostra claramente que assim o é, é disto que se trata, uma traição da casta sacerdotal querendo usurpar o papel de legislador do Deus que juraram adorar.

É possível que o leitor não seja muito afeito a arte, e deva estar pensando que raios esse negócio tem haver com sua vida; é certo que foi um episódio dramático, mas já passou, certo? Na verdade essa é uma tentação constante. A tentação de violar a hierarquia divina e dar a nossas opiniões e costumes uma autoridade que não tem. O Evangelho de hoje é um convite ao discernimento e a humildade. Discernimento para entender aquilo que vem da lei de Deus, aquilo que vem de nossas opções pessoais ou sociais. Humildade para não impor aos nossos irmãos de fé aquilo que deriva não da revelação, mas de nossa personalidade, de nossas opções, usos e costumes próprios.

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