terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Memento mori!


4ª Semana do Tempo Comum - Terça-feira
Primeira Leitura (2Sm 18,9-10.14b.24-25a.30-19,3)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Mc 5,21-43)

1. A primeira leitura de hoje é tragicômica. Absalão estava passeando com seu burrico, bate na árvore, o burrico vai ele fica, fica preso lá no alto, onde é encontrado por Joab, aliado de Davi, que executa o príncipe traidor. É uma morte bem ridícula, não? Ser pego vulnerável em um acidente de burrico. Dentre aqueles entre nós que ainda pensa na morte, a maioria sonha com algo romântico. Uma morte de herói. Ninguém quer uma morte ridícula em um acidente doméstico, mas isso não está sob nosso controle; exceto se formos suicidas como Yukio Mishima, mas em tal caso, o inferno espera; então não é um negócio muito lucrativo querer dirigir o epílogo final da própria vida. Deus é o roteirista de nossa vida, se quisermos, peçamos a ele a graça de uma boa morte, quando esta vier, de modo que nossa vida não termine sendo comédia. Mas, ainda se assim acontecer, que pelo menos possamos rir disso no céu, ao invés de chorar no inferno.

2. A sombra da morte, antecipada pelos três outros cavaleiros: a fome, a peste e a guerra, torna nossa existência dramática, e é em tal drama que Deus se manifesta. É o que vemos hoje no santo Evangelho: Jairo chefe da sinagoga está desesperado, sua filha está morrendo, e ele vai em busca da ajuda de Jesus. Estivesse a menina saudável, Jairo se comportaria da mesma forma? Buscaria a Cristo, ou estaria confortável com sua posição de chefe da Sinagoga local? É difícil imaginar aquilo que não foi dito, é possível que a instrução na lei e na profecia também tivessem conduzido a Jairo, entretanto, foi a peste e a morte quem o levaram a Jesus. Exemplo ainda mais forte o da hemorroíssa. Uma mulher outrora rica, e ser rico naquele tempo era fazer parte de uma elite ainda mais restrita, a quantas tentações não se estaria ela exposta? Retornemos a história, aquela mulher rica ficara doente, e gastara toda a sua fortuna com médicos em busca da cura, mas estes só pioraram a situação. Chagada pela doença, ela vai procurar a Jesus munida de profunda humildade, tendo, pois, obtido a  cura.

Reitero: a sombra da morte torna a existência dramática, e em tal drama Deus se manifesta. Nossa sociedade, esforça-se porém por fazer-se, por artimanha do demônio, prosaica. Não que seja possível eliminar a fome a peste a guerra e a morte, tais são constantes na história humana, consequência do pecado original. Entretanto, é possível varrer tudo isso lata debaixo do tapete. Feito isto, sem consciência da fragilidade e instabilidade da vida, os homens tendem a se esquecer de Deus.

Contemplar de frente os quatro cavaleiros, tanto de forma pessoal como "social" dará a nós mesmos e a nossa sociedade a consciência de nossa fragilidade, e nos tornará conscientes da necessidade que temos de um Salvador. Então, buscaremos Jesus com humildade, como a hemorroíssa e Jairo...

Que me desculpem as alminhas burguesas mas é preciso falar sobre a morte, e seus imediatos: a fome, a peste e a guerra; pois esses terríveis cavaleiros são exímios apologetas e evangelizadores.

Memento mori!

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