sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Música, Dança e a Mortificação do Olhar


4ª Semana do Tempo Comum - Sexta-feira
Primeira Leitura (Eclo 47,2-13)
Responsório (Sl 17)
Evangelho (Mc 6,14-29)

1. Na primeira leitura há um panegírico a Davi. O autor elogia o rei, entre tantos aspectos, pelo seu zelo no serviço litúrgico da época, sobretudo na composição dos salmos. É uma pena, porém, que a distância linguística, nos afasta um pouco dessa experiência com a beleza de outrora... Traduzidos para o português, os salmos, embora conservem sua força teológica e algumas de suas alusões poéticas, perdem muito de sua musicalidade... No fim, a música e a poesia acabam sendo uma arte restrita, que pode ser verdadeiramente apreciada tão somente pelos conterrâneos do poeta, de modo que toda e qualquer tradução constitui quase que um crime estético.

Quem dera tivéssemos mais poetas e músicos verdadeiramente competentes em nosso país, ajudaria a enriquecer e muito nossa liturgia, que atualmente vive períodos de escandaloso mau gosto. Imploremos a intercessão de Santa Cecilia, para que Deus abençoe nossa terra com bons músicos e poetas.

2. O Evangelho de hoje utiliza de algumas técnicas narrativas bem interessantes, São Marcos é sem dúvida um escritor muito talentoso. A cena se inicia com a fama de Jesus espalhando-se pela região, por conta de seus estrondosos milagres. O povo fica perturbado, quem seria esse homem? Herodes está tanto mais perturbado, pensa que Jesus é João Batista que ressuscitou dos mortos. A seguir, a cena volta ao passado, ao episódio que culminou na morte de João. A mudança do tempo narrativo é suave, coisa difícil de se empreender adequadamente mesmo em tempos modernos. De todo o modo, considerações estilísticas a parte, olhemos para aquilo que tal narrativa nos ensina, e tal ensinamento não é muito popular.... Herodes estava em pecado, havia tomado a mulher de seu irmão, ainda assim, sua consciência o incomodava, e o rei ouvia com temor as repreensões de João Batista, apesar de ter colocado o profeta em cárcere. Por trás do que foi dito, havia uma batalha no interior da alma de Herodes, uma batalha entre o bem e o mal, cuja vitória, infelizmente viria a ser do Diabo.

Aconteceu que Herodes deu uma festa, e nessa festa a filha de Herodíades dançou para ele e seus convivas. A dançarina agradou tanto ao rei, que este ficou bobo. Isso é mais comum do que se imagina. Ao ver uma mocinha jovem dançando, não raro, nós homens, nos encantamos e tendemos a bobice; eu fico assim ás vezes ao ver japonesinhas dançando, embora queira acreditar que não fique tão apatetado como Herodes. Ainda assim, é um perigo, e exercitar na mortificação do olhar faz-se (e sobretudo faz-me) necessário. A cena segue, e o embobado Herodes promete a mocinha realizar qualquer que fosse o seu desejo. Aconselhada pela mãe adúltera, a moça pede a cabeça de João Batista. Herodes se perturba... Quase dá para imaginar a cena: o rei bonachão com cara abobada, mudar repentinamente a expressão facial expressando a tristeza e a perturbação interior. Herodes sabe que estará a cometer um pecado ainda mais terrível, que vai ser responsável pela morte de um profeta, entretanto olha em volta, vê os convidados, e, para não passar vergonha ante a turma, segue em frente com tal iniquidade.

É provável que não estejamos nós com profetas em cárcere, ainda assim, aqueles elementos que levaram Herodes ao pecado estão bem presentes: a pressão social (ao qual a teologia chama de respeito humano) e a fascinação embobada ante a beleza apreciada de forma imprudente. Segundo o ditado popular e a propaganda médica, é melhor prevenir do que remediar, de tal forma que a narrativa de hoje se converte em uma exortação a mortificação; a mortificação do olhar, e a certa ''mortificação social'', não fazendo conta de passar má impressão ante a turma.

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