segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O perigo de uma vida tranquila

6ª Semana do Tempo Comum - Segunda-feira
Primeira Leitura (Tg 1,1-11)
Responsório (Sl 118)
Evangelho (Mc 8,11-13)

A primeira leitura de hoje é como que um mini tratado anti-teologia da prosperidade. O salmo vem para complementá-lo.  O Apóstolo São Tiago começa por exortar os que sofrem a alegrarem-se. Tal sofrimento é para eles uma prova, prova esta que produz paciência e edifica a fé. Em linguagem moderna, a ocasião faz o herói... Uma vida prosaica, sem desafios, sem perseguições e humilhações nos tornaria fracos. Assim nos mostra a história da Igreja, onde períodos de grande bonança e progresso são seguidos de uma decadência espiritual tamanha, onde a religião se resume a mero formalismo. Não precisamos retornar a França pré-revolucionária para observar tal fenômeno, basta-nos o nosso catolicismo tupiniquim de outrora.

Continua o apóstolo advertindo aos ricos. Tal trecho pode ser interpretado desde várias perspectivas conservando toda a radicalidade e fidelidade de seu sentido original. Hoje, insisto na questão do conflito e do perigo da tranquilidade que traz a riqueza. Li recentemente um artigo medíocre em um jornal ruim, que todavia traz alguns tesouros de sabedoria. O autor perguntava-se como se pode definir o que chamamos de classe média, e por consequência, também ricos e pobres. Para além de um economicismo vulgar, baseando-se em uma autora norte-americana, o redator classifica ricos como aqueles que acumularam tal quantidade de dinheiro que não precisam mais trabalhar para manter o mesmo padrão de vida para si e seus filhos. Pobres seriam aqueles cuja existência é insegura, e qualquer eventual interrupção no trabalho geraria crises tamanhas. As classes médias, por sua vez, seriam aqueles que conquistaram certo padrão de vida tranquilo com base no trabalho, mas tal padrão depende de si, não tendo estoque de dinheiro suficiente para assegurar o mesmo padrão aos filhos ou ficar muito tempo ''de boa'', sem trabalhar. Note o leitor o aspecto ''tranquilo'' da vida dos ricos em tal definição. E ai mora o perigo...Uma vida tranquila, sem dramas, sem lutas, sem contrastes , é uma prosa medíocre. Acontece que a fé é um drama heroico. Note o leitor o contraste narrativo... Alguém que vive em tal mediocridade de roteiro há de confiar em si mesmo, não encontrando muitas situações que o impulsionem a recorrer a Deus. O resultado de tal prosa enfadonha é a tragédia do inferno.

Chega a soar estranha a prece de hoje, mas, que Deus nos livre de uma vida tranquila e luxuosa. É em meio a luta, as batalhas, quedas e soerguimentos que nos tornamos heróis. O sofrimento gera a paciência, e a paciência fortalece-nos na fé.

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