sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Ying Yang e o Paradoxo Aristocrático-Populista


Sábado depois das Cinzas
Primeira Leitura (Is 58,9b-14)
Responsório (Sl 85)
Evangelho (Lc 5,27-32)

1. Na primeira leitura extraída do livro do profeta Isaías. uma diferença de tradução entre o leccionário e o texto da Vulgata, altera significativamente o sentido do texto. O lecionário fala de deixar a ''linguagem maldosa'' , enquanto a Vugata, tanto na tradução do Pe. Figueiredo quanto do Pe. Matos Soares exorta a abster-se a de ''falar o que não aproveita''. É certo que substancialmente, o que não se aproveita consiste em linguagem maldosa, acontece que de forma ordinária a assembléia não é constituída de filósofos tomistas, de forma que a tradução atual soa tanto mais restrita enquanto a pretérita bem mais ampla. Ao vulgo, há tantas inutilidades que embora não se aproveitam, não constituiriam em si linguagem maldosa, que para este se resumiria apenas em ofensas e ataques; ou em termos modernos: linguagem violenta. Acontece que a escritura não se refere tão somente a isso. Como ecoado pelo ensino dos santos e manifesto na santa tradição, há que ter certa prudência, certa economia no falar. É preciso cultivar o silêncio e adestrar a linguagem de tal modo que seja específica, e o tema de nossas conversações consista tão somente naquilo que é digno e do qual se aproveita. Neste sentido, quanta luz não nos joga este versículo com relação ao ''Zap-Zap'', onde não raro tantos grupos ingredam em um redemoinho de conversas superficiais, intermináveis, sem a devida seriedade e aprofundamento, ou até mesmo caindo, infelizmente, para o terreno das fofocas.

Evitemos, pois aquilo que não se aproveita. Sobretudo em tempos de redes sociais.

2. O Evangelho de hoje trata do chamado da Levi, um publicano, que na época significava um traidor e muito provavelmente um ladrão. Traidor porque os publicanos ou cobradores de impostos eram judeus que trabalhavam para o Império Romano, Isto é, lesa-pátrias a serviço do dominador contra o próprio povo. Ladrão porque, não raro, cobravam a mais do que ordenava a autoridade, afim de retirar um quinhão para si. Um homem em tal condição seria chamado a conversão, e constituído apóstolo, um dos doze, das doze colunas que profeticamente substituiriam os antigos alicerces representados pelas doze tribos de Israel, os doze filhos de Jacó. A Divina Providência é sem dúvida surpreendente. O Evangelho se encerra com a memorável expressão: <Eu vim chamar, não os justos, mas os peccadores á penitencia. (Lc 5, 32)>; tal versículo, além de seus ecos teológicos, cria para a própria identidade dos cristãos uma tensão cultural.

Já disse em outra ocasião que a Igreja é de natureza aristocrática. Acontece que esta não pode ser perfeitamente aristocrática, ao menos não no sentido o qual a palavra adquiriu na aristocracia pós-medieval, onde os nobres deixaram de viver em meio ao povo para adotar a vida nas cortes. Um aristocrata neste sentido cortesão é alguém que vive longe dos vulgos, cultivando, ao menos em tese, pensamentos mais belos e elevados, afim de se distinguir destes. Acontece que essa distinção gera um ''afastamento'', o que a Igreja não pode consentir, pois ela é chamada justamente a aproximar-se dos populares, dos pecadores, das realidades mais feias e aparentemente sem solução, e convidá-los a penitência e a conversão. Neste sentido ALGUMAS das reformas recentes foram positivas afim de atenuar o caráter aristocrático da Igreja, acentuando seu aspecto populista. Mas, mesmo esse aspecto populista não pode ser total, isto por que a Igreja não é chamada a se identificar as estas realidades ''baixas'', mas antes aproximar-se delas para daí elevar os que nelas se encontram. Estamos, pois, ante mais um dos paradoxos do catolicismo: a Igreja é ao mesmo tempo aristocrática e populista, sem o ser, contudo, nenhuma das duas realidades em absoluto. Em certo sentido poderíamos ilustrar tal paradoxo por um símbolo, que apesar de não ser de origem cristã e nem comumente ser interpretado desta forma, pode ser usado tal; falo do Ying Yang. Há, pois, um perfeito equilíbrio entre o preto e branco, de forma que nenhum deles preenche o círculo absolutamente, assim é a Igreja com relação ao aspecto populista e aristocrático, onde nenhum destes pode prevalecer e esgotar absolutamente a identidade cultural dos seguidores de Jesus Cristo.

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