quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Porta-te como homem!


4ª Semana do Tempo Comum - Quinta-feira
Primeira Leitura (1Rs 2,1-4.10-12)
Responsório (1Cr 29,10-12)
Evangelho (Mc 6,7-13)

1. Hoje se encerra a saga de Davi. A longo desses dias, em trechos selecionados do livros de 1Samuel, 2Samuel e 1Reis estivemos imersos e uma longa e intrigante narrativa. Em meio a tantas críticas, faço aqui um elogio aos responsáveis pela reforma litúrgica que demonstraram grande conhecimento bíblico na seleção e organização dos textos. 

Voltemos agora nossos olhos a cena final da vida de Davi. O rei, em seu leito de morte, dirige suas últimas palavras a seu filho Salomão, aquele que o irá suceder no trono de Israel: "se forte, e porta-te como homem"; assim disse Davi há milênios e ainda hoje tais palavras ecoam em nossos corações.

"Porta-te como homem"; que isso significa? Que o ser homem, a identidade masculina tem um código de conduta que lhe é próprio, sendo a virtude da fortaleza o fundamenta e o início de tal código. Um homem deve ser forte, firme, e responsável. Qual o antonino do portar-se como homem? Comportar-se como um moleque: de forma irresponsável; ou como maricas: sendo fraco e inconstante.

Alguns autores modernos[1] citam 5 virtudes, essenciais a identidade masculina, são elas: Força, Coragem, Destreza e Honra.  Força é a capacidade de impor a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza e sobre outras pessoas. Coragem é a vontade de arriscar a se prejudicar para obter benefícios para si ou para outros. Em sua forma amoral mais elementar, coragem é uma vontade ou desejo impetuoso de combater ou de se defender a qualquer custo (combatividade, coração, disposição de espírito, thumos). Em sua forma mais evoluída, civilizada e moral, coragem é a vontade deliberada e decidida de arriscar a se prejudicar para garantir o êxito ou a sobrevivência de grupo ou de outra pessoa (coragem, virtus, andreia). Destreza é o desejo e a capacidade do homem de cultivar e demonstrar competência e expertise em conhecimentos técnicos que o ajudem a exercer a vontade sobre si mesmo, sobre a natureza, sobre as mulheres e sobre outros homens.  Honra é a reputação de força, coragem e destreza da qual um homem desfrute no contexto de um quadro de honra constituído principalmente de outros homens.

2. No santo Evangelho que hoje contemplamos, Cristo envia os apóstolos a missão. Se os envia dois a dois, para que encontrem amparo na companhia um do outro, também os envia na pobreza, sem duas túnicas, sem alforge, e tantas outras necessidades que um bom viajante não poderia negligenciar naquele tempo. Lá vão aqueles homens, com a cara e a coragem, desprovidos de auxílios materiais, ao mesmo tempo, providos do poder de realizar milagres, curar os doentes e expulsar os demônios. Temos aí mais um paradoxo de nossa santa religião, para ter parte na potestade espiritual, no poder sagrado, para manejar com eficiência o gládio espiritual, é preciso renunciar, privar-se do poder temporal, da confiança nos meios humanos ordinários. Conta uma velha história que o Papa chamara São Domingos a Roma, para ver sua nova basílica: -Veja Domingos, dizia o Pontífice, agora Pedro não pode mais dizer "não tenho ouro nem prata"; o qual o frade teria respondido de mal humor: - ... e nem "levanta e anda". Tal fato é aludido pelo famoso escritor inglês G.K. Chesterton, histórico ou não, este ainda guarda seu significado teológico: o poder espiritual exige a renúncia, e aqueles os quais Deus chama a determinada missão especial, relacionadas sobretudo ao caráter sacerdotal e missionário, devem proceder de forma radical em tal renúncia, abandonando-se a Divina Providencia. Nós, que não somos padres ou missionários, talvez não precisemos de tanto, mas também de forma mais ou menos análoga precisamos fazer renúncias e confiar na Providência, cito a vocação das famílias que devem estar abertas a vida, e aos numerosos filhos que Deus quiser enviar, renunciando ao luxos e as seguranças materiais para acolher tal graça.

[1] O Código dos Homens - Jack Donovan

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