sexta-feira, 13 de março de 2020

Roncalli modernista?

É inegável a qualquer observador honesto o aspecto desastroso do Concílio Vaticano II, não só em sua recepção e interpretação, como também na letra de muitos de seus documentos, fruto de conspirações de atores diversos que vão desde os hereges modernistas até os maçons e judeus. Entretanto, de tal constatação, não raro advém da parte de alguns uma simplificação temerária (por vezes beirando ao cisma) de tomar os pontífices do contexto conciliar e pós-conciliar como tomando parte ativa e consciente no processo de demolição da Igreja, sendo eles agentes infiltrados destes atores ocultos. Com relação a Angelo Giuseppe Roncalli, hoje venerado como São João XXIII, a acusação mais comum é que este seria um herege modernista, adepto das teses condenadas na Pascendi por São Pio X. Afim de confrontar tais acusações, trago ao leitor alguns trechos selecionados do diário de Roncalli, publicado integralmente pala Paulus no ano 2000, que demonstram a profunda admiração e devoção que João XXIII nutria para com São Pio X, bem aqueles em que refletem alguns aspectos de sua espiritualidade. 

  • Sobre São Pio X
O estudo não deveria ser considerado assim tão importante: o segundo elemento de uma vida Sacerdotal eficaz e também uma segunda tábua de salvação nos nossos tempos. Deus me livre de ter o estudo em pouca conta, mas também devemos precaver-nos para não darmos ao estudo um valor excessivo e absoluto. O estudo é um olho, o esquerdo; mas, se faltar o direito, de que valerá um só olho, só o do estudo? Afinal, o que é que eu sou com o meu doutoramento? Nada, um pobre ignorante... Estudar sempre, sem permitir-me descansar: “Digo a cada um de vós que não se considere mais do que deve, mas que procure pensar sempre de si com simplicidade”... Como é sábia a frase do nosso Santo Padre Pio X aos jovens seminaristas: - “Meus filhos, estudai, estudai muito; mas sede bons, amor a Deus”... devo procurar estudar mais para a vida do que para os exames...”. - (1904)

Audiência com Pio X: ...o Papa, permanecendo inclinado e pondo-me a mão na cabeça, quase falando-me ao ouvido, disse-me: “Meu filho, vou pedir ao Senhor que abençoe especialmente esses bons propósitos para que sejas, verdadeiramente, um Sacerdote segundo o Seu Coração. Abençoo também todas as tuas outras intenções e todas as pessoas que, nestes dias, se alegram contigo”. Abençoou-me, e deu-me a mão a beijar. Depois, segui e falou com outros; creio que com um polaco. Mas, de repente, como que retomando o fio do seu pensamento, voltou para mim e perguntou-me quando regressaria eu a casa. Disse-lhe: No dia da Assunção. “Que grande festa – respondeu – haverá na sua terra (antes tinha me perguntado qual era) e como tocarão nesse dia os belos sinos de Bérgamo”. E continuou o seu caminho a sorrir. - (1904)

Deverei praticar uma delicada reserva nas palavras: falar pouco e bem e, sobretudo, saber calar-me, embora sem ostentação e sem me tornar pesado a ninguém, mas, antes, conservando a máxima tranqüilidade de espírito e serenidade com todos, a máxima cortesia nas maneiras e nas palavras, de modo que ninguém se ofenda. Em suma, seguirei o preceito de São Paulo a Tito: Apresentando-te como exemplo de boas obras, e nunca me esquecerei do que o Santo Padre Pio X desse quando veio a Bérgamo como o senhor Bispo: “Deste modo, Dom Ângelo, servo fiel e prudente... e prudente. Quanto às observações do mundo, alegrar-me e fazer o bem e deixar que os pássaros cantem”. - (1907)

Depois da minha primeira Missa no túmulo de São Pedro, as mãos do Santo Pio X pousaram na minha cabeça em bênção de augúrio para mim e para minha vida sacerdotal incipiente; mais de meio século depois (exatamente cinqüenta e seis anos), as minhas pobres mãos abrem-se sobre os Católicos – e não só sobre os Católicos – do mundo inteiro em gesto de paternidade Universal, como sucessor do mesmo Pio X proclamado Santo, e que sobrevive nesse seu Sacerdócio e dos seus antecessores e sucessores, encarregados como São Pedro do governo de toda a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. - (1961)

  • Modernismo
Jesus Bendito houve por bem conceder-me, nestes exercícios, uma luz especial para compreender ainda mais vivamente a necessidade de manter íntegro e puríssimo o meu sentido de fé e o meu sentir com a Igreja, mostrando-me também, a uma luz mais resplandecente, a sabedoria, a oportunidade e a beleza das medidas pontifícias dirigidas para defender principalmente o Clero do contágio dos erros modernos (chamados modernistas) que, de maneira enganadora e fascinante, pretendem abalar os alicerces da doutrina. - (1910)

  • Carnaval
O carnaval. Graças a Deus, também este ano já acabou. Entretanto, nesta última noite, o mundo continua entregue às suas loucuras e em que medida, com que descaramento, nos teatros, nos bailes de máscaras, nas casas de pecado, nos jardins e até nas ruas e praças. Entretanto, o Coração amoroso do meu Jesus é ofendido. Ó Jesus, vou dormir participando da Vossa dor, e pensando na Vossa dolorosa Paixão. Que o meu vivo desejo de vos amar, vos faça esquecer os diabólicos desejos de tantos desgraçados irmãos meus e a alcance para todos que amanhã desçam, solenes e fecundas de melhores propósitos, as palavras da Igreja, recordando que somos e o que seremos no dia maior da nossa vida: “és pó e em pó te hás de tornar”. - (1903)

  • Proselitismo
Pedirei na minha oração, e farei que outros peçam, ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e aos Santos, pala conversão do Oriente e, sobretudo, pela união das Igrejas dissidentes. - (1896)

Na outra noite, por volta de uma, chovia a cântaros, mas os pescadores estavam lá, impávidos na sua rude tarefa. Que confusão para mim – para nós os Sacerdotes, pescadores de homens – perante este exemplo. Passado da figura ao figurado, que panorama de trabalho, zelo Apostólico que se oferece à nossa atividade. Do Reino do Senhor Jesus Cristo resta aqui bem pouca coisa. Restos e sementes. Mas há tantas almas a ganhar para Cristo, que vogam neste mar do Islamismo, do Judaísmo, e da Ortodoxia. Imitar os pescadores do Bósforo, trabalhar dia e noite com as lâmpadas acesas, cada um no seu barco, às ordens dos chefes espirituais: é esse o nosso grave e Santo dever. - (1939)

  • Espiritualidade
É isto que devo fazer: nunca dizer aos outros algo que não me esforce imediatamente por em prática, pois até agora fiz o contrário. - (1897)

Propósitos: Com mulheres de qualquer condição, mesmo que sejam parentes ou santas, terei um cuidado especial, fugindo da familiaridade com elas, da sua companhia ou conversação, particularmente se se tratar de jovens; nunca fixarei os olhos no seu rosto. Jamais lhes darei a mínima confiança e quando, por necessidade, tiver que falar com elas, procurarei ser breve e prudente.

Jamais terei nas minhas mãos, nem porei os olhos, em livros de frivolidades ou imagens que ofendam o pudor.

Além de dar exemplo de suma modéstia no falar, procurarei afastar das conversas, quando em família, temas pouco convenientes para a Santa Pureza.

Corrigirei sempre com caridade qualquer imodéstia que outros cometam, e se persistirem, afastar-me-ei, mostrando o mais vivo desagrado. - (1897)

Deus é o meu grande dono que, por inaudita bondade, me tirou do nada para que o louve, o ame, o sirva e procure a sua honra. Sou, portanto, uma coisa toda de Deus, e não posso nem devo fazer senão o que Deus quer, o que for para a Sua Glória.  -  (1898)

Devo convencer-me, para sempre, desta grande verdade: Jesus não quer de mim somente uma virtude medíocre, mas a máxima virtude. - (1898)

Como era a vida de Jesus em Nazaré? Uma vida oculta. Ninguém sabia nada Dele; exteriormente, só viam Nele o filho de Maria, o filho do carpinteiro. Que bela lição para mim, que tão cheio estou de mim mesmo, e a quem o amor próprio incita sempre a manifestar os poucos dons naturais, acompanhados, por outro lado, dos inumeráveis defeitos que possuo. Devo permanecer oculto para que, longe do estrépito do mundo, possa ouvir a voz do meu Jesus que me fala ao coração. O meu maior cuidado deve ser ocultar o pouco bem que, com a Graça de Deus, conseguir fazer, não vá a vaidade prejudicá-lo, e o demônio roubar-mo. - (1900)

Devo considerar-me sempre nesta condição de servo; não tenho um único momento em que possa ocupar-me de mim mesmo, servir o meu capricho, a minha vaidade, etc. Se o fizer, sou ladrão, porque roubo um templo que não é meu, sou um servo infiel, indigno de recompensa. - (1902)

Amigo, a que vieste? A conhecer a Deus, a amá-lo, a servi-lo durante toda a vida; depois da morte, a gozá-lo para sempre no paraíso... Os deveres da minha vida resumem-me nestas, três palavras, é só isto que tenho que fazer: conhecer, amar, servir a Deus, sempre e a todo o custo; a Vontade de Deus deve ser a minha, a única que devo procurar. - (1903)

O talento, a memória, são dons de Deus. Porquê entristecer-me se outro é mais rico neste aspecto do que eu?... se tiver feito tudo o que Deus queira de mim, que importa o êxito ou o fracasso dos meus estudos? - (1903)

São Sebastião... Santa Inês: dois jovens, dois heróis, um soldado, uma virgem. Para eles dirijo o meu fervoroso pensamento, a minha oração, para que, à coragem, ao entusiasmo do soldado e à imaculada pureza da virgem, se junte em mim a sua perseverança de mártires. - (1903)

O sorriso habitual que aflora aos meus lábios deve saber ocultar a luta interior, por vezes tremenda, do egoísmo, e representar, quando for necessário, as vitórias, do espírito sobre os movimentos, dos sentidos ou do amor próprio, de maneira que Deus e o meu próximo tenham sempre a melhor parte de mim mesmo. - (1914)

Qualquer forma de desconfiança ou de tratamento de descortês com alguém – sobretudo se se tratar de fracos, pobres ou inferiores –, qualquer dureza ou inflexão de juízo me provocam pena e sofrimento íntimo. Calo, mas o meu coração sangra. Estes meus colaboradores são uns magníficos eclesiásticos: aprecio as suas qualidades excelentes, estimo-os e merecem tudo. Mas sofro por o meu espírito discordar deles. Há dias e circunstâncias em que sou tentado a reagir com decisão. Mas prefiro o silêncio, esperando que ele seja mais eloqüente e eficaz para a sua educação. Mas isto não será fraqueza? Devo e quero continuar a levar em paz esta leve Cruz, que se junta ao sentimento já mortificante da minha pequenez, e deixarei que o Senhor atue, Ele que penetra os corações e os atrai para as delicadezas da sua caridade. - (1948)

Mas o que é esta vida do Papa senão uma continuação diária de verdadeiro exercício espiritual pela salvação da sua alma, ocupada em salvar as almas de todos os redimidos de Cristo Jesus, salvador do mundo?  (1951)

Amabilidade, calma e paciência imperturbável. Devo lembrar-me sempre de que a palavra delicada amansa a ira. Quantos fracassos nascem da dureza, da impulsividade e da falta de contensão. - (1952)

O Evangelho é imutável, de que o ensino de Jesus no Evangelho é a mansidão e a humildade; naturalmente que não é a fraqueza nem a burrice. Tudo o que tem ares e tom de imposição pessoal não passa de egoísmo e fracasso. - (1956)

As portas do Paraíso são duas: inocência e penitência. Quem pode pretender, pobre homem frágil, achar a primeira porta? Mas a segunda também é segura. Por ela passou Jesus, com a Cruz às costas, como expiação dos nossos pecados e convida-nos a segui-Lo. E segui-Lo significa fazer penitência, deixar-se flagelar e flagelar-se um pouco também. Meu Jesus, as minhas circunstâncias permitem-me uma vida de mortificação, entre tantas consolações que o meu ministério me oferece. Aceito-as com todo o prazer. Por vezes, fazem sofrer um pouco o meu amor próprio; mas, mesmo sofrendo, gozo e repito-o diante de Deus: “A humilhação é um bem para mim”. A grande frase de Santo Agostinho acompanha-me e conforta-me. - (1957)

  • Último Registo:
Querido São Bernardino, predileto entre os meus Santos. Com a ternura da tua lembrança deste-me vários sinais da continuação de uma grande dor física que não me dá tréguas e me faz pensar e sofrer muito. Esta manhã, pela terceira vez, tive de conformar-me com receber a Comunhão na cama, em vez de gozar da Celebração da Missa. Paciência, paciência, mas não pude renunciar a receber, em visita de despedida, o Cardeal Wyszinski, Primaz da Polônia, Arcebispo de Gniezco e de Varsóvia, com quatro dos seus Bispos recentemente regressados à Pátria. O resto do dia na cama, com vários ataques de intensa dor física. Assistem-me sempre, com grande caridade, os meus familiares, o Cardeal Cicognani, Mons. Capovilla, Frederico Belotti e criados. - (1963)

O leitor pode encontrar um pequeno resumo deste mesmo diário disponível para download na Alexandria Católica.

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