domingo, 1 de março de 2020

Teologia e criptozoologia em filme de gato

Se Aleksandr Dugin pode criticar a pós-modernidade a partir de Pequenos Espiões 2, quem pode me repreender por falar de religião tomando como ponto de partida o filme de gato do Stephen King? Exatamente: ninguém; absolutamente ninguém 😛.

O filme em questão é nada menos que Cat's Eye , um terror da década de 80 que hoje já não assusta mais ninguém... A trama se inicia com um gato contemplando uma vitrine, onde vê uma menina ou um fantasma de uma menina, que o envia em missão. Mas, no caminho até a realização desta misteriosa missão, o gato se envolve em alguns problemas, e nestas intempéries somos introduzidos a duas outros sagas onde se expressa grande sadismo e crueldade. Recurso de roteiro simples, mas que funciona: usar o gato como elo de ligação entre narrativas diversas até então desconexas. 

A respeito de tais sagas, temos inicialmente um caso bizarro e cruel de uma clínica para tratamento de fumantes que usa de métodos desumanos para libertar seus pacientes do vício. A cada tragada um membro da família do infeliz é punido de forma violenta. No segundo ato, temos um apostador maníaco que resolve vingar-se do amante de sua esposa submetendo-o a um jogo mortal. No segundo arco de Kaiji temos um roteiro análogo e melhor desenvolvido:  os poderosos se divertem submetendo aqueles sob seu domínio joguinhos sádicos e mortíferos, nada muito diferente do que fazem as redes de televisão que usam dos pobres como peões em seus programas e reallity shows, brincando com suas emoções, fazendo do drama pessoal de tantos o divertimento da audiência. Uma afronta a dignidade humana!

No terceiro e último arco o gato finalmente está próximo a cumprir sua missão: salvar uma menininha de um monstro em miniatura, um troll, que aparece durante a noite para roubar-lhe o fôlego e a alma. Dado a crueldade manifesta pelos homens nas duas histórias precedentes, a impressão que me ficou é que a natureza humana corrompida pelo pecado já é suficientemente cruel por si mesma para dispensar a necessidade de criaturas míticas como monstros e trolls. De todo o modo, apesar da dispensa, a existência de tais terrores noturnos para além da maldade humana, torna de fato o horror tanto mais intenso, isto é, se os efeitos especiais não tivessem envelhecido tão mal...

Troll dos anos 80.

Até pouco tempo atrás, a existência de monstros eram uma das poucas constantes na cultura humana. Diversas tribos, povos e nações tinham seu bestiário folclórico: trolls, fadas, duendes, bruxas, vampiros, lobisomens, fantasmas, sacis, yokais, pé-grande e etc. Hoje em dia, tais criaturas são vistas como meras superstições campesinas de um povo inculto. Argumento este que se assenta sob base sólida, a saber: a total ausência de registros claros de tais criaturas em tempos onde qualquer um tem uma câmera no celular. 

Note o leitor que os argumentos usados foram de natureza científica (falta de evidências) e não teológica. E assim se dá porque as censuras da Igreja a criptozoologia (o estudo das criaturas míticas) é pontual. De forma geral, o que sabemos pela revelação é que os mortos não saem por aí perambulando e assombrando os vivos, de forma que a crença em fantasmas não raro beira a heresia, embora possa ser equacionada de forma a não ferir a doutrina em casos específicos. Também sabemos que existem os demônios, anjos caídos de hierarquias diversas que atuam a fim de perder as almas e que tais criaturas, de natureza exclusivamente espiritual, embora possam atuar sobre o mundo material, não são capazes de cruzamentos, sendo híbridos humano-demônio uma impossibilidade metafísica. Dito isto, nada obriga a inexistência de outras criaturas espirituais ou semi-espirituais, e tampouco que tais criaturas devam ser necessariamente categorizaras no dualismo anjos e demônios.

Apesar da abertura teológica para o encaixe da existência de tais criaturas míticas na cosmologia cristã, a falta de evidências é, entretanto, um argumento forte em favor da teoria de que tudo não passa de superstição. De todo o modo, um mundo habitado por tais criaturas, apesar de aterrorizante, seria um tanto quanto mais divertido, não? 

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