sábado, 21 de março de 2020

Breves considerações sobre uma "teologia" da estrutura narrativa...

E no final a Greta estava certa... Ao menos no mundo dos animes, onde a ganância humana levou o planeta Terra a uma situação onde não mais pode suportar a vida, de tal modo que foram os homens obrigados a espalhar-se pelo universo. Todavia, o trauma da destruição do planeta natal fez com que os homens se submetessem a uma violenta tecnocracia, entregando o governo a um totalitário algorítimo de computador conhecido como Grande Mãe. Nesta situação todos os aspectos da vida humana são rigorosamente controlados, sendo a reprodução realizada tão somente em laboratório, com a criança gerada confiada a um casal selecionado, onde são criadas até os 14 anos, época em que devem se submeter ao exame de maioridade onde, posteriormente, tem todas as suas memórias apagadas, estando prontos para tomar parte no sistema e iniciar a vida adulta. Acontece que durante este exame, algumas crianças manifestam poderes tremendos, são os Mu, uma nova raça, que deve ser eliminada do universo. Está é a premissa de Toward the Terra.

Apesar de um começo entediante e um traço não muito original, por volta do décimo episódio o anime encontra o tom, harmonizando um drama profundo com uma riquíssima trilha sonora. O salto temporal aliado ao recurso da longevidade dos Mu ajuda a abreviar o longo processo narrativo de evolução dos personagens. Igualmente, estes, embora sejam tipos de personalidade mais ou menos unidimensionais, estão perfeitamente integrados aos arquétipos que o inspiram, não há, pois o que reclamar.

A história, inicialmente segue uma trama análoga ao livro do Êxodo. Um povo oprimido que procura a libertação. Blue e depois Jomy encarnam uma espécie de Moisés a conduzir os Mu para uma vida longe dos humanos, em busca de paz. O anime tem já mais de 4 anos, o mangá algumas décadas, todavia o roteiro se mostra tanto mais forte visto desde hoje, onde um individualismo insano aliado a globalização capitalista destruiu o sentido de povo. O que é um povo? O que é um líder? A saga dos Mu nos traz uma luz ao mesmo tempo ancestral e futurista para essas questões.

O algorítimo da ''Grande Mãe'' nos traz a temática da idolatria em sentido estrito. Os homens fabricam para si falsos deuses, ídolos, e dão o controle total sobre si, pois temem as consequências nefastas da liberdade desregrada. Há de se temer que, no futuro, os hereges e idólatras do amanhã tentem confeccionar seus ídolos cibernéticos....

Mas a história não fica só nisso. É como se partisse do Antigo para o Novo Testamento, e a libertação, outrora confinada a um único povo, é ampliada para todo universo. Jomy não quer apenas libertar os Mu, mas também salvar a humanidade do tirania na qual se envolveu.

Outra questão interessante é o equilíbrio entre tradição e liberdade. O "soldado"  herda o seu cargo da geração anterior, é escolhido por seu antecessor moribundo, herda uma missão, um legado, ao mesmo tempo em que goza de liberdade para tomar decisões substancialmente diferentes as deste mesmo antecessor. Blue confiou a Jomy a missão de levar os Mu a Terra, Jomy confiou a seu sucessor a missão de conduzir os humanos e os Mu para fora da Terra.

Já em seus capítulos finais, houve um aspecto um tanto quanto marginal que me chamou bastante atenção. Falo do desfecho do capitão Murdock, em como no último momento, através de um ato heroico, deu sentido a toda a sua vida até então não muito admirável. Esse, aliás, é um aspecto curiosíssimo e interessantíssimo da existência humana. Nossos caminhos não estão definidos, nossa vida é uma aposta, cujo resultado pode mudar a qualquer momento. Ao final do jogo, toda uma existência vazia pode encontrar sentido em um único ato, assim como uma vida virtuosa corre o risco de perder todo o seu significado por uma covardia final. E tais atos não adquirem sua gravidade apenas ante a nossa história na terra, mas também sobre o destino eterno de nossa alma. Quantos não salvaram, e quantos não se condenaram no último minuto? Os calvinistas falam de predestinação... Se assim o fosse, seria um recuso de roteiro monótono e previsível que esvaziaria a existência humana de toda a sua identidade dramática. Não atoa a heresia presbiteriana é coisa de gente chata.

É pouco provável que o autor seja cristão ou tenha conhecimento sobre a História Sagrada, mas, as estruturas narrativas destas estão ali presentes. Como isso é possível? Tolkien responde, embora poucos o compreenderam. Deus é o autor por excelência, a revelação devidamente absorvida e explicitada é a narrativa por excelência. Todo o autor, na busca da excelência artística, há de, em maior ou menor grau, fazer com que sua criação se assemelhe a revelação, sem contudo constituir uma paródia.

Todos os caminhos levam a Roma, incluso o da Teoria Literária.

Não sei se consegui me explicar muito bem, mas não importa.

Deus é a bom, o belo e o verdadeiro. Toda verdade, beleza e bondade são como imãs que, devidamente purificadas, levam a Ele, o autor por excelência.

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