quinta-feira, 30 de abril de 2020

Como poderei entender, se não houver alguem que mo explique?


3ª Semana da Páscoa | Quinta-feira
Primeira Leitura (At 8,26-40)
Salmo Responsorial (Sl 65)
Evangelho (Jo 6,44-51)

E correndo logo Filippe, ouvio que o Eunuco lia no Profeta Isaias, e lhe disse: Crês por ventura que entende o que estás lendo?
Elle lhe respondeo: Como poderei entender, se não houver alguem que mo explique? E rogou a Filippe que montasse, e se assentasse com elle. (At 8, 30-31)

O diálogo entre Felipe e o eunuco ecoa e se repete pelos séculos sem fim. Mais do que nos tempos de outrora, a Sagrada Escritura está acessível, seja em edições de bolso ou versões digitais, em línguas diversas, isto sem falar que hoje o índice de alfabetização cresceu admiravelmente. Tantos e tantos homens estão a ler a Bíblia, mas se encontram na mesma situação do Eunuco, leem mas não a compreendem, pois não há quem lhes explique.

E a quem cabe explicar as Escrituras? A Igreja. Mais especificamente a Igreja docente. A este respeito, recordemos o que diz o Catecismo Maior de São Pio X:

179) Há alguma distinção entre os membros que compõem a Igreja?
Entre os membros que compõem a Igreja há distinção muito importante, porque há uns que mandam, outros que obedecem, uns que ensinam, outros que são ensinados.

180) Como se chama a parte da Igreja que ensina?
A parte da Igreja que ensina chama-se docente, ou ensinante.

181) E a parte da Igreja que é ensinada, como se chama?
A parte da Igreja que é ensinada chama-se discente.

182) Quem estabeleceu esta distinção na Igreja?
Esta distinção na Igreja estabeleceu-a o próprio Jesus Cristo.

183) A Igreja docente e a Igreja discente são, pois, duas Igrejas distintas?
A Igreja docente e a Igreja discente são duas partes distintas de uma só e mesma Igreja, como no corpo humano a cabeça é distinta dos outros membros, e, não obstante, forma com eles um corpo só.

184) De que pessoas se compõe a Igreja docente?
A Igreja docente compõe-se de todos os Bispos (quer se encontrem dispersos, quer se encontrem reunidos em Concílio), unidos à sua cabeça, o Romano Pontífice.

185) E a Igreja discente, de que pessoas é composta?
Á Igreja discente é composta de todos os fiéis.

186) Quais são as pessoas que têm na Igreja autoridade de ensinar?
Os que têm na Igreja o poder de ensinar são o Papa e os Bispos e, sob a dependência destes, os outros ministros sagrados.

187) Somos obrigados a ouvir a Igreja docente?
Sim, sem dúvida, somos todos obrigados a ouvir a Igreja docente, sob pena de condenação eterna, porque Jesus Cristo disse aos Pastores da Igreja, na pessoa dos Apóstolos: Quem vos ouve, a Mim ouve, e quem vos despreza, a Mim despreza.

188) Além da autoridade de ensinar, tem a Igreja mais algum poder?
Sim, além da autoridade de ensinar, a Igreja tem especialmente o poder de administrar as coisas santas, de fazer leis e de exigir a sua observância.

189) Virá do povo o poder que têm os membros da hierarquia eclesiástica?
O poder que têm os membros da hierarquia eclesiástica não vem do Povo, e seria heresia o dizê-lo: vem unicamente de Deus.

190) A quem compete o exercício destes poderes?
O exercício destes poderes compete unicamente ao corpo hierárquico, isto é, ao Papa e aos Bispos a ele subordinados.

Quão triste é, porém, quando é escasso o clero. Tanto mais triste quando este mesmo clero não é bem bem preparado, quando não conhece em profundidade as Sagradas Escrituras, antes perdendo tempo em tantas tolices.

O padre existe para celebrar os sacramentos e explicar a sã doutrina ao povo. É esta a essência do sacerdócio. Não é para fazer politicagem, não é para ser animador de auditório, diplomata interreligioso ou artista de TV.

Tivéssemos nós um clero zeloso e santo, esta nação não estaria entregue a balbúrdia das seitas protestantes. Tivesse o povo quem lhes explicasse as escrituras, nossos costumes não o seriam tão repugnastes. Mas, a culpa é também nossa, de nós leigos que negligenciamos nosso dever de oração pelo clero.

Se não houver alguma mudança, estas terras tropicais hão de retornar a barbárie dos tempos primitivos. Uma terra de ignorância e selvageria. Que Deus tenha misericórdia desta nação!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra...


2ª Semana da Páscoa - Quinta-feira
Primeira Leitura (At 5,27-33)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 3,31-36)

1. Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra... 
Numa triste ironia, nós que pelo batismo fomos adotados como filhos do céu, cá estamos a brigar pelas miudezas da terra. Não se pensa mais no céu. Não se fala mais do céu. Houve quem criticasse os teólogos medievais por especular sobre o sexo dos anjos, mas, estes nada mais faziam que manter a fidelidade a seu chamado de tratar das coisas de Deus. É certo que por vezes é preciso descer o Tabor e deixar a contemplação com afim de se ocupar das coisas da terra, afim de contribuir para a salvação das almas. Sempre, porém. com vistas ao céu. Onde está teu tesouro, ali está seu coração.

Aí de nós quando esquecemos do céu, dos milagres, das maravilhas que nos aguardam no além mundo, pensando tão somente neste. De alguma forma iníqua acabamos por imanentizar a religião, transformando-a numa espécie de ideologia, esperando não o banquete nupcial do cordeiro nos palácios celestiais, mas uma efêmero domínio da religião sobre as realidades temporais, dominância essa tratada não mais como meio, mas como um fim em si mesmo.

2. São Jorge era um soldado de alta patente. Poderia ter mobilizado seus subordinados contra o imperador ao invés de se entregar ao martírio. Curiosamente tais revoltas tendem a fracassar. Não porque sejam erradas em si mesmas, mas porque a guerra não raro é ocasião de muitos pecados. Fracassaram as cruzadas. Muitos dos soldados mundanizaram a guerra que deveria ser santa. Fracassou a Conspiração da Pólvora. Lendas locais falam inclusive que visões miraculosas teriam avisado Fawkes que tal operação não era do agrado de Deus:  ''Se a forma que eu vi é a de Santa Vinifrida - e assim foi, não posso duvidar - o empreendimento em que estamos engajados fracassará. Não é aprovado pelo céu. A visão me avisou para desistir". Fracassou a Rebelião de Shimabara, a historiografia não raro menciona abusos e sincretismos de Amakusa Shiro. Fracassou o Guerra de Canudos que desde o início jamais contou com o apoio da hierarquia.

Existem duas espadas, a temporal e a espiritual. No entanto, com que frequência o manejo da espada temporal não acaba terminando em abusos cruéis? Não atoa, a escritura destaca a ordem do Divino Mestre a São Pedro para que embainhe a espada.

terça-feira, 21 de abril de 2020

''Vós formastes o universo inabalável''


2ª Semana da Páscoa - Terça-feira
Primeira Leitura (At 4,32-37)
Salmo Responsorial (Sl 92)
Evangelho (Jo 3,7b-15)

1. Hoje é um daqueles poucos dias onde a tradução litúrgica soa tanto melhor que o antigo texto da Vulgata. Diz a tradução do Pe. Figueiredo: <Porque elle firmou o vasto corpo da terra, de sorte que elle não será abalado (Sl 92,1b)>, enquanto por sua vez canta o salmista: "'Vós firmastes o universo inabalável''. Com algum conhecimento de astronomia, aquilo que hoje cantamos no salmo se torna ainda mais sublime.

Nosso planeta está localizado em algum lugar na galáxia da Via Láctea. No centro de nossa galáxia, como em todas as galáxias, há um buraco negro. Toda a galáxia orbita em torno dele. A força gravitacional do buraco aumenta a cada instante, engolindo os corpos celestes em suas proximidades e rearranjando a distribuição espacial. Não só isso, os buracos negros de cada galáxia se atraem mutualmente, podendo chegar o momento em que haja um choque galáctico. Em escala um tanto menor, nosso sistema solar é governado por uma estrela em constante explosão interna, gerando luz e calor. Mas, tais explosões dependem de uma espécie de combustível atômico, quando este combustível se acabar, a tensão gravitacional irá matar a estrela, numa épica explosão conhecida como supernova, e todo o sistema em seu entorno, morrerá na escuridão. Pelo que sabemos, o universo é absolutamente instável. Entretanto, ''coincidente'' vivemos em uma era espacial de relativo equilíbrio, o qual é capaz de sustentar a vida. Muita sorte, não? Ou antes um ato de vontade do Criador.

''Vós formastes o universo inabalável''

É pela vontade do Senhor que toda essa instabilidade externa se mantém em equilíbrio inabalável e somos nós capazes de seguir em nossa vidinha...

2. <O espírito assopra onde quer: e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde elle vem, nem para onde ele vai: assim he todo aquelle, que he nascido do espirito. (Jo 3, 8)>

O vento sopra onde quer, assim é o Espirito. Mas, quão difícil é para nos a docilidade a seu chamado. Queremos ter o controle, um plano de vida estável, fixar raízes como plantas e não andar para lá e para cá ao sabor do vento, vivendo na incerteza, sem saber o dia de amanhã. Mas, por trás dessa agitação, dessa instabilidade, se exerce a virtude da Fé, a confiança naquele que conduz a história, a nossa historia, que nos ama, e tudo dispõe para o nosso bem, para que nossa aventura neste mundo seja lembrada como uma épica narrativa. É preciso Fé para deixar-se guiar pelo Espírito, vigilância para estar atento a seu chamado, discernimento para não confundir a sua voz. Que Deus nos conceda tais dons.

"Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra."

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Erro de Confúcio



É interessante que mesmo Confúcio, uma das mais esplêndidas inteligências que a humanidade conheceu, não soube avaliar o poder destruidor dos grupos mais capazes. Pretendendo colocar um ponto final na divergência entre reinos chineses, assim como dotar o Estado de gente competente a governá-lo, formatou a equipe dos integradores do poder ou da burocracia oficial chinesa. É Confúcio o Pai da burocracia moderna.

Partia o admirável filósofo do princípio que a cultura e o saber são valores superiores ao ouro e ao poder. Para ele, quem fosse mais capaz e culto é que deveria governar, porque as suas ambições seriam mais nobres que as dos demais detentores do poder. Em outras palavras, os burocratas serviriam melhor ao povo que os políticos, pois sendo o saber o objeto de sua ambição maior, não iriam deixá-lo para se vincularem à luta pequena e mesquinha pelo poder e pelo ouro, própria dos políticos.

O resultado foi o inverso do que pretendeu. Fortalecidos, os burocratas passaram a governar mais do que os governantes, pois detinham conhecimento maior, mais habilidade, não se afastando, todavia, do culto ao poder e ao dinheiro. Desta forma, passaram a concorrer com os próprios governantes na ambição pelo poder e pelo enriquecimento fácil. Atestam alguns historiadores que a época dos “Reinos Combatentes”, na China, só ocorreu em virtude da força dos integradores do poder.

É que, como Montesquieu afirmou, o homem não é confiável no poder, razão pela qual é necessário que o poder controle o poder.

O certo é que a burocracia nunca foi a solução dos problemas de governabilidade nem o conhecimento antídoto contra as ambições do poder e de riqueza. Confúcio errou por ter nascido muito antes que Montesquieu, que não errou porque entendeu melhor a história produzida a partir da burocracia chinesa.

- Ives Gandra Martins. Uma Visão do Mundo Contemporâneo; p.41-42.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"(...) dize-me onde o pozeste: e eu o levarei"

Oitava da Páscoa - Terça-feira
Primeira Leitura (At 2,36-41)
Salmo Responsorial (Sl 32)
Evangelho (Jo 20,11-18)

O Evangelho de hoje é surpreendente. Vemos subsistir no coração de Santa Maria Madalena o amor e a fidelidade mesmo estando a fé profundamente abalada.

Julgava Maria que Jesus estava morto, mas ainda assim se dirigiu até o sepulcro para terminar a preparação do cadáver. Não o encontrando, se põe a chorar, de tal modo que nem os anjos são capazes de consolá-la. Jesus lhe aparece, mas ela , inicialmente, não o reconhece, pensando ser ele o jardineiro,:

<Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? a quem buscas? ella julgando que era o hortelão. disse-lhe: Senhor se tu o tiraste, dize-me onde o pozeste: e eu o levarei. (Jo 20, 15)> 

"(...) dize-me onde o pozeste: e eu o levarei" . Maria está disposta a carregar um cadáver já a dias falecido e segundo a lógica provavelmente em decomposição e cheirando mau. E tanto mais forte se torna o episódio se nos recordarmos que Maria era judia, e na antiga religião judaica o contato com os mortos significava uma séria violação da lei, uma contaminação impura. Maria está disposta a violar a lei de seu povo e sofrer as consequências sociais disto, está disposta a colocar sua saúde em risco no contato com um corpo em decomposição, a vencer as naturais repugnâncias da própria natureza ante um cadáver. É uma fidelidade tamanha que não se vê nem nos próprios apóstolos. São João e São Pedro só se dirigiram ao túmulo depois de saber da Ressurreição. A fidelidade de Maria é recompensada pelo Senhor, que a permite ver o seu corpo ressurrecto de imediato. Os apóstolos viram tão somente os panos, tiveram, pois, que se dirigir a Galileia, tiveram que esperar, para ver a Jesus.

Que na contemplação desta cena, possamos ao menos procurar imitar um pouco da fidelidade de tão grande santa, tão injustamente caluniada por corações perversos e degenerados. Que Santa Maria Madalena interceda por nós!

domingo, 12 de abril de 2020

A Cósmica Renovação Pascal

Nada há de novo debaixo do Sol, dizia o Eclesiastes. Mas o autor inspirado não viveu o suficiente para contemplar a Ressurreição daquele o qual anuncia: "Eis que faço novas todas as coisas!". A Ressurreição foi uma ação sem precedentes em toda história cósmia universal. Se a Encarnação já foi uma realidade espantosa, e a Paixão algo inimaginável, a Ressurreição é a coroação estrondosa de tão santos mistérios. Em Deus que levanta dos mortos há a esperança ao homem de poder habitar com a divindade na eternidade; há o início dos tempos últimos, onde a Sinagoga dá lugar a Igreja, onde o povo de Deus se estende sua peregrinação pelo o universo, onde de tal modo a esperança cristã alimenta a alma, que os fiéis não mais temem a morte! Há uma profusão inédita de graças e milagres, distribuídas em todos os povos e nações. Há. pois, algo de novo debaixo do Sol!

A Ressurreição é o incio da nova criação, uma fonte criativa das mais mais diversas surpresas. Todos os anos a Igreja quer renovar a experiência pascal. Não se trata apenas de um recordar, de um fazer memória, mas é como se o evento de outrora se tornar-se presente uma vez mais, e a renovação que se deu naquele tempo, tomasse lugar em nossos corações, em nosso mundo, em todo o universo. Nestes dias tantos homens e mulheres estão em suas casas atentos pela primeira vez aos sussurros de sua alma. A peste parou a indústria, os ecologistas falam em linguagem complicada sobre um recuo da poluição, a terra começa a se recuperar, se renovar, de tal forma que até mesmo se pode notar estranhos ruídos no céus. Este ano, a renovação pascal é quase que palpável. É certo que, embora avancemos mais um capítulo no processo desta nova Criação, está ainda não se dá por finalizada. Em meio a tantas surpresas e novidades, tantas vicissitudes, marcas do pecado original, permanecem. Fissuras que devem ser recriadas no futuro. Ano após ano, em cada Páscoa, algo de novo desponta no horizonte. Chegará um tempo, porém, onde a obra encontrará o seu término. Onde a Jerusalém Celeste irá se manifestar em toda a sua glória, o tempo onde haverá novos céus e nova Terra.  

Deus se encarnou, habitou entre nós, morreu e ressuscitou! Passou da morte a vida, e deu início a um processo misterioso e sublime, o qual no dia de hoje atinge um novo marco. Um novo mundo nos aguarda a partir de hoje, surpresas e desafios virão. Coragem, Ele está conosco, ressuscitou! 

Para além do episódio concreto da ressurreição, os costumes populares tendem a falar de um coelho branco, que trás consigo ovos de chocolate para alegrar as crianças. Que coisa mais inusitada, não? Mas tal coisa se torna possível na liberdade criativa da obra divina, cujo marco é a ressurreição de seu divino Filho. Quem sabe não encontraremos nós tão adorável criatura com seus saborosos ovos naquele mundo futuro? Que outras míticas criaturas não habitarão aquele mundo esperado? Aspiremos pois as coisas do alto, os tesouros e maravilhas o qual olho nenhum viu, ouvido jamais ouviu! 

Desejo a todos os irmãos de fé uma feliz e santa Páscoa!

 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Mudança


Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor
Primeira Leitura (Êx 12,1-8.11-14)
Salmo Responsorial (Sl 115)
Segunda Leitura (1Cor 11,23-26)
Evangelho (Jo 13,1-15)


<Eis aqui porém como haveis de comer. Cingireis os vossos rins, e tereis sapatos nos pés, e bordões nas mãos, e comereis à pressa: porque é a Paschoa, isto é, a Passagem do Senhor. (Ex 12, 11)>

Comer às pressas, com os sapatos nos pés e com bordão (cajado) nas mãos, como quem está a partir em uma viagem. E assim foi naquele tempo, logo após a morte dos primogênitos, partiram os judeus do Egito para a terra de Canaã. Apesar de, até então, vivermos uma era de turismo intenso e grande migração, curiosamente não nos acostumamos a mentalidade de peregrino. Antes pensamos desde a perspectiva de um fixismo burguês, um conservadorismo boboca de que o presente há de perpetuar-se eternamente. Quão frágil é a paz, quão instáveis o são as fronteiras das nações? Ao longo do último século, quantos países nasceram e morreram, o quanto as fronteiras nacionais se alteraram? Recordo-me do Império Austro-Húngaro que desapareceu; da União Soviética absorveu uma quantidade considerável de nações e depois as vomitou; das nações europeias perderam suas colônias. E ainda mais instável o é a prosperidade econômica e, que se dirá da ordem política? Nos últimos anos, tanto ódio fora dirigido aos imigrantes, mas dado a instabilidade do mundo, nós poderemos vir a desempenhar esse papel... Estamos prontos para isso? Prontos para deixar nossa base, nossa comodidade, e partir em viagem? A maioria de nós não está. Antes esperamos ficar plantados onde estamos. Na mesma cidade, no mesmo emprego, na mesma rotina. Não reagimos bem a mínima mudança, seja geográfica ou não.

Soa estranho que se venha a falar de mudança e viagem enquanto estamos nós confinados em casa devido a pandemia. Mas, não estavam também os israelitas confinados, esperando a passagem do anjo exterminador?

sábado, 4 de abril de 2020

O aborto e o caos na estrutura social chinesa


O principal argumento contra o aborto é de natureza moral. Nenhuma pessoa honesta pode admitir tamanha crueldade: o violento assassinato de bebês no ventre materno. Todavia, uma miríade de outros argumentos podem ser elencados contra esta prática montuosa. Cito o caso da China, onde a legalização do aborto trouxe consigo o assassinato em massa de meninas, gerando uma gigantesca desproporção demográfica, de modo que há um número reduzido de mulheres disponíveis para o casamento.

Ao que parece ter um único filho foi uma forma implementada para evitar que a população alcançasse a casa dos 1,6 bilhão de habitantes. Esse controle de natalidade é feito com o uso de um sistema de prêmios e castigos, que fornece vantagens para aqueles que têm apenas um filho e penas severas para quem desrespeita a regra, como multas pesadas e perda do emprego. Um detalhe: na China o aborto é legal e é feito por aproximadamente US$ 50,00.

Eis que encontramos um dos principais problemas na estrutura social chinesa. Isso porque a população possui uma preferência que dura até hoje por bebês do sexo masculino o que, juntando com o custo do aborto, levou à atual situação de desequilíbrio entre os sexos. Hoje o número de homens supera o de mulheres em 40 milhões. Isso faz com que os especialistas tenham um número mais grave para 2020, que, segundo as projeções, fará com que milhões de rapazes não se casem por “absoluta falta de parceiras disponíveis”.

Autoridades e especialistas chegam a uma mesma opinião: a de que desse desequilíbrio possa surgir problemas mais graves como o aumento da violência dentro e fora do país, o seqüestro de mulheres, a grande incidência de casamentos por dinheiro e, claro, prostituição.

E por que as coisas chegaram a esse ponto? Simples: os casais usam os exames de ultra-sonografia para verificar o sexo do bebê. Como preferem que seja menino, se caso confirme que se trata de uma menina basta abortar e começar de novo. Claudia Trevisan divulgou alguns números que são verdadeiramente assustadores: no mundo nascem entre 106 e 107 meninos para cada grupo de meninas, enquanto na China esse número sobre para 117 para cada 100. E em alguns lugares da zona rural, chega a 130 para cada 100.

O último censo chinês estima que, dos 40 milhões de homens que sobram atualmente, cerca de 23 milhões possuem menos de 19 anos. Quando a idade vai para a faixa dos 0 a 4 anos, a relação é de 122,69 meninos para cada 100 meninas, um índice pior do que o da faixa de 5 a 9 anos, que registra 119 para cada 100.

O crescente número de homens em seu contingente é uma constante preocupação para governo e entidades de defesa de mulheres e crianças porque os casos de violência contra mulheres têm aumentado. Entre 2001 e 2003, para se ter uma idéia, cerca de 42,2 mil mulheres e crianças foram libertadas de um tráfico que as leva não só para outras regiões do país como também expande seus tentáculos para alcançar outros países asiáticos, como Tailândia, Vietnã e Coréia do Norte. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) trabalha regularmente com o governo chinês para minimizar essa atividade no interior do país.

Essa preferência por filhos homens tem suas raízes na própria tradição chinesa. Os homens são, dentro da filosofia confuciana ainda em voga, aqueles que garantem a aposentadoria dos pais num país em que o sistema de seguridade social é precário, principalmente no campo. Para eles, é o filho e não a filha que é responsável por cuidar de pais e avós na velhice. Elas, por sua vez, têm a obrigação de cuidar da família do marido após o casamento.

Se formos para o campo a situação se agrava, pois pela própria natureza do trabalho (e o uso de força bruta) os filhos homens são bem mais valorizados. Assim são eles caracterizados como a garantia da aposentadoria de seus progenitores e caracterizam a mão-de-obra necessária na economia rural. Porém, como no interior é uma situação bem diferente da cidade, há um relaxamento na lei: um casal que tem uma filha, por exemplo, pode ter um segundo filho desde que se espere pelo menos quatro anos. Esse “benefício” não é estendido para um casal que ganha um filho homem logo de cara.

Especialistas da Brigham Young University, nos Estados Unidos, e da University of Kent em Canterbury, na Inglaterra, dizem que, do ponto de vista histórico, a maior parte dos crimes são cometidos por homens jovens e sem laços familiares. Essa preocupação é latente pelas tentativas dos governos de diversos países com grande parte da população masculina nesses quesitos, quando são criadas campanhas militares em que os jovens são necessários. Para esses pesquisadores, o desequilíbrio sexual na China visto nos últimos anos é um fato completamente novo na história da humanidade, pois nunca se havia chegado a um ponto similar.

- Sergio Pereira Couto. A Extraordinária História da China; p.132-133.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

"Stat Crux dum volvitur orbis"


5ª Semana da Quaresma - Quarta-feira
Primeira Leitura (Dn 3,14-20.24.49a.91-92.95)
Salmo Responsorial (Dn 3,52-56)
Evangelho (Jo 8,31-42)

A quarentena já está torrando a paciência. Muitos só querem que isso acabe logo e as coisas retornem a normalidade. Mas, essa normalidade burguesa é uma ilusão.A sociedade humana é instável e impressível, sendo impossível a perpetuação do passado ou do presente na história. Aliás, este é um dos aspectos mais infantis da ideologia marxista: sonhar com um futuro fim da história desde uma perspectiva imanente, como se pudessem perpetuar-se e fazer de seu regime eterno; chega mesmo a ser cômico!

Retornando o raciocínio, o Corona já transformou nossas vidas, o mundo de outrora passou. A peste ceifou a milhares de vidas (no momento em que escrevo este texto, por volta de 40 mil) e tudo indica que sua sede por sangue ainda não foi saciada. Tantos perderam amigos, familiares e levam agora  uma marca indelével n'alma. Muitos perderam empregos, outros tantos ''perderam o CNPJ''. Foi gestada uma crise de oferta e demanda, de modo que toda a animação de recuperação econômica desaparece e o otimismo de outrora dá lugar a um pessimismo agonizante. A paralisação acelerou o processo de virtualização da sociedade e a marcha tecnológica, o amanhã será online. A crise sanitária também remanejou as peças do jogo político; no âmbito nacional, a direita que vivia uma fase de vigorosa acensão se transforma agora em um poder frágil prestes a se desintegrar. No estrangeiro, foi a pá de cal na era de dominação americana e o marco do mundo chinês. Se a crise terminar hoje, ainda assim o mundo que fica não é mais ou mesmo de antes. E, quanto mais se prolonga esta guerra sanitária contra a virose mortífera, tanto mais irreconhecível será o mundo futuro.

O mundo futuro, porém, logo se transformará em passado e será substituído por outro construto ainda mais imprevisível. A história é assim, um mar revolto e instável. Se assim o é, onde encontraremos a segurança e a estabilidade para edificar nossas vidas? A liturgia de hoje, uma vez mais, nos trás uma resposta oportuna: oportuna ao tempo em que estamos vivendo.

<Pelo que dizia Jesus aos Judeus, que n'elle crêram: Se vós permanecer es na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discipulos: E conhecereis a verdade, e a verdade vos livrará.“ (Jo 8, 31-32)>

"Stat Crux dum volvitur orbis" ("A Cruz permanece intacta enquanto o Mundo dá sua órbita"),

Entre todas a instabilidade desta época, em que numa sutil ironia o mundo parado seja o motor de uma radical mudança civilizacional, se permanecermos em Sua palavra, seremos verdadeiramente livres! E tal liberdade nos dará forças para perseverar em nossa jornada no novo mundo que virá.

QUE NÃO MUDOU

A noite desabou sobre o cáes
pesada, côr de carvão.
Uivam cães na escuridão.
Quando o dia se elevar
outras sombras cairão.
Todas as coisas mudarão.
Gloria Áquele que não mudou.
As sombras se despenharam
pesadas côr de carvão.
A geografia mudou.
Gloria Áquele que não mudou.
As estrelas já morreram
O velho tempo secou.
Na Gloria eterna caminha
Aquele que não mudou.

- Jorge de Lima

A vós louvor, honra e glória eternamente!