quinta-feira, 23 de abril de 2020

Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra...


2ª Semana da Páscoa - Quinta-feira
Primeira Leitura (At 5,27-33)
Salmo Responsorial (Sl 33)
Evangelho (Jo 3,31-36)

1. Aquele que é da terra, pertence a terra e fala as coisas da terra... 
Numa triste ironia, nós que pelo batismo fomos adotados como filhos do céu, cá estamos a brigar pelas miudezas da terra. Não se pensa mais no céu. Não se fala mais do céu. Houve quem criticasse os teólogos medievais por especular sobre o sexo dos anjos, mas, estes nada mais faziam que manter a fidelidade a seu chamado de tratar das coisas de Deus. É certo que por vezes é preciso descer o Tabor e deixar a contemplação com afim de se ocupar das coisas da terra, afim de contribuir para a salvação das almas. Sempre, porém. com vistas ao céu. Onde está teu tesouro, ali está seu coração.

Aí de nós quando esquecemos do céu, dos milagres, das maravilhas que nos aguardam no além mundo, pensando tão somente neste. De alguma forma iníqua acabamos por imanentizar a religião, transformando-a numa espécie de ideologia, esperando não o banquete nupcial do cordeiro nos palácios celestiais, mas uma efêmero domínio da religião sobre as realidades temporais, dominância essa tratada não mais como meio, mas como um fim em si mesmo.

2. São Jorge era um soldado de alta patente. Poderia ter mobilizado seus subordinados contra o imperador ao invés de se entregar ao martírio. Curiosamente tais revoltas tendem a fracassar. Não porque sejam erradas em si mesmas, mas porque a guerra não raro é ocasião de muitos pecados. Fracassaram as cruzadas. Muitos dos soldados mundanizaram a guerra que deveria ser santa. Fracassou a Conspiração da Pólvora. Lendas locais falam inclusive que visões miraculosas teriam avisado Fawkes que tal operação não era do agrado de Deus:  ''Se a forma que eu vi é a de Santa Vinifrida - e assim foi, não posso duvidar - o empreendimento em que estamos engajados fracassará. Não é aprovado pelo céu. A visão me avisou para desistir". Fracassou a Rebelião de Shimabara, a historiografia não raro menciona abusos e sincretismos de Amakusa Shiro. Fracassou o Guerra de Canudos que desde o início jamais contou com o apoio da hierarquia.

Existem duas espadas, a temporal e a espiritual. No entanto, com que frequência o manejo da espada temporal não acaba terminando em abusos cruéis? Não atoa, a escritura destaca a ordem do Divino Mestre a São Pedro para que embainhe a espada.

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