sábado, 4 de abril de 2020

O aborto e o caos na estrutura social chinesa


O principal argumento contra o aborto é de natureza moral. Nenhuma pessoa honesta pode admitir tamanha crueldade: o violento assassinato de bebês no ventre materno. Todavia, uma miríade de outros argumentos podem ser elencados contra esta prática montuosa. Cito o caso da China, onde a legalização do aborto trouxe consigo o assassinato em massa de meninas, gerando uma gigantesca desproporção demográfica, de modo que há um número reduzido de mulheres disponíveis para o casamento.

Ao que parece ter um único filho foi uma forma implementada para evitar que a população alcançasse a casa dos 1,6 bilhão de habitantes. Esse controle de natalidade é feito com o uso de um sistema de prêmios e castigos, que fornece vantagens para aqueles que têm apenas um filho e penas severas para quem desrespeita a regra, como multas pesadas e perda do emprego. Um detalhe: na China o aborto é legal e é feito por aproximadamente US$ 50,00.

Eis que encontramos um dos principais problemas na estrutura social chinesa. Isso porque a população possui uma preferência que dura até hoje por bebês do sexo masculino o que, juntando com o custo do aborto, levou à atual situação de desequilíbrio entre os sexos. Hoje o número de homens supera o de mulheres em 40 milhões. Isso faz com que os especialistas tenham um número mais grave para 2020, que, segundo as projeções, fará com que milhões de rapazes não se casem por “absoluta falta de parceiras disponíveis”.

Autoridades e especialistas chegam a uma mesma opinião: a de que desse desequilíbrio possa surgir problemas mais graves como o aumento da violência dentro e fora do país, o seqüestro de mulheres, a grande incidência de casamentos por dinheiro e, claro, prostituição.

E por que as coisas chegaram a esse ponto? Simples: os casais usam os exames de ultra-sonografia para verificar o sexo do bebê. Como preferem que seja menino, se caso confirme que se trata de uma menina basta abortar e começar de novo. Claudia Trevisan divulgou alguns números que são verdadeiramente assustadores: no mundo nascem entre 106 e 107 meninos para cada grupo de meninas, enquanto na China esse número sobre para 117 para cada 100. E em alguns lugares da zona rural, chega a 130 para cada 100.

O último censo chinês estima que, dos 40 milhões de homens que sobram atualmente, cerca de 23 milhões possuem menos de 19 anos. Quando a idade vai para a faixa dos 0 a 4 anos, a relação é de 122,69 meninos para cada 100 meninas, um índice pior do que o da faixa de 5 a 9 anos, que registra 119 para cada 100.

O crescente número de homens em seu contingente é uma constante preocupação para governo e entidades de defesa de mulheres e crianças porque os casos de violência contra mulheres têm aumentado. Entre 2001 e 2003, para se ter uma idéia, cerca de 42,2 mil mulheres e crianças foram libertadas de um tráfico que as leva não só para outras regiões do país como também expande seus tentáculos para alcançar outros países asiáticos, como Tailândia, Vietnã e Coréia do Norte. O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) trabalha regularmente com o governo chinês para minimizar essa atividade no interior do país.

Essa preferência por filhos homens tem suas raízes na própria tradição chinesa. Os homens são, dentro da filosofia confuciana ainda em voga, aqueles que garantem a aposentadoria dos pais num país em que o sistema de seguridade social é precário, principalmente no campo. Para eles, é o filho e não a filha que é responsável por cuidar de pais e avós na velhice. Elas, por sua vez, têm a obrigação de cuidar da família do marido após o casamento.

Se formos para o campo a situação se agrava, pois pela própria natureza do trabalho (e o uso de força bruta) os filhos homens são bem mais valorizados. Assim são eles caracterizados como a garantia da aposentadoria de seus progenitores e caracterizam a mão-de-obra necessária na economia rural. Porém, como no interior é uma situação bem diferente da cidade, há um relaxamento na lei: um casal que tem uma filha, por exemplo, pode ter um segundo filho desde que se espere pelo menos quatro anos. Esse “benefício” não é estendido para um casal que ganha um filho homem logo de cara.

Especialistas da Brigham Young University, nos Estados Unidos, e da University of Kent em Canterbury, na Inglaterra, dizem que, do ponto de vista histórico, a maior parte dos crimes são cometidos por homens jovens e sem laços familiares. Essa preocupação é latente pelas tentativas dos governos de diversos países com grande parte da população masculina nesses quesitos, quando são criadas campanhas militares em que os jovens são necessários. Para esses pesquisadores, o desequilíbrio sexual na China visto nos últimos anos é um fato completamente novo na história da humanidade, pois nunca se havia chegado a um ponto similar.

- Sergio Pereira Couto. A Extraordinária História da China; p.132-133.

2 comentários:

  1. Olá, Noir, sou um grande admirador do seu blog e já o leio faz um ano. Sempre é revigorante ler seus textos e sua evolução na escrita foi algo gritante se comparada ao início do blog.

    Pois bem, meu colega, eu tenho uma dúvida de iniciante no catolicismo. Eu e um amigo estamos querendo voltar de vez para a Igreja e viver plenamente como verdadeiros católicos, entretanto, não fizemos a primeira comunhão, apesar de que somos muito velhos comparados com a idade que deveríamos tê-las feita (7-9 anos, se não me engano). É necessário que façamos o curso da primeira comunhão presencial? Não seria permitido fazer um curso virtual sobre eucaristia e os preambulos básicos da fé e depois fazer a Crisma? Se você soubesse responder essa pergunta eu agradeceria, pois já depois do apocalipse do Corona gostaríamos de ter nossas fés renovadas.

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    1. Olá, agradeço aos elogios. Bom, em primeiro lugar seria necessário que fizesse uma confissão geral, e nesta colocassem a questão ao padre. Existem cursos (catequeses) específicas para adultos, mas o curso é um meio que visa que a pessoa esteja suficientemente instruída na fé para receber os sacramentos. Se, a instrução for obtida por outros meios que não a catequese formal, pode haver uma dispensa desta por parte do pároco.

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