quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Erro de Confúcio



É interessante que mesmo Confúcio, uma das mais esplêndidas inteligências que a humanidade conheceu, não soube avaliar o poder destruidor dos grupos mais capazes. Pretendendo colocar um ponto final na divergência entre reinos chineses, assim como dotar o Estado de gente competente a governá-lo, formatou a equipe dos integradores do poder ou da burocracia oficial chinesa. É Confúcio o Pai da burocracia moderna.

Partia o admirável filósofo do princípio que a cultura e o saber são valores superiores ao ouro e ao poder. Para ele, quem fosse mais capaz e culto é que deveria governar, porque as suas ambições seriam mais nobres que as dos demais detentores do poder. Em outras palavras, os burocratas serviriam melhor ao povo que os políticos, pois sendo o saber o objeto de sua ambição maior, não iriam deixá-lo para se vincularem à luta pequena e mesquinha pelo poder e pelo ouro, própria dos políticos.

O resultado foi o inverso do que pretendeu. Fortalecidos, os burocratas passaram a governar mais do que os governantes, pois detinham conhecimento maior, mais habilidade, não se afastando, todavia, do culto ao poder e ao dinheiro. Desta forma, passaram a concorrer com os próprios governantes na ambição pelo poder e pelo enriquecimento fácil. Atestam alguns historiadores que a época dos “Reinos Combatentes”, na China, só ocorreu em virtude da força dos integradores do poder.

É que, como Montesquieu afirmou, o homem não é confiável no poder, razão pela qual é necessário que o poder controle o poder.

O certo é que a burocracia nunca foi a solução dos problemas de governabilidade nem o conhecimento antídoto contra as ambições do poder e de riqueza. Confúcio errou por ter nascido muito antes que Montesquieu, que não errou porque entendeu melhor a história produzida a partir da burocracia chinesa.

- Ives Gandra Martins. Uma Visão do Mundo Contemporâneo; p.41-42.

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