segunda-feira, 25 de maio de 2020

Coragem!

7ª Semana da Páscoa | Segunda-feira
Primeira Leitura (At 19,1-8)
Salmo Responsorial (Sl 67)
Evangelho (Jo 16,29-33)

O sofrimento faz parte do roteiro. "No mundo havereis de ter aflições, Coragem!"; assim o diz Nosso Senhor Jesus Cristo no Evangelho que hoje lemos. A sociedade burguesa, na qual vivíamos até então, fora a sociedade da covardia, a qual a tal nível chegara que procurava efeminar os homens afim de extinguir a coragem, vista como fonte de guerras e discórdias. Queriam uma sociedade de escravos castrados submissos a vontade dos poderosos, assim se sacrificava a dignidade em vista de uma promessa vazia de um "mundo melhor", um mundo de paz onde não há sofrimento. De algum modo, todos nós fomos afetados por isso. Na primeira leitura lemos que São Paulo falava com desassombro, argumentando na sinagoga contra os judeus em favor do cristianismo. Quando foi a última vez que assim o fizemos? Tanto tempo faz que amarrados por escrúpulos diplomáticos nos acovardamos de polemizar com os incrédulos, quiça o fazê-lo em seus próprios templos. São Paulo tinha coragem, já nós cristãos burgueses do século XXI somos uns fracos, homens de geleia, mofinos, patéticos. Até quando? O tempo avança e o dia da prova, da realização das profecias, há de chegar. Coragem! Que o Divino Espírito nos conceda o dom da fortaleza!

sábado, 23 de maio de 2020

O erro do Budão (Kaguya está certa!)


Existem certas estruturas de pensamento, certos lugares comuns, reducionismos um tanto quanto saborosos que costumam dar soluções simples a problemas complexos, de tal modo que o orador sente-se como que possuído da mais profunda sabedoria. Mais do que a verdade, a maioria das pessoas anseia por segurança, a qual tais discursos parecem proporcionar. Um destes lugares comuns é o contraste entre uma suposta pureza presente na cultura popular, contrastada com a degeneração da cultura pop, da indústria do entretenimento. As coisas porém são tanto mais complicadas, sobretudo quando pensamos no Japão, o qual de forma admirável tem conseguido sintetizar tesouros do passado com técnicas do presente em vistas do futuro, em não poucas obras. O Studio Ghibli, mundialmente renomado pela beleza e profundidade de suas obras desafia qualquer crítico, seus filmes são tão belos e profundos refletem os valores do espírito japonês ao mesmo tempo em que encantam espectadores das mais diversas nações. No Ocidente, a Disney já desempenhou um papel semelhante, embora me parece que há algumas décadas tenha perdido seu encanto e se transformado em um instrumento de engenharia social.

No momento em que estou a escrever estás linhas o mundo está parado, a pandemia causada pelo COVID-19 tem ceifado vidas e causado impactos dolorosos na economia. Que raios há que se falar de cinema? Que importa antigas fábulas orientais? A arte alegra o espírito. Tão somente isso seria o suficiente, mas, existe algo mais. Há em determinadas obras certas indagações, certos inspirações que nos instigam a pensar, a investigar, a questionar! É neste processo, e não em máximas vazias, onde podemos encontrar alguma orientação para nossa vida, sobretudo quando empreendemos em profunda unidade, procurando responder estas indagações desde o nosso ser, com toda a sinceridade, usando todos os nossos conhecimentos, tudo aquilo no qual acreditamos. A arte alegra o espírito e instiga o pensamento.

O Conto da Princesa Kaguya é inspirado em uma lenda japonesa do século X: O Conto do Cortador de Bambu. A lenda original soa um tanto quanto simplista, quando comparado a riqueza de detalhes do filme, que segundo alguns, procura ilustrar aspectos do ensino budista, mas quanto a isso aguarde o leitor o final do texto e não espere de minha parte alguma ingenuidade ecumênica tal qual o Encontro de Assis. Um velho contador de bambu encontra uma pequena princesa no interior de uma árvore, ele a leva para sua casa, e a criatura tão logo se transforma em um bebê, que é adotado por ele e sua esposa. O bebê cresce de forma estranhamente rápida, se torna uma alegre meninha, que brinca pelos campos, faz amigos, e tem, afinal, uma infância feliz. No mesmo bosque onde a encontrou, o velho cortador de bambu encontra posteriormente belas e roupas e muito ouro, acreditando ser um sinal dos céus, ele usa o dinheiro para fazer daquela criança uma verdadeira princesa. Aí há o primeiro dos contrastes do filme, na vida simples do campo a moça era feliz, mudando-se para cidade, habitando um castelo, tendo a companhia dos nobres e educada como uma princesa, a jovem se entristece, estava vivendo uma vida de aparências a que todos se referiam como feliz, mas que na verdade era uma chateação. Não bastasse isso, a beleza de Kaguya atrai a atenção dos nobres do Japão, que tão logo apressam-se em propor-lhe o casamento, mas um casamento motivado tão somente por luxúria, sem amor algum. Para fugir dos pretendentes, inventa ela tarefas impossíveis, as quais obviamente não conseguem os homens realizar. 

Uma vida nobre, repleta de aparências e chateações, na capital contrastada com uma vida pobre na aldeia, com os amigos em harmonia com a natureza...

Retornemos a história. Acaba que o próprio imperador se interessa pela moça, e a agarra a força, para escapar ela deseja ardentemente em seu interior deixar aquele mundo, naquele momento consegue manifestar alguns poderes sobrenaturais e escapar do imperador mas, estava feito, o povo da lua viria buscá-la. No tempo marcado chega da lua um cortejo de seres "celestiais" liderados por um Budão.


A moça deveria voltar para a lua e deixar a terra. Mas neste processo, além de se ver separada de seus pais e amigos, perderia todas as suas memórias. Chama a atenção o diálogo entre Kaguya e uma das criaturas, onde esta exorta a princesa a deixar este mundo impuro, ao qual responde a moça que este mundo não é impuro, mas repleto de coisas belas como a natureza, os passarinhos e sentimentos. No fim, porém, o Budão se mantém indiferente aos lamentos da princesa, a coroa é colocada sobre sua cabeça, ela perde toda e qualquer emoção e retorna a seu mundo olhando para a Terra de forma nostálgica.  

Segundo a explicação budista do filme, Kaguya seria uma jovem tola apegada a um mundo impuro e efêmero, esse apego seria a fonte de seu sofrimento. Como católico posso discordar absolutamente. Não é que esse mundo seja intrinsecamente impuro, mas antes ele está corrompido. Note a diferença entre os verbos: "ser" e "estar" (se estiver lendo isso em inglês, capaz de não ser capaz de discernir, mas acho que não tenho muitos leitores estrangeiros). Deus criou o mundo e viu que era bom. A Kaguya não está errada. Há, porém, a realidade do pecado que é fonte de sofrimento e corrupção, mas isto convive com a graça e com as belezas da Criação. A moça sofre e é feliz, não são ciclos efêmeros mas a própria dinâmica deste mundo belo, porém marcado pelo pecado. O paraíso não é a apatia budista e o esquecimento da Terra! No céu, Jesus Cristo (e não Buda!) virá nos buscar, e lá poderemos encontrar muitos de nossos amigos, familiares e entes queridos. Vamos nos lembrar da Terra. Não apenas isso, mas poderemos rezar por quem fica, de algum modo misterioso lutar junto deles e, ao final, no final definitivo, no fim dos tempos, toda a criação será redimida, teremos de volta nossos corpos e correremos pelos campos, brincaremos com os animais, voaremos pelos céus, verdadeiramente alegres, longe daquela indiferença apática do Budão.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Promessas e Votos


6ª Semana da Páscoa | Sexta-feira
Primeira Leitura (At 18,9-18)
Salmo Responsorial (Sl 46)
Evangelho (Jo 16,20-23a)

Ao final da primeira leitura de hoje, se diz que São Paulo cortara os cabelos, pois havia terminado um voto. De algum modo este tipo de devoção fora comum nestas terras tropicais sob o nome de "promessas". Afim de alcançar uma graça particular, o fiel se comprometeria com determinado ato, com determinada prática concluindo-a quando a graça fosse alcançada. Em Aparecida, ou em Trindade no Santuário do Divino Pai Eterno, há um verdadeiro museu de "ex-votos", objetos deixados pelos fiéis em memória e agradecimento a graça alcançada. Mas, não raro acontecem abusos, como retratado no filme O Pagador de Promessas, um filme muito ruim e de má doutrina, onde um sujeito com ideias religiosas sincréticas faz uma promessa em um terreiro de macumba e a quer pagar deixando certo item na Igreja. De todo o modo, abusos a parte, este tipo de devoção fundamentada na bíblia e na tradição recebeu ao longo da história tantas confirmações neste país que não deveria ser negligenciada.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Terra Amaldiçoada: Breves comentários sobre um romance de José Lins do Rego

Não raro é comum ver certas em certas manifestações da cultura nordestina certa romantização do cangaço. Os cangaceiros seriam heróis, homens valentes a se rebelar contra as elites locais, há quem apele para a suposta devoção de tais personagens, sua relação com Padre Cícero. Triste povo que tem entre seus heróis bandidos, ladrões assassinos e estupradores. Após a leitura de Cangaceiros de José Lins do Rego minha repugnância para este tipo de ufanismo regionalista para com bandido cresceu ainda mais. O escritor patrício retrata a crueldade do cangaço e todos os suas ambiguidades, fugindo da armadilha romântica de tantos de seus conterrâneos. Na obra do autor os cangaceiros são o que são: monstros, quase que endemoniadas a destruir a própria vida e de quem cruzar seu caminho. Aliás, a descrição de tão numerosos e cruéis feitos dos "cabras" chega a ser incômoda a sensibilidade católica. 

O livro é profundamente pessimista. Se há os demônios do cangaço, a autoridade local não fica atrás:  os soldados do governo são nada além de bandidos fardados, "mata-cachorros" a repetir as mesmas crueldades com mandato oficial. A religião por ali toma ares de superstição, mais do que uma doutrina a dirigir a vida rumo aos céus, tornar-se uma espécie de mágica, afim de garantir proteção, "corpo-fechado" e força no "fogo". E naquela colônia do inferno, lá está o sertanejo sem outra alternativa senão fugir, fugir daquela terra amaldiçoada, do contrário há de perder a a vida, alma, a decência e a sanidade. 

Antes de encerrar estas breves linhas, faço alguns comentários técnicos. O autor é competente, mas suas limitações são manifestas. O recurso a morte é conveniente demais. Tão conveniente e frequente que chega a ser inverossímil. Quando o autor não sabe o que fazer com o personagem ou mata ou faz ele ficar louco sem qualquer outra explicação satisfatória. 

Por fim, destaco que a tentativa de apropriação literária do ambiente para mim não colou. José Lins do Rego cita as flora e a fauna da caatinga, esforça-se por traçar um relação ora paradoxal ora de espelho entre o ambiente externo e o estado interno de seus personagens, mas, soa estranho... Talvez seja nossa língua, mas é difícil ver poesia em algo chamado Umbuzeiro, ou dado a analogia maliciosa vulgar, não estranhar a comparação entre a jovem moça e as rolinhas.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O mal do mundo provém da sua impureza - Plínio Salgado


Começando do começo, diremos nós, católicos. Que começo é esse? Aquele que nos revelou a Virgem em Fátima falando dos horrores da guerra como consequência do pecado da sensualidade e do esquecimento dos deveres da caridade.

O mal do mundo provém da sua impureza. Ser puro é renunciar aos prazeres ilícitos, os inconvenientes, e muitas vezes até mesmo aos lícitos e inofensivos. Habituar-se ao domínio de si mesmo é preparar-se para o exercício da caridade, a qual consiste, noventa e nove por cento, em renunciar. Quem não mortifica os sentidos, quem não contraria a sua ambição, a sua vingança, a sua vaidade, nunca poderá estabelecer a verdadeira paz dentro e em torno de si.

A luxúria gera a violência e a violência gera a luxúria. Ambas cultuam apenas o que há de físico no ser humano. Uma se utiliza da força, a outra da beleza. Sendo a força o instrumento da violência, as grandes épocas da brutalidade coincidem com a exaltação corpórea dos heróis, o louvor dos músculos nos arremessos fulmíneos, a glorificação dos ritmos plásticos. E sendo a beleza física a matéria-prima da lascívia, as gerações que divinizam a força bruta são as mesmas que cantam loas a Frinéia.

Não se conclua que condenamos a força e a beleza físicas. Pelo contrário, dignas são elas da nossa admiração como obras do Criador, morada da alma e templo de Deus; e a prova é que ambas estão santificadas em santos que foram atletas e santas que foram formosas. O que devemos reprovar é o mau aproveitamento de uma e de outra, empregando-as de sorte a divorciá-las dos fins comuns do Espírito e do Corpo.

Esse foi o pensamento cristão na aurora do século I, quando os Apóstolos espalharam pelo Império dos Césares, onde predominavam degradações e violências unidas ao culto dos deuses fortes e belos, as duas soluções para as dores do Género Humano: a CASTIDADE e a CARIDADE, ambas tão intimamente irmanadas, que uma parece condição da outra e ambas a mesma expressão do Redentor do Mundo.

- Plínio Salgado. Primeiro, Cristo!; p.10-11 .

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Amakusa Shiro (1962) - Reflexões católicas desde cinema japonês


Apesar da globalização e da ascensão do Japão como potência cultural, os ecos do catolicismo japonês sobre a intelectualidade nacional são remotos. Poderíamos dizer quase tratar-se de um ilustre desconhecido. Quando se olha para o exterior afim de encontrar inspiração nas lutas de nossos irmãos e contextos culturais diversos, normalmente se tem em vista a Europa, sobretudo a França, e em alguns casos os EUA. O episódio de que o filme que me inspira a escrever tais linhas tenha sido encontrado legendado tão somente em inglês e castelhano soa um tanto quanto ilustrativo.

Que temos nós com esses povos distantes, alguns devem estar se perguntando? Muita coisa, creio eu. A natureza humana e o vínculo de fé nos fazem irmãos. Além disso, em tempos onde tanto se insiste no aspecto ocidental da Igreja, contemplar sua face no oriente é um bom remédio contra certo etnocentrismo, bem como nos dá algum material para começarmos a pensar as relações entre Igreja e cultura, evitando certos bairrismos anacronismos tão comuns a certos grupos tradicionalistas.

O filme em questão tem títulos diversos, ora denominado como The Revolutionary, El Rebelde, ou simplesmente Amakusa Shiro Tokisada, conta a história da Rebelião de Shimabara. O samurai católico, líder da revolta, é uma figura relativamente influente sobre a cultura pop japonesa, tendo influenciado diversos personagens, dentre eles Amakusa Shogo de Samurai X. Voltemos a História, com "h" maiúsculo mesmo: depois de um início relativamente tranquilo e frutuoso, a presença missionária no japão passou a ser objeto de forte oposição, uma vez que as potências europeias procuravam usar da religião como forma de dominação política. Tal oposição tornar-se-ia uma violenta perseguição, tal qual não se via desdes o paganismo romano. O filme se inicia já neste contexto estável, onde não mais há a presença missionária no Japão, tendo os fiéis, pequenos camponeses, de sustentar a sua fé sem o auxílio dos sacerdotes e missionários. Além da perseguição religiosa, havia forte injustiça social, de modo que os camponeses eram obrigados a pagar elevados impostos afim de sustentar os luxos da nobreza local, isto é os samurais, os quais os governavam de forma cruel. Tensão social e perseguição religiosa, fatores explosivos os quais motivaram aqueles pacíficos camponeses a uma revolta suicida contra o governo Tokugawa. Aliás, não sei como a Teologia da Libertação (corrente teológica da qual sou profundamente crítico como bem sabe o leitor assíduo) não se deteve atentamente sobre o fato, uma vez que ali se encontra perfeitamente a perspectiva de um casamento enter política e religião, onde a religião se faz instrumento de libertação; ou quase, uma vez que a distância histórica nos mostra como tragicamente viera a fracassar tal revolta. Da história vamos para o filme propriamente dito. Raramente filmes históricos são "históricos". O cinema não existe para documentar o passado, mas tão somente para demonstrar a visão do presente a partir dos olhos do diretor, dos acontecimentos de outrora. O diretor, Nagisa Ôshima, é tanto mais simpático a Shiro que a própria historiografia católica. Se os historiadores retratam o protagonista com incômodos traços sincréticos, no filme temos um bom homem, genuinamente católico. Todavia, apesar disso a revolta não fora inspirada por religião. Na película, os motivos sociais falam tanto mais forte. Chama a atenção que embora no início do filme existam belas cenas de oração, conforme a revolta avança essas cenas se fazem mais frequentes. Não há mais por parte dos personagens um esforço por discernir a vontade de Deus nos acontecimentos da história, mas tão somente (e com toda a justiça) reagir a uma situação insustentável, reagir aos desmandos, as torturas e a opressão dos samurais de Tokugawa, aliás, vale ressaltar que Tokugawa teve o apoio dos protestantes holandeses (hoje preferem ser chamados evangélicos), os quais posicionaram seus canhões contra os católicos japoneses.

Sobre os aspectos artísticos, o filme apesar de antigo me agradou bastante. A trilha sonora é discreta, porém adequada. As cenas de tortura sutis, ainda que suficientemente impactantes. As cenas de combate "crus", um grande acerto, uma vez que um detalhamento e romantização excessiva destas acabariam por desviar a atenção de toda a sua selvageira.

Dito isto, que conclusão há de se tirar do filme? A arte é um tanto quanto subjetiva e pode vir a inspirar reações diversas ao expectador, entretanto a mim ressalto que a mim chamou a atenção o modo como a revolta tornou-se um fim em si mesmo e a fé foi passando ao segundo plano, as orações foram escasseando-se, e se deixou de interrogar a Deus quanto a sua vontade. Até que ponto não me comporto de forma análoga, embora, felizmente, com contornos não tão graves e dramáticos? Outro ponto o qual me coloco a pensar é sobre a realidade da perseguição. É certo que hoje há no ocidente alguma hostilidade ao cristianismo, mas, até que ponto podemos comparar esta hostilidade a violenta perseguição a qual foram submetidos tantos santos e mártires? Falar de perseguição hoje é uma hipérbole descabida. Que tortura sofremos nós? Quando foi a última vez que fomos encarcerados por motivos de religião? Ao invés disso queremos coroar nossa covardia, comparando uma mera hostilidade, certas limitações de ação tanto maiores devido a nossa covardia, a pesada cruz que carregaram os heróis da fé?

Haveria ainda outras coisas a se dizer, mas fica para textos futuros. Por hora indico o filme, bem como sugiro ao leitor para que se reze pela conversão dos japoneses a fé católica, e por Amakusa Shiro, que Deus tenha piedade de sua alma!

sábado, 9 de maio de 2020

Ruína de Jerusalém e dispersão dos Judeus

A destruição de Jerusalém é um dos acontecimentos mais terríveis que se registram nas páginas da história. Os profetas tinham predito, com muitos séculos de antecipação, que os Judeus, por sua obstinação por desprezar o Evangelho, e como castigo do deicídio que tinham cometido na pessoa do Salvador, seriam expulsos dos seus países e viveriam dispersos por todo o mundo, sem rei, sem templos e sem sacerdotes, Jesus em termos ainda mais claros, também tinha vaticinado que os judeus seriam sitiados em Jerusalém e reduzidos a uma penúria inaudita; que se destruiria sua cidade, se incendiaria seu templo, e que se dispersaria seu povo; e acrescentou ainda que todas essas coisas se cumpririam antes que morresse aquela geração a que ele falava.

Deus, infinitamente, misericordioso, quis avisar mais uma vez aquele povo por meio da pregação, das admoestações dos Apóstolos, e de muitos sinais espantosos que nos narram vários historiadores entre eles alguns judeus. José Flavio, por exemplo, judeu douto, que teve grande parte naqueles desastres, conta, entre outras coisas, que no dia de Pentecostes se fez ouvir uma voz no templo, que sem se saber de onde saia, fazia ressoar estas palavras: "saiamos daqui, saiamos daqui". Um homem chamado Anano que tinha ido da roça a Jerusalém para assistir à festa dos Tabernáculos, ainda antes de que se falasse da guerra, começou a gritar de improviso pelos ângulos da cidade: "Ai do Templo, ai de Jerusalém! voz do oriente, voz do ocidente, voz dos quatro ventos; ai do Templo, ai de Jerusalém!" Foi preso, encarcerado, e açoitado quase até a morte; porém nem assim deixou de gritar pela cidade em voz alta as mesmas palavras durante três anos, até que um dia correndo sobre os muros, enquanto gritava: "Ai de mim mesmo!" foi ferido por uma pedra e morreu.

Certa vez, pelas nove da noite resplandeceu ao redor do templo e do altar uma luz tão viva, que pelo espaço de meia hora pareceu estar em pleno dia; outra vez uma porta do templo, de bronze tão pesada que para move-la eram precisos vinte homens, achou-se aberta por si, e sem que ninguém a tocasse. Alguns dias depois, em todas as povoações circunvizinhas viram-se no ar, ao redor de Jerusalém, exércitos em ordem de batalha, que cercavam e davam sinais de querer tomá-la de assalto. Apareceu também um cometa que dardejava chamas com raios, e uma estrela em forma de espada que permaneceu um ano no mesmo lugar, tendo sempre a ponta voltada para a cidade. Estes sinais pressagiaram que deviam cair sobre Jerusalém graves e iminentes desastres. Com efeito, os romanos sob o mando sucessivo de Vespasiano e de Tito foram, sem saber, os instrumentos de que se valeu a ira de Deus para cumprir seus desígnios. A Nero, como já foi dito, sucedeu um imperador chamado Galba e a este, outro chamado Vitélio; ambos foram despojados do trono por seus próprios vícios e sua tirania, e se proclamou em seu lugar a um grande general chamado Vespasiano, Este amava a justiça, quanto podia amá-la um imperador idólatra, e era querido por todos por sua afabilidade e valor. O próprio Nero já o havia enviado para combater os judeus; porém quando o elegeram imperador, ele deixou seu filho sob os muros de Jerusalém para que continuasse a guerra, enquanto voltava à Roma.

Ainda viviam muitos dos que se achavam presentes à morte do Salvador, quando os exércitos romanos foram sitiar Jerusalém. Como o sítio começasse naqueles mesmos dias em que se achavam ali reunidos um grande número de judeus que tinham acudido de toda a Palestina e dos países limítrofes para celebrar as festas da Páscoa, aconteceu que achando-se aquela desgraçada cidade cheia de gente, de pronto começassem a faltar alimentos, chegando a tal extremo a fome que seus habitantes arrancavam-se uns aos outros das mãos as coisas mais imundas para não morrer. Houve mães que naquele estado de desespero, (coisa horrível!) chegaram a alimentar-se de seus próprios filhos. Tomada de assalto a cidade, foram mortos um milhão e cem mil judeus, e outros tantos foram reduzidos à escravidão. Estes como não fossem vendidos, por não haver compradores para tão grande número de escravos, foram em parte doados e outros mortos porque não havia quem os quisesse nem de graça. Destruídas em grande parte as casas e queimado o templo, todo o povo que se pode salvar da morte ou da escravidão dispersou-se pelas demais cidades; contudo a total dispersão dos judeus não se realizou até princípios do segundo século. O Papa São Lino pode ver os infelizes judeus escravizados por Tito, chegarem a Roma aos montões, par serem condenados a penosíssimos trabalhos, entre outros o de erigir um arco do triunfo a seu vencedor. Ainda vê-se presentemente o candelabro com sete braços, tirado do templo de Jerusalém e o magnífico anfiteatro chamado de Flávio Tito, cujas ruínas admiráveis ainda existem em Roma, e é conhecido sob o nome de Coliseu.

São Lino valeu-se deste terrível acontecimento para confirmar na fé os judeus, que se tinham convertido e para atrair a ela os menos obstinados no erro.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Primeira Época, Cap, VI, p.39-42.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O Caminho


4ª Semana da Páscoa | Sexta-feira
Primeira Leitura (At 13,26-33)
Salmo Responsorial (Sl 2)
Evangelho (Jo 14,1-6)

A filosofia de Lao Tsé gira em torno do "Tao", o termo chinês que significa "caminho", "via" ou "princípio". No taoismo, especificamente, o termo designa a fonte, a dinâmica e a força motriz por trás de tudo que existe. No Evangelho de hoje ensina nosso Senhor Jesus Cristo: "Eu sou o Caminho [...]" O Didaquê, o catecismo dos primeiros séculos, fala também do cristianismo como o Caminho.

São Justino, mártir e teólogo leigo, fala de algo o qual designa por ''sementes do verbo'', como que pequenos sinais da Revelação presentes na filosofia grega as quais deveriam ser germinadas pelos pregadores afim de levar aquele povo a conversão. Não estariam tais sementes também presentes na filosofia chinesa?
Há algo completamente entorpecido
Anterior à criação do céu e da terra
Quieto e êrmo
Independente e inalterável
Move-se em círculo e não se exaure [...]
Chamo-o de Caminho
Esforçando-me por denominá-lo, chamo-o de Grande [...] 


- Lao Tsé

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os Sentidos da Escritura


115. Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, subdividindo-se este último em sentido alegórico, moral e anagógico. A concordância profunda dos quatro sentidos assegura a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja:

116. O sentido literal. É o expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as regras da recta interpretação. «Omnes sensus (sc. Sacrae Scripturae) fundentur super litteralem»«Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) se fundamentam no literal».

117. O sentido espiritual. Graças à unidade do desígnio de Deus, não só o texto da Escritura, mas também as realidades e acontecimentos de que fala, podem ser sinais.

1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo o seu significado em Cristo: por exemplo, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e, assim, do Baptismo.

2. O sentido moral. Os acontecimentos referidos na Escritura podem conduzir-nos a um comportamento justo. Foram escritos «para nossa instrução» (1 Cor 10, 11).

3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos no seu significado eterno, o qual nos conduz (em grego: «anagoge») em direcção à nossa Pátria. Assim, a Igreja terrestre é sinal da Jerusalém celeste.

118. Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos:

«Littera gesta docet, quid credas allegoria.
Moralis quid agas, quo tendas anagogia».

«A letra ensina-te os factos (passados), a alegoria o que deves crer,
a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender».

119. «Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Sagrada Escritura, para que, mercê deste estudo, de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus»:

«Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas»«Quanto a mim, não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica».

- Catecismo da Igreja Católica, §115-119.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Catolicidade, o bom pastor e o mercenário

4ª Semana da Páscoa | Segunda-feira
Primeira Leitura (At 11,1-18)
Salmo Responsorial (Sl 41)
Evangelho (Jo 10,11-18)

1. Nos primeiros anos do cristianismo houve uma discussão entre judeus conversos se os gentios também eram chamados a promessa e se estes deviam assumir os costumes judaicos. A solução nos já o sabemos. Mas, ah, tantos parecem revivificar as polêmicas de outrora, contrariar o que foi definido: a ''civilização ocidental'' se transforma no novo judaísmo; aos costumes judaicos se substitui os modos da Europa, como se ocidentalização fosse critério fundamental para a conversão dos povos; se nem a lei de Moisés o era, porque julgas que seu horizonte cultural limitado no tempo e no espaço o seria, oh, homem estulto?

2. O bom pastor chama suas ovelhas pelo nome e arrisca sua vida por elas. O mercenário foge e as deixa entregue a morte, aos lobos. 

Nesta pandemia, tanta irracionalidade se manifesta. Os bispos que suspenderam as missas públicas são chamados de covardes, acusados de maus pastores, enquanto a temerária atitude dos hereges, a realizar cultos lotados, expondo as ovelhas ao contágio e a morte, a estes louvam aqueles que estão cegos pela ideologia. Isto inserido em um contexto maior onde o presidente que convoca toma parte em manifestação de massas, que infla o povo incuto ao boicote da quarentena, expondo-os ao risco de morte e, quando questionado sobre os cadáveres responde cinicamente: ''e daí!?''; oh, homens de inteligência limitada, já muito tempo transcorreu, o comportamento de vossos líderes é ada vez mais claro e não o sabeis discernir entre o pastor e o mercenário?

domingo, 3 de maio de 2020

A Bíblia e a Tradição - Dom Bosco

Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de haver pregado de viva voz sua doutrina, subiu aos Céus sem deixá-la escrita nem reunida em livro algum ditado por Ele. Por que o fez assim? Para nos ensinar que Ele tinha feito depositários de sua doutrina os Apóstolos, isto é, a Igreja que devia depois explicá-la aos fiéis: ensinando-nos também que o principal instrumento da sua palavra devia ser a viva voz da sua Igreja. Com efeito, nos primeiros tempos, durante o curso de não poucos anos, o santo Evangelho foi conservado, ensinado e professado tão somente por meio da palavra viva dos Apóstolos e dos primeiros crentes. Nosso Senhor Jesus Cristo querendo, por outra parte, que ao menos uma grande parte da sua doutrina fosse confiada à palavra escrita, por inspiração divina moveu alguns dos Apóstolos e primeiros discípulos a por escrito sua vida e doutrina; e os livros por eles escritos formam juntos o que nós chamamos de Novo Testamento. Foram estes escritos: os quatro Evangelhos, escritos por São Matheus, São Marcos, São Lucas e São João; os Atos dos Apóstolos; as quatorze epístolas de São Paulo, duas de São Pedro, uma de São Tiago, uma de São Judas, e finalmente, três epístolas e o Apocalipse de São João. Estes livros sempre têm sido conservados em grande veneração por todos os cristãos, pois que foram inspirados por Deus. Sem embargo, como já foi dito, não se acham neles todos os feitos da vida de Jesus Cristo, nem todas as verdades ensinadas por Ele. As verdades não escritas foram ensinadas e transmitidas pelos Apóstolos e seus sucessores como um sagrado depósito que se chama Tradição divino-apostólica. A Tradição divino-apostólica contém as verdades que não se encontram escritas nos livros sagrados, a interpretação destes mesmos livros: por isso, quando a Igreja define um artigo de fé que não está manifesto na sagrada Escritura, o tira desse depósito chamado Tradição. Daí se tirou o dogma da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria e da infalibilidade Pontifícia.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Primeira Época, Cap, V, p.32-33.