segunda-feira, 11 de maio de 2020

Amakusa Shiro (1962) - Reflexões católicas desde cinema japonês


Apesar da globalização e da ascensão do Japão como potência cultural, os ecos do catolicismo japonês sobre a intelectualidade nacional são remotos. Poderíamos dizer quase tratar-se de um ilustre desconhecido. Quando se olha para o exterior afim de encontrar inspiração nas lutas de nossos irmãos e contextos culturais diversos, normalmente se tem em vista a Europa, sobretudo a França, e em alguns casos os EUA. O episódio de que o filme que me inspira a escrever tais linhas tenha sido encontrado legendado tão somente em inglês e castelhano soa um tanto quanto ilustrativo.

Que temos nós com esses povos distantes, alguns devem estar se perguntando? Muita coisa, creio eu. A natureza humana e o vínculo de fé nos fazem irmãos. Além disso, em tempos onde tanto se insiste no aspecto ocidental da Igreja, contemplar sua face no oriente é um bom remédio contra certo etnocentrismo, bem como nos dá algum material para começarmos a pensar as relações entre Igreja e cultura, evitando certos bairrismos anacronismos tão comuns a certos grupos tradicionalistas.

O filme em questão tem títulos diversos, ora denominado como The Revolutionary, El Rebelde, ou simplesmente Amakusa Shiro Tokisada, conta a história da Rebelião de Shimabara. O samurai católico, líder da revolta, é uma figura relativamente influente sobre a cultura pop japonesa, tendo influenciado diversos personagens, dentre eles Amakusa Shogo de Samurai X. Voltemos a História, com "h" maiúsculo mesmo: depois de um início relativamente tranquilo e frutuoso, a presença missionária no japão passou a ser objeto de forte oposição, uma vez que as potências europeias procuravam usar da religião como forma de dominação política. Tal oposição tornar-se-ia uma violenta perseguição, tal qual não se via desdes o paganismo romano. O filme se inicia já neste contexto estável, onde não mais há a presença missionária no Japão, tendo os fiéis, pequenos camponeses, de sustentar a sua fé sem o auxílio dos sacerdotes e missionários. Além da perseguição religiosa, havia forte injustiça social, de modo que os camponeses eram obrigados a pagar elevados impostos afim de sustentar os luxos da nobreza local, isto é os samurais, os quais os governavam de forma cruel. Tensão social e perseguição religiosa, fatores explosivos os quais motivaram aqueles pacíficos camponeses a uma revolta suicida contra o governo Tokugawa. Aliás, não sei como a Teologia da Libertação (corrente teológica da qual sou profundamente crítico como bem sabe o leitor assíduo) não se deteve atentamente sobre o fato, uma vez que ali se encontra perfeitamente a perspectiva de um casamento enter política e religião, onde a religião se faz instrumento de libertação; ou quase, uma vez que a distância histórica nos mostra como tragicamente viera a fracassar tal revolta. Da história vamos para o filme propriamente dito. Raramente filmes históricos são "históricos". O cinema não existe para documentar o passado, mas tão somente para demonstrar a visão do presente a partir dos olhos do diretor, dos acontecimentos de outrora. O diretor, Nagisa Ôshima, é tanto mais simpático a Shiro que a própria historiografia católica. Se os historiadores retratam o protagonista com incômodos traços sincréticos, no filme temos um bom homem, genuinamente católico. Todavia, apesar disso a revolta não fora inspirada por religião. Na película, os motivos sociais falam tanto mais forte. Chama a atenção que embora no início do filme existam belas cenas de oração, conforme a revolta avança essas cenas se fazem mais frequentes. Não há mais por parte dos personagens um esforço por discernir a vontade de Deus nos acontecimentos da história, mas tão somente (e com toda a justiça) reagir a uma situação insustentável, reagir aos desmandos, as torturas e a opressão dos samurais de Tokugawa, aliás, vale ressaltar que Tokugawa teve o apoio dos protestantes holandeses (hoje preferem ser chamados evangélicos), os quais posicionaram seus canhões contra os católicos japoneses.

Sobre os aspectos artísticos, o filme apesar de antigo me agradou bastante. A trilha sonora é discreta, porém adequada. As cenas de tortura sutis, ainda que suficientemente impactantes. As cenas de combate "crus", um grande acerto, uma vez que um detalhamento e romantização excessiva destas acabariam por desviar a atenção de toda a sua selvageira.

Dito isto, que conclusão há de se tirar do filme? A arte é um tanto quanto subjetiva e pode vir a inspirar reações diversas ao expectador, entretanto a mim ressalto que a mim chamou a atenção o modo como a revolta tornou-se um fim em si mesmo e a fé foi passando ao segundo plano, as orações foram escasseando-se, e se deixou de interrogar a Deus quanto a sua vontade. Até que ponto não me comporto de forma análoga, embora, felizmente, com contornos não tão graves e dramáticos? Outro ponto o qual me coloco a pensar é sobre a realidade da perseguição. É certo que hoje há no ocidente alguma hostilidade ao cristianismo, mas, até que ponto podemos comparar esta hostilidade a violenta perseguição a qual foram submetidos tantos santos e mártires? Falar de perseguição hoje é uma hipérbole descabida. Que tortura sofremos nós? Quando foi a última vez que fomos encarcerados por motivos de religião? Ao invés disso queremos coroar nossa covardia, comparando uma mera hostilidade, certas limitações de ação tanto maiores devido a nossa covardia, a pesada cruz que carregaram os heróis da fé?

Haveria ainda outras coisas a se dizer, mas fica para textos futuros. Por hora indico o filme, bem como sugiro ao leitor para que se reze pela conversão dos japoneses a fé católica, e por Amakusa Shiro, que Deus tenha piedade de sua alma!

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