sábado, 23 de maio de 2020

O erro do Budão (Kaguya está certa!)


Existem certas estruturas de pensamento, certos lugares comuns, reducionismos um tanto quanto saborosos que costumam dar soluções simples a problemas complexos, de tal modo que o orador sente-se como que possuído da mais profunda sabedoria. Mais do que a verdade, a maioria das pessoas anseia por segurança, a qual tais discursos parecem proporcionar. Um destes lugares comuns é o contraste entre uma suposta pureza presente na cultura popular, contrastada com a degeneração da cultura pop, da indústria do entretenimento. As coisas porém são tanto mais complicadas, sobretudo quando pensamos no Japão, o qual de forma admirável tem conseguido sintetizar tesouros do passado com técnicas do presente em vistas do futuro, em não poucas obras. O Studio Ghibli, mundialmente renomado pela beleza e profundidade de suas obras desafia qualquer crítico, seus filmes são tão belos e profundos refletem os valores do espírito japonês ao mesmo tempo em que encantam espectadores das mais diversas nações. No Ocidente, a Disney já desempenhou um papel semelhante, embora me parece que há algumas décadas tenha perdido seu encanto e se transformado em um instrumento de engenharia social.

No momento em que estou a escrever estás linhas o mundo está parado, a pandemia causada pelo COVID-19 tem ceifado vidas e causado impactos dolorosos na economia. Que raios há que se falar de cinema? Que importa antigas fábulas orientais? A arte alegra o espírito. Tão somente isso seria o suficiente, mas, existe algo mais. Há em determinadas obras certas indagações, certos inspirações que nos instigam a pensar, a investigar, a questionar! É neste processo, e não em máximas vazias, onde podemos encontrar alguma orientação para nossa vida, sobretudo quando empreendemos em profunda unidade, procurando responder estas indagações desde o nosso ser, com toda a sinceridade, usando todos os nossos conhecimentos, tudo aquilo no qual acreditamos. A arte alegra o espírito e instiga o pensamento.

O Conto da Princesa Kaguya é inspirado em uma lenda japonesa do século X: O Conto do Cortador de Bambu. A lenda original soa um tanto quanto simplista, quando comparado a riqueza de detalhes do filme, que segundo alguns, procura ilustrar aspectos do ensino budista, mas quanto a isso aguarde o leitor o final do texto e não espere de minha parte alguma ingenuidade ecumênica tal qual o Encontro de Assis. Um velho contador de bambu encontra uma pequena princesa no interior de uma árvore, ele a leva para sua casa, e a criatura tão logo se transforma em um bebê, que é adotado por ele e sua esposa. O bebê cresce de forma estranhamente rápida, se torna uma alegre meninha, que brinca pelos campos, faz amigos, e tem, afinal, uma infância feliz. No mesmo bosque onde a encontrou, o velho cortador de bambu encontra posteriormente belas e roupas e muito ouro, acreditando ser um sinal dos céus, ele usa o dinheiro para fazer daquela criança uma verdadeira princesa. Aí há o primeiro dos contrastes do filme, na vida simples do campo a moça era feliz, mudando-se para cidade, habitando um castelo, tendo a companhia dos nobres e educada como uma princesa, a jovem se entristece, estava vivendo uma vida de aparências a que todos se referiam como feliz, mas que na verdade era uma chateação. Não bastasse isso, a beleza de Kaguya atrai a atenção dos nobres do Japão, que tão logo apressam-se em propor-lhe o casamento, mas um casamento motivado tão somente por luxúria, sem amor algum. Para fugir dos pretendentes, inventa ela tarefas impossíveis, as quais obviamente não conseguem os homens realizar. 

Uma vida nobre, repleta de aparências e chateações, na capital contrastada com uma vida pobre na aldeia, com os amigos em harmonia com a natureza...

Retornemos a história. Acaba que o próprio imperador se interessa pela moça, e a agarra a força, para escapar ela deseja ardentemente em seu interior deixar aquele mundo, naquele momento consegue manifestar alguns poderes sobrenaturais e escapar do imperador mas, estava feito, o povo da lua viria buscá-la. No tempo marcado chega da lua um cortejo de seres "celestiais" liderados por um Budão.


A moça deveria voltar para a lua e deixar a terra. Mas neste processo, além de se ver separada de seus pais e amigos, perderia todas as suas memórias. Chama a atenção o diálogo entre Kaguya e uma das criaturas, onde esta exorta a princesa a deixar este mundo impuro, ao qual responde a moça que este mundo não é impuro, mas repleto de coisas belas como a natureza, os passarinhos e sentimentos. No fim, porém, o Budão se mantém indiferente aos lamentos da princesa, a coroa é colocada sobre sua cabeça, ela perde toda e qualquer emoção e retorna a seu mundo olhando para a Terra de forma nostálgica.  

Segundo a explicação budista do filme, Kaguya seria uma jovem tola apegada a um mundo impuro e efêmero, esse apego seria a fonte de seu sofrimento. Como católico posso discordar absolutamente. Não é que esse mundo seja intrinsecamente impuro, mas antes ele está corrompido. Note a diferença entre os verbos: "ser" e "estar" (se estiver lendo isso em inglês, capaz de não ser capaz de discernir, mas acho que não tenho muitos leitores estrangeiros). Deus criou o mundo e viu que era bom. A Kaguya não está errada. Há, porém, a realidade do pecado que é fonte de sofrimento e corrupção, mas isto convive com a graça e com as belezas da Criação. A moça sofre e é feliz, não são ciclos efêmeros mas a própria dinâmica deste mundo belo, porém marcado pelo pecado. O paraíso não é a apatia budista e o esquecimento da Terra! No céu, Jesus Cristo (e não Buda!) virá nos buscar, e lá poderemos encontrar muitos de nossos amigos, familiares e entes queridos. Vamos nos lembrar da Terra. Não apenas isso, mas poderemos rezar por quem fica, de algum modo misterioso lutar junto deles e, ao final, no final definitivo, no fim dos tempos, toda a criação será redimida, teremos de volta nossos corpos e correremos pelos campos, brincaremos com os animais, voaremos pelos céus, verdadeiramente alegres, longe daquela indiferença apática do Budão.

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