quarta-feira, 20 de maio de 2020

Terra Amaldiçoada: Breves comentários sobre um romance de José Lins do Rego

Não raro é comum ver certas em certas manifestações da cultura nordestina certa romantização do cangaço. Os cangaceiros seriam heróis, homens valentes a se rebelar contra as elites locais, há quem apele para a suposta devoção de tais personagens, sua relação com Padre Cícero. Triste povo que tem entre seus heróis bandidos, ladrões assassinos e estupradores. Após a leitura de Cangaceiros de José Lins do Rego minha repugnância para este tipo de ufanismo regionalista para com bandido cresceu ainda mais. O escritor patrício retrata a crueldade do cangaço e todos os suas ambiguidades, fugindo da armadilha romântica de tantos de seus conterrâneos. Na obra do autor os cangaceiros são o que são: monstros, quase que endemoniadas a destruir a própria vida e de quem cruzar seu caminho. Aliás, a descrição de tão numerosos e cruéis feitos dos "cabras" chega a ser incômoda a sensibilidade católica. 

O livro é profundamente pessimista. Se há os demônios do cangaço, a autoridade local não fica atrás:  os soldados do governo são nada além de bandidos fardados, "mata-cachorros" a repetir as mesmas crueldades com mandato oficial. A religião por ali toma ares de superstição, mais do que uma doutrina a dirigir a vida rumo aos céus, tornar-se uma espécie de mágica, afim de garantir proteção, "corpo-fechado" e força no "fogo". E naquela colônia do inferno, lá está o sertanejo sem outra alternativa senão fugir, fugir daquela terra amaldiçoada, do contrário há de perder a a vida, alma, a decência e a sanidade. 

Antes de encerrar estas breves linhas, faço alguns comentários técnicos. O autor é competente, mas suas limitações são manifestas. O recurso a morte é conveniente demais. Tão conveniente e frequente que chega a ser inverossímil. Quando o autor não sabe o que fazer com o personagem ou mata ou faz ele ficar louco sem qualquer outra explicação satisfatória. 

Por fim, destaco que a tentativa de apropriação literária do ambiente para mim não colou. José Lins do Rego cita as flora e a fauna da caatinga, esforça-se por traçar um relação ora paradoxal ora de espelho entre o ambiente externo e o estado interno de seus personagens, mas, soa estranho... Talvez seja nossa língua, mas é difícil ver poesia em algo chamado Umbuzeiro, ou dado a analogia maliciosa vulgar, não estranhar a comparação entre a jovem moça e as rolinhas.

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