domingo, 28 de junho de 2020

Vicente Verner vítima de Libelo de Sangue - Dom Bosco

O jovem Vicente Verner - Naqueles tempos aconteceu um fato atroz que deu a conhecer quanto ódio abrigavam os Judeus contra nossa santa religião. Um jovem camponês de Treves (França) chamado Vicente Verner, tinha-se empregado, na idade de 15 anos, com alguns judeus de Vesel, para trabalhar a pagamento em uma adega. Um dia a mulher que caritativamente lhe dava morada lhe disse: "Verner, chegou a sexta-feira santa, os judeus te vão matar". O inocente jovem respondeu-lhe: "Eu não posso viver senão trabalhando; minha vida está nas mãos do Senhor." Na quinta-feira santa confessou e comungou e depois voltou para seu trabalho. Os judeus desceram com ele à adega: puseram-lhe uma bola de chumbo na boca para não se ouvirem os gritos, e em seguida ataram-no a um pau de cabeça para baixo, para que vomitasse a santa Hóstia; porém não podendo consegui-lo, açoitaram-no cruelmente. Abriram-lhe logo as veias e o espremeram com tenazes para que saísse todo o sangue de seu corpo. Foi conservado suspenso no ar durante três dias, já pelas pernas, já pela cabeça, até que exalou o último suspiro. Isto se deu no ano 1287. Seu cadáver ainda que enterrado em uma gruta, foi descoberto por luz portentosa que apareceu no lugar onde se achava sepultado. Foi tirado dali e com a honra devida, enterrado em uma capela. Martírio parecido a este sofreu em Damasco o Pe. Tomas de Sardenha, nos últimos anos do pontificado de Gregório XVI.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Quarta Época, Cap, III, p.191

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Jerusalém


12ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (2Rs 25,1-12)
Salmo Responsorial (Sl 136)
Evangelho (Mt 8,1-4)

1. Somos hiperbólicos em demasia, hipertrofiando por demais nossos próprios sofrimentos. Hoje se diz que a Igreja é perseguida... Embora haja uma oposição por parte do mundo, ao menos no ocidente, o termo perseguição é inadequado. Sofremos certo incômodo, certo antagonismo, mas de modo nenhum podemos comparar isso ao sofrimento dos santos e mártires. A primeira leitura nos dá uma dimensão sobre o que é o sofrimento. Os caldeus fecharam a cidade de Jerusalém, o povo começou a passar fome. Abriu-se uma brecha nos muros da cidade, e o rei fugiu com seus exércitos. Capturado por um dos generais inimigos, o rei foi obrigado a assistir a morte de seus filhos um a um, posteriormente foram-lhe arrancados os olhos, e atado a pesadas correntes, fora levado como escravo a Babilônia. O sofrimento em um grau atroz. A fome, a cena da morte dos filhos como a última imagem clara, os olhos arrancados, a escravidão no exílio... Isso nos dá uma dimensão do sofrimento, ante tão terrível cena deveríamos ter mais pudor ao reclamar de nossas pequenas dificuldades.

2. <A minha língua fique pegada às minhas fauces, se eu não me lembrar de ti. Se eu não me propuser Jerusalém, como o principal objeto de minha alegria. (Sl 136, 6)> ; O salmo foi composto no exílio e tinha um significado histórico bem concreto. Seu significado espiritual refere-se a Jerusalém celeste, ao Reino dos Céus. Todavia, entre o passado e a eternidade, ecoa um chamado histórico também concreto. Jerusalém a cidade santa encontra-se hoje sob domínio dos inimigos da cruz. Isso deveria ser para nós fonte de grande pesar... Um lugar tão santo, abandonado aos judeus. Jerusalém deveria ser a capital da cristandade, um lugar sob domínio da Igreja, pronto a receber peregrinos, repleto de monges, padres, religiosos e religiosas... Entretanto, lá está sob domínio dos descendentes daqueles que crucificaram Jesus, homens estes que não cessam de profanar tal solo sagrado com tão graves pecados (como por exemplo a marcha do orgulho sodomita anualmente ali realizada).

Se não alimentarmos essa dor, esse pesar por ver os lugares santos nas mãos do inimigo, se não nutrimos esse sentimento, acabamos por tratar a cidade sagrada como fosse um lugar qualquer, arriscando a perder nossa identidade, nossa fé, nossa alma... Ainda que hoje não seja possível recuperar Jerusalém, o atual estado da cidade não pode jamais ser tratado como normal, antes deve ser para nós um aviso bem visível de nosso fracasso na missão de edificar o império cristão, motivo de penitência e humilhação.

3. No dia de hoje celebramos a memória de São Josemaria Escrivá. A teologia do padre Escrivá traz um novo sentido as realidades cotidianas, dando ao ordinário uma dimensão extraordinária. De algum modo, São Josemaria trouxe uma dimensão poética a ''vida comum'', tornando aquilo que era fonte de tédio e sofrimento, uma épica aventura sagrada.

São Josemaria Escrivá, rogai por nós!

quarta-feira, 24 de junho de 2020

São João: a liturgia e as festas profanas


Natividade de São João Batista | Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 49,1-6)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Segunda Leitura (At 13,22-26)
Evangelho (Lc 1,57-66.80)

Em tempos ordinários, o dia de hoje seria no calendário profano ocasião de uma grande festa. A festa de São João é uma data folk em nosso país, marcada por música, dança, comida à vontade bem como certa nostalgia para com a cultura caipira. É tempo onde o citadino faz cosplay da camponês. Desde uma perspectiva cultural, apesar de alguns excessos, no geral meu julgamento sobre este tipo de festa é positivo, entretanto...

Entretanto... ela revela a complexidade e as dificuldades da relação entre a Igreja e cultura. A festa não tem absolutamente nada haver com a personalidade de São João Batista, um homem austero, um asceta, que desde a infância vivia nos desertos. O Batista não marcaria presença de maneira alguma em tais festividades, preferindo antes se refugiar na solidão, fortalecer-se na penitência afim de discernir com mais clareza os desígnios divinos. 

Se assim o é, porque tal festança em dia aparentemente tão inoportuno? Coincidência de calendário, acabou que antigas celebrações cosmológicas relacionadas ao solstício, bem populares entre o povo roça, convergiam com a memória litúrgica de São João Batista, e na busca por cristianizar antigos costumes pagãos, acabou por se realizar tal sobreposição simbólica mais ou menos confusa...

Não pretendo eu reformar os costumes pátrios, tanto menos proferir um julgamento definitivo em tão complexa questão, a qual muitos homens mais sábios do que eu preferiram não tocar. Porém, não posso deixar de manifestar meu estranhamento, bem como certa perturbação ao notar que aqueles que no dia de hoje gritam: "Viva São João!" raramente tem em mente a vida de tão admirável figura, o qual fora chamado pela escritura de ''o maior dos homens nascido de mulher''.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Porque vês tu pois a aréstra no olho de teu irmão, e não vês a trave no teu olho?"


12ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (2Rs 17,5-8.13-15a.18)
Salmo Responsorial (Sl 59)
Evangelho (Mt 7,1-5)

Se deixarmo-nos conduzir pela narrativa, a liturgia da palavra no dia de hoje como que nos eleva aos céus para depois nos deixar cair com o rosto em terra. A primeira leitura fala dos pecados de Israel. Apesar de ser uma realidade dolorosa, dado a estrutura narrativa, assistimos tudo desde fora. Pode ocorrer de que nos sintamos como um dos profetas do Senhor e, a luz da apostasia do Israel de outrora, condenemos os pecados de nossa nação no hoje. Adequado, uma vez que hoje os pecados desta civilização são gravíssimos, e talvez o corona vírus seja a manifestação das primícias de um castigo aterrador. Todavia, ainda assim é uma perspectiva incompleta. Isso porque não somos profetas. Depois de olhar em redor, o Evangelho nos convida a olhar para nós mesmos. O famoso não julgueis ecoa em nossos ouvidos, significando não um relativismo hedonista de que vale tudo, mas uma grande advertência segundo a qual o papel de juiz cabe a Deus e não aos homens. Segue-se a dura repreensão: como queres tirar o cisco do olho de teu irmão se tem uma trave ante seus olhos? Como queremos nós bancar os profetas, os salvadores da civilização ocidental, a nova elite, se, afinal, temos tantos e tão graves pecados em nossa conta? Orgulho, inveja, mentira, preconceito (esse termo é inexato, mas de fato existe uma realidade mais ou menos concreta que este se refere) e tantas outras imundices constituem a trave em nossos olhos, trave que ofusca nossa visão e faz com que ao julgarmos o próximo sejamos parciais e temerários. Se levássemos a sério o Evangelho, as redes sociais não estariam infestadas de tanta fofoca e maledicência.

Examinemos nossa consciência, ou aproveitemos os paradoxos da técnica e examinemos nossos arquivos digitais; nossas últimas postagens e conversas... Se a memória por vezes se torna cúmplice de nossas imundices, muitos dos fatos concretos estão de algum modo registrados nesse oceano virtual, de tal forma que podemos ter alguma ideia de nossa própria imundície. Que mais do que lamentar e longe de aceitar, antes procuremos corrigir-nos.

domingo, 21 de junho de 2020

Maomé e sua religião - Dom Bosco

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

- Dom Bosco. História Eclesiástica; Terceira Época, Cap, I, p.77.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Arquétipos - Carl Gustav Jung

[75] Senhoras e senhores, ontem abordamos as funções da consciência e hoje desejo terminar esse tópico relacionado com a estrutura da mente. A discussão sobre a mente humana não estaria completa se nela não incluíssemos a existência dos processos inconscientes. Permitam-me resumir brevemente as reflexões surgidas na noite passada.

[76] Não se pode lidar diretamente com os processos inconscientes por serem eles dotados de uma natureza inatingível. Não são imediatamente captáveis, revelando-se apenas através dos seus produtos, pelos quais inferimos que deve existir uma fonte que os produza. Essa esfera obscura é denominada inconsciente.

[77] Os conteúdos ectopsíquicos da consciência derivam, em primeiro lugar, do ambiente, e são recebidos através dos sentidos. Além disso, também provêm de outras fontes, como a memória e os processos de julgamento, que pertencem aos setores endopsíquicos. Uma terceira fonte de conteúdos conscientes seria o lado obscuro da mente: o inconsciente. Conseguimos uma aproximação dele através das propriedades das funções endopsíquicas, as funções que não se encontram sob o domínio da vontade. São o veículo através do qual os conteúdos inconscientes atingem a superfície da consciência.

[78] Apesar de os processos inconscientes não serem diretamente observáveis, podemos classificar seus produtos, que atingem o limiar da consciência, em duas classes: a primeira contém material reconhecível, de origem definidamente pessoal; são aquisições do indivíduo ou produtos de processos instintivos que completam, inteiram a personalidade. Há ainda os conteúdos esquecidos ou reprimidos, mais os dados criativos. Nada existe de peculiar em tais fatores. Em outras pessoas os elementos a que nos estamos referindo podem ser conscientes; muita gente está consciente de coisas que outras ignoram. Dei a essa classe de conteúdos o nome de mente subconsciente ou inconsciente pessoal, porque, dentro dos limites do nosso julgamento, creio ser tal camada inteiramente composta de elementos pessoais e componentes da personalidade humana em seu todo.

[79] A seguir há uma outra classe de conteúdos, cuja origem é totalmente desconhecida ou, pelo menos, tais fatores têm origem que não pode em hipótese alguma ser atribuída a aquisições individuais. Sua particularidade mais inerente é o caráter mítico. É como se pertencessem à humanidade em geral, e não a uma determinada psique individual. Ao defrontar-me pela primeira vez com tais conteúdos, perguntei-me se sua origem não era hereditária e acreditei que pudessem ser explicados através da herança racial. A fim de esclarecer este problema, fui para os Estados Unidos estudar os sonhos dos negros de raça não misturada e cheguei à conclusão de que tais imagens não têm nada a ver com o problema de sangue ou de herança racial. E também não são adquiridas pelo indivíduo. São próprias da humanidade em geral, sendo, pois de natureza coletiva.

[80] Dei o nome de arquétipos a esses padrões coletivos, valendo-me de uma expressão de Santo Agostinho. Arquétipo significa um “typos” (impressão, marca-impressão), um agrupamento definido de caráter arcaico que, em forma e significado, encerra motivos mitológicos, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore. Alguns desses motivos mais conhecidos são: a figura do herói, do redentor, do dragão (sempre relacionado com o herói, que deverá vencê-lo), da baleia ou do monstro que engole o herói. Outra variação desse mito do herói e do dragão é a katábasis, a descida ao abismo, ou nekyia. Os senhores se lembram da Odisseia, quando Ulisses desce ad inferos para consultar Tirésias, o vidente. O mito do nekyia encontra-se em toda a Antiguidade e praticamente no mundo todo. Expressa o mecanismo da introversão da mente consciente em direção às camadas mais profundas da psique inconsciente. Desse nível derivam conteúdos de caráter mitológico ou impessoal, em outras palavras, os arquétipos que denominei inconsciente coletivo ou impessoal.

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 51-53.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Mentiras Televisivas

O leitor assíduo já deve ter notado que a maior parte do material deste blog consiste em comentários. Comentários a respeito da sagrada escritura, comentários sobre livros, filmes, séries, doramas, animes etc. E, entre tais comentários uma ou outra ideia original me vem a mente, de modo que com o tempo espero eu conseguir construir algo ao qual possa chamar de "minha filosofia". Tal método pode ser chamado de "impregnação radical" (creio que deva ter kibado do xarope do Olavo), e consiste em alimentar o imaginário com imagens e referências diversas, de modo a ir organizando-o aos poucos. De modo ordinário, é o método que tenho a disposição. Um sujeito relativamente jovem não tem experiência o suficiente para postulados mais amplos e, salvo no caso de um grande místico, fugir desse método denota certo grau de teatro e falsidade.

Dito isto, faço aqui algumas considerações sobre o filme Rede de Intrigas (Network) a maior redpill cinematográfica do século passado. Em plena década de 70, no auge da hegemonia televisa, um sujeito resolve fazer um filme metendo a real e mostrando toda a podridão da mídia mainstream, pautada pelo absoluto desprezo a dignidade humana, pela mentira, infiltrada de comunistas, e controlada de baixo dos panos por certa elite global com vistas a implantar um governo mundial. E sabe o que acontece? O exato roteiro do filme: nada. O povo escolhe a bluepill o filme foi ignorado, caiu no esquecimento, e a televisão continuou a perder almas e destruir mentes ao longo de décadas, até que surgiu a internet. 

Detalhemos um pouco mais sobre o roteiro filme: certo sujeito, jornalista com anos de profissão, recebe a notícia de sua demissão, e então em um de seus últimos programas, ao invés de seguir o padrão, fica revoltado e começa a dizer verdades e atacar o sistema midiático em rede nacional. Curiosamente, isso eleva a audiência, de forma que os diretores da emissora dão cada vez mais destaque ao jornalista, que acaba louco, mas um louco que gera dividendos. Nisso há toda uma subtrama de adultério, comunismo, e manipulação que não vem ao caso agora. No final, as denúncias do sujeito vão se tornando cada vez mais duras e depressivas, de forma que a audiência se esvai. O povo que o idolatrou e elevou as alturas por dizer a verdade doa a quem doer se cansa dele. Não, os populares não querem a verdade, não querem por fim a rede de intrigas e conspirações gestadas desde a televisão, querem apenas distração e entretenimento. 

Assim é ainda hoje e, embora a televisão venha perdendo espaço, seus pretensos substitutos na internet não são muito mais sinceros. A difusão de mentiras, fake news, se mostra um negócio altamente lucrativo. O dizer a verdade, meter a real, coisa chata e tediosa, indigna de atenção. Isso, porém, não é algo novo, tal já está dito no Mito da Caverna de Platão. 

Apesar de não alimentar esperanças temporais, tenho grandes expectativas escatológicas. Sim, a mentira dá o tom a narrativa mundana mas, com a morte, a luz há de dissipar toda e qualquer treva. Aí de nós! Eis que a mentira será desmascarada em absoluto, o brilho da verdade será tamanho que obrigará incluso aqueles que não a quiserem ver, ardendo em fogo que nunca se apaga por toda a eternidade.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Oculto


11ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (2Rs 2,1.6-14)
Salmo Responsorial (Sl 30)
Evangelho (Mt 6,1-6.16-18)

Sombra, escuridão, segredo. Tais expressões são utilizadas em linguagem figurada com relativa frequência para referir-se ao mal. O desconhecido, o inesperado, o oculto, isso nos torna apreensivos, nos inquieta, faz com que tenhamos medo. É compreensível, todavia não deixa de ser um erro, que passemos a tratar a metáfora como fosse a realidade concreta, num automatismo tolo, como se tudo o que estiver associado a noite, ao segredo, a sombra, fosse necessariamente mal. Quando Jung fala sobre as forças ocultas da mente ou sobre determinado lado obscuro, tem em vista não um juízo moral, mas apenas o simples fato de que se tratam de realidades mais ou menos desconhecidas.

Ante tais considerações poderemos melhor equacionar o Evangelho de hoje, onde Nosso Senhor Jesus Cristo nos ordena que nossos atos de piedade sejam realizados as ocultas, no segredo, no escondido. Há de fato o significado moral imediato, a saber: quando nos esforçamos por publicizar nossas ações, acabamos vivendo uma espécie de teatro, buscando antes agradar a plateia e nos engrandecer do que de fato agradar a Deus. Neste sentido, o segredo nos preserva da tentação da vaidade. Além disso, porém, poderíamos dizer que tal perspectiva trás certa riqueza literária a vida, onde para além do mundo ordinário que aparece nas notícias e do qual ouvimos falar, há toda a riqueza de um mundo oculto, o segredo da vida espiritual dos santos, suas orações, êxtases, penitências heroicas e caridade extraordinária. O vinho novo escondido para o final da festa, do qual só temos acesso a pistas muito vagas e que só nos será revelado plenamente durante o julgamento da história ao fim dos tempos.

domingo, 14 de junho de 2020

Servos do Altar

Antes de terminar este parágrafo, resta dizer algo a respeito do ministro que serve à Santa Missa. Em nossa época dá-se aos meninos e a ignorantes este encargo, de que nem os próprios reis seriam dignos.

Diz São Boaventura que é um mister angélico, pois muitos Anjos assistem ao Santo Sacrifício e servem a DEUS neste santo mistério.

A gloriosa Santa Mectilde viu a alma de um irmão leigo envolta em deslumbrante claridade por ter-se empregado com extremo fervor em servir em todas as Santas Missas que pudera.

São Tomás de Aquino, o sol da Escolástica, conhecia bem o valor inestimável deste ofício de servir no divino Sacrifício, e não se dava por satisfeito se, depois de ter celebrado a Santa Missa, não ajudava outra.

São Tomás More, chanceler da Inglaterra, punha suas delícias nesta santa função; e certo dia, admoestado por um grande do reino que lhe avisava de que o rei Henrique veria com desprazer ação tão pouco digna dum primeiro ministro, respondeu: “Não pode segredar a meu senhor, o rei, que eu sirva o Senhor de meu rei, o qual é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores.”

Aí está o bastante parta confundir essas pessoas, às vezes até piedosas, a quem é preciso pedir e suplicar para que ajudem à Santa Missa, quando deveriam porfiar e apoderar-se do missal a fim de ter a honra de desempenhar emprego tão santo que faz inveja aos próprios Anjos e Santos do Paraíso.

Importa, evidentemente, velar com cuidado para que os que ajudam à Santa Missa sejam bem instruídos quanto a seu papel.

Devem manter os olhos baixos, uma atitude modesta e piedosa; cumpre-lhes pronunciar as palavras, distintamente, docemente, em voz não baixa demais, que o sacerdote não os ouça, nem por demais alta, que incomode os que celebram nos altares próximos.

Dever-se-ia, outrossim, excluir certos meninos muito levianos, que brincam e fazem barulho e perturbam o recolhimento do sacerdote. Rogo a DEUS que inspira aos homens prudentes dedicarem-se a este ofício tão santo e louvável. Competiria aos mais nobres a aos mais instruídos dar este belo exemplo.

- São Leonardo de Porto-Maurício. As Excelências da Santa Missa; p. 61-62.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Monsenhor Viganò sobre Vaticano II


A última carta assinada pelo monsenhor Viganò é corajosa e veraz. O prelado expôs sem escrúpulos a crise eclesial numa linguagem franca e exata, coisa a qual não se via um alto prelado o fazer desde de há muito tempo. Que o Senhor o abençoe, eque  o conteúdo da carta seja difundido por toda a Igreja para a glória de Deus, a alegria dos fiéis e a ira dos hereges.

9 de Junho de 2020
Santo Efrém

Li com muito interesse o ensaio de S.E. Athanasius Schneider publicado, no LifeSiteNews, a 1 de Junho, e posteriormente traduzido por Chiesa e post Concilio, intitulado Não há vontade divina positiva nem direito natural para a diversidade de religiões. O estudo de Sua Excelência compendia, com a clareza que distingue as palavras daqueles que falam segundo Cristo, as objecções à suposta legitimidade ao exercício da liberdade religiosa que o Concílio Vaticano II teorizou, contradizendo o testemunho da Sagrada Escritura, a voz da Tradição e o Magistério Católico, que de ambos é guardião.

O mérito deste ensaio reside, antes de tudo, em ter sido capaz de alcançar a relação causal entre os princípios enunciados ou implicados pelo Vaticano II e o seu consequente e lógico efeito nos desvios doutrinários, morais, litúrgicos e disciplinares que surgiram e se desenvolveram progressivamente até hoje. O monstrum gerado nos círculos dos modernistas poderia, a princípio, ser enganoso, mas, crescendo e fortalecendo-se, hoje mostra-se como realmente é na sua natureza subversiva e rebelde. A criatura, então concebida, é sempre a mesma e seria ingênuo pensar que a sua natureza perversa poderia mudar. As tentativas de corrigir os excessos conciliares – invocando a hermenêutica da continuidade – revelaram-se falhadas: Naturam espellas furca, tamen usque recurret (Horácio Epist. I, 10:24). A Declaração de Abu Dhabi e, como Mons. Schneider justamente observa, os seu prenúncios do pantheon de Assis, «foi concebida no espírito do Concílio Vaticano II», como confirma orgulhosamente Bergoglio.

Este “espírito do Concílio” é a licença de legitimidade que os modernistas opõem aos críticos, sem perceberem que é precisamente confessando aquele legado que se confirma não apenas a erroneidade das declarações actuais, mas também a matriz herética que deveria justificá-las. A bem dizer, nunca na vida da Igreja houve um Concílio que representasse um tal evento histórico a ponto de torná-lo diferente dos outros: nunca foi dado um “espírito do Concílio de Nicéia”, nem o “espírito do Concílio de Ferrara-Florença” e muito menos o “espírito do Concílio de Trento”, assim como nunca tivemos um “pós-concílio” depois do IV de Latrão ou do Vaticano I.

O motivo é evidente: aqueles Concílios eram todos, indistintamente, a expressão da voz uníssona da Santa Madre Igreja e, por essa mesma razão, de Nosso Senhor Jesus Cristo. Significativamente, aqueles que apoiam a novidade do Vaticano II também aderem à doutrina herética que vê contraposto o Deus do Antigo Testamento ao Deus do Novo, como se se pudesse dar uma contradição entre as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Evidentemente, essa contraposição, quase gnóstica ou cabalística, é funcional para a legitimação de um novo sujeito deliberadamente diferente e oposto em relação à Igreja Católica. Os erros doutrinários quase sempre traem também uma heresia trinitária e é, portanto, retornando à proclamação do dogma trinitário que se poderão dispersar as doutrinas que a ele se opõem: ut in confessione veræ sempiternæque deitatis, et in Personis proprietas, et in essentia unitas, et em majestate adoretur æqualitas. Ao professar a verdadeira e eterna divindade, adoramos a propriedade das divinas Pessoas, a unidade na sua essência, a igualdade na sua majestade.

Mons. Schneider cita alguns cânones dos Concílios Ecumênicos que propõem, no seu dizer, doutrinas dificilmente aceitáveis hoje, como a obrigação de reconhecer os Judeus através do vestuário ou a proibição de os cristãos serem empregados de patrões maometanos ou hebreus. Entre estes exemplos, há também a necessidade da traditio instrumentorum, declarada pelo Concílio de Florença, posteriormente corrigida pela Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis de Pio XII. O Bispo Athanasius comenta: «Pode-se legitimamente esperar e acreditar que um futuro papa ou concílio ecuménico corrigirá as afirmações errôneas pronunciadas» pelo Vaticano II. Parece-me um argumento que, mesmo com a melhor das intenções, mina as fundações do edifício católico. Se, de facto, admitirmos que possam haver actos magisteriais que, por uma alterada sensibilidade, sejam, com o passar do tempo, susceptíveis de revogação, de modificação ou de diferente interpretação, caímos inexoravelmente sob a condenação do Decreto Lamentabili e acabamos por dar razão a quem, recentemente, precisamente com base naquela tese errônea, declarou “não conforme ao Evangelho” a pena capital, chegando a alterar o Catecismo da Igreja Católica. E, de certa maneira, poderíamos, pelo mesmo princípio, acreditar que as palavras do Beato Pio IX, na Quanta cura, foram, de alguma forma, corrigidas precisamente no Vaticano II, tal como Sua Excelência espera que possa acontecer com a Dignitatis humanæ. Dos exemplos que usou, nenhum é, por si só, gravemente errôneo ou herético: ter declarado necessária a traditio instrumentorum para a validade da Ordem não comprometeu, de forma algum, o ministério sacerdotal na Igreja, levando-a a conferir invalidamente as Ordens. Também não me parece que se possa afirmar que este aspecto, por mais importante que seja, tenha insinuado doutrinas errôneas nos fiéis, algo que apenas aconteceu com o último Concílio. E quando, no curso da História, as heresias se espalharam, a Igreja sempre interveio prontamente para condená-las, como aconteceu no tempo do Sínodo de Pistoia, de 1786, que foi, de alguma forma, precursor do Vaticano II, especialmente onde aboliu a Comunhão fora da Missa, introduziu a língua vernácula e aboliu as orações em voz baixa do Cânone; mas ainda mais quando teorizou as bases da colegialidade episcopal, limitando o primado do Papa a mera função ministerial. Reler os actos desse Sínodo deixa-nos estupefactos com a formulação servil dos erros que, posteriormente, encontraremos, ainda maiores, no Concílio presidido por João XXIII e Paulo VI. Por outro lado, como a Verdade bebe de Deus, o erro nutre-se e alimenta-se no Adversário, que odeia a Igreja de Cristo e o seu coração, a Santa Missa e a Santíssima Eucaristia.

Chega um momento na nossa vida em que, por disposição da Providência, somos confrontados com uma escolha decisiva para o futuro da Igreja e para a nossa salvação eterna. Falo da escolha entre compreender o erro em que praticamente todos nós caímos, e quase sempre sem más intenções, e o querer continuar a procurar noutro lugar ou justificar-nos a nós mesmos.

Entre outros erros, também cometemos aquele de considerar os nossos interlocutores pessoas que, apesar da diversidade das ideias e da fé, animadas por boas intenções e que, quando se abrissem à nossa fé, estariam dispostas a corrigir os seus erros. Juntamente com numerosos Padres conciliares, pensamos no ecumenismo como um processo, um convite que chama os dissidentes à única Igreja de Cristo; os idólatras e os pagãos ao único Deus verdadeiro; o povo judeu ao Messias prometido. Mas, a partir do momento em que foi teorizado nas Comissões conciliares, passou a estar em oposição directa à doutrina até então expressa no Magistério.

Pensávamos que certos excessos fossem apenas um exagero daqueles que se deixaram levar pelo entusiasmo da novidade; acreditamos sinceramente que ver João Paulo II rodeado por homens santarrões, bonzinhos, imãs, rabinos, pastores protestantes e outros hereges fosse prova da capacidade da Igreja de convocar as pessoas para invocar a paz de Deus, enquanto que o exemplo autorizado daquele gesto deu início a uma sequência desviante de pantheon mais ou menos oficiais, chegando-se até a ver ser transportado aos ombros de alguns Bispos o ídolo imundo da pachamama, sacrilegamente dissimulado sob a presumida aparência de uma sagrada maternidade. Mas se o simulacro de uma divindade infernal foi capaz de entrar em São Pedro, tal faz parte de um crescendo previsto desde o início. Numerosos Católicos praticantes, e talvez até grande parte dos próprios clérigos, estão hoje convencidos de que a Fé Católica já não é necessária para a salvação eterna; acredita-se que o Deus Uno e Trino, revelado aos nossos pais, seja o mesmo deus de Maomé. Ouvia-se repeti-lo dos púlpitos e das cátedras episcopais já há vinte anos, mas recentemente ouve-se afirmar com ênfase até do mais alto Trono.

Sabemos bem que, suportados pelo dito evangélico Littera enim occidit, spiritus autem vivificat, os progressistas e os modernistas souberam ocultar astuciosamente, nos textos conciliares, aquelas expressões ambíguas que, à época, pareciam inofensivas para a maioria, mas que hoje se manifestam na sua valência subversiva. É o método do subsistit in: dizer uma meia verdade não tanto para não ofender o interlocutor (assumindo que seja lícito silenciar a verdade de Deus por respeito a uma Sua criatura), mas com o objectivo de poder usar o meio erro que a verdade inteira dissiparia instantaneamente. Assim, “Ecclesia Christi subsistit na Ecclesia Catholica” não especifica a identidade das duas, mas a existência de uma na outra e, por consistência, também noutras igrejas: eis a passagem aberta às celebrações interconfessionais, às orações ecumênicas, ao fim implacável da necessidade da Igreja em ordem à salvação, da sua singularidade, da sua missionariedade.

Alguns talvez se recordarão que os primeiros encontros ecumênicos eram realizados com os cismáticos do Oriente e, muito prudentemente, com algumas seitas protestantes. Com excepção da Alemanha, da Holanda e da Suíça, os países de tradição católica não acolheram, desde o princípio, as celebrações mistas, com pastores e párocos juntos. Lembro-me que, na época, se falava em remover a penúltima doxologia do Veni Creator para não ferir os Ortodoxos, que não aceitam o Filioque. Hoje, ouvimos recitar as suras do Alcorão dos púlpitos das nossas igrejas, vemos um ídolo de madeira ser adorado por freiras e frades, ouvimos Bispos desdizer o que, até ontem, nos pareciam as desculpas mais plausíveis de tantos extremismos. O que o mundo quer, por instigação da Maçonaria e dos seus tentáculos infernais, é criar uma religião universal, humanitária e ecumênica em que seja banido aquele Deus ciumento que nós adoramos. E se é isto que o mundo quer, qualquer passo na mesma direcção por parte da Igreja é uma escolha infeliz que se voltará contra aqueles que acreditam que podem brincar com Deus. As esperanças da Torre de Babel não podem ser trazidas de volta à vida por um plano globalista que tem como objectivo a eliminação da Igreja Católica para substituí-la por uma confederação de idólatras e hereges unidos pelo ambientalismo e pela fraternidade humana. Não pode haver nenhuma fraternidade senão em Cristo, e só em Cristo: qui non est mecum, contra me est.

É desconcertante que, desta corrida rumo ao abismo, estejam cientes tão poucos e que poucos tenham consciência de qual é a responsabilidade dos líderes da Igreja em apoiar estas ideologias anticristãs, como se quisessem garantir um espaço e um papel na carruagem do pensamento único. E surpreende que ainda persistam em não querer investigar as causas primeiras da crise presente, limitando-se a deplorar os excessos de hoje como se não fossem a consequência lógica e inevitável de um plano orquestrado há décadas atrás. Se a pachamama pôde ter sido adorada numa igreja, devemo-lo à Dignitatis humanae. Se temos uma liturgia protestante e, às vezes, até paganizada, devemo-lo às acções revolucionárias de Mons. Annibale Bugnini e às reformas pós-conciliares. Se se assinou o Documento de Abu Dhabi, deve-se à Nostra Aetate. Se chegamos a delegar as decisões nas Conferências Episcopais – mesmo em gravíssima violação da Concordata, como aconteceu em Itália –, devemo-lo à colegialidade e à sua versão actualizada da sinodalidade. Graças à qual nos encontramos, com a Amoris Laetitia, a dever procurar uma maneira de impedir que aparecesse o que era evidente a todos, ou seja, que aquele documento, preparado por uma impressionante máquina organizacional, deveria legitimar a Comunhão aos divorciados e concubinários, assim como a Querida Amazônia será usada como legitimação de mulheres sacerdotes (o caso de uma “vigária episcopal”, em Friburgo, é muito recente) e a abolição do Sagrado Celibato. Os Prelados que enviaram os Dubia a Francisco, na minha opinião, demonstraram a mesma piedosa ingenuidade: pensar que, quando confrontado com a contestação argumentada do erro, Bergoglio teria compreendido, corrigido os pontos heterodoxos e pedido perdão.

O Concílio foi usado para legitimar, no silêncio da Autoridade, os desvios doutrinais mais aberrantes, as inovações litúrgicas mais ousadas e os abusos mais inescrupulosos. Este Concílio foi tão exaltado a ponto de ser indicado como a única referência legítima para os Católicos, clérigos e bispos, obscurecendo e conotando com um senso de desprezo a doutrina que a Igreja sempre ensinara com autoridade e proibindo a perene liturgia que, por milénios, havia alimentado a fé de uma ininterrupta geração de fiéis, mártires e santos. Entre outras coisas, este Concílio provou ser o único que põe tantos problemas interpretativos e tantas contradições em relação ao Magistério precedente, enquanto não há um – do Concílio de Jerusalém ao Vaticano – que se não harmonize perfeitamente com todo o Magistério e que precise de alguma interpretação.

Confesso-o com serenidade e sem controvérsia: fui um dos muitos que, apesar de muitas perplexidades e medos, que hoje se mostram absolutamente legítimos, confiaram na autoridade da Hierarquia com uma obediência incondicional. Na realidade, penso que muitos, e eu entre eles, não considerámos inicialmente a possibilidade de um conflito entre a obediência a uma ordem da Hierarquia e a fidelidade à própria Igreja. Para tornar tangível a separação inatural, ou melhor, diria perversa, entre Hierarquia e Igreja, entre obediência e fidelidade, foi certamente este último Pontificado.

Na sala das lágrimas, adjacente à Capela Sistina, enquanto Mons. Guido Marini preparava o roquete, a mozeta e a estola para a primeira aparição do “neo-eleito” Papa, Bergoglio exclamou: “O carnaval acabou!”, recusando, com desdém, as insígnias que todos os Papas até então humildemente aceitaram como distintivas do Vigário de Cristo. Mas naquelas palavras havia algo de verdadeiro, mesmo que dito involuntariamente: a 13 de Março de 2013 caía a máscara dos conspiradores, finalmente livres da desconfortável presença de Bento XVI e descaradamente orgulhosos de terem finalmente conseguido promover um Cardeal que encarnava os seus ideais, o seu modo de revolucionar a Igreja, de tornar preterível a doutrina, adaptável a moral, adulterável a liturgia, revogável a disciplina. E tudo isto foi considerado, pelos próprios protagonistas da conspiração, a consequência lógica e a aplicação óbvia do Vaticano II, segundo eles enfraquecido precisamente pelas críticas expressas pelo próprio Bento XVI. A maior afronta daquele Pontificado foi a liberalização da veneranda Liturgia Tridentina, à qual era finalmente reconhecida legitimidade, interrompendo cinquenta anos de ilegítimo ostracismo. Não é por acaso que os apoiantes de Bergoglio são os mesmos que vêem no Concílio o primeiro evento de uma nova igreja, antes da qual havia uma velha religião com uma velha liturgia. Não é precisamente por acaso: aquilo que afirmam impunemente, provocando o escândalo dos moderados, é o que crêem também os Católicos, a saber: que, apesar de todas as tentativas de hermenêutica da continuidade miseravelmente naufragadas no primeiro confronto com a realidade da crise presente, é inegável que, do Vaticano II em diante, foi constituída uma igreja paralela, sobreposta e contraposta à verdadeira Igreja de Cristo. Essa obscureceu progressivamente a divina instituição fundada por Nosso Senhor para substituí-la por uma entidade bastarda, correspondente à desejada religião universal que foi inicialmente teorizada pela Maçonaria. Expressões como novo humanismo, fraternidade universal, dignidade do homem são palavras de ordem do humanitarismo filantrópico que nega o verdadeiro Deus, da solidariedade horizontal de errante inspiração espiritualista e do irenismo ecumênico que a Igreja condena sem apelo. «Nam et loquela tua manifestum te facit» (Mt 26, 73): este recurso frequente, quase obsessivo, ao mesmo vocabulário do inimigo revela a adesão à ideologia em que esse se inspira; por outro lado, a renúncia sistemática à linguagem clara, inequívoca e cristalina própria da Igreja confirma a vontade de se destacar não apenas da forma católica, mas também da sua substância.

Aquilo que, desde há anos, ouvimos enunciado, vagamente e sem claras conotações, do mais alto Trono, encontramo-lo elaborado num verdadeiro e próprio manifesto dos apoiantes do actual Pontificado: a democratização da Igreja não mais pela colegialidade inventada pelo Vaticano II, mas pelo “caminho sinodal” inaugurado no Sínodo sobre a Família; a demolição do sacerdócio ministerial através do seu enfraquecimento, com as derrogações do Celibato eclesiástico e a introdução de figuras femininas com funções quase sacerdotais; a passagem silenciosa do ecumenismo dirigido aos irmãos separados a uma forma de pan-ecumenismo que abaixa a Verdade do único Deus Uno e Trino ao nível das idolatrias e das superstições mais infernais; a aceitação de um diálogo inter-religioso que pressupõe o relativismo religioso e exclui o anúncio missionário; a desmistificação do Papado, perseguida pelo próprio Bergoglio como cifra do Pontificado; a progressiva legitimação do politicamente correto: ideologia de gênero, sodomia, casamentos homossexuais, doutrinas malthusianas, ecologismo, imigracionismo... Não reconhecer as raízes destes desvios nos princípios estabelecidos pelo Concílio impossibilita qualquer cura: se o diagnóstico persistir contra as evidências para excluir a patologia inicial, não pode formular uma terapia adequada.

Esta operação de honestidade intelectual requer uma grande humildade, antes de tudo no reconhecer ter sido enganados durante décadas, em boa fé, por pessoas que, constituídas em autoridade, não foram capazes de vigiar e guardar o rebanho de Cristo: aqueles que vivem em silêncio, alguns por muitos compromissos, outros por conveniência, outros por má-fé ou até mesmo por dolo. Estes últimos, que traíram a Igreja, devem ser identificados, censurados, convidados a emendar-se e, se não se arrependerem, expulsos do recinto sagrado. Assim age um verdadeiro Pastor, que se preocupa com a saúde das ovelhas e que dá a vida por elas; tivemos e ainda temos muitos mercenários para quem a anuência dos inimigos de Cristo é mais importante que a fidelidade à Sua Esposa.

Eis como, com honestidade e serenidade, obedeci, há sessenta anos, a ordens questionáveis, acreditando que representassem a voz amorosa da Igreja, e hoje, com igual serenidade e honestidade, reconheço que me deixei enganar. Ser coerente hoje em dia, perseverando no erro, representaria uma escolha infeliz e tornar-me-ia cúmplice desta fraude. Reivindicar uma lucidez de julgamento desde o início não seria honesto: sabíamos todos que o Concílio representaria, mais ou menos, uma revolução, mas não podíamos imaginar que tal se revelaria tão devastadora, mesmo para o trabalho daqueles que deveriam tê-lo evitado. E se até Bento XVI ainda poderíamos imaginar que o golpe de estado do Vaticano II (que o cardeal Suenens definiu o 1789 da Igreja) conheceria uma desaceleração, nos últimos anos, mesmo os mais ingênuos dentre nós compreenderam que o silêncio, por medo de suscitar um cisma, a tentativa de ajustar os documentos papais no sentido católico para remediar a ambiguidade pretendida, os apelos e os dubia a Francisco, deixados eloquentemente sem resposta, são uma confirmação da situação de gravíssima apostasia à qual estão expostos os líderes da Hierarquia, enquanto o povo cristão e o clero se sentem irremediavelmente afastados e considerados quase com aborrecimento por parte do Episcopado.

A Declaração de Abu Dhabi é o manifesto ideológico de uma ideia de paz e de cooperação entre as religiões que pode ter alguma possibilidade de tolerância se vier de pagãos, privados da luz da Fé e do fogo da Caridade. Mas quem tem a graça de ser filho de Deus, em virtude do Santo Baptismo, deveria ficar horrorizado só com a ideia de poder construir uma blasfema Torre de Babel numa versão moderna, tentando reunir a única verdadeira Igreja de Cristo, herdeira das promessas do Povo eleito, com aqueles que negam o Messias e com aqueles que consideram blasfema só a ideia de um Deus Trino. O amor de Deus não conhece medidas e não tolera compromissos, caso contrário simplesmente não é Caridade, sem a qual não é possível permanecer n’Ele: qui manet in caritate, in Deo manet, et Deus in eo. Pouco importa se é uma declaração ou um documento magisterial: sabemos muito bem que a mens subversiva dos modernistas aposta precisamente nestes cavalos para difundir o erro. E sabemos muito bem que o objectivo destas iniciativas ecumênicas e inter-religiosas não é converter a Cristo quantos estão distantes da única Igreja, mas desviar e corromper aqueles que ainda conservam a Fé católica, levando-os a acreditar ser desejável uma grande religião universal que une “numa única casa” as três grandes religiões abraâmicas: este é o triunfo do plano maçônico em preparação para o reino do Anticristo! Que isto se concretize com uma Bula dogmática, com uma declaração ou com uma entrevista de Scalfari no Repubblica, pouco importa, porque as palavras de Bergoglio são esperadas pelos seus apoiantes como um sinal, ao qual responder com uma série de iniciativas já preparadas e organizadas anteriormente. E se Bergoglio não segue as indicações recebidas, multidões de teólogos e clérigos já estão prontos a lamentar-se da “solidão do Papa Francisco”, qual premissa para a sua demissão (por exemplo, penso em Massimo Faggioli num dos seus recentes escritos). Por outro lado, não seria a primeira vez que estes usam o Papa quando favorece os seus planos e se livram dele ou atacam-no assim que se afasta.

A Igreja celebrou, no passado domingo, a Santíssima Trindade e propõe-nos, no Breviário, a recitação do Symbolum Athanasianum, agora proscrito pela liturgia conciliar e já confinado a apenas duas ocasiões na reforma de 1962. Daquele Símbolo, agora desaparecido, permanecem gravadas em letras de ouro as primeiras palavras: «Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat Catholicam fidem; quam nisi quisque integram invioletamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit».

† Carlo Maria Viganò

Zelo Zelatus sum


10ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (1Rs 19,9a.11-16)
Salmo Responsorial (Sl 26)
Evangelho (Mt 5,27-32)

"Consumo-me de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos...", são as palavras do profeta Elias na primeira leitura da liturgia de hoje. Existe um belo cântico da TFP inspirada nesta passagem.




Quem dera nós cristãos fossemos consumidos por esse mesmo zelo. Inflamados pelo fogo do Espírito, tal qual o profeta. Retornemos a passagem, que diz Elias? "[...] Os filhos de Israel abandonaram tua aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas"; na atual crise eclesial, ao que parece, ainda não se chegou ao assassínio dos profetas, embora se os tenha excomungado, como foi feito com Dom Marcel Lefebrve, que combatia e denunciava destruição dos altares e o abandono da aliança.

Da crise interna para a externa, tivessem os cristãos dessa geração maior zelo pelas coisas de Deus, não seriam seus inimigos tão atrevidos. Na Idade Média, conta-se que jogaram a fogueira certo sujeito que zombava da sexta-feira santa fazendo churrasco em praça pública. Em nosso tempo, cristãos se mantém inertes ante as mais odiosas blasfêmias e profanações, não raro reagindo com maior virulência aqueles que a ela se opõe, que aos próprios blasfemos, como se observou no caso relativamente recente, em que se condenou ação honrosa de um herói contra uma produtora de vídeo que ofendera gravemente nossa santa religião. As palavras desse herói não foram ouvidas, de tal forma que aqui reproduzo o que fora dito em uma de suas entrevistas:
Quando um cristão não tem possibilidade de ser ouvido, quando não há possibilidade de debate, quando não há formas de responder aos ataques feitos à fé, e, sobre tudo, a Deus, além de nos depararmos com autoridades completamente inertes omissas ou até coniventes, que têm o poder de solucionar a questão e cessar a ofensa, mas não o fazem e se recusam a fazer, ou até mesmo defendem os atos criminosos e blasfemos, não resta outra forma do que responder com as próprias mãos. E, algumas vezes, literalmente com elas. Não existe diálogo nem sincera e genuína intenção em enxergar a realidade pelo olhar do outro. O paradigma liberal é uma divindade ciumenta que não permite concorrência. Aos pedidos de que se cessem os ataques e se respeitem a nossa fé, as respostas são sempre piores, com deboches e mais ofensas. Não há qualquer tolerância no debate. O escárnio como violência simbólica é o prato do dia. Além de qualquer discurso de inclusão e tolerância, o fato é que existe um largo vão entre "o trem e a plataforma".

Para aqueles aos quais, seja por temperamento ou prudência, tais atos parecem excessivos, pergunto o que se tem feito? Os senhores tem feito para impedir os repetidos, frequentes e reiterados atos contra Deus e nossa santa religião? Tantos sequer tem a coragem de falar a respeito. Falta-nos o zelo dos antigos. É certo que ninguém é obrigado a realizar atos extremos, e incluso a pertinência e prudência de tais atos possa ser discutida, todavia, todos nós somos de alguma forma instados a reagir e combater os inimigos do Senhor,  ainda que tão somente a palavra e a oração (com valentia e insistência, tal qual fizeram tantos apóstolos, santos e profetas pregando de forma oportuna e inoportuna, quer agrade, quer desagrade). A covardia e a omissão nunca o são justificáveis. Deus há de nos cobrar no dia do juízo.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Da distinção entre sentimento e emoção - Carl Gustav Jung

Dr. J.A. Hadfield: [44] Em que sentido o senhor usa a palavra emoção? Coincide com o uso normal do termo sentimento? O senhor atribui algum significado especial à palavra emoção?

C.G. Jung: [45] É ótimo que se tenha colocado essa questão, pois normalmente surgem grandes confusões e mal-entendidos quanto ao uso do termo emoção. É lógico que todos têm o direito de fazer o uso que quiserem das palavras, mas na terminologia científica somos obrigados a nos ater a certas distinções a fim de não nos tornarmos obscuros. Os senhores devem estar lembrados de que me referi ao sentimento como função valorativa, sem atribuir-lhe nenhum significado especial. Estou convicto de que essa função é racional quando diferenciada, caso contrário, ela simplesmente acontece, apresentando todas as características arcaicas que podem ser resumidas na palavra “insensatez”. Repito que o sentimento consciente é uma função racional de discriminar valores.

[46] A palavra “emocional” é invariavelmente aplicada quando surge uma condição caracterizada por inervações fisiológicas. Assim, pode-se medi-las até certo ponto, não em suas manifestações psicológicas, mas físicas. É bem conhecida a teoria James-Lange sobre a emoção. Dou o mesmo significado à emoção e ao afeto. São a mesma coisa que nos afeta, que interfere em nós. Por ela somos carregados, atirados para fora de nós mesmos. O indivíduo fica tão alterado como se uma explosão o tivesse arremessado para fora dos limites da sua pessoa. E nesse momento existe uma condição física realmente tangível e observável. Eis, portanto, a diferença: o sentimento não apresenta manifestações físicas ou fisiológicas tangíveis, ao passo que a emoção se caracteriza por uma condição fisiológica alterada. A teoria James-Lange sobre a emoção diz que só acontece realmente uma emoção quando tomamos consciência das mudanças fisiológicas da condição geral. Tomemos, por exemplo, uma situação em que nos deparamos à beira de sentir raiva; temos certeza de que nos iremos enfurecer, depois sentimos o sangue subir à cabeça. Só então sentimos realmente raiva, nunca antes. Antes é apenas a antecipação mental do que está chegando, mas quando o sangue sobe, aí somos dominados pela raiva e imediatamente o corpo é afetado. E ao termos consciência de nossa fúria, ela aumenta duas vezes mais. Somente nessa hora é que mergulhamos numa emoção verdadeira. Mas quando temos um sentimento, temos controle. Estamos acima da situação, podendo dizer: “Eu gosto muito”, ou “Não gosto nada de tal coisa”; tudo está quieto e nada acontece. Podemos mesmo pacificamente dar a seguinte informação a uma pessoa: “Eu te odeio”. Mas quando se diz isso com rancor, então é a emoção que age. Dizê-lo calmamente não causa emoção em nós, nem no outro. As emoções são mais contagiantes, são verdadeiras desencadeadoras de epidemia mental. A multidão que, por exemplo, esteja presa de uma condição emocional, sensibiliza a todos os que nela se encontram, não havendo possibilidade de escapar. Mas os sentimentos dos outros, em absoluto, não nos concernem, e podemos observar que o sentimento diferenciado tem efeito calmo sobre nós, o que não se dá com a pessoa dominada por uma emoção; ela nos atinge porque o fogo continuamente dela se irradia. A chama da emoção está em seu rosto. Através de uma espécie de sincronização o sistema nervoso simpático se altera, fazendo-nos apresentar provavelmente os mesmos sinais dentro de algum tempo, o que não se dá com os sentimentos. Estou sendo claro?

Dr. Henry V. Dicks: [47] Continuando essa questão, posso perguntar-lhe qual é, a seu ver, a ligação entre afetos e sentimentos?

C.G. Jung: [48] O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma inervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente cause ligeiras inervações desse tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las. Existe entretanto um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico. Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob a influência emocional, o que não se dá sob a influência do sentimento.

[49] Vou citar o seguinte fato como exemplo: fiz uma experiência com um antigo professor da Clínica, que funcionava como meu companheiro de teste num aparelho de mensuração psicogalvânica. Pedi-lhe que imaginasse algo que lhe fosse extremamente desagradável e acerca do qual eu não tivesse conhecimento. O objeto de sua imaginação deveria ser realmente doloroso. Tais experiências eram-lhe muito familiares e sua capacidade de concentração verdadeiramente poderosa. O professor se deteve num determinado fato, mas não se registrou alteração considerável na resistência elétrica da pele. Não surgiu o mínimo acréscimo de corrente. Aí me deu um “estalo”: Naquela manhã eu observara que alguma coisa de natureza extremamente desagradável estava acontecendo com o meu chefe. “Bem, vou tentar o golpe”, pensei. E disse-lhe: “Não é o caso com o Fulano de Tal?”, mencionando-lhe apenas o nome. Imediatamente houve um dilúvio de emoção. A reação anterior era apenas referente a um sentimento.

[50] É curioso que a dor histérica não cause contração das pupilas nem se faça acompanhar de inervação fisiológica, apesar de ser uma dor realmente intensa. A dor física, por outro lado, apresenta contração das pupilas. É possível experimentar sentimentos intensos sem alteração fisiológica, mas tão logo surjam as alterações fisiológicas o indivíduo fica possuído, dissociado; é atirado para fora de sua própria casa que estará, então, entregue aos demônios.

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 39-41.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sobrevivencialismo sob perspectiva católica


10ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (1Rs 17,1-6)
Salmo Responsorial (Sl 120)
Evangelho (Mt 5,1-12)

1. Pela vontade do Senhor, como castigo a idolatria dos judeus, uma grande seca se abateu sobre Israel. Ironicamente, o ídolo ao qual adoraram aqueles traidores era conhecido como o ''deus da chuva'', pois não foi ele capaz de providenciar-lhes torrentes, numa ironia simbólica. Depois de anunciar o castigo, Elias se retira para o deserto conforme os desígnios do Senhor. Elias não levou nenhum E.D.C., tampouco uma mochila B.O.B., entretanto o Senhor Javé, o Deus Verdadeiro, fez com que a cada dia os corvos o levassem alimentos, bem como providenciou-lhe água para beber. Tal fato encontrou análogos ao longo da história cristã: São Paulo (não confundir com o apóstolo), o primeiro dos eremitas, também recebia alimento do Senhor através dos corvos, que lhes trazia o pão.


Por hora a seca não chegou, mas sim uma pandemia, em linguagem teológica: a peste, que castiga essa civilização apóstata. Não precisamos, por agora, fugir para os desertos, embora estejamos enfrentando dificuldades e muitas outras virão. Não somos profetas e nenhuma ordem específica nos foi dada, de modo que é oportuno e útil alguma preparação, sendo as disciplinas e técnicas sobrevivencialistas relativamente úteis. Todavia, não devemos jamais esquecer que embora procuramos fazer o nosso melhor e nos preparar o na medida do possível, nosso destino está nas mãos do Senhor. Elias que recebe o pão dos corvos contrasta com o rico da parábola do Evangelho, o rico que uma vez que atingiu um vigoroso estoque, contentou-se. Estava preparado, desprezou a Deus e confiou tão somente em si mesmo. Estúpido!

Façamos aquilo que devemos, preparemo-nos com prudência, mas não sejamos tão estúpidos, gente que ludibriada pela loucura que chega ao ponto de confiar em si mesmo. Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que criou o céu e a terra!

2. O Evangelho trata das bem-aventuranças. Tema extremamente profundo sobre o qual discorreram por páginas e páginas os santos doutores através da história. Limito-me hoje a comentar uma delas: <Bem aventurados o que tem fome e sede de justiça: porque serão fartos. (Mt 5. 6)>. Não raro nos acostumamos com a injustiça. Quantas vezes eu mesmo não repeti a tolice do comodismo burguês: ninguém há de mudar o mundo, conformemo-nos. Entretanto, o que diz o Evangelho? Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados. Sim, Deus fara justiça, e felizes aqueles que anseiam por ela. Justiça que se manifesta no tempo e se consuma na eternidade. Cultivemos a sede por justiça e seremos saciados. Todavia, se dela esquecermos, seremos tristes. Burgueses pateticamente tristes e acomodados.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Relatos de um Gato Japonês


Apesar de ter contato com a cultura japonesa já algum tempo, sobretudo por sua indústria pop (o mundo dos animes, jogos e mangás), no que diz respeito a literatura nipônica meu conhecimento é bem superficial, restrita há alguns ensaios de Yukio Mishima. Recentemente acabei por ler a obra "Relatos de um Gato Viajante" de Hiro Arikawa, que me agradou de sobremaneira. A premissa é relativamente simples, pouco pretensiosa mas extremamente bem trabalhada. Satoru, um sujeito louco por gatos precisa encontrar um novo lar para seu animal, dai inicia uma série de viagens há alguns de seus colegas de escola, na expectativa de que eles possam vir a ficar com Nana (no vernáculo: Sete, que é o nome do gato). Em cada viajem um vislumbre sobre o passado nos é dado, tanto de Satoru, quanto de seus colegas, bem como de seus dramas pessoais. 

Pouco tempo antes, havia eu terminado a leitura de "Cangaceiros". O autor nacional não é ruim, entretanto, não conseguiu me tocar. Mesmo uma história forte recheada de estupros, mortes, loucura e suicídio é contada de forma rústica, distante. Não inspira muitas emoções. Contudo, uma história bobinha sobre a inveja de um amigo para com o outro, o terceiro relato do gato, é contada de uma forma tão rica, tão expressiva, que os olhos chegam a soar. Técnica narrativa perfeita. 

Outra coisa que chamou-me atenção é que, apesar de algumas vagas referências budistas, a obra tem tem certa sonoridade cristã. Satoru é tão bom que parece quase um santo. E o final, a descrição do além, se assemelha mais ao céu católico que o indiferente "paraíso" impessoal budista. Conforme dissera anteriormente, todos os caminhos levam a Roma, incluso o da arte narrativa. Ainda assim, rezemos pela conversão da senhora Hiro Arikawa que, pelo modo que escreve, não está muito longe do reino dos céus.

Estas linhas se pretendem breves, não uma resenha, mas tão somente algumas notas e impressões, entretanto, não posso deixar de mencionar que, apesar de muito ter me agradado, o livro possui uma grave deficiência: é ordinário, comum de mais. Todos os personagens são ordinariamente comuns, apesar de Satoru ser irrealisticamente bom, senti falta daquele heroísmo varonil, de uma perspectiva épica, de algo afinal, extraordinário. Sim, eu conheço a teologia de Santa Terezinha e São Josemaria Escrivá a respeito da riqueza da vida ordinária, ainda assim, não posso deixar de alimentar certa sanha romântica, quase fascista, pelo combate. Nana talvez entenderia, pois como gato, conserva em seu interior o selvagem instinto ancestral

quarta-feira, 3 de junho de 2020

"Deus não nos deo hum espirito de pulsillanimidade: mas de fortaleza"


9ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (2Tm 1,1-3.6-12)
Salmo Responsorial (Sl 122)
Evangelho (Mc 12,18-27)

<Porque Deus não nos deo hum espirito de pulsillanimidade: mas de fortaleza, e de caridade, e de temperança. (2Tm 1, 7)>; esta frase deveria ecoar em nossos ouvidos e se manifestar em nossa vida. Entretanto, longe da coragem, da fortaleza do Espírito, tantos cristãos se portam de forma covarde, tíbia, pulsânime. Antes preferem escutar ao zeitgeist, o espírito do tempo, que não é senão o espírito burguês. A respeito destes, descreve-os Plínio Salgado em um de seus poemas:
O BURGUEZ É REDONDO

Ò burguez é redondo,
mesmo que sejo quadrado,
mesmo que seja comprido
ou curto.

Mesmo que seja alto ou baixo,
magro ou gordo,
corado ou pálido,
com bigodes ou sem bigodes,
é redondo.

Quer se deite com as galinhas
quer passe as noites nas boates,
quer amanheça no jogo,
é redondo.

Quer frequente as igrejas
ou a casa dos mulheres,
quer tome coca-cola ou uísque,
é redondo.

Quer seja comunista por esnobisrno,
ou fascista por egoísmo,
ou liberal por atavismo,
democrata-cristão, democrato-mação,
trabalhista, socialista, progressista,
o burguez é redondo.
A sua alma é redonda
tem a circunferência das moedas
e a forma das laranjas.

Seu coração é redondo e liso,
redondo o seu estilo, e o seu juízo,
a sua preocupação,
a sua admiração,
a sua paixão.

Tudo escorrega nele.
Tudo escorrega,
nada pega.

Sementes de ideal, de sonho, de heroísmo,
tudo deslisa em seu redondo egoísmo,
nada lhe fica, nem na superfície.

Redondo rola e facilmente passa,
desatento aos clamores da desgraça,
indiferente às dádivas da Graça. . .

Porque em tudo, e em face de tudo,
nas crises, nas revoluções, na guerra ou na paz,
com medo, ou sem medo,
consciente ou inconsciente,
procurando saber apenas quanto ganha
ou quanto goza,
o burguez, por hereditariedade,
ou por fatalidade,
ou por comodidade,
é redondo, redondo, redondo. . .

("Poemas do Século Tenebroso", Prefácio de Alfredo Leite, Rio de Janeiro, Livraria Clássica Brasileira, pp. 21-22)

Seremos nós homens redondos, fracos, medíocres, burgueses adaptados ao tempo, ou antes teremos ainda em nosso interior a chama da valentia e do heroísmo? Nossa vida neste mundo será uma prosa sem graça, ou uma poesia épica?

Pensemos nisso com coragem e ousadia.