terça-feira, 9 de junho de 2020

Da distinção entre sentimento e emoção - Carl Gustav Jung

Dr. J.A. Hadfield: [44] Em que sentido o senhor usa a palavra emoção? Coincide com o uso normal do termo sentimento? O senhor atribui algum significado especial à palavra emoção?

C.G. Jung: [45] É ótimo que se tenha colocado essa questão, pois normalmente surgem grandes confusões e mal-entendidos quanto ao uso do termo emoção. É lógico que todos têm o direito de fazer o uso que quiserem das palavras, mas na terminologia científica somos obrigados a nos ater a certas distinções a fim de não nos tornarmos obscuros. Os senhores devem estar lembrados de que me referi ao sentimento como função valorativa, sem atribuir-lhe nenhum significado especial. Estou convicto de que essa função é racional quando diferenciada, caso contrário, ela simplesmente acontece, apresentando todas as características arcaicas que podem ser resumidas na palavra “insensatez”. Repito que o sentimento consciente é uma função racional de discriminar valores.

[46] A palavra “emocional” é invariavelmente aplicada quando surge uma condição caracterizada por inervações fisiológicas. Assim, pode-se medi-las até certo ponto, não em suas manifestações psicológicas, mas físicas. É bem conhecida a teoria James-Lange sobre a emoção. Dou o mesmo significado à emoção e ao afeto. São a mesma coisa que nos afeta, que interfere em nós. Por ela somos carregados, atirados para fora de nós mesmos. O indivíduo fica tão alterado como se uma explosão o tivesse arremessado para fora dos limites da sua pessoa. E nesse momento existe uma condição física realmente tangível e observável. Eis, portanto, a diferença: o sentimento não apresenta manifestações físicas ou fisiológicas tangíveis, ao passo que a emoção se caracteriza por uma condição fisiológica alterada. A teoria James-Lange sobre a emoção diz que só acontece realmente uma emoção quando tomamos consciência das mudanças fisiológicas da condição geral. Tomemos, por exemplo, uma situação em que nos deparamos à beira de sentir raiva; temos certeza de que nos iremos enfurecer, depois sentimos o sangue subir à cabeça. Só então sentimos realmente raiva, nunca antes. Antes é apenas a antecipação mental do que está chegando, mas quando o sangue sobe, aí somos dominados pela raiva e imediatamente o corpo é afetado. E ao termos consciência de nossa fúria, ela aumenta duas vezes mais. Somente nessa hora é que mergulhamos numa emoção verdadeira. Mas quando temos um sentimento, temos controle. Estamos acima da situação, podendo dizer: “Eu gosto muito”, ou “Não gosto nada de tal coisa”; tudo está quieto e nada acontece. Podemos mesmo pacificamente dar a seguinte informação a uma pessoa: “Eu te odeio”. Mas quando se diz isso com rancor, então é a emoção que age. Dizê-lo calmamente não causa emoção em nós, nem no outro. As emoções são mais contagiantes, são verdadeiras desencadeadoras de epidemia mental. A multidão que, por exemplo, esteja presa de uma condição emocional, sensibiliza a todos os que nela se encontram, não havendo possibilidade de escapar. Mas os sentimentos dos outros, em absoluto, não nos concernem, e podemos observar que o sentimento diferenciado tem efeito calmo sobre nós, o que não se dá com a pessoa dominada por uma emoção; ela nos atinge porque o fogo continuamente dela se irradia. A chama da emoção está em seu rosto. Através de uma espécie de sincronização o sistema nervoso simpático se altera, fazendo-nos apresentar provavelmente os mesmos sinais dentro de algum tempo, o que não se dá com os sentimentos. Estou sendo claro?

Dr. Henry V. Dicks: [47] Continuando essa questão, posso perguntar-lhe qual é, a seu ver, a ligação entre afetos e sentimentos?

C.G. Jung: [48] O problema está apenas numa questão de grau. Se houver um valor obsessivamente forte, sua tendência é tornar-se emoção num dado momento, ou seja, quando atingir a intensidade suficiente para causar uma inervação fisiológica. Todo processo mental provavelmente cause ligeiras inervações desse tipo, e são realmente tão pequenas que não há meios de demonstrá-las. Existe entretanto um método bastante sensível de registrar as emoções em suas manifestações fisiológicas; trata-se do efeito psicogalvânico. Baseia-se na diminuição da resistência elétrica da pele sob a influência emocional, o que não se dá sob a influência do sentimento.

[49] Vou citar o seguinte fato como exemplo: fiz uma experiência com um antigo professor da Clínica, que funcionava como meu companheiro de teste num aparelho de mensuração psicogalvânica. Pedi-lhe que imaginasse algo que lhe fosse extremamente desagradável e acerca do qual eu não tivesse conhecimento. O objeto de sua imaginação deveria ser realmente doloroso. Tais experiências eram-lhe muito familiares e sua capacidade de concentração verdadeiramente poderosa. O professor se deteve num determinado fato, mas não se registrou alteração considerável na resistência elétrica da pele. Não surgiu o mínimo acréscimo de corrente. Aí me deu um “estalo”: Naquela manhã eu observara que alguma coisa de natureza extremamente desagradável estava acontecendo com o meu chefe. “Bem, vou tentar o golpe”, pensei. E disse-lhe: “Não é o caso com o Fulano de Tal?”, mencionando-lhe apenas o nome. Imediatamente houve um dilúvio de emoção. A reação anterior era apenas referente a um sentimento.

[50] É curioso que a dor histérica não cause contração das pupilas nem se faça acompanhar de inervação fisiológica, apesar de ser uma dor realmente intensa. A dor física, por outro lado, apresenta contração das pupilas. É possível experimentar sentimentos intensos sem alteração fisiológica, mas tão logo surjam as alterações fisiológicas o indivíduo fica possuído, dissociado; é atirado para fora de sua própria casa que estará, então, entregue aos demônios.

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 39-41.

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