sexta-feira, 5 de junho de 2020

Relatos de um Gato Japonês


Apesar de ter contato com a cultura japonesa já algum tempo, sobretudo por sua indústria pop (o mundo dos animes, jogos e mangás), no que diz respeito a literatura nipônica meu conhecimento é bem superficial, restrita há alguns ensaios de Yukio Mishima. Recentemente acabei por ler a obra "Relatos de um Gato Viajante" de Hiro Arikawa, que me agradou de sobremaneira. A premissa é relativamente simples, pouco pretensiosa mas extremamente bem trabalhada. Satoru, um sujeito louco por gatos precisa encontrar um novo lar para seu animal, dai inicia uma série de viagens há alguns de seus colegas de escola, na expectativa de que eles possam vir a ficar com Nana (no vernáculo: Sete, que é o nome do gato). Em cada viajem um vislumbre sobre o passado nos é dado, tanto de Satoru, quanto de seus colegas, bem como de seus dramas pessoais. 

Pouco tempo antes, havia eu terminado a leitura de "Cangaceiros". O autor nacional não é ruim, entretanto, não conseguiu me tocar. Mesmo uma história forte recheada de estupros, mortes, loucura e suicídio é contada de forma rústica, distante. Não inspira muitas emoções. Contudo, uma história bobinha sobre a inveja de um amigo para com o outro, o terceiro relato do gato, é contada de uma forma tão rica, tão expressiva, que os olhos chegam a soar. Técnica narrativa perfeita. 

Outra coisa que chamou-me atenção é que, apesar de algumas vagas referências budistas, a obra tem tem certa sonoridade cristã. Satoru é tão bom que parece quase um santo. E o final, a descrição do além, se assemelha mais ao céu católico que o indiferente "paraíso" impessoal budista. Conforme dissera anteriormente, todos os caminhos levam a Roma, incluso o da arte narrativa. Ainda assim, rezemos pela conversão da senhora Hiro Arikawa que, pelo modo que escreve, não está muito longe do reino dos céus.

Estas linhas se pretendem breves, não uma resenha, mas tão somente algumas notas e impressões, entretanto, não posso deixar de mencionar que, apesar de muito ter me agradado, o livro possui uma grave deficiência: é ordinário, comum de mais. Todos os personagens são ordinariamente comuns, apesar de Satoru ser irrealisticamente bom, senti falta daquele heroísmo varonil, de uma perspectiva épica, de algo afinal, extraordinário. Sim, eu conheço a teologia de Santa Terezinha e São Josemaria Escrivá a respeito da riqueza da vida ordinária, ainda assim, não posso deixar de alimentar certa sanha romântica, quase fascista, pelo combate. Nana talvez entenderia, pois como gato, conserva em seu interior o selvagem instinto ancestral

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