quarta-feira, 24 de junho de 2020

São João: a liturgia e as festas profanas


Natividade de São João Batista | Quarta-feira
Primeira Leitura (Is 49,1-6)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Segunda Leitura (At 13,22-26)
Evangelho (Lc 1,57-66.80)

Em tempos ordinários, o dia de hoje seria no calendário profano ocasião de uma grande festa. A festa de São João é uma data folk em nosso país, marcada por música, dança, comida à vontade bem como certa nostalgia para com a cultura caipira. É tempo onde o citadino faz cosplay da camponês. Desde uma perspectiva cultural, apesar de alguns excessos, no geral meu julgamento sobre este tipo de festa é positivo, entretanto...

Entretanto... ela revela a complexidade e as dificuldades da relação entre a Igreja e cultura. A festa não tem absolutamente nada haver com a personalidade de São João Batista, um homem austero, um asceta, que desde a infância vivia nos desertos. O Batista não marcaria presença de maneira alguma em tais festividades, preferindo antes se refugiar na solidão, fortalecer-se na penitência afim de discernir com mais clareza os desígnios divinos. 

Se assim o é, porque tal festança em dia aparentemente tão inoportuno? Coincidência de calendário, acabou que antigas celebrações cosmológicas relacionadas ao solstício, bem populares entre o povo roça, convergiam com a memória litúrgica de São João Batista, e na busca por cristianizar antigos costumes pagãos, acabou por se realizar tal sobreposição simbólica mais ou menos confusa...

Não pretendo eu reformar os costumes pátrios, tanto menos proferir um julgamento definitivo em tão complexa questão, a qual muitos homens mais sábios do que eu preferiram não tocar. Porém, não posso deixar de manifestar meu estranhamento, bem como certa perturbação ao notar que aqueles que no dia de hoje gritam: "Viva São João!" raramente tem em mente a vida de tão admirável figura, o qual fora chamado pela escritura de ''o maior dos homens nascido de mulher''.

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