quinta-feira, 23 de julho de 2020

"(...) porque o coração deste povo se endureceu"


16ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jr 2,1-3.7-8.12-13)
Salmo Responsorial (Sl 35)
Evangelho (Mt 13,10-17)

"(...) porque o coração deste povo se endureceu" - diz a Escritura. A Vulgata usa o termo corações insensíveis. Há algo em nosso interior, um desejo por Deus, uma espécie de marca nas profundezas de nosso ser que clama pelo absoluto. Deveríamos nós buscar escutar tais sussurros internos, investigar este enigma e nos abrirmos aos chamados do Senhor. Mas, tantas vezes ocorre como outrora ocorreu com Israel, nossos pecados, nossos vícios, as agitações do mundo, todo esse barulho vem a silenciar este apelo, a luta cotidiana vem insensibilizar nosso coração. E então, entre corações duros e insensíveis aos sinais divinos, estamos ante o vazio descrito por Augusto Frederico Schmidt...

VAZIO

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

"Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro" - Dom Athanasius

Diane Montagna: Quais são os elementos positivos que o senhor vê no Vaticano II?

Dom Athanasius: Se olharmos para o período da história da Igreja, foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico fez um apelo solene aos leigos para levar a sério seus votos batismais de lutar pela santidade. O capítulo em Lumem Gentium sobre os leigos é lindo e profundo. Os fiéis são chamados a viver seu Batismo e sua Confirmação como testemunhas corajosas da fé na sociedade secular. Esse apelo foi profético.

Imediatamente após o Concílio, esse apelo aos leigos foi abusado pelo establishment progressista da Igreja, e também por muitos funcionários e burocratas que trabalhavam nos escritórios e chancelarias da Igreja. Muitas vezes, os novos burocratas leigos não eram, eles mesmos, as testemunhas, mas ajudaram a destruir a fé nos Conselhos paroquiais e diocesanos e em outros comitês oficiais. Infelizmente, esses burocratas leigos eram, muitas vezes, enganados pelo clero, pelos bispos e curas de almas.
[...]

Diane Montagna: Obviamente, o Concílio continua controverso. Como podemos ultrapassar visões simplistas ou unilaterais?

Dom Athanasius: Ao abordar questões relacionadas ao Concílio Vaticano II e seus documentos, é preciso evitar interpretações forçadas ou o método da "quadratura do círculo", mantendo, é claro, todo o respeito e senso eclesiástico (sentire cum ecclesia). A aplicação do princípio da "hermenêutica da continuidade" não pode ser usada cegamente para eliminar inquestionavelmente quaisquer problemas, evidentemente, existentes. De fato, tal abordagem transmitiria artificialmente e pouco convincente a mensagem de que toda palavra do Concílio Vaticano II é infalível e em perfeita continuidade doutrinal com o Magistério anterior. Tal método violaria a razão, a evidência e a honestidade, e não honraria a Igreja, pois, mais cedo ou mais tarde (talvez depois de cem anos), a verdade será declarada como realmente é. Existem livros com fontes documentadas reproduzíveis, que fornecem informações historicamente mais realistas e verdadeiras sobre os fatos e as consequências no que diz respeito ao evento do Concílio Vaticano II, à edição de seus documentos e ao processo de interpretação de seus documentos e reformas nas últimas cinco décadas. Recomendo, por exemplo, os seguintes livros que podem ser lidos com proveito: Romano Americo, Iota Unum: Studio delle variazoni della Chiesa cattolica nel secolo XX; Roberto de Mattei (2009), O Concílio Vaticano II - Uma História Nunca Escrita (2013) ; Alfinso Gávels, El Invierno Eclesial (2011).

[...]

Diane Montagna: O senhor acha que, talvez, daqui a cinquenta anos, o Concílio seja visto como um passo para se livrar da heresia modernista na Igreja, porque, sem querer, expôs a infestação dessa heresia e mostrou-a como ela é?

Dom Athanasius: Sim, eu queria mencionar isso também. Deus sempre usa fenômenos negativos para produzir um bem ainda maior.

A atual participação vigilante e comprometida de leigos de mentalidade tradicional na vida da Igreja expressa o verdadeiro significado do Vaticano II em relação aos leigos. Nos tempos difíceis de perseguição sob o Comunismo, foram os leigos que transmitiram principalmente a pura fé Católica. Recebi a fé na Igreja clandestina de leigos de meus avós, de minha mãe, de meu pai e de outros homens e mulheres e leigos. Nosso próprio tempo é a hora das famílias Católicas, famílias numerosas. De fato, uma contribuição muito positiva do Concílio foi a bela doutrina da família como Igreja doméstica. Já encontramos esse pensamento nos Padres da Igreja, em Santo Agostinho, por exemplo, mas ele foi renovado pelo Concílio. Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro, quando a crise terminar, nas famílias Católicas renovadas, nas Igrejas domésticas e no testemunho corajoso da fé pelos leigos.

Quero mencionar outra contribuição positiva, o capítulo sobre Nossa Senhora em Lumen Gentium. Foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico falou de maneira tão ampla e profunda sobre o papel de Nossa Senhora na Igreja e na história da salvação. O título "Mãe da Igreja", Mater Ecclesiae, que o Papa Paulo VI deu a Nossa Senhora durante o Concílio, foi baseado nos ensinamentos da Lumen Gentium. Desde a época de Santo Irineu, Maria é chamada de "a nova Eva". O Papa Bento XVI ensinou: "Maria é a Mãe Espiritual de toda a humanidade, porque Jesus na Cruz derramou o seu sangue por todos nós e da Cruz ele confiou todos nós aos cuidados maternos dela" (Homilia, 1 de janeiro de 2007). Seu papel como Mãe Espiritual da humanidade manifesta-se por meio dessas funções maternas específicas, à medida que ela coopera "no trabalho do Salvador em restaurar a vida sobrenatural às almas" (Lumen Gentium, n°. 61), como Medianeira das graças, dispensando as graças de Cristo, e como Advogada, com seu poder intercessor.

Esses pontos - o chamado universal a santidade, o papel dos leigos na defesa e no testemunho da fé, a família como igreja doméstica e os ensinamentos sobre Nossa Senhora - são o que considero as contribuições verdadeiramente positivas e duradouras do Concílio Vaticano II. 
[...]

Diane Montagna: A Igreja definiu-se pela primeira vez, no Vaticano II, como a "serva da Palavra".

Dom Athanasius: Mas, pelo contrário, quando se olham as fotografias daquela época, o Vaticano II como demonstração de triunfalismo clerical. Não estou confortável com isso. O lema "Somos a Igreja" deixa alguns com a impressão de grande triunfalismo. Observa-se aqui uma falta de modéstia. Quando olho as fotos e os relatórios históricos do Concílio, tenho a impressão de que, de alguma maneira, os bispos se colocam no centro. No entanto, somos apenas servos.

O magistério ficou tão sobrecarregado nos últimos anos com um ultramontanismo não sadio que emergiu uma atmosfera de "eclesiocentrismo", que por sua vez é um antropocentrismo oculto, e isso não era saudável. O Concílio, que infelizmente foi uma demonstração de um raro "eclesiocentrismo" e "Magisteriocentrismo" - este Concílio propôs uma bela descrição do que é o Magistério, que nunca fora dado na história da Igreja. Pode ser encontrada em Dei Verbum, n°.10, onde está escrito: "O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve". Isso é lindo. Nunca li isso antes em um texto de outro Concílio.

[...]

Diane Montagna: Alguns que criticam o Concílio dizem que, embora haja aspectos positivos, é como um bolo com um pouco de veneno que precisa ser jogado fora.

Dom Athanasius: Ouvi essa comparação da Sociedade de São Pio X. Não podemos aceitá-la porque o Concílio Vaticano II foi um evento de toda a Igreja, Em um fenômeno importante, mesmo que haja pontos negativos, temos que manter uma atitude de respeito. Temos que avaliar e estimar tudo o que é real e verdadeiramente bom nos textos do Concílio, sem fechar, de maneira irracional e desonesta, os olhos da razão para o que é objetivo e evidentemente ambíguo e até errôneo em alguns textos. É preciso sempre lembrar que os textos do Concílio Vaticano II não são a Palavra de Deus inspirada, nem são julgamentos dogmáticos definitivos ou pronunciamentos infalíveis do Magistério, porque o próprio Concílio não tinha essa intenção. [...]


- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 146-152.

terça-feira, 21 de julho de 2020

"(...) jogai nossos pecados nas profundezas da mar"


16ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Mq 7,14-15.18-20)
Salmo Responsorial (Sl 84)
Evangelho (Mt 12,46-50)

<Uma vez mais, tende piedade de nós! Esquecei as nossas faltas e jogai nossos pecados nas profundezas da mar. (Mq 7, 19)>*

1. Está foi a prece do profeta Miqueias, conforme lemos a primeira leitura da missa. Embora não sejamos nós profetas, também podemos e devemos clamar a Deus por misericórdia para com o povo a qual pertencemos. A causa primeira desta pandemia são os nossos pecados. Aquilo que hoje sofremos é o justo castigo de nossas iniquidades.

2. "(...) jogai nossos pecados nas profundezas do mar", de algum modo o trecho final deste versículo deve também nos inspirar a fazer o mesmo. Devemos jogar nas profundezas do mar todos os instrumentos de pecado, tudo aquilo que nos afasta de Deus: maus livros, ídolos, materiais pornográficos, degenerações heréticas e etc. Quão belo foi quando se ecoou a notícia das estátuas da Pachamama precipitadas no Tibre! Outra alternativa é queimar tudo em uma bela fogueira quase como num doméstico auto de fé

*Obs. Hoje foi utilizada para estas reflexões tradução Bíblia na edição Ave Maria. Creio que neste trecho em específico foi a versão que expressou da maneira mais adequada o sentido do texto. 

domingo, 19 de julho de 2020

Descrença e ativismo


A Sagrada Escritura menciona uma infinidade de personagens, dado, porém, a estrutura narrativa, são narrados de forma secundária, com poucas informações a respeito em contraste com outros nos quais o autor sagrado se foca, tendo o papel de protagonistas da narrativa bíblica. Entretanto, não são meros personagens, mas vidas humanas, heróis sagrados, de tal forma que seria possível contar a mesma narrativa bíblica desde seu ponto de vista, como fossem eles os protagonistas. É a mesma narrativa, mas desde outra perspectiva. É o que acontece em O Apóstolo Tomé, filme italiano do ano 2000.

O princípio da Sola Escritura - tão alardado pelos protestantes mas curiosamente só levado as últimas consequências no cinema por um ateu comunista responsável por um dos melhores, senão o melhor, filme sobre Nosso Senhor Jesus Cristo (O Evangelho Segundo São Matheus) - é brutalmente contrariado nesta obra. Isto porque as informações bíblicas sobre São Tomé são escassas,  mesmo os dados da tradição, de forma que o cineasta utilizou de grande liberdade criativa. Temos assim uma ficção histórica de caráter bíblico-teológico, não o modo real ou provável como ocorreram as coisas, mas como poderia ter ocorrido desde a perspectiva do possível. É uma opção artística ousada, todavia extremamente interessante. Há análogos no romance O Mundo dos Anjos do exorcista Pe. José Antônio Fortea.

O filme se inicia com a crucificação. Tomé chega atrasado, no momento ondo se estão a levar o cadáver de Nosso Senhor ao Santo Sepulcro. Há todo um clima de animosidade dos romanos, de modo a querer se livrar do corpo, afim de por um fim nessa história de cristianismo. Entretanto, a intervenção de José de Arimateia e do soldado Longinus providenciam ao Senhor um lugar de descanso. Longinus, aliás, é um personagem extremamente interessante no filme, de algum modo perturbado por tudo aquilo que viu, vai aos poucos entrando no caminho da fé. Todavia, demora para a piedade cristã penetrar em seu temperamento militar romano. José de Arimateia é outro personagem extremamente interessante no filme, onde vemos seu drama interior e como precisa tomar coragem para se assumir discípulo de cristo ao invés de manter as escondidas a sua fé. 

Após o sepultamento, há entre judeus e romanos certa perplexidade, e o desejo de se livrar do corpo. A mesma perplexidade se dá entre os apóstolos, temendo que os inimigos de Cristo assim o façam, e desejosos de levar o cadáver para ser sepultado na Galileia. A primeira parte do filme trata da saga de Tomé, buscando apoio para retirar o corpo do sepulcro, até que.... Bem, os leitores conhecem a história bíblica, o sepulcro está vazio. Ressuscitou! Tomé. porém, tarda em acreditar, empreendendo uma longa busca pelo corpo, investigando quem poderia tê-lo levado. Os suspeitos? Caifás e os Judeus, Pilatos, ou mesmo os zelotas revolucionários de Barrabás.

O filme mostra Tomé como um homem corajoso, audacioso e impetuoso. Bem como o colégio dos apóstolos como uma organização extremamente viril, a tal ponto em que há brigas físicas que devem ser apartadas. Entretanto creio que o papel de Nossa Senhora na narrativa não foi trabalhado de forma adequada. Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a adição da personagem Joana, um quase par romântico de Tomé. Absolutamente desnecessário.


Até aqui fiz o que qualquer crítico faria, falei do filme, e o texto poderia ter terminado aí. Entretanto, antes de encerrar gostaria de fazer alguns paralelos com uma leitura recente, o livro Christus Vincit, de Dom Athanasius Schneider. Em determinada parte da obra, e de forma muito bem humorada, o bispo menciona sobre o perigo do ativismo. Com o enfraquecimento da fé e da vida de oração, parte do clero cai em uma atividade frenética, com reuniões, congressos, viagens e a produção de pilhas e pilhas de documentos inúteis. Destaco o seguinte trecho:

[...] O movimento Modernista, presente na Igreja desde o século XIX, usou o Concílio Vaticano II como catalizador para a expansão. Assim, depois do Concílio, a Igreja ficou imersa em uma profunda vitória do natural sobre o sobrenatural em muitos aspectos da vida da Igreja. No entanto, é apenas uma vitória aparente, já que a Igreja não pode ser superada pelos poderes do Inferno. Entretanto, temporariamente, estamos testemunhando um eclipse, uma ofuscação do sobrenatural, da primazia de Deus, da eternidade, da primazia da graça, da oração, da sacralidade, da oração. Todos esses sinais do sobrenatural foram de extremamente diminuídos na vida pastoral e na liturgia da Igreja em nossos dias. Em escala global, a crise mais profunda da Igreja é o enfraquecimento do sobrenatural. Isso se manifesta em uma inversão de ordem, de modo que a natureza, os assuntos temporais e o homem ganham supremacia sobre Cristo, sobre o sobrenatural, sobre a oração, sobre a graça e assim por diante. Esse é o problema. Como Jesus Cristo disse: "Sem Mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5). Toda a crise na Igreja, como vista depois do Concílio, manifestou-se em uma incrível inflação de atividade humana frenética para preencher o vazio ou o vácuo de oração e adoração, para preencher o vazio criado pelo abandono do sobrenatural. (pág. 132-133)

De alguma forma vemos isto no filme. Descrente, Tomé empreende uma longa jornada em busca do corpo de Jesus, a qual se mostra inútil. E então, quando se junta aos demais apóstolos para orar, ele O vê; toca os furos de sua mão e o lado que fora perfurado pela lança. Assim, o apóstolo e o bispo chegam a mesma conclusão: a primazia do sobrenatural, da oração, sobre o ativismo. Encerro o artigo uma vez mais citando a Dom Athanasius:

Um dos meios para sair desta crise, e que a curará, é a redescobrir o sobrenatural e dar primazia ao sobrenatural na vida da Igreja. Isso significa dedicar tempo à oração e à adoração Eucarística, dando tempo à beleza da Santa Missa e à liturgia, à prática da penitência corporal, à proclamação da verdade sobrenatural das Últimas Coisas e da verdade do Evangelho. Temos que colocar Cristo e Sua Revelação sobrenatural de novo ao centro, porque somente isso pode curar toda a humanidade. (pág. 137)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Da diferença entre liberdade e tolerância religiosa - Dom Athanasius

Diane Montagna: Vossa Excelência, gostaria de discutir o relacionamento da Igreja com as religiões não cristãs e o problema do indiferentismo religioso, ou seja, a opinião de que as diferenças de crenças religiosas são essencialmente sem importância. Em nossa discussão sobre o Islã, o senhor sugeriu que seria bom para países americanos e europeus olharem para o sistema no Cazaquistão em busca de harmonia social. O senhor acha esse tipo de diálogo inter-religioso eficaz?

Dom Athanasius: É eficaz em nosso país, sim. Não discutimos temas religiosos, mas a necessidade de vivermos pacífica e respeitosamente juntos na sociedade e de mantermos a harmonia na vida social e não abusarmos da religião como pretexto para introduzir-se a violência física na vida comum. A tolerância religiosa sempre fez parte da doutrina Católica, mesmo antes do Concílio. Entretanto, os católicos não podem ser a favor de que religiões que propagam seus erros, porque todas as religiões que não são católicas são errôneas e Deus não as aprova, e por isso são contrárias à vontade de Deus. Elas contém dentro de si veneno espiritual. É claro que não podemos permitir que o veneno espiritual se espalhe pela sociedade.

Portanto, os católicos devem tolerar outras religiões, mas não as promover. Essa é uma diferença essencial. Por mil e seiscentos anos desde que a Igreja conquistou sua liberdade sob Constantino, o Magistério ensinou interruptamente que não era permitido que erros religiosos fossem disseminados livremente na sociedade, porque as pessoas são vulneráveis a serem contaminadas. As autoridades civis tinham, portanto, o dever de evitar a propagação de tais doenças espirituais, e a Igreja deu instruções ao governo, porque a autoridade civil não tem competência em questões de verdade religiosa.

Diane Montagna: O senhor pode explicar a diferença, nesse contexto, entre tolerância e aprovação?

Dom Athanasius: Os Católicos devem tolerar até mesmo as religiões errôneas em vista do bem comum. Um estado Católico concede tolerância a ouras religiões para que elas possam existir, para que possam ter suas próprias igrejas ou casas de oração e escolas. No entanto, uma sociedade Católica oficial e um estado Católico não podem dar ás falsas religiões os mesmos direitos que são devidos a verdadeira religião Católica. Caso contrário, as falsas religiões espalhar-se-iam entre a população católica e levariam jovens e fracos a uma falsa religião.

[...]

Diane Montagna: Houve uma preocupação legítima por parte daqueles que redigiram Dignitatis Humanae que motivou suas formulações?

Dom Athanasius: A questão da liberdade religiosa foi alterada pela situação histórica concreta. Atualmente, vivemos em uma sociedade secularizada e não cristã, com governos ateístas, de fato, na Europa. Estamos em uma nova situação comparável à dos cristãos que viviam sob a sociedade pagã romana. Agora estamos entrando em uma espécie de perseguição. 

Mas não podemos mudar os princípios. Um princípio é que apenas a verdade tem direitos; outra é que toda a sociedade humana, e até governos, devem reconhecer a Cristo e adorá-lO. Essas verdades são imutáveis; são verdades reveladas, como afirma Pio XI, em Quas Primas. O estado, é claro, não deve interferir nos assuntos da Igreja. No entanto, como representantes do povo, eles devem adorar publicamente a Cristo, o verdadeiro Deus, e praticar a verdadeira religião, que é apenas a religião Católica. Essa é a constante verdade Católica, que nenhuma autoridade eclesiástica pode transformar em seu contrário. A aplicação concreta e prática dessa verdade em uma situação histórica alterada é outra questão.

Diane Montagna: O que o senhor quer dizer?

Dom Athanasius: A situação histórico-social mudou no sentido de que precisamos pedir ao governo, exatamente como se estivéssemos sob a perseguição romana: "por favor, dê-nos liberdade para adorar a Deus". Nesse sentido, não podemos dizer ao governo ateísta que só nos temos a verdadeira religião - porque eles são ateus e ririam disso, rejeitando tal argumento. Só podemos usar um argumento do ponto de vista do direito civil: "Conceda-nos liberdade religiosa!" Assim, como cidadãos, de um governo ateísta ou não cristão, todas as pessoas, independentemente de suas religiões, têm o direito ao culto de acordo com suas convicções, tendo os mesmos direitos civis em relação à religião.

- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 103-106.

terça-feira, 14 de julho de 2020

A cidade sob uma perspectiva teológica


15ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Is 7,1-9)
Salmo Responsorial (Sl 47)
Evangelho (Mt 11,20-24)

A liturgia de hoje é permeada pelo tema da cidade. A primeira leitura, um tanto quanto complexa devido a dificuldade de situar o contexto histórico para quem não conhece a história de Israel, trata da tentativa de invasão de Jerusalém pela Síria aliada a tribo de Efraim. Deus, pela boca do profeta anuncia que protegerá sua cidade, e arruinará as cidades do inimigo. O salmo canta louvores a cidade do Senhor. Para além de uma cidade física, da Jerusalém terrestre e histórica, devemos cantar o salmo desde uma perspectiva espiritual, tendo em vista que a cidade do Senhor é a Igreja. Por fim o evangelho repreende as cidades de Betsaida, Corazim e Cafarnaum por não o terem se convertido ante tão estrondosos milagres nelas manifesto. Aí se deve entender tais cidades em toda a sua concretude histórico-geográfica.

Não apenas as pessoas, mas também os lugares tem uma personalidade própria e um papel no plano da salvação. Cada cidade é guardada por um Arcanjo Custódio e será sujeita de algum modo ao julgamento no fim dos tempos. Pergunto ao leitor, como é a cidade onde mora? Conhece ele sua história, suas características peculiares, o ethos que lhe é próprio? No dia do juízo, será ela elevada os céus ou precipitada no inferno? Os integralistas falam muito sobre o conceito de municipalismo, para além de uma perspectiva política e administrativa, pensemos nisto, porém, desde uma abordagem teológica. Sejamos de alguma forma ''municipalistas'' conscientes da história da cidade em que nascemos, das cidades onde moramos e, de algum modo, procuremos colaborar em sua edificação espiritual, para que não sejam alvos de reprimendas no dia do juízo.

sábado, 11 de julho de 2020

Ministério de Cura

Encontrei meio que por acaso um antigo livro de autoria Pe. Alberto Gambarini aqui em casa: Cura das Enfermidades - Benefício de Jesus. Salvo engano o sacerdote possui ligações com o movimento carismático e apresenta um programa de televisão na Rede Vida. O livro, dirigido aos simples, fora escrito como um pequeno devocionário com instruções aos doentes de como proceder para pedir a cura de suas enfermidades. Apesar de proceder uma leitura pouco pretensiosa, me surpreendi. De forma geral considerava curas como ações extraordinárias, limitadas no tempo e espaço, e quase sempre um milagre associado a confirmação de uma verdade, ou a santidade do ministro. O sacerdote, porém, demonstra que o dom da cura é, em linguagem teológica gratum faciens, um dom derivado da missão salvífica que acompanha a Igreja durante toda a sua história. O enfermo deve, pois, recorrer a oração e a Igreja. De alguma forma, porém tanto mais restrita as doenças de natureza psicológica Carl Gustav Jung expressa uma opinião semelhante. O que não significa contudo negligenciar a assistência médica, quando se faz prudente recorrer a esta, conforme o padre ressalta em seu livro.

Chamou-me atenção certo trecho da obra, em que o autor relata um caso onde fora tomado por uma forte emoção a ante notícias de um antigo conhecido o qual lhe tinha feito muito mal, acabou o sacerdote por manifestar sintomas físicos: dores no braço, nas costas, enxaqueca e insônia. Com grande sabedoria e rastreando a raiz emocional de suas chagas físicas, recorreu a oração, pedindo a Deus a graça de perdoar este seu irmão. Após a oração, a emoção negativa se dissipou e com ela suas dores. 

Outro trecho deveras interessante aqui transcrevo, onde o Pe. Gambarini relata o caso da cura de uma senhora que intentava em recorrer a uma benzedeira, e destaca um aspecto um tanto quanto desconhecido do ministério sacerdotal, o poder de orar pelos doentes:
Nem sempre o povo tem presente que um dos serviços do padre é o de rezar pelos doentes. Talvez este seja o motivo por que tantos católicos praticantes buscam fora de sua religião a crua para as enfermidades.

Recordo-me de um caso curioso em que uma mulher me pediu autorização para ir a uma benzedeira. Pela graça de Deus, deixei-a contar sua estória, e ela se expressou nos seguintes termos: "Padre, há anos estou sofrendo do estômago. Sinto mal-estar toda vez que me alimento. Estou cansada de tomar remédios e continuar sempre sofrendo. Ouvi dizer que essa pessoa reza para as dificuldades do estômago. Procurei o senhor porque não quero fazer nada que desagrade a Deus."

Entendendo sua situação, não quis criar um sentimento de culpa adicional ao seu sofrimento. Somente lhe disse: "Vamos pedir a Deus que lhe permita tomar a melhor decisão, e também vou fazer uma oração de benção do estômago".

Passados alguns dias, a mulher me procurou para dizer que não fora ao benzedor e depois da oração seu estômago não a incomodava mais.

Recorramos ao Senhor na saúde e na doença e se Ele assim o quiser, e contribuir para a salvação de nossa alma, Ele nos atenderá.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A Vida e a Compreensão dos Símbolos Bíblico


14ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (Os 14,2-10)
Salmo Responsorial (Sl 50)
Evangelho (Mt 10,16-23)

1. Ovelhas, lobos, pombas e serpentes. De algum modo compreendemos, ou achamos que compreendemos o Evangelho de hoje. São imagens recorrentes e já extensamente explicadas. Todavia...

Certa feita li em um dicionário de símbolos a respeito do simbolismo do gato. Muito interessante, porém demasiado incompleto. Ao observar o gato se nota muitas outras características, muitos outros aspectos simbólicos os quais não foram escritos pelo autor. O que não nos escapa da compreensão da escritura, quando não experimentamos e observamos atentamente os símbolos que se refere? Vi  serpentes algumas poucas vezes, durante a ocasião estava com medo demais para observar atentamente, o significado de sua prudência me a vago. Quanto ao lobo, minha experiência se resume a filmes e documentários, aprecio tanto mais seu aspecto estético que é me forçoso entender o aspecto de perigo, tal qual se é destaque no Evangelho.

Escutamos pois as mesmas palavras, entretanto que diferença entre a clareza em que está se manifestava a um camponês de outrora e a um moderno citadino... O que para eles era algo óbvio e impactante, para nós é um tanto quanto nebuloso, o qual só se torna claro a custa de muito estudo ou da busca de experiências hoje inusuais.

2. O Evangelho também menciona a fuga. Percorrer cidade em cidade, afim de fugir das perseguições... Outra experiência a qual poucos de nós estamos acostumados. Temos uma perspectiva de estabilidade, é o modo como nossa mente burguesa funciona. Percorrer cidade em cidade, a mentalidade do viajante, algo a qual é-nos de difícil compreensão, tanto mais quando somado ao elemento da perseguição e do perigo iminente...

3. Li em algum lugar um sujeito ufanista se gabando que, dado aos avanços da ciência linguística e da pesquisa histórica, compreendemos hoje as escrituras melhor que outrora. Me parece que é o contrário, dado ao modo como nossa vida e experiência destoa dos antigos, a Bíblia Sagrada se torna para nós tanto quanto mais nebulosa, de forma que não fosse a tradição da Igreja, estaríamos no escuro.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Você já sentiu inveja dos pássaros?


Kino no Tabi é um anime inusual, dirigido a um público inusual. Talvez por isso não seja tão popular... Todavia, a opinião das massas nunca valeu de grande coisa desde os tempos de Platão...

A maioria dos animes segue uma narrativa linear, fortemente conectados uns aos outros, trabalhando seus personagens, sua construção de mundo, as regras internas de seu universo: este é o usual. Mas como disse, Kino no Tabi é inusual; o anime é cíclico em ato e infinito em potência.

A premissa é simples: acompanhamos a jornada Kino e seu companheiro Hermes (um moto falante). Neste mundo fictício cada cidade é como fosse um país. Não mais que três dias é o tempo em que nossa protagonista passa em cada um, sendo o suficiente para conhecer a cultura local, bem como um tempo seguro para que esta não se apegue a ponto de desejar ficar e desistir de sua jornada. Qual o objetivo da viagem? Isso fica para depois, falemos agora de Kino.

A protagonista, é tão inusual como o próprio anime. Para quem está acostumado ao esteriótipo shonen recheado de personagens enérgicos e determinados, Kino é demasiado passiva. Apesar de sua expertise com armas de fogo, ela passa quase sempre como mera observadora, alguém que se limita a observar os costumes locais, sem contudo tomar parte nos assuntos internos de cada país. É como fosse tal como você neste texto, um leitor, um expectador, e não um personagem do conflito. No momento oportuno, sempre de forma muito sútil, o anime nos sugere um porquê. 

Em cada episódio, em cada país, através de histórias um tanto quanto absurdas a narrativa explora temas diversos e profundamente complexos: autoridade, democracia, guerra, vingança, trabalho, expressão, tradição, sacrífico e sobretudo o porquê, o sentido da vida humana, não da humanidade como um todo, mas de cada vida em particular.

E toda essa riqueza de roteiro é acompanhada por uma arte característica bem como uma trilha sonora absolutamente linda e recursos cenográfico-expressivos marcantes.


Kino no Tabi - The Beautiful World figura hoje entre meus animes favoritos, o qual pretendo revisitar ainda mais algumas vezes, de forma que no futuro venha a comentar individualmente cada um dos temas abordados.

Por fim, pergunto-lhe caro leitor: você já sentiu inveja dos pássaros? 

Sempre que as pessoas veem pássaros voando através do céu, dizem que elas sentem vontade de ir em uma jornada..

terça-feira, 7 de julho de 2020

Constituíram reis sem minha aprovação, e chefes sem meu conhecimento


14ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Os 8,4-7.11-13)
Salmo Responsorial (Sl 113B)
Evangelho (Mt 9,32-38)

1. A democracia, sobretudo a democracia liberal, é um regime terrível. Acaba por mimar em demasia o povo, alimentando em demasia o orgulho do ''cidadão'', hipertrofiado em direitos, anoréxico em deveres.

Até que consigamos mudar o regime (se é que algum dia consigamos), resta-nos porém tentar manter nossa sanidade, adequando nosso pensar a visão real de povo e autoridade. Na primeira leitura, extraída do livro do profeta Oseias, entre as múltiplas repreensões que Deus faz Israel, encontramos o seguinte trecho: <Constituíram reis sem minha aprovação, e chefes sem meu conhecimento (Os 8, 4a)>. O povo não tem o poder de constituir chefes por si mesmo a revelia de Deus. O poder não emana do povo, como afirma erroneamente a constituição brasileira, mas antes de Deus. Ainda que seja lícito a plebe eleger alguém para liderá-los, este precisa ser apresentado a Deus. Não governamos nações, mas pode ser que tenhamos algum clube ou empresa, procuremos ter em vista a tradicional ideia de autoridade e sempre que for o caso de nomear um novo líder, que este seja apresentado a Deus em oração.

2. O Evangelho também trata das relações entre o povo e a autoridade, desde uma perspectiva ainda mais pura e espiritualista. Trata da autoridade espiritual, das vocações sacerdotais, e ensina-nos a rezar pelas vocações. Devemos fazê-lo sempre, devemos pedir a Deus por pastores para cuidar de seu rebanho. Que essa seja de modo especial nossa intenção no dia hoje durante as orações cotidianas, e que pelas vocações ofereçamos hoje a récita do Santo Terço.

Oração pelas Vocações
Senhor da Messe, Pastor do Rebanho,
Faz ressoar em nossos ouvidos
Teu forte e suave convite:
“Vem e segue-me!”
Derrama sobre nós o Teu Espírito,
Que Ele nos dê sabedoria
Para ver o caminho,
E generosidade para seguir Tua voz!

Senhor, que a messe não se perca
Por falta de operários!
Desperta nossas comunidades para a Missão!
Ensina nossa vida a ser serviço!
Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino
Na vida consagrada e religiosa!

Senhor, que o Rebanho não pereça
Por falta de Pastores!
Sustenta a fidelidade de nossos bispos,
Padres, diáconos e ministros!
Dá perseverança a nossos seminaristas!
Desperta o coração de nossos jovens
Para o ministério pastoral em Tua Igreja!

Senhor da Messe e Pastor do Rebanho,
Chama-nos para o serviço de teu povo.
Maria, Mãe da Igreja, modelo dos servidores do Evangelho,
Ajuda-nos a responder: “SIM”. Amém.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Do simbolismo do gato preto de olhos ímpares



De tempos em tempos costumo fazer alguns experimentos estéticos para com o design do blog. O leitor mais antigo deve ter se alegrado com muitas das versões anteriores, o mais recente talvez só conheça a atual configuração que deve se manter por muito tempo, uma vez que acredito ter conseguido expressar as nuances da filosofia deste espaço, expressão tanto mais perfeita até que muitos de meus textos. Todavia, há que se fazer algumas explicações. Qual o sentido do gato negro de olhos ímpares? Porque da cor roxo? E que raios de nome esquisito para um blog católico?

Tudo isso remete as distinções entre underground e mainstream. No universo da cultura existe uma espécie de centro, a superfície iluminada, a cultura respeitável. No contexto em que escrevo estas linhas, este é gestado sobretudo por duas instituições: mídia e universidades. Este centro, a "superfície" serve sobretudo aos interesses do "sistema", e apesar de ser um construto histórico, um recorte da realidade com uma origem específica no tempo e espaço, é tido por muitos como a totalidade, como o mundo real.  Para além disso, existe um universo escuro, oculto a maioria das pessoas, recheado de fatos que deveriam ter sido esquecidos, e conhecimentos um tanto quanto incômodos. É justamente este universo o qual pretendo explorar.

Sendo um tanto quanto mais concreto daquilo que constitui o mainstream ao qual pretendo constituir oposição e contraste, devo dizer que me refiro especificamente: ao desenvolvimento pós-moderno do mundo criado desde a Revolução Francesa (bem como a própria revolução), ao relativismo, ao feminismo, ao liberalismo, ao estado laico, à democracia liberal, à ilusão burguesa de estabilidade e a tolice de Kant, a perspectiva eclesial vaticanosegundista, enfim, bem poderia afirmar na expressão feliz de um pensador infeliz: "Contra o Mundo Moderno!". Em oposição a isto mergulhamos no submundo da cultura, recrutando, ordenando e "batizando" os elementos para gestar a Contrarrevolução, a que se pretende católica.

O suburbano contrasta com o centro, o roxo é uma cor litúrgica de exceção, utilizada durante a quaresma e o advento em contraste ao verde do tempo comum. O gato é um animal que expressa certa nobreza aristocrática, ao mesmo tempo em que manifesta grande liberdade, livre vaga pelas ruas durante a noite em suas aventuras pela cidade, os olhos ímpares, sua heterocromia, é uma mutação incomum e inusual e expressa o desejo deste espaço em estudar o incomum e o inusual, e trazer ao leitor alguns aspectos deste mundo oculto, oculto não porque o seja secreto e esotérico, mas porque contrasta com os interesses daqueles que hoje governam os destinos do mundo.