quarta-feira, 15 de julho de 2020

Da diferença entre liberdade e tolerância religiosa - Dom Athanasius

Diane Montagna: Vossa Excelência, gostaria de discutir o relacionamento da Igreja com as religiões não cristãs e o problema do indiferentismo religioso, ou seja, a opinião de que as diferenças de crenças religiosas são essencialmente sem importância. Em nossa discussão sobre o Islã, o senhor sugeriu que seria bom para países americanos e europeus olharem para o sistema no Cazaquistão em busca de harmonia social. O senhor acha esse tipo de diálogo inter-religioso eficaz?

Dom Athanasius: É eficaz em nosso país, sim. Não discutimos temas religiosos, mas a necessidade de vivermos pacífica e respeitosamente juntos na sociedade e de mantermos a harmonia na vida social e não abusarmos da religião como pretexto para introduzir-se a violência física na vida comum. A tolerância religiosa sempre fez parte da doutrina Católica, mesmo antes do Concílio. Entretanto, os católicos não podem ser a favor de que religiões que propagam seus erros, porque todas as religiões que não são católicas são errôneas e Deus não as aprova, e por isso são contrárias à vontade de Deus. Elas contém dentro de si veneno espiritual. É claro que não podemos permitir que o veneno espiritual se espalhe pela sociedade.

Portanto, os católicos devem tolerar outras religiões, mas não as promover. Essa é uma diferença essencial. Por mil e seiscentos anos desde que a Igreja conquistou sua liberdade sob Constantino, o Magistério ensinou interruptamente que não era permitido que erros religiosos fossem disseminados livremente na sociedade, porque as pessoas são vulneráveis a serem contaminadas. As autoridades civis tinham, portanto, o dever de evitar a propagação de tais doenças espirituais, e a Igreja deu instruções ao governo, porque a autoridade civil não tem competência em questões de verdade religiosa.

Diane Montagna: O senhor pode explicar a diferença, nesse contexto, entre tolerância e aprovação?

Dom Athanasius: Os Católicos devem tolerar até mesmo as religiões errôneas em vista do bem comum. Um estado Católico concede tolerância a ouras religiões para que elas possam existir, para que possam ter suas próprias igrejas ou casas de oração e escolas. No entanto, uma sociedade Católica oficial e um estado Católico não podem dar ás falsas religiões os mesmos direitos que são devidos a verdadeira religião Católica. Caso contrário, as falsas religiões espalhar-se-iam entre a população católica e levariam jovens e fracos a uma falsa religião.

[...]

Diane Montagna: Houve uma preocupação legítima por parte daqueles que redigiram Dignitatis Humanae que motivou suas formulações?

Dom Athanasius: A questão da liberdade religiosa foi alterada pela situação histórica concreta. Atualmente, vivemos em uma sociedade secularizada e não cristã, com governos ateístas, de fato, na Europa. Estamos em uma nova situação comparável à dos cristãos que viviam sob a sociedade pagã romana. Agora estamos entrando em uma espécie de perseguição. 

Mas não podemos mudar os princípios. Um princípio é que apenas a verdade tem direitos; outra é que toda a sociedade humana, e até governos, devem reconhecer a Cristo e adorá-lO. Essas verdades são imutáveis; são verdades reveladas, como afirma Pio XI, em Quas Primas. O estado, é claro, não deve interferir nos assuntos da Igreja. No entanto, como representantes do povo, eles devem adorar publicamente a Cristo, o verdadeiro Deus, e praticar a verdadeira religião, que é apenas a religião Católica. Essa é a constante verdade Católica, que nenhuma autoridade eclesiástica pode transformar em seu contrário. A aplicação concreta e prática dessa verdade em uma situação histórica alterada é outra questão.

Diane Montagna: O que o senhor quer dizer?

Dom Athanasius: A situação histórico-social mudou no sentido de que precisamos pedir ao governo, exatamente como se estivéssemos sob a perseguição romana: "por favor, dê-nos liberdade para adorar a Deus". Nesse sentido, não podemos dizer ao governo ateísta que só nos temos a verdadeira religião - porque eles são ateus e ririam disso, rejeitando tal argumento. Só podemos usar um argumento do ponto de vista do direito civil: "Conceda-nos liberdade religiosa!" Assim, como cidadãos, de um governo ateísta ou não cristão, todas as pessoas, independentemente de suas religiões, têm o direito ao culto de acordo com suas convicções, tendo os mesmos direitos civis em relação à religião.

- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 103-106.

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