domingo, 19 de julho de 2020

Descrença e ativismo


A Sagrada Escritura menciona uma infinidade de personagens, dado, porém, a estrutura narrativa, são narrados de forma secundária, com poucas informações a respeito em contraste com outros nos quais o autor sagrado se foca, tendo o papel de protagonistas da narrativa bíblica. Entretanto, não são meros personagens, mas vidas humanas, heróis sagrados, de tal forma que seria possível contar a mesma narrativa bíblica desde seu ponto de vista, como fossem eles os protagonistas. É a mesma narrativa, mas desde outra perspectiva. É o que acontece em O Apóstolo Tomé, filme italiano do ano 2000.

O princípio da Sola Escritura - tão alardado pelos protestantes mas curiosamente só levado as últimas consequências no cinema por um ateu comunista responsável por um dos melhores, senão o melhor, filme sobre Nosso Senhor Jesus Cristo (O Evangelho Segundo São Matheus) - é brutalmente contrariado nesta obra. Isto porque as informações bíblicas sobre São Tomé são escassas,  mesmo os dados da tradição, de forma que o cineasta utilizou de grande liberdade criativa. Temos assim uma ficção histórica de caráter bíblico-teológico, não o modo real ou provável como ocorreram as coisas, mas como poderia ter ocorrido desde a perspectiva do possível. É uma opção artística ousada, todavia extremamente interessante. Há análogos no romance O Mundo dos Anjos do exorcista Pe. José Antônio Fortea.

O filme se inicia com a crucificação. Tomé chega atrasado, no momento ondo se estão a levar o cadáver de Nosso Senhor ao Santo Sepulcro. Há todo um clima de animosidade dos romanos, de modo a querer se livrar do corpo, afim de por um fim nessa história de cristianismo. Entretanto, a intervenção de José de Arimateia e do soldado Longinus providenciam ao Senhor um lugar de descanso. Longinus, aliás, é um personagem extremamente interessante no filme, de algum modo perturbado por tudo aquilo que viu, vai aos poucos entrando no caminho da fé. Todavia, demora para a piedade cristã penetrar em seu temperamento militar romano. José de Arimateia é outro personagem extremamente interessante no filme, onde vemos seu drama interior e como precisa tomar coragem para se assumir discípulo de cristo ao invés de manter as escondidas a sua fé. 

Após o sepultamento, há entre judeus e romanos certa perplexidade, e o desejo de se livrar do corpo. A mesma perplexidade se dá entre os apóstolos, temendo que os inimigos de Cristo assim o façam, e desejosos de levar o cadáver para ser sepultado na Galileia. A primeira parte do filme trata da saga de Tomé, buscando apoio para retirar o corpo do sepulcro, até que.... Bem, os leitores conhecem a história bíblica, o sepulcro está vazio. Ressuscitou! Tomé. porém, tarda em acreditar, empreendendo uma longa busca pelo corpo, investigando quem poderia tê-lo levado. Os suspeitos? Caifás e os Judeus, Pilatos, ou mesmo os zelotas revolucionários de Barrabás.

O filme mostra Tomé como um homem corajoso, audacioso e impetuoso. Bem como o colégio dos apóstolos como uma organização extremamente viril, a tal ponto em que há brigas físicas que devem ser apartadas. Entretanto creio que o papel de Nossa Senhora na narrativa não foi trabalhado de forma adequada. Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a adição da personagem Joana, um quase par romântico de Tomé. Absolutamente desnecessário.


Até aqui fiz o que qualquer crítico faria, falei do filme, e o texto poderia ter terminado aí. Entretanto, antes de encerrar gostaria de fazer alguns paralelos com uma leitura recente, o livro Christus Vincit, de Dom Athanasius Schneider. Em determinada parte da obra, e de forma muito bem humorada, o bispo menciona sobre o perigo do ativismo. Com o enfraquecimento da fé e da vida de oração, parte do clero cai em uma atividade frenética, com reuniões, congressos, viagens e a produção de pilhas e pilhas de documentos inúteis. Destaco o seguinte trecho:

[...] O movimento Modernista, presente na Igreja desde o século XIX, usou o Concílio Vaticano II como catalizador para a expansão. Assim, depois do Concílio, a Igreja ficou imersa em uma profunda vitória do natural sobre o sobrenatural em muitos aspectos da vida da Igreja. No entanto, é apenas uma vitória aparente, já que a Igreja não pode ser superada pelos poderes do Inferno. Entretanto, temporariamente, estamos testemunhando um eclipse, uma ofuscação do sobrenatural, da primazia de Deus, da eternidade, da primazia da graça, da oração, da sacralidade, da oração. Todos esses sinais do sobrenatural foram de extremamente diminuídos na vida pastoral e na liturgia da Igreja em nossos dias. Em escala global, a crise mais profunda da Igreja é o enfraquecimento do sobrenatural. Isso se manifesta em uma inversão de ordem, de modo que a natureza, os assuntos temporais e o homem ganham supremacia sobre Cristo, sobre o sobrenatural, sobre a oração, sobre a graça e assim por diante. Esse é o problema. Como Jesus Cristo disse: "Sem Mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5). Toda a crise na Igreja, como vista depois do Concílio, manifestou-se em uma incrível inflação de atividade humana frenética para preencher o vazio ou o vácuo de oração e adoração, para preencher o vazio criado pelo abandono do sobrenatural. (pág. 132-133)

De alguma forma vemos isto no filme. Descrente, Tomé empreende uma longa jornada em busca do corpo de Jesus, a qual se mostra inútil. E então, quando se junta aos demais apóstolos para orar, ele O vê; toca os furos de sua mão e o lado que fora perfurado pela lança. Assim, o apóstolo e o bispo chegam a mesma conclusão: a primazia do sobrenatural, da oração, sobre o ativismo. Encerro o artigo uma vez mais citando a Dom Athanasius:

Um dos meios para sair desta crise, e que a curará, é a redescobrir o sobrenatural e dar primazia ao sobrenatural na vida da Igreja. Isso significa dedicar tempo à oração e à adoração Eucarística, dando tempo à beleza da Santa Missa e à liturgia, à prática da penitência corporal, à proclamação da verdade sobrenatural das Últimas Coisas e da verdade do Evangelho. Temos que colocar Cristo e Sua Revelação sobrenatural de novo ao centro, porque somente isso pode curar toda a humanidade. (pág. 137)

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