quarta-feira, 22 de julho de 2020

"Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro" - Dom Athanasius

Diane Montagna: Quais são os elementos positivos que o senhor vê no Vaticano II?

Dom Athanasius: Se olharmos para o período da história da Igreja, foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico fez um apelo solene aos leigos para levar a sério seus votos batismais de lutar pela santidade. O capítulo em Lumem Gentium sobre os leigos é lindo e profundo. Os fiéis são chamados a viver seu Batismo e sua Confirmação como testemunhas corajosas da fé na sociedade secular. Esse apelo foi profético.

Imediatamente após o Concílio, esse apelo aos leigos foi abusado pelo establishment progressista da Igreja, e também por muitos funcionários e burocratas que trabalhavam nos escritórios e chancelarias da Igreja. Muitas vezes, os novos burocratas leigos não eram, eles mesmos, as testemunhas, mas ajudaram a destruir a fé nos Conselhos paroquiais e diocesanos e em outros comitês oficiais. Infelizmente, esses burocratas leigos eram, muitas vezes, enganados pelo clero, pelos bispos e curas de almas.
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Diane Montagna: Obviamente, o Concílio continua controverso. Como podemos ultrapassar visões simplistas ou unilaterais?

Dom Athanasius: Ao abordar questões relacionadas ao Concílio Vaticano II e seus documentos, é preciso evitar interpretações forçadas ou o método da "quadratura do círculo", mantendo, é claro, todo o respeito e senso eclesiástico (sentire cum ecclesia). A aplicação do princípio da "hermenêutica da continuidade" não pode ser usada cegamente para eliminar inquestionavelmente quaisquer problemas, evidentemente, existentes. De fato, tal abordagem transmitiria artificialmente e pouco convincente a mensagem de que toda palavra do Concílio Vaticano II é infalível e em perfeita continuidade doutrinal com o Magistério anterior. Tal método violaria a razão, a evidência e a honestidade, e não honraria a Igreja, pois, mais cedo ou mais tarde (talvez depois de cem anos), a verdade será declarada como realmente é. Existem livros com fontes documentadas reproduzíveis, que fornecem informações historicamente mais realistas e verdadeiras sobre os fatos e as consequências no que diz respeito ao evento do Concílio Vaticano II, à edição de seus documentos e ao processo de interpretação de seus documentos e reformas nas últimas cinco décadas. Recomendo, por exemplo, os seguintes livros que podem ser lidos com proveito: Romano Americo, Iota Unum: Studio delle variazoni della Chiesa cattolica nel secolo XX; Roberto de Mattei (2009), O Concílio Vaticano II - Uma História Nunca Escrita (2013) ; Alfinso Gávels, El Invierno Eclesial (2011).

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Diane Montagna: O senhor acha que, talvez, daqui a cinquenta anos, o Concílio seja visto como um passo para se livrar da heresia modernista na Igreja, porque, sem querer, expôs a infestação dessa heresia e mostrou-a como ela é?

Dom Athanasius: Sim, eu queria mencionar isso também. Deus sempre usa fenômenos negativos para produzir um bem ainda maior.

A atual participação vigilante e comprometida de leigos de mentalidade tradicional na vida da Igreja expressa o verdadeiro significado do Vaticano II em relação aos leigos. Nos tempos difíceis de perseguição sob o Comunismo, foram os leigos que transmitiram principalmente a pura fé Católica. Recebi a fé na Igreja clandestina de leigos de meus avós, de minha mãe, de meu pai e de outros homens e mulheres e leigos. Nosso próprio tempo é a hora das famílias Católicas, famílias numerosas. De fato, uma contribuição muito positiva do Concílio foi a bela doutrina da família como Igreja doméstica. Já encontramos esse pensamento nos Padres da Igreja, em Santo Agostinho, por exemplo, mas ele foi renovado pelo Concílio. Penso que o verdadeiro fruto do Concílio nascerá no futuro, quando a crise terminar, nas famílias Católicas renovadas, nas Igrejas domésticas e no testemunho corajoso da fé pelos leigos.

Quero mencionar outra contribuição positiva, o capítulo sobre Nossa Senhora em Lumen Gentium. Foi a primeira vez que um Concílio Ecumênico falou de maneira tão ampla e profunda sobre o papel de Nossa Senhora na Igreja e na história da salvação. O título "Mãe da Igreja", Mater Ecclesiae, que o Papa Paulo VI deu a Nossa Senhora durante o Concílio, foi baseado nos ensinamentos da Lumen Gentium. Desde a época de Santo Irineu, Maria é chamada de "a nova Eva". O Papa Bento XVI ensinou: "Maria é a Mãe Espiritual de toda a humanidade, porque Jesus na Cruz derramou o seu sangue por todos nós e da Cruz ele confiou todos nós aos cuidados maternos dela" (Homilia, 1 de janeiro de 2007). Seu papel como Mãe Espiritual da humanidade manifesta-se por meio dessas funções maternas específicas, à medida que ela coopera "no trabalho do Salvador em restaurar a vida sobrenatural às almas" (Lumen Gentium, n°. 61), como Medianeira das graças, dispensando as graças de Cristo, e como Advogada, com seu poder intercessor.

Esses pontos - o chamado universal a santidade, o papel dos leigos na defesa e no testemunho da fé, a família como igreja doméstica e os ensinamentos sobre Nossa Senhora - são o que considero as contribuições verdadeiramente positivas e duradouras do Concílio Vaticano II. 
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Diane Montagna: A Igreja definiu-se pela primeira vez, no Vaticano II, como a "serva da Palavra".

Dom Athanasius: Mas, pelo contrário, quando se olham as fotografias daquela época, o Vaticano II como demonstração de triunfalismo clerical. Não estou confortável com isso. O lema "Somos a Igreja" deixa alguns com a impressão de grande triunfalismo. Observa-se aqui uma falta de modéstia. Quando olho as fotos e os relatórios históricos do Concílio, tenho a impressão de que, de alguma maneira, os bispos se colocam no centro. No entanto, somos apenas servos.

O magistério ficou tão sobrecarregado nos últimos anos com um ultramontanismo não sadio que emergiu uma atmosfera de "eclesiocentrismo", que por sua vez é um antropocentrismo oculto, e isso não era saudável. O Concílio, que infelizmente foi uma demonstração de um raro "eclesiocentrismo" e "Magisteriocentrismo" - este Concílio propôs uma bela descrição do que é o Magistério, que nunca fora dado na história da Igreja. Pode ser encontrada em Dei Verbum, n°.10, onde está escrito: "O Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serve". Isso é lindo. Nunca li isso antes em um texto de outro Concílio.

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Diane Montagna: Alguns que criticam o Concílio dizem que, embora haja aspectos positivos, é como um bolo com um pouco de veneno que precisa ser jogado fora.

Dom Athanasius: Ouvi essa comparação da Sociedade de São Pio X. Não podemos aceitá-la porque o Concílio Vaticano II foi um evento de toda a Igreja, Em um fenômeno importante, mesmo que haja pontos negativos, temos que manter uma atitude de respeito. Temos que avaliar e estimar tudo o que é real e verdadeiramente bom nos textos do Concílio, sem fechar, de maneira irracional e desonesta, os olhos da razão para o que é objetivo e evidentemente ambíguo e até errôneo em alguns textos. É preciso sempre lembrar que os textos do Concílio Vaticano II não são a Palavra de Deus inspirada, nem são julgamentos dogmáticos definitivos ou pronunciamentos infalíveis do Magistério, porque o próprio Concílio não tinha essa intenção. [...]


- Dom Athanasius Schneider e Diane Montagna. "Christus Vincit: o triunfo de Cristo sobre as trevas destes tempos"; p. 146-152.

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