sábado, 31 de outubro de 2020

Demonologia na Patrística

A presença do demónio na doutrina dos Santos Padres é tal que se poderia fazer uma tese de doutoramento sobre o tema em cada um deles. A doutrina do Novo Testamento aparece neles repetidamente ampliada pelo interesse que têm de pesquisar na natureza dos demônios, no pecado que cometeram, bem como na sua incidência na vida espiritual. Como é lógico pensar - tendo em conta a doutrina do Novo Testamento - não existe um único Padre que tenha duvidado da existência do demônio, bem como do seu carácter pessoal. A crença nele é pacífica e universal, algo de que não se pode duvidar. Para eles, seria impensável levantar-se a dúvida. Como disse Gozzelino, a realidade dos espíritos bons e maus que influenciam no mundo constitui um dado absolutamente óbvio e pacífico, que nas suas consequências se manifesta como um dado de fé e de vida cristã.

Uma vez que devido à extensão desta obra não podemos apresentar um estudo de cada um dos Padres, limitamo-nos a fazer um resumo da sua doutrina, assinalando o contributo específico dos mesmos. Já Melitão de Sardes escreveu um livro sobre o demónio no séc. II.

Sobre esta matéria deve dizer-se que os Padres tiram a sua doutrina da Bíblia, embora se descubra também neles uma certa influência judaica e até helenística. Já no século IV, quando se abandonou a leitura dos apócrifos, se verifica nos Padres, comenta Lavatori alguma purificação das fantasias demonológicas para se concentrarem expressamente no que a Bíblia ensina e diz.

Os Padres apologetas desenvolvem uma doutrina sobre o demónio numa dupla direcção: declarando que a idolatria, a magia e a adivinhação são meios com os quais os demónios procuram impedir a evangelização cristã, e explicando também que a origem do mal não se deve à má natureza do homem criado, mas ao mau uso que o primeiro homem fez da sua liberdade.

Para rebater o gnosticismo, era preciso esclarecer a questão da origem do mal. E é neste sentido que os Padres apologetas tratam o pecado original e a acção sedutora do demónio. Mais à frente Orígenes adverte: «É impossível conhecer a origem do mal sem conhecer os ensinamentos sobre o diabo e sobre os seus anjos, isto é, o que ele foi antes de se tomar diabo, e também a razão pela qual os seus anjos participaram na sua apostasia».

Uma coisa que não levanta dúvida nos ensinamentos dos Santos Padres é que os demónios são criaturas de Deus que se revoltaram contra Ele. Isto era já ponto assente pela Sagrada Escritura, mas os Padres têm que voltar frequentemente a este ponto para se defenderem do maniqueísmo dos primeiros séculos. Santo Ireneu, por exemplo, tem de defender a criaturalidade dos anjos contra a gnose do século II, rejeitando a identificação que esta fazia dos diabos com os eons divinos de cariz neoplatónico. Os apologetas do século II vão também nessa mesma direcção.

Santo Agostinho teve que se confrontar com a concepção maniqueísta (que ele tinha partilhado antes da sua conversão) e que hipostasiava o mal fazendo dele um princípio eterno e subsistente com a mesma essência que o princípio do bem. Santo Agostinho explica que o mal não é uma substância (pois toda a substância criada por Deus é boa), mas uma deficiência que existe nos seres criados. É a privação de um bem devido que, como privação, acontece em algo que por si só é bom. Assim, o demónio foi criado bom. Era um anjo bom que prevaricou com o seu pecado. Tornou-se mau, portanto, por causa do mau uso que fez da sua liberdade.

Por isso, os Santos Padres falam extensamente do pecado dos anjos. E é neste capítulo que se nota melhor a influência judaica. Baseando-se no primeiro livro de Henoc, a teoria inicial dos Padres para explicar o pecado angélico é apresentá-lo como um pecado de luxúria (pecado cometido com as filhas dos homens). Assim o explicam Santo Ireneu, Justino, Atenágoras, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Lactâncio, entre outros.

A partir do século IV, comentam Flick e Alszeght, os Santos Padres realizam uma reflexão mais profunda sobre a natureza espiritual dos anjos que rebate a explicação anterior. São João Crisóstomo, por exemplo, diz que é blasfémia falar do pecado da luxúria a partir do Gn 6,4, dado que os anjos pecaram antes de Adão e que a sua natureza incorpórea não permitia esse tipo de pecado.

Por isso se vai impondo entre os Padres uma segunda teoria que explica o pecado dos anjos relativamente à dignidade concedida por Deus ao homem. Alguns anjos, dizem, tiveram inveja do homem e recusaram reconhecer e reverenciar nele a imagem de Deus. Assim se explicam Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Gregório de Nisa e Santo Agostinho, entre outros.

Já no século XVI, Suarez explicou que a origem do pecado dos anjos foi a inveja contra o Filho de Deus, Deus e Homem, enquanto se negaram a reconhecer n'Ele a sua cabeça. Esta explicação, não o podemos negar, é no mínimo sugestiva, dado que o homem ia participar, nos planos de Deus, da glória do Seu Filho como centro da história e do cosmos. Esta teoria, assim exposta, estava muito próxima da terceira opinião dos Padres que explicam a queda dos anjos como um pecado de soberba. Seria o desejo de serem iguais a Deus, comprazendo-se desordenadamente da sua própria perfeição. Assim pensaram Tertuliano, Orígenes, Gregório Nazianzeno, Atanásio, Cirilo de Alexandria, Ambrósio e Agostinho entre outros. Os anjos tinham sido criados para servir Cristo e o seu plano de salvação para os homens.

H. Spaemann, um filósofo dos nossos dias, junta-se às teorias dos Padres ao afirmar: «Deus incarnou no homem e a condenação de Satanás é causada por ele ter rejeitado a decisão de Deus que não só Se quis tornar homem, viver como homem e, deste modo, ajudar os homens, mas quis também encomendar aos anjos a tarefa de estarem ao serviço dos homens».

Os Padres, logicamente, foram mais além da Sagrada Escritura com a intenção de explicar e compreender (por outro lado, essa intenção é lógica) a queda e o pecado dos anjos.

Outra das características da doutrina dos Padres sobre o demónio é a perspectiva cristológica com que tratam o tema. O problema do mal, observa Lavatori, não se soluciona apenas a partir da perspectiva filosófica, que acha que ele é a privação de um bem devido, mas soluciona-se também a partir de Cristo. Os Padres sublinham sempre a vitória de Cristo. S. Justino, por exemplo, mostra sempre a vitória de Cristo sobre o demónio não apenas na altura das tentações, mas sobretudo na paixão e na ressurreição. Santo Ireneu, que fala do demónio como de um anjo apóstata, diz que Cristo entrando na guerra que este inimigo fez contra nós, teve que se enfrentar com ele no início do seu ministério. Santo Agostinho, no livro De civitate Dei, apresenta a luta entre as duas cidades como uma luta que tem origem no céu, quando os anjos se dividiram. Vê no pecado como que uma espécie de corpo místico do diabo. Vencido por Cristo, o diabo continua ainda a lutar contra a Igreja.

A demonologia dos Padres insere-se nitidamente no mistério de Cristo. Santo Ireneu, por exemplo, contrapõe a acção redentora de Cristo à obra negativa realizada por Adão. E a redução cristológica que o tema apresenta no Novo Testamento é algo que também se nota nos Padres.  

O problema do mal só encontra a sua resposta cabal e definitiva em Cristo.

É neste contexto que os Padres apresentam Cristo como Aquele que paga ao demónio os direitos que ele tinha adquirido sobre o homem. Mas é necessário distinguir sempre esta forma de entender o mistério (forma discutível) da afirmação de fundo segundo a qual Cristo nos redimiu do poder do diabo.

Os Padres sublinham constantemente a redenção como libertação de Satanás. Este assunto, comenta Galot, apresenta-se de várias formas. É raro que se apresente o sangue de Cristo como algo que se paga ao demónio, «a quem tínhamos sido vendidos pelos nossos pecados», comenta Santo Ambrósio, o que é dificilmente compatível com o princípio de que o sacrifício de Cristo foi oferecido ao Pai e não ao demónio. Ora bem, é frequente nos Padres a teoria do direito do demónio, que Cristo satisfez com a sua redenção.

Os Padres, lembra Lukken, descreveram o domínio de Satanás sobre a humanidade, a partir do pecado original, com a imagem da escravidão, tirada do mundo profano. Neste sentido, dizem que o demónio se apoderou da humanidade, e adquiriu direito de propriedade sobre ela a partir do pecado de Adão. Deste modo, chegam à teoria dos iura diaboli, de acordo com a qual a redenção de Cristo aparece como um resgate, no sentido literal da palavra. 

Este tema está também presente em Ireneu e em Orígenes. É uma teoria que, através de S. Jerónimo passa para o Ocidente e encontramo-la principalmente em Santo Ambrósio. De acordo com ele, o homem caído tem uma dívida com Satanás. Cristo redimiu-nos dessa dívida, de maneira que agora somos d' Ele devedores. É uma teoria que, com matizes diversos, se tornou clássica e podemos encontrá-la em João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Teodoreto e João Damasceno.

Em Santo Agostinho, essa teoria está unida à ideia do abuso do poder realizado pelo demónio, que quis exercer sobre Cristo um direito que tinha apenas sobre os pecadores. 

Segundo Galot, esta teoria propagou-se, não só na teologia latina, como na oriental. Galot relembra ainda como se espalhou entre os Padres a teoria da desforra: era conveniente que Deus obtivesse a vitória do mesmo modo que o demónio obteve a sua; isto é, por meio de um homem nascido de mulher. Nessa teoria, surge também por vezes, a ideia da armadilha lançada ao demónio.

Sem dúvida, que todas estas imagens apresentam grande dose de metáfora. Os próprios Padres, quando falam dos direitos do demónio, utilizam termos como tamquam, velut, que relativizam um pouco as suas expressões, porque, como comenta Lukken, «em última análise, o domínio de Satanás depende do próprio Deus, que entregou o homem a Satanás depois da queda». Existe, portanto, muita metáfora em tudo isto, mas, «apesar das suas imperfeições - comenta Galot - os textos patrísticos contêm um dado que não se pode deixar de ter em conta. Sublinham um aspecto do drama redentor que o pensamento moderno muitas vezes tem tendência a passar por alto ou a deixar esquecido: a luta com os poderes espirituais do mal. Ao insistirem nesta luta, os Padres não fazem senão recolher uma ideia essencial da Escritura: Cristo libertou a humanidade por meio do triunfo sobre Satanás despojando-o do seu poder escravizante. As metáforas patrísticas tendem a colocar-nos diante dos olhos a grande verdade de que a nossa salvação foi conseguida através da vitória de Cristo sobre aquele que submetera a humanidade à servidão do pecado. Assim como antes o demónio tinha arrancado a humanidade da amizade divina, Cristo libertou a humanidade do poder do demónio. O demónio foi vencido ali mesmo onde tinha triunfado provisoriamente: no coração do homem».

Juntamente com os ensinamentos anteriores, expressos às vezes através de metáforas, existe nos Padres a convicção, de que por causa do pecado original, o homem fica sujeito ao demónio enquanto não for regenerado nas águas do baptismo. É esta a ideia que os Padres desenvolveram, principalmente, em ligação com o Baptismo.

Não nos podemos alongar sobre este tema que desenvolvemos noutro lugar. À maneira de exemplo limitamo-nos a citar dois textos: um de Santo Ireneu e outro de Santo Agostinho. Santo Ireneu falou deste modo: «Nós éramos os seus vasos e a sua casa (do diabo), estando como estávamos em apostasia. Porque nos usava à sua vontade, e o espírito imundo habitava em nós». E mais à frente acrescenta: «Uma vez que no início o diabo persuadiu o homem a transgredir o preceito, manteve-o sobre o seu poder, mas o seu poder é transgressão e apostasia e com elas amarrou o homem ... Depois o Verbo prendeu o demónio como seu escravo e destruiu os seus vasos, quer dizer, aqueles que o diabo dominava e dos quais se servia injustamente. E assim ficou justamente cativo aquele que tinha prendido o homem injustamente, e o homem que antes tinha estado cativo foi libertado do poder do possuidor, segundo a misericórdia de Deus Pai».

Textos como estes são abundantes no próprio santo Ireneu e nos apologistas, Tertuliano, Orígenes, Ambrósio, Ambrosiaster e em Agostinho entre outros. Dada a intenção deste capítulo, limitamo-nos a outro texto de Agostinho: «Fica nelas (nas crianças) o pecado original, pelo qual ficam cativas sob o poder do diabo, até serem redimidas pelo sangue de Cristo no banho da regeneração, e deste modo passem para o Reino do seu Redentor, sendo vencido o poder do seu dominador, e dando­ -lhes o poder de que, de filhos da ira que eram, passem a ser Filhos de Deus». Os textos de Santo Agostinho que se poderiam citar são inúmeros.

Nesta altura queremos apenas realçar que este é em muitos casos o modo como os Padres entendem o pecado original. O P. Orbe, ao estudar Ireneu, escreveu, por exemplo: «O drama do pecado original não acontece per se entre Deus e o homem, mas entre Deus e o anjo do mal . O homem revela o drama, como a primeira ocasião avaramente aproveitada pelo diabo. Mas já aqui se percebe o desenlace. Acabará com o bem do homem e o mal do diabo, para vitória de Deus».

É verdade que o diabo, já vencido por Cristo, continua a actuar no mundo e na Igreja. Está condenado e vencido, mas continua a agir ainda contra a Igreja até à segunda vinda de Cristo, altura em que será definitivamente expulso para o inferno. Pois bem, a condenação do demónio, já é definitiva. Foi Orígenes quem, no entanto, pensou que o inferno, o inferno dos demónios e dos condenados, seria algo puramente temporal. Por certo que no século III, Orígenes introduz a doutrina da apokatástasis, de acordo com a qual os ímpios, depois de um castigo temporal, ficariam definitivamente salvos. A maior parte dos Padres contemporâneos de Orígenes mantiveram, no entanto, a doutrina tradicional. E o pensador de Alexandria foi condenado no sínodo Endemousa (em Constantinopla) no ano 543, depois de Padres como Santo Agostinho terem rejeitado completamente a sua doutrina como contrária às palavras de Cristo. A partir do referido Sínodo, o consentimento dos Padres, tanto orientais como ocidentais, foi unânime. S. Jerónimo, que a princípio tinha defendido a ideia de Orígenes, mais tarde atacou-a com decisão.

Finalmente, na doutrina dos Padres sobre o demónio aparece uma preocupação espiritual no sentido de que se preocupam pela influência que o demónio tem nas almas e na direcção espiritual. Os Padres, principalmente no meio monástico, dão conselhos aos cristãos na luta contra as forças das trevas. Evágrio Pôntico e Cassiano são, talvez, os autores mais importantes na demonologia monástica, comenta Iraburu. Os demónios são anjos caídos que atacam os homens nos seus níveis mais vulneráveis - corpo, sentidos, imaginação - mas que nada podem sobre o homem se este não lhes der o seu consentimento. Para o seu cerco servem-se principalmente dos logismoi - pensamentos, paixões, impulsos desordenados e persitentes - que se podem reduzir a oito: gula, luxúria, avareza, tristeza, cólera, preguiça, vaidade e orgulho. Mas nos seus ataques não podem ir para além do que Deus permite.

As tentações do demónio são subtis, dado que ele sabe revestir-se de anjo de luz e mostrar o mal como bem.

O cristão deve resistir com «a armadura de Deus» que o apóstolo descreve (Ef 6, 1 1 -18), e muito especialmente com a Palavra divina, a oração e o jejum, que foram as armas com que Cristo resistiu e venceu nas tentações do deserto. Mas deve resistir sobretudo apoiando-se em Jesus Cristo e nas suas legiões de anjos (Mt 26,53). Como disse S. Jerónimo, «O próprio Jesus, nosso chefe, tem uma espada, e avança sempre à nossa frente, vencendo os nossos adversários. Ele é o nosso chefe: lutando Ele, vencemos nós».

Os santos padres entraram certamente na reflexão quanto à natureza dos demónios. Neles é completamente rejeitada toda a concepção dualista do diabo já que é uma criatura de Deus. Por outro lado, orientam-se progressivamente para uma concepção espiritual da sua natureza, comenta Lavatori, uma vez que na sua origem são considerados como anjos bons. São portanto, seres espirituais. No entanto, às vezes é-lhes atribuído um corpo aéreo e subtil, com certeza para justificar as suas aparições. «A concepção mais comum - comenta Lavatori -é a de uma imaterialidade relativa, no sentido de que os demónios têm um corpo mais espiritual que o humano, mas não se podem definir como privados de toda a dimensão material ». Como diria Santo Agostinho, têm um corpo aéreo.

Uma vez que não têm a visão do Verbo, têm um escasso conhecimento de Deus e dos homens, embora tenham uma inteligência e poder superiores. Não podem conhecer o espírito interior do homem, mas antes conjecturá-lo pelos sinais externos, diz Santo Agostinho.

Usam o seu poder, superior ao do homem, sobretudo para afastar os homens de Deus, incitando-os ao pecado, à idolatria, à mitologia e à corrupção da sã doutrina, através da heresia.

No entanto, a acção nefasta do demónio não é ilimitada, porque como todas as criaturas, está submetida ao poder e obra de Deus de acordo com a providência divina. O demónio pode influenciar no homem através do seu corpo e da sua fantasia, mas não pode coagir a liberdade humana. O livre arbítrio é um elemento constitutivo de cada criatura intelectual, quer seja angélica ou humana, e isto, comenta Lavatori constitui um ponto firme e insuperável. É a defesa que os Padres fazem do homem como criatura de Deus, feita à sua imagem e semelhança, que continua a ser livre apesar de tudo. 

- José António Sayés; O Demônio: Realidade ou Mito?; p.59-70.

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