quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Protestontismo e Bruxaria - Comentários sobre o filme As Bruxas de Salém

E uma vez mais estamos a falar de bruxas, não ainda sob uma perspectiva histórica, mas puramente ficcional, embora o filme em questão se proponha um drama histórico, seria tolice extrapolar o roteiro inadvertidamente o roteiro para além do universo cinematográfico, sem um exame aprofundado de fontes primarias. O filme o qual hoje pretendo comentar é The Crucible (As Bruxas de Salém), de 1996. Um filme, surpreendentemente, muito bom, aliás, não sei como não fora acusado pela patrulha politicamente correta de "machista". O texto, pra variar, tem spoliers, então caso o leitor seja um sujeito fresco, vá assistir ao filme e volte mais tarde.

Agora que os maricas saíram do recinto, continuemos. O filme se inicia com macumbarias, um grupo de meninas lideradas pela escrava Tituba dançam em volta de uma fogueira e queimam ervas, em uma espécie de ritual amoroso. Pois é, um bando de tontas fazendo macumbarias atrás de omi... Mas, enquanto a maioria das moças pratica algo leve (se é que se pode falar assim, e já adianto que não se pode, nestes casos), uma outra dona se exalta: Abigail. Está pede a morte de uma outra dona, oferece uma galinha preta em sacrifício, bebe seu sangue e começa a dançar pelada. A bagunça é interrompida pelo pastor local (sim, no filme só tem hereges e macumbeiros, nem sinal da verdadeira Igreja). Uma série de coisas acontecem o qual seria excessivo detalhar aqui, mas, adiantando a canoa, para limpar a barra, Abigail começa a fingir e acusar pessoas da aldeia para livrar sua barra. As outras meninas, vão na onda dela. O que começa apenas como um passar a culpa, logo se transforma em uma arma de poder, e cá está Abigail a acusar #azinimiga, mais especificamente Elizabeth, esposa de John Proctor (por quem a guria é apaixonada). O drama é interessante, o roteirista trabalha bem o desenvolvimento do personagem Proctor, bem como da própria vila, mostrando como alguns habitantes usaram dessa histeria toda para benefício próprio e como o clero protestante, absolutamente inapto, hora parecia crer em toda aquela superstição, ora aparentava apenas querer usá-las para seus próprios interesses. Ah! Vale lembrar que o pastor da aldeia é acusado por Proctor como um homem corrupto, apegado ao dinheiro, que usa da religião para obter lucros e luxo. A imagem não soa familiar ainda hoje?

Temos toda uma aldeia manipulada, bem como a morte de inocentes, porque uma moça leviana que queria tomar o marido da outra. Mas, que bom que foi só no filme certo, e hoje não acontecem falsas acusações a torto e a direita por motivos torpes, nem as massas são tão facilmente manipuladas pela histeria feminina, não é? 

Embora a interpretação geral da trama é que tudo não passe de uma mentira, outra perspectiva é possível: a de que Abigail seja a verdadeira bruxa. Vemos como está tomou parte ativa no ritual demoníaco, excedendo as demais e fazendo com que Mary Warren, uma das moças até então dispostas a testemunhar a verdade, embarcar de novo em sua narrativa mentirosa. Nesta perspectiva, Abigail é que tinha trato com o diabo, manipulou todas as demais, causou morte e sofrimento, e depois fugiu com o dinheiro do pastor. 

Ao fim, quase que podemos ver uma sutil apologia ao catolicismo. Proctor questiona ao juri porque a confissão deve ser feita em público, porque deve manchar seu nome e sua honra pelo resto da vida? Pois é, aí está o esquema dos showzinhos protestantes. No catolicismo a confissão se dá em privado, no sigilo sacramental da penitência. Embora, todavia, a situação de John no filme seja um bem mais estranha, uma vez que o estavam obrigando a confessar pecados que não cometeu.

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