sábado, 31 de outubro de 2020

Demonologia na Patrística

A presença do demónio na doutrina dos Santos Padres é tal que se poderia fazer uma tese de doutoramento sobre o tema em cada um deles. A doutrina do Novo Testamento aparece neles repetidamente ampliada pelo interesse que têm de pesquisar na natureza dos demônios, no pecado que cometeram, bem como na sua incidência na vida espiritual. Como é lógico pensar - tendo em conta a doutrina do Novo Testamento - não existe um único Padre que tenha duvidado da existência do demônio, bem como do seu carácter pessoal. A crença nele é pacífica e universal, algo de que não se pode duvidar. Para eles, seria impensável levantar-se a dúvida. Como disse Gozzelino, a realidade dos espíritos bons e maus que influenciam no mundo constitui um dado absolutamente óbvio e pacífico, que nas suas consequências se manifesta como um dado de fé e de vida cristã.

Uma vez que devido à extensão desta obra não podemos apresentar um estudo de cada um dos Padres, limitamo-nos a fazer um resumo da sua doutrina, assinalando o contributo específico dos mesmos. Já Melitão de Sardes escreveu um livro sobre o demónio no séc. II.

Sobre esta matéria deve dizer-se que os Padres tiram a sua doutrina da Bíblia, embora se descubra também neles uma certa influência judaica e até helenística. Já no século IV, quando se abandonou a leitura dos apócrifos, se verifica nos Padres, comenta Lavatori alguma purificação das fantasias demonológicas para se concentrarem expressamente no que a Bíblia ensina e diz.

Os Padres apologetas desenvolvem uma doutrina sobre o demónio numa dupla direcção: declarando que a idolatria, a magia e a adivinhação são meios com os quais os demónios procuram impedir a evangelização cristã, e explicando também que a origem do mal não se deve à má natureza do homem criado, mas ao mau uso que o primeiro homem fez da sua liberdade.

Para rebater o gnosticismo, era preciso esclarecer a questão da origem do mal. E é neste sentido que os Padres apologetas tratam o pecado original e a acção sedutora do demónio. Mais à frente Orígenes adverte: «É impossível conhecer a origem do mal sem conhecer os ensinamentos sobre o diabo e sobre os seus anjos, isto é, o que ele foi antes de se tomar diabo, e também a razão pela qual os seus anjos participaram na sua apostasia».

Uma coisa que não levanta dúvida nos ensinamentos dos Santos Padres é que os demónios são criaturas de Deus que se revoltaram contra Ele. Isto era já ponto assente pela Sagrada Escritura, mas os Padres têm que voltar frequentemente a este ponto para se defenderem do maniqueísmo dos primeiros séculos. Santo Ireneu, por exemplo, tem de defender a criaturalidade dos anjos contra a gnose do século II, rejeitando a identificação que esta fazia dos diabos com os eons divinos de cariz neoplatónico. Os apologetas do século II vão também nessa mesma direcção.

Santo Agostinho teve que se confrontar com a concepção maniqueísta (que ele tinha partilhado antes da sua conversão) e que hipostasiava o mal fazendo dele um princípio eterno e subsistente com a mesma essência que o princípio do bem. Santo Agostinho explica que o mal não é uma substância (pois toda a substância criada por Deus é boa), mas uma deficiência que existe nos seres criados. É a privação de um bem devido que, como privação, acontece em algo que por si só é bom. Assim, o demónio foi criado bom. Era um anjo bom que prevaricou com o seu pecado. Tornou-se mau, portanto, por causa do mau uso que fez da sua liberdade.

Por isso, os Santos Padres falam extensamente do pecado dos anjos. E é neste capítulo que se nota melhor a influência judaica. Baseando-se no primeiro livro de Henoc, a teoria inicial dos Padres para explicar o pecado angélico é apresentá-lo como um pecado de luxúria (pecado cometido com as filhas dos homens). Assim o explicam Santo Ireneu, Justino, Atenágoras, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Lactâncio, entre outros.

A partir do século IV, comentam Flick e Alszeght, os Santos Padres realizam uma reflexão mais profunda sobre a natureza espiritual dos anjos que rebate a explicação anterior. São João Crisóstomo, por exemplo, diz que é blasfémia falar do pecado da luxúria a partir do Gn 6,4, dado que os anjos pecaram antes de Adão e que a sua natureza incorpórea não permitia esse tipo de pecado.

Por isso se vai impondo entre os Padres uma segunda teoria que explica o pecado dos anjos relativamente à dignidade concedida por Deus ao homem. Alguns anjos, dizem, tiveram inveja do homem e recusaram reconhecer e reverenciar nele a imagem de Deus. Assim se explicam Ireneu, Tertuliano, Cipriano, Gregório de Nisa e Santo Agostinho, entre outros.

Já no século XVI, Suarez explicou que a origem do pecado dos anjos foi a inveja contra o Filho de Deus, Deus e Homem, enquanto se negaram a reconhecer n'Ele a sua cabeça. Esta explicação, não o podemos negar, é no mínimo sugestiva, dado que o homem ia participar, nos planos de Deus, da glória do Seu Filho como centro da história e do cosmos. Esta teoria, assim exposta, estava muito próxima da terceira opinião dos Padres que explicam a queda dos anjos como um pecado de soberba. Seria o desejo de serem iguais a Deus, comprazendo-se desordenadamente da sua própria perfeição. Assim pensaram Tertuliano, Orígenes, Gregório Nazianzeno, Atanásio, Cirilo de Alexandria, Ambrósio e Agostinho entre outros. Os anjos tinham sido criados para servir Cristo e o seu plano de salvação para os homens.

H. Spaemann, um filósofo dos nossos dias, junta-se às teorias dos Padres ao afirmar: «Deus incarnou no homem e a condenação de Satanás é causada por ele ter rejeitado a decisão de Deus que não só Se quis tornar homem, viver como homem e, deste modo, ajudar os homens, mas quis também encomendar aos anjos a tarefa de estarem ao serviço dos homens».

Os Padres, logicamente, foram mais além da Sagrada Escritura com a intenção de explicar e compreender (por outro lado, essa intenção é lógica) a queda e o pecado dos anjos.

Outra das características da doutrina dos Padres sobre o demónio é a perspectiva cristológica com que tratam o tema. O problema do mal, observa Lavatori, não se soluciona apenas a partir da perspectiva filosófica, que acha que ele é a privação de um bem devido, mas soluciona-se também a partir de Cristo. Os Padres sublinham sempre a vitória de Cristo. S. Justino, por exemplo, mostra sempre a vitória de Cristo sobre o demónio não apenas na altura das tentações, mas sobretudo na paixão e na ressurreição. Santo Ireneu, que fala do demónio como de um anjo apóstata, diz que Cristo entrando na guerra que este inimigo fez contra nós, teve que se enfrentar com ele no início do seu ministério. Santo Agostinho, no livro De civitate Dei, apresenta a luta entre as duas cidades como uma luta que tem origem no céu, quando os anjos se dividiram. Vê no pecado como que uma espécie de corpo místico do diabo. Vencido por Cristo, o diabo continua ainda a lutar contra a Igreja.

A demonologia dos Padres insere-se nitidamente no mistério de Cristo. Santo Ireneu, por exemplo, contrapõe a acção redentora de Cristo à obra negativa realizada por Adão. E a redução cristológica que o tema apresenta no Novo Testamento é algo que também se nota nos Padres.  

O problema do mal só encontra a sua resposta cabal e definitiva em Cristo.

É neste contexto que os Padres apresentam Cristo como Aquele que paga ao demónio os direitos que ele tinha adquirido sobre o homem. Mas é necessário distinguir sempre esta forma de entender o mistério (forma discutível) da afirmação de fundo segundo a qual Cristo nos redimiu do poder do diabo.

Os Padres sublinham constantemente a redenção como libertação de Satanás. Este assunto, comenta Galot, apresenta-se de várias formas. É raro que se apresente o sangue de Cristo como algo que se paga ao demónio, «a quem tínhamos sido vendidos pelos nossos pecados», comenta Santo Ambrósio, o que é dificilmente compatível com o princípio de que o sacrifício de Cristo foi oferecido ao Pai e não ao demónio. Ora bem, é frequente nos Padres a teoria do direito do demónio, que Cristo satisfez com a sua redenção.

Os Padres, lembra Lukken, descreveram o domínio de Satanás sobre a humanidade, a partir do pecado original, com a imagem da escravidão, tirada do mundo profano. Neste sentido, dizem que o demónio se apoderou da humanidade, e adquiriu direito de propriedade sobre ela a partir do pecado de Adão. Deste modo, chegam à teoria dos iura diaboli, de acordo com a qual a redenção de Cristo aparece como um resgate, no sentido literal da palavra. 

Este tema está também presente em Ireneu e em Orígenes. É uma teoria que, através de S. Jerónimo passa para o Ocidente e encontramo-la principalmente em Santo Ambrósio. De acordo com ele, o homem caído tem uma dívida com Satanás. Cristo redimiu-nos dessa dívida, de maneira que agora somos d' Ele devedores. É uma teoria que, com matizes diversos, se tornou clássica e podemos encontrá-la em João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Teodoreto e João Damasceno.

Em Santo Agostinho, essa teoria está unida à ideia do abuso do poder realizado pelo demónio, que quis exercer sobre Cristo um direito que tinha apenas sobre os pecadores. 

Segundo Galot, esta teoria propagou-se, não só na teologia latina, como na oriental. Galot relembra ainda como se espalhou entre os Padres a teoria da desforra: era conveniente que Deus obtivesse a vitória do mesmo modo que o demónio obteve a sua; isto é, por meio de um homem nascido de mulher. Nessa teoria, surge também por vezes, a ideia da armadilha lançada ao demónio.

Sem dúvida, que todas estas imagens apresentam grande dose de metáfora. Os próprios Padres, quando falam dos direitos do demónio, utilizam termos como tamquam, velut, que relativizam um pouco as suas expressões, porque, como comenta Lukken, «em última análise, o domínio de Satanás depende do próprio Deus, que entregou o homem a Satanás depois da queda». Existe, portanto, muita metáfora em tudo isto, mas, «apesar das suas imperfeições - comenta Galot - os textos patrísticos contêm um dado que não se pode deixar de ter em conta. Sublinham um aspecto do drama redentor que o pensamento moderno muitas vezes tem tendência a passar por alto ou a deixar esquecido: a luta com os poderes espirituais do mal. Ao insistirem nesta luta, os Padres não fazem senão recolher uma ideia essencial da Escritura: Cristo libertou a humanidade por meio do triunfo sobre Satanás despojando-o do seu poder escravizante. As metáforas patrísticas tendem a colocar-nos diante dos olhos a grande verdade de que a nossa salvação foi conseguida através da vitória de Cristo sobre aquele que submetera a humanidade à servidão do pecado. Assim como antes o demónio tinha arrancado a humanidade da amizade divina, Cristo libertou a humanidade do poder do demónio. O demónio foi vencido ali mesmo onde tinha triunfado provisoriamente: no coração do homem».

Juntamente com os ensinamentos anteriores, expressos às vezes através de metáforas, existe nos Padres a convicção, de que por causa do pecado original, o homem fica sujeito ao demónio enquanto não for regenerado nas águas do baptismo. É esta a ideia que os Padres desenvolveram, principalmente, em ligação com o Baptismo.

Não nos podemos alongar sobre este tema que desenvolvemos noutro lugar. À maneira de exemplo limitamo-nos a citar dois textos: um de Santo Ireneu e outro de Santo Agostinho. Santo Ireneu falou deste modo: «Nós éramos os seus vasos e a sua casa (do diabo), estando como estávamos em apostasia. Porque nos usava à sua vontade, e o espírito imundo habitava em nós». E mais à frente acrescenta: «Uma vez que no início o diabo persuadiu o homem a transgredir o preceito, manteve-o sobre o seu poder, mas o seu poder é transgressão e apostasia e com elas amarrou o homem ... Depois o Verbo prendeu o demónio como seu escravo e destruiu os seus vasos, quer dizer, aqueles que o diabo dominava e dos quais se servia injustamente. E assim ficou justamente cativo aquele que tinha prendido o homem injustamente, e o homem que antes tinha estado cativo foi libertado do poder do possuidor, segundo a misericórdia de Deus Pai».

Textos como estes são abundantes no próprio santo Ireneu e nos apologistas, Tertuliano, Orígenes, Ambrósio, Ambrosiaster e em Agostinho entre outros. Dada a intenção deste capítulo, limitamo-nos a outro texto de Agostinho: «Fica nelas (nas crianças) o pecado original, pelo qual ficam cativas sob o poder do diabo, até serem redimidas pelo sangue de Cristo no banho da regeneração, e deste modo passem para o Reino do seu Redentor, sendo vencido o poder do seu dominador, e dando­ -lhes o poder de que, de filhos da ira que eram, passem a ser Filhos de Deus». Os textos de Santo Agostinho que se poderiam citar são inúmeros.

Nesta altura queremos apenas realçar que este é em muitos casos o modo como os Padres entendem o pecado original. O P. Orbe, ao estudar Ireneu, escreveu, por exemplo: «O drama do pecado original não acontece per se entre Deus e o homem, mas entre Deus e o anjo do mal . O homem revela o drama, como a primeira ocasião avaramente aproveitada pelo diabo. Mas já aqui se percebe o desenlace. Acabará com o bem do homem e o mal do diabo, para vitória de Deus».

É verdade que o diabo, já vencido por Cristo, continua a actuar no mundo e na Igreja. Está condenado e vencido, mas continua a agir ainda contra a Igreja até à segunda vinda de Cristo, altura em que será definitivamente expulso para o inferno. Pois bem, a condenação do demónio, já é definitiva. Foi Orígenes quem, no entanto, pensou que o inferno, o inferno dos demónios e dos condenados, seria algo puramente temporal. Por certo que no século III, Orígenes introduz a doutrina da apokatástasis, de acordo com a qual os ímpios, depois de um castigo temporal, ficariam definitivamente salvos. A maior parte dos Padres contemporâneos de Orígenes mantiveram, no entanto, a doutrina tradicional. E o pensador de Alexandria foi condenado no sínodo Endemousa (em Constantinopla) no ano 543, depois de Padres como Santo Agostinho terem rejeitado completamente a sua doutrina como contrária às palavras de Cristo. A partir do referido Sínodo, o consentimento dos Padres, tanto orientais como ocidentais, foi unânime. S. Jerónimo, que a princípio tinha defendido a ideia de Orígenes, mais tarde atacou-a com decisão.

Finalmente, na doutrina dos Padres sobre o demónio aparece uma preocupação espiritual no sentido de que se preocupam pela influência que o demónio tem nas almas e na direcção espiritual. Os Padres, principalmente no meio monástico, dão conselhos aos cristãos na luta contra as forças das trevas. Evágrio Pôntico e Cassiano são, talvez, os autores mais importantes na demonologia monástica, comenta Iraburu. Os demónios são anjos caídos que atacam os homens nos seus níveis mais vulneráveis - corpo, sentidos, imaginação - mas que nada podem sobre o homem se este não lhes der o seu consentimento. Para o seu cerco servem-se principalmente dos logismoi - pensamentos, paixões, impulsos desordenados e persitentes - que se podem reduzir a oito: gula, luxúria, avareza, tristeza, cólera, preguiça, vaidade e orgulho. Mas nos seus ataques não podem ir para além do que Deus permite.

As tentações do demónio são subtis, dado que ele sabe revestir-se de anjo de luz e mostrar o mal como bem.

O cristão deve resistir com «a armadura de Deus» que o apóstolo descreve (Ef 6, 1 1 -18), e muito especialmente com a Palavra divina, a oração e o jejum, que foram as armas com que Cristo resistiu e venceu nas tentações do deserto. Mas deve resistir sobretudo apoiando-se em Jesus Cristo e nas suas legiões de anjos (Mt 26,53). Como disse S. Jerónimo, «O próprio Jesus, nosso chefe, tem uma espada, e avança sempre à nossa frente, vencendo os nossos adversários. Ele é o nosso chefe: lutando Ele, vencemos nós».

Os santos padres entraram certamente na reflexão quanto à natureza dos demónios. Neles é completamente rejeitada toda a concepção dualista do diabo já que é uma criatura de Deus. Por outro lado, orientam-se progressivamente para uma concepção espiritual da sua natureza, comenta Lavatori, uma vez que na sua origem são considerados como anjos bons. São portanto, seres espirituais. No entanto, às vezes é-lhes atribuído um corpo aéreo e subtil, com certeza para justificar as suas aparições. «A concepção mais comum - comenta Lavatori -é a de uma imaterialidade relativa, no sentido de que os demónios têm um corpo mais espiritual que o humano, mas não se podem definir como privados de toda a dimensão material ». Como diria Santo Agostinho, têm um corpo aéreo.

Uma vez que não têm a visão do Verbo, têm um escasso conhecimento de Deus e dos homens, embora tenham uma inteligência e poder superiores. Não podem conhecer o espírito interior do homem, mas antes conjecturá-lo pelos sinais externos, diz Santo Agostinho.

Usam o seu poder, superior ao do homem, sobretudo para afastar os homens de Deus, incitando-os ao pecado, à idolatria, à mitologia e à corrupção da sã doutrina, através da heresia.

No entanto, a acção nefasta do demónio não é ilimitada, porque como todas as criaturas, está submetida ao poder e obra de Deus de acordo com a providência divina. O demónio pode influenciar no homem através do seu corpo e da sua fantasia, mas não pode coagir a liberdade humana. O livre arbítrio é um elemento constitutivo de cada criatura intelectual, quer seja angélica ou humana, e isto, comenta Lavatori constitui um ponto firme e insuperável. É a defesa que os Padres fazem do homem como criatura de Deus, feita à sua imagem e semelhança, que continua a ser livre apesar de tudo. 

- José António Sayés; O Demônio: Realidade ou Mito?; p.59-70.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Passapanos, debates, grupos e outras coisas que podem destruir sua inteligência no oceano cibernético...


A internet está recheada de malucos, e se você não se cuidar eles vão lhe deixar biruta também. Sério! Dia após dia você vê fulano ou ciclano que até ontem era uma celebridade nesse mundo encher o saco e sumir das redes sociais - "preciso dar o fora, isso está me deixando louco!" - e sabe por quê? Bom eu vou lhe contar :P. 

Eu não sou ninguém relevante nesta paçoca, tenho no muito algumas centenas de leitores neste blog, e certa turma que ocasionalmente me vê por aí no Facebook e no Twitter. Ficou muito feliz quando posso ajudar alguém em matéria de religião, quando as pessoas passam a amar a Nosso Senhor Jesus Cristo e venerar os sublimes mistérios da fé católica; também fico muito feliz quando encontro gente inteligente para conversar sobre assuntos diversos, encontrei muita gente boa por aí... Mas fora isso tem um bocado de coisa que me torra a paciência, e todas elas estão relacionadas a mesma coisa, a ideia de que as pessoas tem de que você deve se importar com elas em demasia.

Eu não sei os outros, mas eu quando leio ou escrevo sobre determinado assunto é por um motivo bem pessoal e egoísta: eu gosto disso. É certo que há um desejo sim de compartilhar algo útil, de ajudar as pessoas a melhorar de vida também, mas não sou uma espécie de super-herói ou padre que vive em função dos outros, antes eu faço aquilo que gosto; a internet é para mim um hobby e não uma profissão ou alguma missão de vida. Mas, as pessoas acham que não, que você tem um papel ''público'' a desempenhar, tem alguma responsabilidade para com elas, deve lhes provar algo. E daí vem infinitas solicitações que visam tirar sua atenção, tirar você de seu centro, te desviar de buscar aquilo que quer buscar para viver em função delas. O tanto de links e .pdfs volumosos que me mandam, esperando que eu leia, que eu opine sobre isso ou aquilo, que tome partido ou decisão, e o qual por respeito humano (que vai me custar um bom tempo no purgatório se eu conseguir chegar lá) digo a maldita mentira social: ''depois eu dou uma olhada'' é insondável. Se eu fosse ler, assistir, e escutar todas as referências que me mandam eu ia ter que ter umas quatro ou cinco vindas inteiramente dedicadas a isso. 

Outra coisa chata são aqueles infinitos grupinhos de conversas inúteis que nunca acabam.... ''Não, estamos aqui fazendo um grupo de estudos estratégicos, uma aliança tática para organizar tal ação'' e no fim tem lá um monte de infeliz aleatório falando besteiras inúteis em debates intermináveis sobre as notícias da semana... Se for no zap, pior ainda!

Há ainda o tal do debate. O sujeito quer por que quer que você prove algo a ele. Não basta você fornecer a informação, não tem que desenhar, argumentar, ler as tolices dele e responder a cada argumento... A troco de quê!!? Isso vai colocar o pão na mesa? E pior que os bestas que tão lá debatendo, é os outros bestas assistindo essa rinha verbal de aleatórios na internet... É melhor assistir lutinha de anime, sério cara!

Mas, o que mais me irrita nisso tudo é a turma dos passapanos.  Quem são esses? Basicamente algum grupinho ligado a alguma pessoa ou instituição que se relaciona com esta como fosse uma k-pop fangirl. Tudo o que essa figura faz é maravilhoso, tudo de ruim que aparece sobre ela são mentiras e distorções midiáticas, e a turma vive requisitando sua atenção para entrar no fã clube, ou vira uma sarna caso você resolva manifestar a mínima simpatia para com a realidade, longe das narrativas habilmente construídas pela fandom.

Tem uma frase atribuída a Churchill, que diz algo como: você nunca vai chegar a lugar algum se parar para discutir com cada idiota que encontra pelo caminho. O Sherlock Holmes (sim, eu sei que é só um personagem de ficção, mas o conselho é bom) se esforçava por esquecer tudo aquilo que não lhe interessava e manter em sua mente só aquilo que lhe era útil. O Bruce Lee também tinha uma frase bacana, a qual cito em castelhano porque foi más fácil de achar no google...


Em suma, se você prestar atenção demais nos outros e pouco em si mesmo e naquilo que realmente quer, a internet vai acabar te destruindo.

***

P.S. Sem nenhum motivo razoável, vou terminar esse post com um vídeo de japonesinhas fofinhas com orelhinhas de gato dançando.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

"E as coisas que ajuntastes, de quem serão?"

29ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (Ef 2,1-10)
Salmo Responsorial (Sl 99)
Evangelho (Lc 12,13-21)

''E as coisas que ajuntastes, de quem serão?''; é a pergunta que encerra o Evangelho de hoje. A maioria de nós conhece a parábola, e sabe que seu significado próximo, imediato, se trata de uma crítica a avareza, ao acúmulo de bens materiais, e mais que o acúmulo, mas sobretudo depositar neles a sua confiança. Todavia, não é apenas os encher os estoques um esforço vão, quando dissociado de Deus, há uma outra forma de fazer o mesmo, mais moderna e refinada, e até aparentemente pura, pois não envolve tanto dinheiro assim: a tentativa de edificar a sociedade perfeita. Quantos não se empenham, não gastam toda vida nisso, lutando por ideologias, lutando por um mundo novo o qual não viverão o suficiente para desfrutá-lo...

''E as coisas que ajuntastes, de quem serão?'' E o ''mundo novo'' que construíste? O sujeito bem poderia responder: "não porque as novas gerações.."; mas o que há aí? Um desejo de minar o sonho alheio, de escravizar as gerações futuras em seu próprio devaneio, de querer como que ''viver nelas''. Entretanto, assim não acontece, e não raro os herdeiros do mundo dos ideólogos são bárbaros que se encarregam de destruí-lo, tudo aquilo que o sujeito gastou a vida para construir, é destruído em questão de anos. Irônico, não? Pois é assim esse vale de lágrimas, não há permanência. Os homens passam, tal qual as suas obras. Não podemos, nós, edificar nada perene e duradouro.

Se é assim, e assim o é, então como viver? Como viver sem ambição, sem essa esperança de edificar algo perene? Viver sabendo que a caos e a decadência são como que uma lei da história? A resposta é simples: Verso l'alto ! O céu, lá onde não há traça que corrói, lá onde não há corrupção ou decadência, lá deve estar nosso tesouro, nossa esperança, nosso coração, e é para lá que devemos viver. Usando esse mundo que passa, almejando aquelas coisas que não passam. Lá também nós seremos eternos, e quiçá possamos desfrutar da companhia de nossos herdeiros, mas chegar lá, depende de cada qual...

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O Simbolismo do Sagrado Coração de Jesus


[...] Si, no hay representación más excta que ésta, de los divinos afectos del Salvador: el Corazón com llamas, para significar el ardoroso incendio de sus amores; el Corazón con la herida manando sangre, para demostrar la efusión de este amor sobre todos los mortales; el Corazón con cruz y corona de espinas, para recordar las agonías y sufrimentos que le causó este amor. Simbolo que por sí solo es un poema; simbolo que habla con más elocuencia que las frases del más vehemente discurso; símbolo que puede entender cualquiera aunque no tenga talento, solo con que tenga ojos en la cara para ver, y á su vez en el pecho un corazón para sentir.
- Pe. Félix Sardá y Salvany. El Sagrado Corazón; pág 8-9.

''Mandar-lhes-hei Profetas, e Apóstolos, e elles darão a morte a huns, e perserguirão a outros''


28ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Ef 1,1-10)
Salmo Responsorial (Sl 97)
Evangelho (Lc 11,47-54)

<Por isso também disse a Sabedoria de Deos: Mandar-lhes-hei Profetas, e Apóstolos, e elles darão a morte a huns, e perserguirão a outros (Lc 11, 49)>

A antiga Israel perseguiu apóstolos e profetas enviados por Deus. Embora desejássemos nós que a nova Israel ficasse isenta deste erro, por vezes ocorre que os doutores da lei, o clero, a hierarquia venha a perseguir homens santos e inspirados por Deus. Não queimaram Santa Joana D'Arc? Não excomungaram  Dom Lefebrve? O professor Orlando Fedeli não foi perseguido, caluniado - até hoje existe um site iníquo que o designa como "o Lutero do Brasil'' - e impedido de palestrar em muitas dioceses? Não estou a canonizar ninguém, mas é óbvio que nem sempre a vontade de hierarquia, que nem sempre as ordens dos superiores, estão alinhadas a vontade de Deus, como constatou Monsenhor Viganó.

A Igreja é santa em sua doutrina, santa em seus sacramentos e santa em muitos de seus membros. Mas é formada por pecadores, grandes e pequenos. Há o joio e o trigo, há tanto quem erra por fraqueza quanto por malícia. O clero, o alto clero, por mais admirável e santo que seja seu ministério, não está livre do pecado original e suas funestas consequências pessoais e sociais.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Last Evolution

Já faz, pois, algum tempo que assisti a Digimon Last Evolution Kizuna, que como sugere o nome, trata-se de última evolução da trama original, o final da timeline Digimon Adventure. Levei algum tempo para absorver a narrativa em toda sua força, e refletir sobre os temas propostos, de forma que só agora creio estar preparado a comentar a respeito.

Em meu primeiro texto, mencionei como os digimundo é uma espécie de desculpa; apartados do mundo real, sob a companhia dos digimons, os digescolhidos passam por um processo de amadurecimento e crescimento psicológico. Mas, e quando este processo chega a seu termo? Eis pois a questão a qual o filme nos propõe. 

Uma vez alcançada a maturidade, uma vez que o digiescolhido ingressa na vida adulta, não há mais sentido para seu digimon, sua missão está cumprida, de modo que ele deixa de existir. Sob essa dramática premissa se desenvolve o roteiro do filme, centrado sobretudo em Taichi e Yamato. Os demais digiescolhidos, embora façam uma honrosa participação, são deixadas um tanto quanto em segundo plano, o que é compreensível, é difícil lidar com tantos personagens dispondo de pouco menos que duas horas de filme. Conforme a trama avança, depois de uma boa dose de suspense e ação, notamos que a antagonista do filme tem seus motivos, a vilã de alguma forma procura impedir a dolorosa separação entre digiescolhido e digimon, através da perpetuação da infância. Sob o nome sugestivo de Nerverland, um novo mundo é gestado, um lugar onde é possível conservar as memórias da infância, e permanecer ali junto de seu parceiro. A perspectiva de Himekawa Maki, que não fora suficientemente trabalhada em Adventure Tri, encontra aí, sob outra personagem, um desenvolvimento um tanto quanto mais adequado. 

O roteiro ganha ainda mais força tento em vista o lapso temporal entre a trama original e o filme derradeiro. Vinte anos separam o início do fim de adventure, assim como os digiescolhidos, os espectadores originais estão em uma fase de amadurecimento, um momento em que necessitam deixar de vez as memórias da infância e ingressarem na vida adulta, embora não raro muitos insistam - sobretudo no Japão onde o fenômeno Otaku ganha contornos bizarros - em tentar de alguma forma perpetuar a vida de outrora, o que aliás, é compreensível. A infância é a melhor fase da vida, sobre ela cantam os poetas, dela se admiram os santos, mas...

....ela precisa morrer. Faz parte do ciclo da vida, as coisas são naturalmente assim. Ao procurar perpetuar a infância, a vilã se vale de uma trapaça, de uma ilusão e, de alguma forma, aquilo não é como antes. Ao invés de um mundo novo, cheio de expectativas e potencialidades, temos uma memória perpétua, uma repetição de bons momentos sim, mas tão somente isso. Memórias! Não se tem mais a verdadeira potência (em sentido aristotélico), a expectativa de levar a jornada ao seu termo, ao seu encerramento. A questão da verdade é privilegiada pelos roteiristas e, com a ajuda dos digimons, Taichi e Yamato conseguem escapar a tentação e vencer o combate. A missão dos digimons é ajudar os protagonistas a crescerem e amadurecerem, é esse o sentido de sua existência, é para isso que eles vivem e por isso estão dispostos a morrer, esse é o seu propósito, negar esse amadurecimento, esse crescimento, é um verdadeiro atentado para com os digimons.

O final porém, pode parecer estranho a alguns espectadores. Não é o exato oposto do final canônico em Digimon Adventure Zero Two? Na verdade não. A infância morre, todavia ressuscita! Se durante o processo de amadurecimento temos de superar as lembranças infantis, na vida adulta, quando no seio da família surge uma nova vida, então a partir dos filhos é possível saborear a infância de um novo modo. Com as crianças, recordar-se-á do tempo em que fomos criança. É o que acontece no episódio final de Adventure Zero Two, onde quando seus filhos recebem seus digimons, os protagonistas recuperam os seus parceiros de outrora.

É caro leitor, um dia que sabe, quando nascerem nossos filhos, não iremos uma vez mais revisitar a infância, saboreando uma vez mais as lembranças de outrora? Mas até lá, há de suportar a vida adulta sob esse mundo em ruínas, e sobretudo adquirir força, para construir um ambiente familiar minimamente adequado, onde a infância de nossos filhos possa ser tão boa quanto a nossa. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Concretude


27ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Gl 3,1-5)
Salmo Responsorial (Lc 1,69-75)
Evangelho (Lc 11,5-13)

Os pagãos, para serem atendidos lá por seus demônios, precisam fazer mil estripulias: repetir palavras secretas, fazer poções, sacrificar animais em noites de lua e a paçoca a quatro. E não raro fazem tudo isso e não conseguem nada. Nós católicos só precisamos rezar que Deus nos atende. Mas, não raro rezamos errado. O evangelho de hoje nos trás uma dica: a oração deve ser concreta. O amigo pede pão, o filho lá pede peixes; mas nós, não raro, rezamos de forma tão vaga: pela paz (de quem com quem?), pelas vocações (onde?), pela santificação do clero (por que não citar o nome do padre fulano ou ciclano?). Se não formos concretos, não teremos sequer como avaliar se nossa prece foi atendida, perdendo a oportunidade de dar glória a Deus pela graça recebida. A oração é uma arma tão poderosa, mas precisamos aprender a maneja-la de modo adequado.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O único necessário...


27ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Gl 1,13-24)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Evangelho (Lc 10,38-42)

1. Na Carta aos Gálatas, vemos que São Paulo fez um "seminário" bem curto: uns 15 dias com São Pedro, se encontrou algumas poucas vezes com São Tiago, e cá estava a pregar o Evangelho. É certo que recebeu alguma instrução dos demais cristãos, mas a graça fez seu trabalho desde o interior.

Hoje em dia isso despertaria medo e inveja: "-Em tão pouco tempo não se pode garantir o controle de sua pregação, é precisamos formá-lo segundo a nossa política'', ''Chegou hoje e já quer sentar na janelinha. Olha só!''. Felizmente, a comunidade cristã primitiva não era tão mesquinha e, ao invés de se perturbar e desconfiar, e glorificava a Deus pela graça: aquele que antes os perseguia estava agora a servir o Evangelho. Conseguimos nós fazer o mesmo? Alegar-nos quando vemos outro a pregar, ainda mais outro que até pouco tempo atrás estava perdido e fora salvo por Cristo? Ou pelo contrário, ficamos receosos: "Sujeito não tem nem diploma!'', ''O que ele faz na Igreja para poder falar essas coisas?'', ''Ah lá! Não é nem seminarista e fica falando de tomismo" ?.

A Igreja pertence a Deus. As normas burocráticas nos são uteis, mas Deus pode as ignorar quando quiser, chamar desde de longe e capacitar de forma misteriosa aqueles que chamou. Assim ocorreu tantas vezes ao longo da história sagrada: Davi era um pastor de ovelhas, o profeta Amós cultivava sicómoros, São Francisco de Assis era apenas um leigo... E, entretanto, estes por pura graça divina, excediam em virtude e conhecimento aqueles que eram formados pelos meios burocráticos ordinários.

Que Deus nos dê agraça de acolher sua graça manifesta no irmão, e de não absolutismos nossas regrinhas pessoais, nossas burocraciazinha.

2. Os últimos dias foram bem agitados. O Papa Francisco fez um extenso discurso na ONU elencando os problemas do mundo e suas propostas para solucioná-las. Propostas extremamente técnicas. Saiu também uma nova encíclica, igualmente extensa, dirigida a ''todos os homens de boa vontade'', em vista de tentar estabelecer valores universas para a paz e a ''fraternidade universal''. Mas, em meio a tudo isso faltou algo. O convite a conversão e a oração, o único necessário. Tal como no Evangelho de hoje, se tem a impressão de um ativismo desenfreado; uma busca de soluções técnicas e sociais, que embora inspirados no Evangelho, dissociados dele não tem força e vigor, além de perderem toda a graça. Enquanto lia tudo aquilo, pensava: "Que chatice! É como um coral de crianças cantando imagine na ONU, cafona, bobo. Onde está a melhor parte? Sumiu. Sobrou os serviços ''domésticos'' e minúcias de uma burocracia fria."

Se até o Papa pode cair nessa, o que sobra para nós?

O mundo está uma bagunça, e tantas vezes deixamos que ele nos bagunce por dentro. Deveríamos ser mais como Maria, guardar essa atitude contemplativa: nossa oração, nosso culto, doméstico ou litúrgico, deve ser para nós a melhor parte. Devemos desfrutar dele, nos animar com ele, dar nosso melhor nisso. Coisas aparentemente bobas como organizar um altarzinho em casa, ler a escritura a luz de velas, rezar o santo terço antes de dormir; é isso que muda o mundo, que toca os corações, que atraia as almas a Deus! Não um deus vago e laico, mas o Deus uno e trino, que desceu dos céus e se encarnou na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo! 

É certo que há que se limpar a casa, mas no outro dia ela vai estar suja de novo. Assim também a vida profana, reformamos hoje, amanhã já cheira mal... Este mundo está destinado a danação, o céu, a terra, a lua e as estrelas passarão. Façamos o que é preciso, mas sem jamais esquecer o único necessário, fora do qual tudo é chato, feio e inútil.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Carl Gustav Jung e a Cura pela Fé

[618] Por isso, quando trato de um verdadeiro cristão, de um verdadeiro católico, eu sempre o submeto ao dogma e digo: “Aferre-se a isso! E se você começar a criticá-lo intelectualmente sob qualquer aspecto, eu vou analisá-lo e aí você estará na pior”. Quando um católico praticante me procura, eu lhe pergunto: “Você contou isso a seu confessor?” Ele dirá naturalmente: “Não, ele não entende disso”. Digo-lhe então: “Mas, o que então você confessou?” Ele responde: “Coisas pequenas, sem importância”, mas dos pecados principais nunca falou nada. Como disse, tive como clientes certo número desses católicos – seis. Fiquei orgulhoso de ter tantos e disse-lhes: “Você sabe que aquilo que contou é realmente sério. Agora vá a seu confessor e confesse isso; não importa se ele entende ou não. Isto deve ser levado à presença de Deus, mas se não o fizer você estará fora da Igreja; então começará a análise e as coisas vão esquentar; você estará melhor protegido no seio da Igreja”. Como os senhores percebem, levei essas pessoas de volta à Igreja e recebi uma bênção especial do Papa por ter ensinado a alguns católicos proeminentes a maneira correta de confessar-se.

[619] Houve, por exemplo, uma senhora que teve papel importante na guerra. Era católica fervorosa e costumava passar as férias de verão na Suíça. Existe aqui um célebre mosteiro com vários monges, e era para lá que se dirigia para confessar e receber aconselhamento espiritual. Sendo pessoa prendada, começou a interessar-se um pouco demais pelo confessor e este por sua vez começou a interessar-se um pouco demais por ela; e surgiu o conflito. Ele foi removido para a clausura e ela entrou naturalmente em colapso; sugeriram-lhe que me procurasse. Quando veio, estava cheia de revolta contra as autoridades que haviam interferido. Aconselhei-a a voltar aos seus superiores espirituais e confessar toda a situação. Ao voltar para Roma, onde morava e tinha um confessor, este lhe perguntou: “Já a conheço há muitos anos, como foi que agora a senhora faz uma confissão tão aberta?” E ela declarou que havia aprendido isto de um médico. Esta é a história que me levou a receber uma bênção especial e particular do Papa.

[620] Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

[621] Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinquenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico.

No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

[622] Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. [...]

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 294-296.