sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Carl Gustav Jung e a Cura pela Fé

[618] Por isso, quando trato de um verdadeiro cristão, de um verdadeiro católico, eu sempre o submeto ao dogma e digo: “Aferre-se a isso! E se você começar a criticá-lo intelectualmente sob qualquer aspecto, eu vou analisá-lo e aí você estará na pior”. Quando um católico praticante me procura, eu lhe pergunto: “Você contou isso a seu confessor?” Ele dirá naturalmente: “Não, ele não entende disso”. Digo-lhe então: “Mas, o que então você confessou?” Ele responde: “Coisas pequenas, sem importância”, mas dos pecados principais nunca falou nada. Como disse, tive como clientes certo número desses católicos – seis. Fiquei orgulhoso de ter tantos e disse-lhes: “Você sabe que aquilo que contou é realmente sério. Agora vá a seu confessor e confesse isso; não importa se ele entende ou não. Isto deve ser levado à presença de Deus, mas se não o fizer você estará fora da Igreja; então começará a análise e as coisas vão esquentar; você estará melhor protegido no seio da Igreja”. Como os senhores percebem, levei essas pessoas de volta à Igreja e recebi uma bênção especial do Papa por ter ensinado a alguns católicos proeminentes a maneira correta de confessar-se.

[619] Houve, por exemplo, uma senhora que teve papel importante na guerra. Era católica fervorosa e costumava passar as férias de verão na Suíça. Existe aqui um célebre mosteiro com vários monges, e era para lá que se dirigia para confessar e receber aconselhamento espiritual. Sendo pessoa prendada, começou a interessar-se um pouco demais pelo confessor e este por sua vez começou a interessar-se um pouco demais por ela; e surgiu o conflito. Ele foi removido para a clausura e ela entrou naturalmente em colapso; sugeriram-lhe que me procurasse. Quando veio, estava cheia de revolta contra as autoridades que haviam interferido. Aconselhei-a a voltar aos seus superiores espirituais e confessar toda a situação. Ao voltar para Roma, onde morava e tinha um confessor, este lhe perguntou: “Já a conheço há muitos anos, como foi que agora a senhora faz uma confissão tão aberta?” E ela declarou que havia aprendido isto de um médico. Esta é a história que me levou a receber uma bênção especial e particular do Papa.

[620] Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

[621] Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinquenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico.

No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

[622] Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. [...]

- Carl Gustav Jung. A vida simbólica: escritos diversos; pág. 294-296.

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