sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Last Evolution

Já faz, pois, algum tempo que assisti a Digimon Last Evolution Kizuna, que como sugere o nome, trata-se de última evolução da trama original, o final da timeline Digimon Adventure. Levei algum tempo para absorver a narrativa em toda sua força, e refletir sobre os temas propostos, de forma que só agora creio estar preparado a comentar a respeito.

Em meu primeiro texto, mencionei como os digimundo é uma espécie de desculpa; apartados do mundo real, sob a companhia dos digimons, os digescolhidos passam por um processo de amadurecimento e crescimento psicológico. Mas, e quando este processo chega a seu termo? Eis pois a questão a qual o filme nos propõe. 

Uma vez alcançada a maturidade, uma vez que o digiescolhido ingressa na vida adulta, não há mais sentido para seu digimon, sua missão está cumprida, de modo que ele deixa de existir. Sob essa dramática premissa se desenvolve o roteiro do filme, centrado sobretudo em Taichi e Yamato. Os demais digiescolhidos, embora façam uma honrosa participação, são deixadas um tanto quanto em segundo plano, o que é compreensível, é difícil lidar com tantos personagens dispondo de pouco menos que duas horas de filme. Conforme a trama avança, depois de uma boa dose de suspense e ação, notamos que a antagonista do filme tem seus motivos, a vilã de alguma forma procura impedir a dolorosa separação entre digiescolhido e digimon, através da perpetuação da infância. Sob o nome sugestivo de Nerverland, um novo mundo é gestado, um lugar onde é possível conservar as memórias da infância, e permanecer ali junto de seu parceiro. A perspectiva de Himekawa Maki, que não fora suficientemente trabalhada em Adventure Tri, encontra aí, sob outra personagem, um desenvolvimento um tanto quanto mais adequado. 

O roteiro ganha ainda mais força tento em vista o lapso temporal entre a trama original e o filme derradeiro. Vinte anos separam o início do fim de adventure, assim como os digiescolhidos, os espectadores originais estão em uma fase de amadurecimento, um momento em que necessitam deixar de vez as memórias da infância e ingressarem na vida adulta, embora não raro muitos insistam - sobretudo no Japão onde o fenômeno Otaku ganha contornos bizarros - em tentar de alguma forma perpetuar a vida de outrora, o que aliás, é compreensível. A infância é a melhor fase da vida, sobre ela cantam os poetas, dela se admiram os santos, mas...

....ela precisa morrer. Faz parte do ciclo da vida, as coisas são naturalmente assim. Ao procurar perpetuar a infância, a vilã se vale de uma trapaça, de uma ilusão e, de alguma forma, aquilo não é como antes. Ao invés de um mundo novo, cheio de expectativas e potencialidades, temos uma memória perpétua, uma repetição de bons momentos sim, mas tão somente isso. Memórias! Não se tem mais a verdadeira potência (em sentido aristotélico), a expectativa de levar a jornada ao seu termo, ao seu encerramento. A questão da verdade é privilegiada pelos roteiristas e, com a ajuda dos digimons, Taichi e Yamato conseguem escapar a tentação e vencer o combate. A missão dos digimons é ajudar os protagonistas a crescerem e amadurecerem, é esse o sentido de sua existência, é para isso que eles vivem e por isso estão dispostos a morrer, esse é o seu propósito, negar esse amadurecimento, esse crescimento, é um verdadeiro atentado para com os digimons.

O final porém, pode parecer estranho a alguns espectadores. Não é o exato oposto do final canônico em Digimon Adventure Zero Two? Na verdade não. A infância morre, todavia ressuscita! Se durante o processo de amadurecimento temos de superar as lembranças infantis, na vida adulta, quando no seio da família surge uma nova vida, então a partir dos filhos é possível saborear a infância de um novo modo. Com as crianças, recordar-se-á do tempo em que fomos criança. É o que acontece no episódio final de Adventure Zero Two, onde quando seus filhos recebem seus digimons, os protagonistas recuperam os seus parceiros de outrora.

É caro leitor, um dia que sabe, quando nascerem nossos filhos, não iremos uma vez mais revisitar a infância, saboreando uma vez mais as lembranças de outrora? Mas até lá, há de suportar a vida adulta sob esse mundo em ruínas, e sobretudo adquirir força, para construir um ambiente familiar minimamente adequado, onde a infância de nossos filhos possa ser tão boa quanto a nossa. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário