terça-feira, 6 de outubro de 2020

O único necessário...


27ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Gl 1,13-24)
Salmo Responsorial (Sl 138)
Evangelho (Lc 10,38-42)

1. Na Carta aos Gálatas, vemos que São Paulo fez um "seminário" bem curto: uns 15 dias com São Pedro, se encontrou algumas poucas vezes com São Tiago, e cá estava a pregar o Evangelho. É certo que recebeu alguma instrução dos demais cristãos, mas a graça fez seu trabalho desde o interior.

Hoje em dia isso despertaria medo e inveja: "-Em tão pouco tempo não se pode garantir o controle de sua pregação, é precisamos formá-lo segundo a nossa política'', ''Chegou hoje e já quer sentar na janelinha. Olha só!''. Felizmente, a comunidade cristã primitiva não era tão mesquinha e, ao invés de se perturbar e desconfiar, e glorificava a Deus pela graça: aquele que antes os perseguia estava agora a servir o Evangelho. Conseguimos nós fazer o mesmo? Alegar-nos quando vemos outro a pregar, ainda mais outro que até pouco tempo atrás estava perdido e fora salvo por Cristo? Ou pelo contrário, ficamos receosos: "Sujeito não tem nem diploma!'', ''O que ele faz na Igreja para poder falar essas coisas?'', ''Ah lá! Não é nem seminarista e fica falando de tomismo" ?.

A Igreja pertence a Deus. As normas burocráticas nos são uteis, mas Deus pode as ignorar quando quiser, chamar desde de longe e capacitar de forma misteriosa aqueles que chamou. Assim ocorreu tantas vezes ao longo da história sagrada: Davi era um pastor de ovelhas, o profeta Amós cultivava sicómoros, São Francisco de Assis era apenas um leigo... E, entretanto, estes por pura graça divina, excediam em virtude e conhecimento aqueles que eram formados pelos meios burocráticos ordinários.

Que Deus nos dê agraça de acolher sua graça manifesta no irmão, e de não absolutismos nossas regrinhas pessoais, nossas burocraciazinha.

2. Os últimos dias foram bem agitados. O Papa Francisco fez um extenso discurso na ONU elencando os problemas do mundo e suas propostas para solucioná-las. Propostas extremamente técnicas. Saiu também uma nova encíclica, igualmente extensa, dirigida a ''todos os homens de boa vontade'', em vista de tentar estabelecer valores universas para a paz e a ''fraternidade universal''. Mas, em meio a tudo isso faltou algo. O convite a conversão e a oração, o único necessário. Tal como no Evangelho de hoje, se tem a impressão de um ativismo desenfreado; uma busca de soluções técnicas e sociais, que embora inspirados no Evangelho, dissociados dele não tem força e vigor, além de perderem toda a graça. Enquanto lia tudo aquilo, pensava: "Que chatice! É como um coral de crianças cantando imagine na ONU, cafona, bobo. Onde está a melhor parte? Sumiu. Sobrou os serviços ''domésticos'' e minúcias de uma burocracia fria."

Se até o Papa pode cair nessa, o que sobra para nós?

O mundo está uma bagunça, e tantas vezes deixamos que ele nos bagunce por dentro. Deveríamos ser mais como Maria, guardar essa atitude contemplativa: nossa oração, nosso culto, doméstico ou litúrgico, deve ser para nós a melhor parte. Devemos desfrutar dele, nos animar com ele, dar nosso melhor nisso. Coisas aparentemente bobas como organizar um altarzinho em casa, ler a escritura a luz de velas, rezar o santo terço antes de dormir; é isso que muda o mundo, que toca os corações, que atraia as almas a Deus! Não um deus vago e laico, mas o Deus uno e trino, que desceu dos céus e se encarnou na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo! 

É certo que há que se limpar a casa, mas no outro dia ela vai estar suja de novo. Assim também a vida profana, reformamos hoje, amanhã já cheira mal... Este mundo está destinado a danação, o céu, a terra, a lua e as estrelas passarão. Façamos o que é preciso, mas sem jamais esquecer o único necessário, fora do qual tudo é chato, feio e inútil.

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