domingo, 15 de novembro de 2020

O favelão das redes sociais e a antiga nobreza dos fóruns digitais

O Facebook é uma 💩! Tá, talvez não seja esse o melhor modo de começar uma postagem, talvez antes eu lhes deva contar uma história. Há alguns dias comecei a assistir o anime Yowamushi Pedal, seria apenas mais um slice of life comum não fosse tratar de um tema sensacional: ciclismo. E eu que gosto de dar uns "roles" de bike desde tempos arcaicos, empolguei de impulsionar ainda mais minhas aventuras sobre duas rodas. Mas esse não é um post sobre bicicletas - que ainda há de vir - e sim como as redes sociais são um favelão identitário, diferente da aristocrática estrutura arcaica da internet de outrora. De todo o modo, retornemos a história: empolgado com a bike, fui entrar em alguns grupos de ciclismo no Facebook para pegar algumas dicas, trocar informações sobre equipamentos, técnicas de pedalada e etc... Todavia, não encontrei nada disso, antes salta em meu feed foto de uma dona de camisa e calcinha, com a bicicleta no fundo e o foco da câmera em seu corpo: <Oiii gente, o que acham da minha bike nova hihihi>, e um monte de gado nos comentários, mugindo como sempre. Ah, e pra variar, a dona tinha de ser carioca. Em outro grupo, mais fotinhas, de donas posando com seu uniforme de ciclismo a outras coisas ainda piores, que se descrever com a linguagem adequada capaz de tomar a porcaria de um processo por ''mophobics". Talvez eu só tenha entrado em um grupo ruim (foram uns três nesse nível), mas na verdade acredito que toda aquela rede social é ruim, e assim o é porque esta espelha a estrutura pós-moderna: a sociedade aberta, laica, democrática e identitária.

O leitor mais jovem, nascido no Kali Yuga digital, na era das redes sociais, talvez não acredite, mas houve um tempo em que a internet era um lugar nobre e aristocrático, este tempo foi a era dos fóruns. Enquanto hoje há uma pressão social normie para associar as redes sociais a sua identidade real, abdicando de sua privacidade e entregando dados referentes a sua aparência, preferências políticas, vida afetiva, sexual - quem tem vida sexual fora do casamento é um fornicador imundo e vai pro inferno - e, sobretudo, hábitos de consumo; na era dos fóruns vivíamos como que em um baile de máscaras, onde sob a face de um avatar - quase sempre um personagem de anime ou videogame - as pessoas iam buscar sua turma, gente com gostos semelhantes para falar de assuntos que gostam. O importante ali era o assunto e não a pessoa, então não tinha ninguém exibindo fotinha para lá - forçando sua identidade suja seja para compensar alguma carência psicológica ou tão somente buscar uma namoradinha, nem fazendo militância política em local inadequado - tampouco desviando o foco daquilo que interessa. Em um fórum de bicicletas, se falava de bicicletas, em um fórum de religião, se falava de religião, e assim por diante. 

Além disso, a estrutura de tópicos e respostas facilitava tanto a organização e o armazenamento de publicações relevantes, quanto um maior foco nas discussões e debates, compare isso com a fuzarca das redes sociais onde uma eventual informação relevante é afogada em um mar aleatório de inutilidades imundas. Cabe ainda que mencionar que sob o regime do Zuckerberg os usuários estão sob a lei do politicamente correto, e podem ser banidos sumariamente por digitar algumas palavrinhas proibidas, ou por pressão uma falsas denúncias de alguma gangue ideológica - eu já tomei dois bans por discurso de odeo - enquanto que nos fóruns, cada comunidade é livre para se governar segundo suas próprias regras. 

Em suma, as redes sociais são um maldito lixo liberal onde você deve conviver com tudo quanto é tipo de gente, o qual está mais preocupado em alimentar a própria vaidade e forçar sua identidade suja, que de fato aprender ou discutir sobre algo, e as grandes corporações, é claro, exultam com isso: gente estúpida e consumista; um favelão. Bem diferente do aristocrático clima dos fóruns onde a pessoa não importa, onde ninguém quer saber de sua identidade, sua vida privada, de seus hábitos de consumo, mas tão somente se você tem algo a contribuir com a comunidade na discussão sobre determinado assunto, seja este assunto filosofia tomista, ou simplesmente Digimon. Aliás, experimente falar de tomismo em sua timeline para escutar o ruído dos bonobos acusando de elitismo ou estar fora da realidade e querendo lhe dizer como deve conduzir seus estudos. Em um fórum temático você estaria livre deste incomodo e encontraria um ambiente adequado para discutir aquilo que lhe interessa com gente que também se interessa pelo assunto. Se um dia a degeneração na internet diminuir a turma vai abandonar o Facebook, o Instagram e os grupos do zap - que são um inferno - e retornar aos fóruns. Infelizmente esse dia não é hoje.

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