terça-feira, 29 de dezembro de 2020

"Aquelle que diz que está nelle, deve também ele mesmo andar, como elle andou."


5º Dia na Oitava do Natal | Terça-feira
Primeira Leitura (1Jo 2,3-11)
Salmo Responsorial (Sl 95)
Evangelho (Lc 2,22-35)

"Aquelle, que diz que está nelle, deve também ele mesmo andar, como elle andou. (1Jo 6,11)"

Em tempos de perseguição, pregar o evangelho é perigoso, mas em tempos onde esta não é tão forte, tal ofício traz relativo prestígio. Em tais períodos é mais frequente a pandemia de falsos apóstolos e pseudopregadores. Na primeira leitura de hoje temos alguns critérios para o discernimento. Em primeiro lugar só é verdadeiro seguidor de Cristo quem se esforça por seguir os mandamentos. Certa coerência de vida é fundamental. Em segundo lugar temos o viver como Jesus vivia, a Imitação de Cristo. A um leitor desatento pode parecer a mesma coisa, mas não é. Nos mandamentos temos a Lei, na vida de Cristo a caridade. Há na vida terrena de nosso Senhor muitas escolhas, digamos assim, pessoais, que vão muito além do que prescreve Lei: o viver a pobreza, a mansidão, a atenção aos pobres, o zelo pelas almas, o dar a vida em favor de muitos.... Isso não está nas Tábuas dadas a Moisés, mas na vida de Cristo. Todavia, não raro, nos contentamos só com a Lei, queremos praticar o mínimo necessário. É o suficiente para nossa salvação? Sim é... Não vamos para o inferno se seguirmos os mandamentos, embora imagino que ainda temos alguns débitos a serem pagos no purgatório. O ir além da Lei (sem, contudo, de maneira alguma violá-la), a caridade, ajuda-nos a saldar parte dessa dívida aqui na terra. Mas, não só por "contabilidade" que deveríamos imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas devíamos almejar a santidade e a perfeição por amor. Que bom seria se todos os predadores não fossem apenas "bons burocratas" e "homens da lei" mas gente apaixonada por Jesus Cristo. A paixão (bem ordenada) é uma espécie de combustível que abastece os heróis. E herói é aquela pessoa que vai ultrapassa da linha do medíocre, que faz mais que o necessário. Conseguimos ainda almejar isso? Que Deus nos ajude...

sábado, 26 de dezembro de 2020

Quatro Padrões de Julgamento para uma Obra de Arte

Que tipo de julgamento, se aplica, então a uma obra de arte? Creio que há quatro padrões básicos:

  1. Excelência técnica;
  2. Validade;
  3. Conteúdo intelectual, a cosmovisão que está sendo comunicada;
  4. Integração entre conteúdo e veículo.
Discutiremos a excelência técnica em relação à pintura, pois com ela é mais fácil demonstrar o que queremos dizer. Consideramos aqui o uso da cor, da forma, do tom, a textura da tinta, o manuseio das linhas, a unidade da tela e assim por diante. Em cada um desses aspectos pode haver vários graus de excelência técnica. Ao reconhecer a excelência técnica como um aspecto de uma obra de arte, podemos ser capazes de dizer que, ainda que não concordemos com a cosmovisão de um determinado artista, não obstante, ele é um grande artista.

Não estaremos sendo verdadeiros com um artista como pessoa se desprezarmos sua arte simplesmente porque discordamos de seu ponto de vista. Escolas cristãs, pais cristãos e pastores cristãos têm se afastado de muitos jovens exatamente por causa disso. Porque escolas, pastores e pais têm deixado de fazer distinção entre excelência técnica e conteúdo, grande parte das obras de arte de qualidade tem sido rejeitada com escárnio e chacota. Em vez disso, se o artista tiver alto nível de excelência técnica, ele deve ser reconhecido, ainda que discordemos de sua cosmovisão. As pessoas devem ser tratadas de maneira justa. Portanto, a excelência técnica é um critério importante.

O segundo critério é a validade. Aqui questionamos se um artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão ou se faz arte apenas por dinheiro ou para ser aceito. Se o artista produz uma obra de arte somente por causa de um cliente - seja esse cliente um veterano ilustre, ou uma moderna galeria de arte à qual ele deseja ter acesso, ou os atuais críticos de arte - m então seu trabalho não tem validade.

Para tomar o conceito mais real, vejamos o que acontece na arte da pregação. Há muitos pastores cujo trabalho não tem validade. Alguns pregam por ganho material e outros para serem aceitos por suas congregações. É muito fácil agir de acordo com a plateia, ajustando o que se diz ou como se diz a fim de produzir o tipo de efeito mais benéfico ao próprio pregador. E quando essa questão é em relação ao evangelho, a influência da desonestidade se torna especialmente clara.

Podemos pensar nos dramaturgos cujo futuro está nas mãos dos críticos do momento. Quando se trata de teatro, arte, música e cinema, há um grupo de críticos de Nova York e Londres que podem promover ou condenar o artista. Como é fácil divertir-se com a crítica e não considerar a arte de alguém como expressão sincera do que o próprio artista quer fazer.

O terceiro critério para o julgamento de uma obra de arte é seu conteúdo, que reflete a cosmovisão do artista. No caso dos cristãos, a cosmovisão comunicada por meio da arte precisa ser vista sob a ótica das Escrituras. A cosmovisão do artista não pode ser isenta do julgamento da Palavra de Deus. Nesse sentido, o artista é como o cientista. Um cientista pode até usar uma bata branca e ser considerado uma autoridade pela sociedade, mas quando suas afirmações se chocam com o que Deus nos apresenta nas Escrituras, elas ficam submetidas à autoridade definitiva de sua Palavra. Um artista até pode usar um avental de pintor e ser praticamente venerado; entretanto, uma vez que seu trabalho mostra sua cosmovisão, ele deve ser julgado à luz da cosmovisão cristã.

Creio que agora já conseguimos perceber como é possível fazer tais julgamentos em relação à obra de arte. Se, como cristãos, paramos diante de uma tela e reconhecermos que seu autor é um grande artista em excelência técnica e validade - se de fato ele o for - , e se tivermos sido justos com ele como pessoa e como artista, então teremos a possibilidade de afirmar que sua cosmovisão é errada. Podemos julgar sua visão com o mesmo critério com que julgamos as visões de qualquer pessoa - um filósofo, um cidadão comum, um trabalhador braçal, um empresário ou qualquer outro.

Sejamos mais específicos. A noção de liberdade boêmia de Jean Jacques Rousseau promulgou e que tem sido tão prevalecente na sociedade moderna não têm espaço no pensamento cristão. Rousseau buscava um tipo de liberdade autônoma e, a partir dele, surgiu um grupo de "super-homens" cujas vidas foram vividas acima da razão e das normas da sociedade. Por muito tempo essa vida boêmia foi considerada a ideal para o artista e, nas últimas décadas, passou a ser considerada ideal para outros além dos artistas. Entretanto, do ponto de vista cristão, esse tipo de vida não é permitido. A Palavra de Deus rege a vida dos grandes e dos pequenos homens, dos cientistas e das pessoas comuns, dos reis e dos artistas.

Alguns artistas podem não saber que estão conscientemente comunicando uma cosmovisão. Porém, as cosmovisões se manifestam. Mesmo os trabalhos concebidos sob o princípio da arte pela arte geralmente expressam uma cosmovisão. Mesmo a cosmovisão que diz não existir significado transmite uma mensagem. Seja como for, esteja o artista consciente da cosmovisão ou não, se ela estiver presente, deve ser submetida ao julgamento da palavra de Deus.

Há um corolário neste terceiro critério. Precisamos perceber que, quando algo falso ou imoral é expresso por meio de uma arte de alta qualidade, isso pode ser mais destrutivo e devastador do que se fosse comunicado por meio de uma arte de qualidade inferior ou de uma afirmação prosaica. Muito da arte bruta, um produto comum das comunidades hippies e da imprensa alternativa, é carregada de mensagens destrutivas; porém sua qualidade é tão baixa que acaba não tendo muita força. Contudo, quanto maior for a expressão artística, tanto mais importante é que ela seja conscientemente submetida - juntamente com a sua cosmovisão - ao julgamento de Cristo e da Bíblia. 

Entretanto, a reação comum entre muitos é justamente inversa. Muitos parecem achar que, quanto maior a qualidade da arte, tanto menor deve ser a nossa crítica à sua cosmovisão. Precisamos reverter isso.

Um exemplo do efeito devastador da arte de alta qualidade com conteúdo não-cristão ocorre no zen-budismo. No zen-budismo o mundo é nada, o ser humano é nada, tudo é nada; porém, a poesia zen diz isso de forma bonita, muito mais bonita do que a imprensa alternativa o faz. A imprensa alternativa frequentemente declara que o ser humano é nada, que o mundo é nada, que nada é nada, mas faz isso usando palavrões. E as pessoas pensam que, se essa mensagem fosse dita com um pouco mais de beleza, talvez seria relevante. Então surge o zen-budismo como uma forma elevada de arte e apresenta essa mensagem com beleza. E perdemos duas vezes.

Há um segundo corolário relacionado ao julgamento do conteúdo de uma obra de arte: é possível que um escritor ou pintor não-cristão escreva ou pinte de acordo com uma cosmovisão cristã ainda que ele mesmo não seja cristão. Para compreendermos isso, precisamos distinguir os dois sentidos da palavra cristão. O sentido primário e essencial define uma pessoa que aceitou a Cristo como seu Salvador para o reino de Deus, por meio do novo nascimento. Contudo, se um grupo de pessoas são realmente cristãs, elas expressam um tipo de consenso que existe para além delas mesmas, e, às vezes, pessoas que não são cristãs pintam e escrevem dentro da estrutura desse consenso, mesmo não sendo indivíduos genuinamente cristãos.

Há, portanto, quatro tipos de pessoas na esfera da arte. O primeiro tipo é o indivíduo nascido de novo, que escreve e pinta dentro de uma cosmovisão plenamente cristã. O segundo é o não-cristão que expressa sua própria cosmovisão não-cristã. O terceiro é o indivíduo que não é pessoalmente cristão, mas que escreve ou pinta com base no consenso cristão pelo  qual foi influenciado. Por exemplo, em outra área, se me perguntassem se Benjamin Franklin ou Thomas Jefferson eram pessoalmente cristãos, a resposta conforme pode-se julgar com base no que disseram, seria não. Entretanto, eles produziram algo que possuía algum tipo de fundamentação cristã porque se basearam no consenso cristão da Lex Rex de Samuel Rutherford. Portanto, a partir de uma estrutura cristã, Jefferson e Franklin puderam escrever que as pessoas possuem certos direitos inalienáveis - uma noção derivada de uma cosmovisão particularmente cristã.

O quarto tipo de pessoa é o cristão, nascido de novo, que não compreende o que uma cosmovisão cristã plena deve se e, portanto, produz arte que incorpora uma cosmovisão não-cristã. Em outras palavras, da mesma maneira que é possível o não- cristão ser inconsciente e pintar o mundo de Deus apesar de sua filosofia pessoal, também é possível o cristão ser inconsistente e incorporar em suas pinturas uma cosmovisão não-cristã. Esse último tipo talvez seja o mais triste de todos.

O quarto critério para julgar uma obra de arte envolve o quão bem o artista adequou o veículo a mensagem. Nas obras de arte verdadeiramente grandiosas, há uma correlação entre o estilo e o conteúdo. A arte superior encaixa o veículo usando à cosmovisão que está sendo representada.

Um bom exemplo pode ser encontrado em "A Terra Devastada" de T.S. Eliot. Ao publicar esse poema em 1922, Eliot se tornou um herói para os poetas modernos porque, pela primeira vez, ele ousou ajustar a forma de sua poesia à natureza do mundo conforme ele o enxergava, isto é, corrompido, fragmentado, partido. Que forma era esta?  Uma coleção de fragmentos de linguagem, de imagens e de alusões aparentemente retiradas randomicamente de toda sorte de literatura, filosofia e escritos religiosos do passado ao presenta. No entanto, os poetas modernos gostaram, pois agora tinham uma forma poética para encaixar a cosmovisão moderna da fragmentação. 

A inovação da pintura veio com Demoiselles d´Avignon (1907) - ver imagem ao ao lado - , cujo título vem de uma casa de prostituição em Barcelona. Picasso começou sua obra inspirando-se em outras pinturas do período, mas , como um crítico descreve, ele acabou fazendo "uma composição semiabstrata em que as formas dos nus e seus acessórios são partidos em planos comprimidos dentro de uma espaço oco". Mais especificamente, Picasso começou da esquerda pintando as formas naturalmente; chegando ao meio, ele pintou de forma semelhante aos primitivos espanhóis,; e finalmente à direita, quando estava terminando sua obra, ele pintou as mulheres apenas como formas abstratas e símbolos ou máscaras, e assim, conseguiu transformar seus temas humanos em monstros. Picasso sabia o que estava fazendo e, por um instante, o mundo parou. Foi uma expressão tão forte que, por um longo tempo, nem seus amigos a aceitaram. Nem mesmo quiseram olhar para ela. Portanto, ao pintas as mulheres, Picasso retratou a natureza estilhaçada do homem moderno. Aquilo que T.S. Eliot fez na poesia, Picasso já havia feito na pintura. Ambos merecem reconhecimento por adequar o veículo a mensagem.

Contudo, nenhuma arte deve ser julgada com base apenas neste critério. Devemos enxergar toda a obra de arte à luz de sua técnica, validade, cosmovisão e adequação da forma ao conteúdo. 

- Francis A. Schaeffer. A Arte e a Bíblia. p. 53-60.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Efêmeras Hierarquias


4ª Semana do Advento | Terça-feira
Primeira Leitura (1Sm 1,24-28)
Salmo Responsorial (1Sm 2,1-8)
Evangelho (Lc 1,46-56)

Deus é hierárquico... mas nem tanto. É de seu agrado que exista uma ordem, que existam níveis e hierarquias. Mas, tais hierarquias não são ''direito adquirido'', e por vezes ele manifesta seu poder invertendo tal ordem. Lemos no magnificat que Ele derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes, que sacia de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias. Quantas vezes isso não acontece na história? Quantas dinastias não governaram o mundo por gerações e depois foram reduzidas a uma vida comum? Quantos ricos não terminaram na mendicância? Quantos pobres e humildes não foram elevados as alturas, a quantos não foram confiados poder e riquezas?

Davi era um pastor de ovelhas e terminou como rei. Pu Yi fora imperador chinês, terminou como um simples jardineiro. Nem a própria Igreja escapa a essa lógica, ora coroada e reconhecida pelos reis e imperadores, ora perseguida e marginalizada. A Basílica de Latrão fora um esplendoroso presente dado pelo Imperador Constantino ao Papa. Em determinada época ela se tornou um estábulo para cavalos. Quantas lindas catedrais outrora frequentadas por reis e nobres não se tornaram tristemente academias, livrarias, e pistas de skate?

As hierarquias não são estáveis. Deus em sua providência permite tanta coisa que escapa a nossa compreensão. Quem pode estar seguro de sua posição? Ninguém! Se Deus permitiu a nobreza de Israel, a descendência de Davi, a São José e a Santíssima Virgem, viverem na pobreza, suportarem a perseguição, viverem como imigrantes, refugiados em uma nação estrangeira, podemos nós reclamar algum privilégio? Nenhum.

As hierarquias existem, mas são instáveis e sujeitas a inversão durante a história... Triste de quem dedica a vida para conquistar algo tão efêmero.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Yowamushi Pedal: O Bushido das Bicicletas


Fazia tempo que não me empolgava tanto com um anime assim. Até então, assistia apenas um ou dois episódios ao dia, e demorava um bom tempo até terminar de assistir, mas com esse foi diferente. Em um dia dropei praticamente a segunda temporada inteira, 25 episódios. Acabo de terminar a quarta pouco antes de iniciar este texto e anseio logo pela quinta que ainda não fora lançada.

Yowamushi Pedal traz uma premissa simples, mas extremamente bem trabalhada. Temos, afinal, mais um anime de esportes, como tantos outros, neste caso um anime sobre ciclismo que fez-me encantar-me ainda mais pela bike e dar um ''up'' em meios treinos. Os primeiros capítulos trazem consigo uma comédia escolar, Onoda Sakamichi, um garoto fraco, esquisito e sozinho, que ao ingressar no ensino médio acaba por entrar no clube de ciclismo, e com o desporto vai fazendo amigos, amadurecendo e crescendo em virtude. Mas então o ritmo da narrativa acelera, os personagens entram na disputa pelo intercolegial, uma intensa batalha entre diversas equipes, uma multidão de personagens com dramas extremamente complexos, plot twists frequentes e inesperados, aliado a certa tendência do autor de "pisar" nos mesmos personagens, dando-lhes não uma vitória consoladora e redentora, mas uma amarga e dolorosa derrota. E todo esse drama, mistério e intensidade temperado por uma comédia oportuna, na medida certa e no momento adequado. E mais, a partir da terceira temporada temos a ideia da sucessão, do amadurecimento e a ideia de passar o legado adiante. E não fosse isso o suficiente, temos algumas doses de alta cultura!


Dois personagens são para mim inesquecíveis. Um deles o "vilão" , Midousuji Akira um sujeito bizonho, repulsivo, um monstro. Mas entretanto, uma vez retratada a história deste monstro, o drama responsável por transforma-la naquilo que é, passei a torcer por ele, e por sua ''redenção'', que ainda se mostra distante de ocorrer, se é que ocorrerá. O outro é Teshima Junta, um sujeito absolutamente normal. E este é justamente o problema! Ele é normal, medíocre, num ambiente de elite, um mundo de gênios e homens extremamente talentosos. E desde essa situação, Teshima apresenta a estratégia dos comuns para vencer a elite. Uma lição de vida simples, talvez um tanto quanto óbvia, mas preciosa.


O texto não é longo, procuro eu evitar spoliers para não privar o leitor das inesperadas e surpreendentes rumos de roteiro tomado pelo autor. A trilha sonora é adequada, e a ilustração perfeitamente imersiva. O anime me trouxe muitos momentos felizes, me diverti, me empolguei e me emocionei bastante, também intensifiquei minha paixão pela bike, aprendi muito sobre o cilcismo, bem como lições que levo para vida, o bushido das bicicletas e o caminho dos comuns (apesar de eu ser elite :P).


P.S.: É dito no início do anime que o personagem Onoda percorre semanalmente 60km de bicicleta de Chiba até a Akibahara. Tomei essa por minha meta ''inicial'' nos treinos. Por hora esse é o meu record:

Tempo de Percurso: 1 hora e 59 minutos.
Distância: 20,96 km.
Velocidade Máxima: 63 km/h.

A distância está baixa, mas estou feliz com minha marca de velocidade. Isso em uma bicicleta ''comum'', mas para frente (depois de bater a meta e dobrá-la 😜) pretendo conseguir outra mais adequada. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Breves Considerações Fantasmagóricas

Há poucos dias terminei a leitura do curiosíssimo diário da princesa Eugênia von der Leyen intitulado Conversando com as Almas do Purgatório. A mística alemã, de nobre famílias, recebera ao fim da vida a difícil missão de sufragar as almas dos mortos, sendo frequentemente atormentada por fantasmas vindos do purgatório. É certo que tal obra se configura na categoria de revelações privadas, ficando a total critério do leitor a aceitação ou rejeição a respeito da veracidade e origem sobrenatural de tais visões que, todavia, vieram a intrigar personalidades ilustres como o Papa Pio XII, amigo da família von der Leyer, o teólogo Romano Guardini, bem como despertar a ira do ditador alemão Adolf Hitler, que proibiu a circulação do livro durante o regime do reich

Não pretendo eu mais que mencionar de forma breve alguns aspectos do diário que mais me chamaram atenção a fim de despertar a curiosidade do leitor para a obra.

***

- Incapazes de fazer algo por si mesmo, atormentados por castigos terríveis, clamavam as almas pelas orações da princesa, para que esta exercesse a misericórdia em seu favor. Tanto mais graves os pecados a purgar, tanto mais agressivas e assustadoras se apresentavam as almas, não raro assumindo formas animalescas,  só vindo a humanizar-se e aquietar-se conforme alcançavam níveis mais elevados, depois de por elas serem oferecidas muitas orações e penitências. 

• 7 de outubro de 1925 — Aquele animal horroroso vem agora todas as noites. É um grande macaco, semelhante àquele de tempos atrás. Por que sinto de novo esse horrendo pavor? Não poderei acostumar-me nunca a essas aparições? 

- Algumas vezes não apenas orações e penitências requisitavam os mortos, mas o concluir aquilo que deixaram por inacabado, tal qual ocorreu com a alma de uma freira que deixara de enviar certa quantia de dinheiro as missões.

- Outro aspecto curiosíssimo é que, embora os fantasmas fossem invisíveis aos demais homens, os quais não haviam recebido o mesmo carisma e missão de Eugênia, os animais podiam notar sua presença:

• 21 de junho de 1923— Por mais de uma hora, aquele homem terrível ficou comigo esta noite. Sem parar, corre pelo quarto. Tem cabelo preto, desgrenhado, e olhos abomináveis.
• Vi sentada no cercado de galinhas aquela mulher. Seu jeito é sempre amável. Mas ela não responde. Tendo ido ao galinheiro, pude observá-la bem. Um gato veio andando em direção a ela. Ao enxergá-la, deu um pulo, assustado, para o lado. Senti-me feliz por constatar que, ao menos, o gato vê o que eu vejo.

- Em um século marcado pelo tédio, o leitor não raro pode ver a experiência com o além como fosse uma divertida aventura, algo para levar a existência além do tédio para a vida comum. Todavia, assim não fora para a princesa, que numa sinceridade espantosa manifestava como para ela tudo aquilo era uma grande cruz, como as almas a atormentavam e a assustavam, como era difícil manter uma vida dupla, manter esse seu contato com o além em segredo, sem nada dizer a ninguém exceto a seu confessor, do qual partiu a orientação para que ela escrevesse o diário. Ao mesmo tempo, Eugênia sentia-se verdadeiramente tocada e comovida pelo sofrimento das almas, tão intenso, e tão longo. Havia, pois, defuntos que há mais de quatrocentos anos sofriam, afim de purgar os pecados cometidos em vida.

***

A leitura, de sobremaneira interessante, por trazer informações embora um tanto quanto enigmáticas, do outro mundo, calibra a nossa imaginação para melhor compreender o dogma de fé, nos dá uma imagem do que seja o purgatório, apura nossa sensibilidade a gravidade de nossos pecados e a severidade da justiça divina, a qual devemos dar conta e paga de todas as nossas faltas. Por fim, nos sensibiliza quanto ao sofrimento de nossos irmãos que lá se encontram. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

"20 marcos para as Missões"

• 9 de agosto de 1921 — Cinco horas da tarde. Vi no jardim, entre duas árvores, uma freira. Parecia estar me esperando. Pensei tratar-se de uma velha conhecida e apressei-me a ir ao seu encontro. De repente, ela desapareceu sem deixar vestígios. Retomei o caminho para ver se uma sombra de árvore me ocultara a visão. Mas não descobri nada de especial.
• 13 de agosto — Dirigindo-me à igreja, a freira veio ao meu encontro.
• 19 de agosto — Ela passou ao meu lado; vi, claramente, pelo hábito que vestia, pertencer às Irmãs de Mallersdorf.
• 25 de agosto — Encontrei-a na escada que leva à capela.
• 30 de agosto — Ela me esperava à porta.
• 11 de setembro — Avistei-a no jardim.
• 14 de setembro — Dei com ela na capela. Antes da missa, vi algo refletir-se na vidraça da janela à minha frente. Pensei que a janela atrás de mim não estivesse bem fechada. Virei-me, e lá estava ela.
Examinei-a detalhadamente. Ela tinha os olhos grandes, escuros e muito tristes. Não estava pálida, e tinha o jeito de qualquer pessoa com quem topamos todos os dias, mas era-me totalmente desconhecida.
Parecia não ter braços, e causou-me uma sensação horrível porque estava pertinho de mim.
• 17 de setembro— No jardim, ela deslizou rápida ao meu lado.
• 19 de setembro — Eu brincava de bola com urna criança, quando, de repente, a freira passou entre nós duas. Devo ter feito uma cara muito assustada, pois a criança perguntou-me o que eu estava vendo.
• 22 de setembro— A freira estava sentada na escada da capela.
• 2 de outubro — Eu estava colhendo flores. Lá estava ela na minha frente, de tamanho sobre-humano. Faltou-me ainda coragem para dirigir-lhe a palavra, e quando me havia resolvido a falar-lhe, ela desapareceu.
• 7 de outubro — Infelizmente, entrou também no meu quarto. Com uma sensação desagradável, acordei. Acendi a luz; ali estava ela junto à minha cama. Transida de medo, faltaram-me forças para lhe falar. Defendi-me contra ela com água benta. Passou por cima de mim e entrou na parede. Que susto, meu Deus!
• 11 de outubro— Fui deitar-me por volta de dez horas da noite. A conversa com os hóspedes fora muito boa; era a época da caça e, nem de longe, pensava nela. Acendi a luz; ali estava ela, junto à minha cama. Passei rente a ela, fui à pia de água benta, dei-lhe algumas gotas e lhe perguntei: “O que queres que eu faça?” Com olhar penetrante, fixou-me e disse, sem mexer os lábios: “Deixei de enviar vinte marcos às Missões”. Não me lembro se lhe prometi mandar aquela soma às Missões ou se apenas lho dei a entender por um gesto afirmativo de cabeça. Naquele momento, eu estava impressionada demais. Em todo caso, ela estava satisfeita, pois se aproximou muito de mim, como se quisesse dizer-me alguma coisa. Causou-me tanto medo, que a borrifei depressa com água benta, e ela desapareceu janela afora. Embora tudo tenha sido tão excitante, dormi muito bem. Os vinte marcos foram enviados às Missões e pela pobre alma foram rezadas santas missas. 
Tive sossego até o dia 3 de novembro, data em que me foi concedida uma grande alegria. Quando, pelas onze da noite, fui deitar-me, vi o meu quarto iluminado. Pensei que havia deixado a luz acesa, e entrei. A freira estava no mesmo lugar em que ficara na vez anterior. Mas, que diferença! Saiu dela como que uma luz radiante. Seu hábito escuro estava como que envolto em brilho. Mas o mais reluzente era a expressão de seu rosto. Acho que seus olhos já haviam visto o Bom Deus. Ela me olhou, sorrindo feliz. Pela primeira vez, vi suas mãos; estavam cruzadas sobre o peito. Seu rosto só era comparável a uma opala; não encontro outra comparação; tive uma surpresa e um susto muito grande, e tão alegre e estarrecida me senti, que não me lembrei de perguntai' outra coisa a não ser: “Como te chamas?” Muito solene, ela fez o sinal-da-cruz; o quarto ficou escuro e ela desapareceu. Por conseguinte, não fora a luz elétrica que o havia iluminado. Estou certa de que não me enganei. E impossível sentir o que eu senti se tais coisas não tivessem acontecido realmente. A aparição me parecera bem mais alta que nas outras ocasiões e, pela primeira vez, seus pés não tocavam o chão. Foi a última aparição da freira e que, por assim dizer, me abriu, talvez, os sentidos do corpo e da alma para novos encontros.

- Eugenia von der Leyen. Conversando com as Almas do Purgatório; p.45-47.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Um pouco sobre chás

A primeira xícara acaricia meus lábios e garganta; 
A segunda estilhaça os muros de minha triste solidão; 
A terceira perscruta os riachos secos de minha alma em busca de histórias contidas nas cinco mil escrituras 
Na quarta as dores da existência evanescem por meus poros; 
A quinta relaxa meus músculos e os ossos se tornam leves. 
Na sexta descubro o caminho que me leva aos imortais ancestrais. 
Ah a sétima xícara! Melhor não tomá-la! 
Tomando a sensação seria a de uma lufada de vento frio soprando entre as minhas asas 
Enquanto voo para Penglai (Ilha dos Imortais).

- Lu Tong. Tea song of Yuchuan.


Quão divertido não seria partir em uma mítica jornada em busca da lendária ilha dos imortais? Sem dúvida haverá perigos diversos, épicas aventuras e, ao fim desta jornada, como prêmio o elixir da vida eterna. Seria Penglai uma variação um tanto quanto deformada do relato do Éden, o paraíso perdido, onde se encontra a árvore da vida? Seriam os imortais, homens como Enoque e Elias, transladados para longe da corrupção deste mundo iníquo, porém, prontos a retornar ao fim dos tempos para tomar parte na batalha contra o anti-cristo? Provavelmente não, e nem esse post objetiva uma teologia das religiões comparadas, a busca por sementes do verbo em mitos pagãos, ou daquilo que chamam Fator Melquisedeque. O que aqui pretendo é tanto mais modesto, falemos, pois, sobre chá.

Originalmente o termo Chá era usado somente para designar a bebida derivada das infusão das folhas da Camellia sinensis. A origem desta bebida, tão antiga quanto popular, sobretudo no oriente, está envolta de lendas e misticismo. Na versão mais conhecida da história, a descoberta do chá foi feita pelo imperador Shenung, conhecido como o Agricultor Divino e Imperador dos Cinco Grãos. Conta-se que, enquanto o imperador descansava recostado a uma árvore bebendo água fervida, como era de seu costume, uma lufada de vento soprou e depositou algumas folhas de Camellia sinensis em sua xícara e que, em vez de retirá-las, ele teria bebido a infusão[1]. Outra versão atribui a descoberta do chá ao monge Bodidharma, que empreendeu uma viagem da Índia até a China para levar os ensinamentos do zen-budismo aos chineses. À sua espera em Cantão (Guangzhou), o imperador Liang Wu Ti lhe ofereceu refúgio em uma caverna de meditação próxima à capital do império, e ali Bodidharma fez votos de meditar ininterruptamente por nove anos. Mas, passados alguns, ele adormeceu durante uma meditação (vacilão!) e, para evitar dormir outra vez durante suas práticas, cortou as próprias pálpebras, que ao caírem no solo fizeram brotar a primeira moita da Camellia sinensis, cujas folhas têm o formato de olhos oblíquos como os olhos chineses[2].

Tal qual sua origem, o próprio termo que assim a designa sofre de variações. À medida que foi se difundindo pelos diversos países europeus, foi recebendo diferentes denominações provenientes dos dialetos de cada região, mantendo o sotaque de sua origem. Assim, oda região de Fujian virou o thé francês, o te italiano, o tea inglês e o tee alemão. Os portugueses adquiriam o chá em Macau, onde se falava o dialeto cantonês, que se parece com o mandarim e, assim, o tchá falado por eles chegou ao Brasil e ficou conhecido como chá[3].

Como não fosse suficiente tal complexidade, aqui no Brasil adquirimos o hábito de designar por chá toda e qualquer infusão vegetal (e em alguns casos não se trata nem mesmo de infusão, mas de decocção). Todavia, por hora, tratemos dos  "filhos" da Camellia.
O chá branco é composto por folhas jovens da Camellia sinensis, cujos botões são protegidos e não sofrem oxidação (Dartora, 2010). No chá verde, logo após a colheita, o processo se inicia e as enzimas foliares são inativadas pela exposição ao calor, evitando a oxidação enzimática. No chá oolong, as folhas são cortadas ou picadas e, por efeito das enzimas presentes nessas mesmas folhas, ocorre uma oxidação parcial, mas essa reação é mais branda que no chá preto, em que a oxidação ocorre durante um período prolongado (Valenzuela, 2004; Lima et al., 2009). Antigamente acreditava-se que o processo responsável pela produção dos diferentes tipos de chá era a fermentação. Com o aprofundamento dos estudos nas técnicas de obtenção dos chás, percebeu-se que o processo não poderia ser considerado fermentativo, pois não ocorre degradação por micro-organismos e não há formação de produtos típicos da fermentação como, por exemplo, o etanol. Entretanto, ainda hoje encontramos muitos textos que relacionam a produção dos chás aos processos de fermentação.[4] 

Um pouco teórico demais, eu sei. Mas basicamente todos esses chás coloridos mais o oolong (que é o nosso chá preto, mas para os chineses é vermelho, sendo o verdadeiro preto o puer) são feitos todos da mesma planta, mas em estágios diversos e sofrem processos diversos, de modo que cada qual produz um sabor característico. O chá branco é mais suave, o chá verde mais amargo, o oolong - meu favorito dos três -  mais forte, e o puer - segundo dizem o melhor - bem, esse ainda não tive a oportunidade de provar. Além do sabor, a composição química e as propriedades medicinais variam, conforme ilustra a tabela a seguir.


Passando agora para as demais plantas, eu gosto sobretudo da hortelã (com mel e limão fica simplesmente perfeito), da erva cidreira, do hibisco e do gengibre. Há alguns blends no mercado, recentemente experimentei um de gengibre, pimenta branca e laranja que quase me levou a ilha dos imortais, ok, talvez eu esteja exagerando um pouco, mas era extremamente saboroso. No que diz respeito a essas ervas, suas propriedades medicinais já são mais conhecidas, se você teve vó ela deve ter lhe ensinado algo a respeito, não? Se não ensinou, você pode consultar o Formulário Fitoterápico.

Agora seria a hora de eu vender meu produto, aquele super chá de emagrecimento, ou a erva mágica das montanhas tibetanas, ou quem sabe o chá gourmet das florestas inglesas, mas na real não tenho nada para vender. Só quis mesmo contar-lhes um pouco desta que é minha bebida predileta. 
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[1] GRACINDO, Ina. Viagem ao mundo do chá, p.35.
[2] Ibidem.
[3] BRAIBANTE et al. A Química dos Chás. Rev. Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. Vol. 36, N° 3, p. 168-175, AGOSTO 2014.
[4] Ibidem.