quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

"20 marcos para as Missões"

• 9 de agosto de 1921 — Cinco horas da tarde. Vi no jardim, entre duas árvores, uma freira. Parecia estar me esperando. Pensei tratar-se de uma velha conhecida e apressei-me a ir ao seu encontro. De repente, ela desapareceu sem deixar vestígios. Retomei o caminho para ver se uma sombra de árvore me ocultara a visão. Mas não descobri nada de especial.
• 13 de agosto — Dirigindo-me à igreja, a freira veio ao meu encontro.
• 19 de agosto — Ela passou ao meu lado; vi, claramente, pelo hábito que vestia, pertencer às Irmãs de Mallersdorf.
• 25 de agosto — Encontrei-a na escada que leva à capela.
• 30 de agosto — Ela me esperava à porta.
• 11 de setembro — Avistei-a no jardim.
• 14 de setembro — Dei com ela na capela. Antes da missa, vi algo refletir-se na vidraça da janela à minha frente. Pensei que a janela atrás de mim não estivesse bem fechada. Virei-me, e lá estava ela.
Examinei-a detalhadamente. Ela tinha os olhos grandes, escuros e muito tristes. Não estava pálida, e tinha o jeito de qualquer pessoa com quem topamos todos os dias, mas era-me totalmente desconhecida.
Parecia não ter braços, e causou-me uma sensação horrível porque estava pertinho de mim.
• 17 de setembro— No jardim, ela deslizou rápida ao meu lado.
• 19 de setembro — Eu brincava de bola com urna criança, quando, de repente, a freira passou entre nós duas. Devo ter feito uma cara muito assustada, pois a criança perguntou-me o que eu estava vendo.
• 22 de setembro— A freira estava sentada na escada da capela.
• 2 de outubro — Eu estava colhendo flores. Lá estava ela na minha frente, de tamanho sobre-humano. Faltou-me ainda coragem para dirigir-lhe a palavra, e quando me havia resolvido a falar-lhe, ela desapareceu.
• 7 de outubro — Infelizmente, entrou também no meu quarto. Com uma sensação desagradável, acordei. Acendi a luz; ali estava ela junto à minha cama. Transida de medo, faltaram-me forças para lhe falar. Defendi-me contra ela com água benta. Passou por cima de mim e entrou na parede. Que susto, meu Deus!
• 11 de outubro— Fui deitar-me por volta de dez horas da noite. A conversa com os hóspedes fora muito boa; era a época da caça e, nem de longe, pensava nela. Acendi a luz; ali estava ela, junto à minha cama. Passei rente a ela, fui à pia de água benta, dei-lhe algumas gotas e lhe perguntei: “O que queres que eu faça?” Com olhar penetrante, fixou-me e disse, sem mexer os lábios: “Deixei de enviar vinte marcos às Missões”. Não me lembro se lhe prometi mandar aquela soma às Missões ou se apenas lho dei a entender por um gesto afirmativo de cabeça. Naquele momento, eu estava impressionada demais. Em todo caso, ela estava satisfeita, pois se aproximou muito de mim, como se quisesse dizer-me alguma coisa. Causou-me tanto medo, que a borrifei depressa com água benta, e ela desapareceu janela afora. Embora tudo tenha sido tão excitante, dormi muito bem. Os vinte marcos foram enviados às Missões e pela pobre alma foram rezadas santas missas. 
Tive sossego até o dia 3 de novembro, data em que me foi concedida uma grande alegria. Quando, pelas onze da noite, fui deitar-me, vi o meu quarto iluminado. Pensei que havia deixado a luz acesa, e entrei. A freira estava no mesmo lugar em que ficara na vez anterior. Mas, que diferença! Saiu dela como que uma luz radiante. Seu hábito escuro estava como que envolto em brilho. Mas o mais reluzente era a expressão de seu rosto. Acho que seus olhos já haviam visto o Bom Deus. Ela me olhou, sorrindo feliz. Pela primeira vez, vi suas mãos; estavam cruzadas sobre o peito. Seu rosto só era comparável a uma opala; não encontro outra comparação; tive uma surpresa e um susto muito grande, e tão alegre e estarrecida me senti, que não me lembrei de perguntai' outra coisa a não ser: “Como te chamas?” Muito solene, ela fez o sinal-da-cruz; o quarto ficou escuro e ela desapareceu. Por conseguinte, não fora a luz elétrica que o havia iluminado. Estou certa de que não me enganei. E impossível sentir o que eu senti se tais coisas não tivessem acontecido realmente. A aparição me parecera bem mais alta que nas outras ocasiões e, pela primeira vez, seus pés não tocavam o chão. Foi a última aparição da freira e que, por assim dizer, me abriu, talvez, os sentidos do corpo e da alma para novos encontros.

- Eugenia von der Leyen. Conversando com as Almas do Purgatório; p.45-47.

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