sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Breves Considerações Fantasmagóricas


Há poucos dias terminei a leitura do curiosíssimo diário da princesa Eugênia von der Leyen intitulado Conversando com as Almas do Purgatório. A mística alemã, de nobre famílias, recebera ao fim da vida a difícil missão de sufragar as almas dos mortos, sendo frequentemente atormentada por fantasmas vindos do purgatório. É certo que tal obra se configura na categoria de revelações privadas, ficando a total critério do leitor a aceitação ou rejeição a respeito da veracidade e origem sobrenatural de tais visões que, todavia, vieram a intrigar personalidades ilustres como o Papa Pio XII, amigo da família von der Leyer, o teólogo Romano Guardini, bem como despertar a ira do ditador alemão Adolf Hitler, que proibiu a circulação do livro durante o regime do reich

Não pretendo eu mais que mencionar de forma breve alguns aspectos do diário que mais me chamaram atenção a fim de despertar a curiosidade do leitor para a obra.

***

- Incapazes de fazer algo por si mesmo, atormentados por castigos terríveis, clamavam as almas pelas orações da princesa, para que esta exercesse a misericórdia em seu favor. Tanto mais graves os pecados a purgar, tanto mais agressivas e assustadoras se apresentavam as almas, não raro assumindo formas animalescas,  só vindo a humanizar-se e aquietar-se conforme alcançavam níveis mais elevados, depois de por elas serem oferecidas muitas orações e penitências. 

• 7 de outubro de 1925 — Aquele animal horroroso vem agora todas as noites. É um grande macaco, semelhante àquele de tempos atrás. Por que sinto de novo esse horrendo pavor? Não poderei acostumar-me nunca a essas aparições? 

- Algumas vezes não apenas orações e penitências requisitavam os mortos, mas o concluir aquilo que deixaram por inacabado, tal qual ocorreu com a alma de uma freira que deixara de enviar certa quantia de dinheiro as missões.

- Outro aspecto curiosíssimo é que, embora os fantasmas fossem invisíveis aos demais homens, os quais não haviam recebido o mesmo carisma e missão de Eugênia, os animais podiam notar sua presença:

• 21 de junho de 1923— Por mais de uma hora, aquele homem terrível ficou comigo esta noite. Sem parar, corre pelo quarto. Tem cabelo preto, desgrenhado, e olhos abomináveis.
• Vi sentada no cercado de galinhas aquela mulher. Seu jeito é sempre amável. Mas ela não responde. Tendo ido ao galinheiro, pude observá-la bem. Um gato veio andando em direção a ela. Ao enxergá-la, deu um pulo, assustado, para o lado. Senti-me feliz por constatar que, ao menos, o gato vê o que eu vejo.

- Em um século marcado pelo tédio, o leitor não raro pode ver a experiência com o além como fosse uma divertida aventura, algo para levar a existência além do tédio para a vida comum. Todavia, assim não fora para a princesa, que numa sinceridade espantosa manifestava como para ela tudo aquilo era uma grande cruz, como as almas a atormentavam e a assustavam, como era difícil manter uma vida dupla, manter esse seu contato com o além em segredo, sem nada dizer a ninguém exceto a seu confessor, do qual partiu a orientação para que ela escrevesse o diário. Ao mesmo tempo, Eugênia sentia-se verdadeiramente tocada e comovida pelo sofrimento das almas, tão intenso, e tão longo. Havia, pois, defuntos que há mais de quatrocentos anos sofriam, afim de purgar os pecados cometidos em vida.

***

A leitura, de sobremaneira interessante, por trazer informações embora um tanto quanto enigmáticas, do outro mundo, calibra a nossa imaginação para melhor compreender o dogma de fé, nos dá uma imagem do que seja o purgatório, apura nossa sensibilidade a gravidade de nossos pecados e a severidade da justiça divina, a qual devemos dar conta e paga de todas as nossas faltas. Por fim, nos sensibiliza quanto ao sofrimento de nossos irmãos que lá se encontram. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário