sábado, 26 de dezembro de 2020

Quatro Padrões de Julgamento para uma Obra de Arte

Que tipo de julgamento, se aplica, então a uma obra de arte? Creio que há quatro padrões básicos:

  1. Excelência técnica;
  2. Validade;
  3. Conteúdo intelectual, a cosmovisão que está sendo comunicada;
  4. Integração entre conteúdo e veículo.
Discutiremos a excelência técnica em relação à pintura, pois com ela é mais fácil demonstrar o que queremos dizer. Consideramos aqui o uso da cor, da forma, do tom, a textura da tinta, o manuseio das linhas, a unidade da tela e assim por diante. Em cada um desses aspectos pode haver vários graus de excelência técnica. Ao reconhecer a excelência técnica como um aspecto de uma obra de arte, podemos ser capazes de dizer que, ainda que não concordemos com a cosmovisão de um determinado artista, não obstante, ele é um grande artista.

Não estaremos sendo verdadeiros com um artista como pessoa se desprezarmos sua arte simplesmente porque discordamos de seu ponto de vista. Escolas cristãs, pais cristãos e pastores cristãos têm se afastado de muitos jovens exatamente por causa disso. Porque escolas, pastores e pais têm deixado de fazer distinção entre excelência técnica e conteúdo, grande parte das obras de arte de qualidade tem sido rejeitada com escárnio e chacota. Em vez disso, se o artista tiver alto nível de excelência técnica, ele deve ser reconhecido, ainda que discordemos de sua cosmovisão. As pessoas devem ser tratadas de maneira justa. Portanto, a excelência técnica é um critério importante.

O segundo critério é a validade. Aqui questionamos se um artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão ou se faz arte apenas por dinheiro ou para ser aceito. Se o artista produz uma obra de arte somente por causa de um cliente - seja esse cliente um veterano ilustre, ou uma moderna galeria de arte à qual ele deseja ter acesso, ou os atuais críticos de arte - m então seu trabalho não tem validade.

Para tomar o conceito mais real, vejamos o que acontece na arte da pregação. Há muitos pastores cujo trabalho não tem validade. Alguns pregam por ganho material e outros para serem aceitos por suas congregações. É muito fácil agir de acordo com a plateia, ajustando o que se diz ou como se diz a fim de produzir o tipo de efeito mais benéfico ao próprio pregador. E quando essa questão é em relação ao evangelho, a influência da desonestidade se torna especialmente clara.

Podemos pensar nos dramaturgos cujo futuro está nas mãos dos críticos do momento. Quando se trata de teatro, arte, música e cinema, há um grupo de críticos de Nova York e Londres que podem promover ou condenar o artista. Como é fácil divertir-se com a crítica e não considerar a arte de alguém como expressão sincera do que o próprio artista quer fazer.

O terceiro critério para o julgamento de uma obra de arte é seu conteúdo, que reflete a cosmovisão do artista. No caso dos cristãos, a cosmovisão comunicada por meio da arte precisa ser vista sob a ótica das Escrituras. A cosmovisão do artista não pode ser isenta do julgamento da Palavra de Deus. Nesse sentido, o artista é como o cientista. Um cientista pode até usar uma bata branca e ser considerado uma autoridade pela sociedade, mas quando suas afirmações se chocam com o que Deus nos apresenta nas Escrituras, elas ficam submetidas à autoridade definitiva de sua Palavra. Um artista até pode usar um avental de pintor e ser praticamente venerado; entretanto, uma vez que seu trabalho mostra sua cosmovisão, ele deve ser julgado à luz da cosmovisão cristã.

Creio que agora já conseguimos perceber como é possível fazer tais julgamentos em relação à obra de arte. Se, como cristãos, paramos diante de uma tela e reconhecermos que seu autor é um grande artista em excelência técnica e validade - se de fato ele o for - , e se tivermos sido justos com ele como pessoa e como artista, então teremos a possibilidade de afirmar que sua cosmovisão é errada. Podemos julgar sua visão com o mesmo critério com que julgamos as visões de qualquer pessoa - um filósofo, um cidadão comum, um trabalhador braçal, um empresário ou qualquer outro.

Sejamos mais específicos. A noção de liberdade boêmia de Jean Jacques Rousseau promulgou e que tem sido tão prevalecente na sociedade moderna não têm espaço no pensamento cristão. Rousseau buscava um tipo de liberdade autônoma e, a partir dele, surgiu um grupo de "super-homens" cujas vidas foram vividas acima da razão e das normas da sociedade. Por muito tempo essa vida boêmia foi considerada a ideal para o artista e, nas últimas décadas, passou a ser considerada ideal para outros além dos artistas. Entretanto, do ponto de vista cristão, esse tipo de vida não é permitido. A Palavra de Deus rege a vida dos grandes e dos pequenos homens, dos cientistas e das pessoas comuns, dos reis e dos artistas.

Alguns artistas podem não saber que estão conscientemente comunicando uma cosmovisão. Porém, as cosmovisões se manifestam. Mesmo os trabalhos concebidos sob o princípio da arte pela arte geralmente expressam uma cosmovisão. Mesmo a cosmovisão que diz não existir significado transmite uma mensagem. Seja como for, esteja o artista consciente da cosmovisão ou não, se ela estiver presente, deve ser submetida ao julgamento da palavra de Deus.

Há um corolário neste terceiro critério. Precisamos perceber que, quando algo falso ou imoral é expresso por meio de uma arte de alta qualidade, isso pode ser mais destrutivo e devastador do que se fosse comunicado por meio de uma arte de qualidade inferior ou de uma afirmação prosaica. Muito da arte bruta, um produto comum das comunidades hippies e da imprensa alternativa, é carregada de mensagens destrutivas; porém sua qualidade é tão baixa que acaba não tendo muita força. Contudo, quanto maior for a expressão artística, tanto mais importante é que ela seja conscientemente submetida - juntamente com a sua cosmovisão - ao julgamento de Cristo e da Bíblia. 

Entretanto, a reação comum entre muitos é justamente inversa. Muitos parecem achar que, quanto maior a qualidade da arte, tanto menor deve ser a nossa crítica à sua cosmovisão. Precisamos reverter isso.

Um exemplo do efeito devastador da arte de alta qualidade com conteúdo não-cristão ocorre no zen-budismo. No zen-budismo o mundo é nada, o ser humano é nada, tudo é nada; porém, a poesia zen diz isso de forma bonita, muito mais bonita do que a imprensa alternativa o faz. A imprensa alternativa frequentemente declara que o ser humano é nada, que o mundo é nada, que nada é nada, mas faz isso usando palavrões. E as pessoas pensam que, se essa mensagem fosse dita com um pouco mais de beleza, talvez seria relevante. Então surge o zen-budismo como uma forma elevada de arte e apresenta essa mensagem com beleza. E perdemos duas vezes.

Há um segundo corolário relacionado ao julgamento do conteúdo de uma obra de arte: é possível que um escritor ou pintor não-cristão escreva ou pinte de acordo com uma cosmovisão cristã ainda que ele mesmo não seja cristão. Para compreendermos isso, precisamos distinguir os dois sentidos da palavra cristão. O sentido primário e essencial define uma pessoa que aceitou a Cristo como seu Salvador para o reino de Deus, por meio do novo nascimento. Contudo, se um grupo de pessoas são realmente cristãs, elas expressam um tipo de consenso que existe para além delas mesmas, e, às vezes, pessoas que não são cristãs pintam e escrevem dentro da estrutura desse consenso, mesmo não sendo indivíduos genuinamente cristãos.

Há, portanto, quatro tipos de pessoas na esfera da arte. O primeiro tipo é o indivíduo nascido de novo, que escreve e pinta dentro de uma cosmovisão plenamente cristã. O segundo é o não-cristão que expressa sua própria cosmovisão não-cristã. O terceiro é o indivíduo que não é pessoalmente cristão, mas que escreve ou pinta com base no consenso cristão pelo  qual foi influenciado. Por exemplo, em outra área, se me perguntassem se Benjamin Franklin ou Thomas Jefferson eram pessoalmente cristãos, a resposta conforme pode-se julgar com base no que disseram, seria não. Entretanto, eles produziram algo que possuía algum tipo de fundamentação cristã porque se basearam no consenso cristão da Lex Rex de Samuel Rutherford. Portanto, a partir de uma estrutura cristã, Jefferson e Franklin puderam escrever que as pessoas possuem certos direitos inalienáveis - uma noção derivada de uma cosmovisão particularmente cristã.

O quarto tipo de pessoa é o cristão, nascido de novo, que não compreende o que uma cosmovisão cristã plena deve se e, portanto, produz arte que incorpora uma cosmovisão não-cristã. Em outras palavras, da mesma maneira que é possível o não- cristão ser inconsciente e pintar o mundo de Deus apesar de sua filosofia pessoal, também é possível o cristão ser inconsistente e incorporar em suas pinturas uma cosmovisão não-cristã. Esse último tipo talvez seja o mais triste de todos.

O quarto critério para julgar uma obra de arte envolve o quão bem o artista adequou o veículo a mensagem. Nas obras de arte verdadeiramente grandiosas, há uma correlação entre o estilo e o conteúdo. A arte superior encaixa o veículo usando à cosmovisão que está sendo representada.

Um bom exemplo pode ser encontrado em "A Terra Devastada" de T.S. Eliot. Ao publicar esse poema em 1922, Eliot se tornou um herói para os poetas modernos porque, pela primeira vez, ele ousou ajustar a forma de sua poesia à natureza do mundo conforme ele o enxergava, isto é, corrompido, fragmentado, partido. Que forma era esta?  Uma coleção de fragmentos de linguagem, de imagens e de alusões aparentemente retiradas randomicamente de toda sorte de literatura, filosofia e escritos religiosos do passado ao presenta. No entanto, os poetas modernos gostaram, pois agora tinham uma forma poética para encaixar a cosmovisão moderna da fragmentação. 

A inovação da pintura veio com Demoiselles d´Avignon (1907) - ver imagem ao ao lado - , cujo título vem de uma casa de prostituição em Barcelona. Picasso começou sua obra inspirando-se em outras pinturas do período, mas , como um crítico descreve, ele acabou fazendo "uma composição semiabstrata em que as formas dos nus e seus acessórios são partidos em planos comprimidos dentro de uma espaço oco". Mais especificamente, Picasso começou da esquerda pintando as formas naturalmente; chegando ao meio, ele pintou de forma semelhante aos primitivos espanhóis,; e finalmente à direita, quando estava terminando sua obra, ele pintou as mulheres apenas como formas abstratas e símbolos ou máscaras, e assim, conseguiu transformar seus temas humanos em monstros. Picasso sabia o que estava fazendo e, por um instante, o mundo parou. Foi uma expressão tão forte que, por um longo tempo, nem seus amigos a aceitaram. Nem mesmo quiseram olhar para ela. Portanto, ao pintas as mulheres, Picasso retratou a natureza estilhaçada do homem moderno. Aquilo que T.S. Eliot fez na poesia, Picasso já havia feito na pintura. Ambos merecem reconhecimento por adequar o veículo a mensagem.

Contudo, nenhuma arte deve ser julgada com base apenas neste critério. Devemos enxergar toda a obra de arte à luz de sua técnica, validade, cosmovisão e adequação da forma ao conteúdo. 

- Francis A. Schaeffer. A Arte e a Bíblia. p. 53-60.

Um comentário:

  1. Gostei bastante. São critérios sobretudo formais, sendo o critério da cosmovisão de cunho moral, em consonância à doutrina do prof. Nougué e do consenso comum entre os grandes artistas e filósofos, das duas esferas da arte.

    O segundo e o quarto critério se relacionam ao duplo objeto da arte assinalado pelo Nougué: a ideia exemplar na mente do artista, e a idéia plasmada na forma, embutida no veículo que vai para o destinatário. Se essa ideia é informada por múltiplos sujeitos, o resultado artístico será uma dissolução formal. O critério primeiro é eminentemente formal, e o terceiro é um primor do fim último da arte, que é moral por uma parte, e intelectual por outra.

    Os tipos de artistas que ele assinala são bastante convenientes, e de certo modo se encontram em gérmen na Poética de Aristóteles: "[...] Mas ele próprio [o personagem] diz o que o poeta quer e não o que o enredo requer" (54b, 35); e nesta outra: "Uma vez que o poeta é um imitador, como um pintor ou qualquer outro criador de imagens, imita sempre necessariamente uma de três coisas possíveis: ou as coisas como eram ou são realmente, ou como dizem e parecem, ou como deviam ser". (60b, 10) — não se desvincula de 60b, 10, cap. 25. Essa outra passagem também é interessantíssima: "Não deve julgar-se se alguém diz ou faz alguma coisa bem ou mal unicamente pelo que é feito ou dito, examinando se é bom ou mau, mas considerando também quem faz ou diz, para quem ou quando ou a quem ou por que motivo: se, por exemplo, é para conseguir um bem maior ou para evitar um mal maior" (61a, 5).

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