terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Um pouco sobre chás

A primeira xícara acaricia meus lábios e garganta; 
A segunda estilhaça os muros de minha triste solidão; 
A terceira perscruta os riachos secos de minha alma em busca de histórias contidas nas cinco mil escrituras 
Na quarta as dores da existência evanescem por meus poros; 
A quinta relaxa meus músculos e os ossos se tornam leves. 
Na sexta descubro o caminho que me leva aos imortais ancestrais. 
Ah a sétima xícara! Melhor não tomá-la! 
Tomando a sensação seria a de uma lufada de vento frio soprando entre as minhas asas 
Enquanto voo para Penglai (Ilha dos Imortais).

- Lu Tong. Tea song of Yuchuan.


Quão divertido não seria partir em uma mítica jornada em busca da lendária ilha dos imortais? Sem dúvida haverá perigos diversos, épicas aventuras e, ao fim desta jornada, como prêmio o elixir da vida eterna. Seria Penglai uma variação um tanto quanto deformada do relato do Éden, o paraíso perdido, onde se encontra a árvore da vida? Seriam os imortais, homens como Enoque e Elias, transladados para longe da corrupção deste mundo iníquo, porém, prontos a retornar ao fim dos tempos para tomar parte na batalha contra o anti-cristo? Provavelmente não, e nem esse post objetiva uma teologia das religiões comparadas, a busca por sementes do verbo em mitos pagãos, ou daquilo que chamam Fator Melquisedeque. O que aqui pretendo é tanto mais modesto, falemos, pois, sobre chá.

Originalmente o termo Chá era usado somente para designar a bebida derivada das infusão das folhas da Camellia sinensis. A origem desta bebida, tão antiga quanto popular, sobretudo no oriente, está envolta de lendas e misticismo. Na versão mais conhecida da história, a descoberta do chá foi feita pelo imperador Shenung, conhecido como o Agricultor Divino e Imperador dos Cinco Grãos. Conta-se que, enquanto o imperador descansava recostado a uma árvore bebendo água fervida, como era de seu costume, uma lufada de vento soprou e depositou algumas folhas de Camellia sinensis em sua xícara e que, em vez de retirá-las, ele teria bebido a infusão[1]. Outra versão atribui a descoberta do chá ao monge Bodidharma, que empreendeu uma viagem da Índia até a China para levar os ensinamentos do zen-budismo aos chineses. À sua espera em Cantão (Guangzhou), o imperador Liang Wu Ti lhe ofereceu refúgio em uma caverna de meditação próxima à capital do império, e ali Bodidharma fez votos de meditar ininterruptamente por nove anos. Mas, passados alguns, ele adormeceu durante uma meditação (vacilão!) e, para evitar dormir outra vez durante suas práticas, cortou as próprias pálpebras, que ao caírem no solo fizeram brotar a primeira moita da Camellia sinensis, cujas folhas têm o formato de olhos oblíquos como os olhos chineses[2].

Tal qual sua origem, o próprio termo que assim a designa sofre de variações. À medida que foi se difundindo pelos diversos países europeus, foi recebendo diferentes denominações provenientes dos dialetos de cada região, mantendo o sotaque de sua origem. Assim, oda região de Fujian virou o thé francês, o te italiano, o tea inglês e o tee alemão. Os portugueses adquiriam o chá em Macau, onde se falava o dialeto cantonês, que se parece com o mandarim e, assim, o tchá falado por eles chegou ao Brasil e ficou conhecido como chá[3].

Como não fosse suficiente tal complexidade, aqui no Brasil adquirimos o hábito de designar por chá toda e qualquer infusão vegetal (e em alguns casos não se trata nem mesmo de infusão, mas de decocção). Todavia, por hora, tratemos dos  "filhos" da Camellia.
O chá branco é composto por folhas jovens da Camellia sinensis, cujos botões são protegidos e não sofrem oxidação (Dartora, 2010). No chá verde, logo após a colheita, o processo se inicia e as enzimas foliares são inativadas pela exposição ao calor, evitando a oxidação enzimática. No chá oolong, as folhas são cortadas ou picadas e, por efeito das enzimas presentes nessas mesmas folhas, ocorre uma oxidação parcial, mas essa reação é mais branda que no chá preto, em que a oxidação ocorre durante um período prolongado (Valenzuela, 2004; Lima et al., 2009). Antigamente acreditava-se que o processo responsável pela produção dos diferentes tipos de chá era a fermentação. Com o aprofundamento dos estudos nas técnicas de obtenção dos chás, percebeu-se que o processo não poderia ser considerado fermentativo, pois não ocorre degradação por micro-organismos e não há formação de produtos típicos da fermentação como, por exemplo, o etanol. Entretanto, ainda hoje encontramos muitos textos que relacionam a produção dos chás aos processos de fermentação.[4] 

Um pouco teórico demais, eu sei. Mas basicamente todos esses chás coloridos mais o oolong (que é o nosso chá preto, mas para os chineses é vermelho, sendo o verdadeiro preto o puer) são feitos todos da mesma planta, mas em estágios diversos e sofrem processos diversos, de modo que cada qual produz um sabor característico. O chá branco é mais suave, o chá verde mais amargo, o oolong - meu favorito dos três -  mais forte, e o puer - segundo dizem o melhor - bem, esse ainda não tive a oportunidade de provar. Além do sabor, a composição química e as propriedades medicinais variam, conforme ilustra a tabela a seguir.


Passando agora para as demais plantas, eu gosto sobretudo da hortelã (com mel e limão fica simplesmente perfeito), da erva cidreira, do hibisco e do gengibre. Há alguns blends no mercado, recentemente experimentei um de gengibre, pimenta branca e laranja que quase me levou a ilha dos imortais, ok, talvez eu esteja exagerando um pouco, mas era extremamente saboroso. No que diz respeito a essas ervas, suas propriedades medicinais já são mais conhecidas, se você teve vó ela deve ter lhe ensinado algo a respeito, não? Se não ensinou, você pode consultar o Formulário Fitoterápico.

Agora seria a hora de eu vender meu produto, aquele super chá de emagrecimento, ou a erva mágica das montanhas tibetanas, ou quem sabe o chá gourmet das florestas inglesas, mas na real não tenho nada para vender. Só quis mesmo contar-lhes um pouco desta que é minha bebida predileta. 
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[1] GRACINDO, Ina. Viagem ao mundo do chá, p.35.
[2] Ibidem.
[3] BRAIBANTE et al. A Química dos Chás. Rev. Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. Vol. 36, N° 3, p. 168-175, AGOSTO 2014.
[4] Ibidem.

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