quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Homem Prático


28ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Rm 2,1-11)
Responsório (Sl 61)
Evangelho (Lc 11,42-46)

<Ele respondeu: Ai também de vós, doutores da Lei, que carregais os homens com pesos que não podem levar, mas vós mesmos nem sequer com um dedo tocai os fardos. (Lc 11,46)>

Deveríamos ao menos esforçar-nos por colocar nossas ideias em prática, testá-las em nós mesmos antes de vir a confiá-las irresponsavelmente aos outros. Isso evitaria muitos problemas, bem como nos afastaria da atitude hipócrita dos doutores da lei. Por mais que a teoria seja importante, tal como belas mulheres, há ideias que nos seduzem por sua estética. São tão belas, encantadoras e harmônicas... Mas assim como nem sempre uma bela mulher tem as características necessárias para ser uma boa esposa, de igual modo uma bela ideia pode ter consequências desastrosas no mundo real. Mais do que um teórico, o cristão deve esforçar-se por tornar-se um homem prático. Até porque, não é por nossas teorias que seremos julgados, mas por nossas obras. Todavia, não é fácil escapar de comportamento; querendo escapar da armadilha das teorizações, acabei por criar outra teoria. Terrível paradoxo, não?

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O Bom Samaritano


27ª Semana do Tempo Comum |  Segunda-feira
Primeira Leitura (Jn 1,1–2,1.11)
Responsório (Jn 2,2-8)
Evangelho (Lc 10,25-37)

1. O Evangelho hoje proclamado diz respeito trata da a famosa parábola do Bom Samaritano. Na encíclica Fratelli tutti (uma péssima encíclica, diga-se de passagem), há um trecho interessante (um dos poucos aproveitáveis neste terrível documento) em que o Papa Francisco comenta a respeito; transcrevo aqui afim iluminar nossas reflexões neste dia de hoje:

O abandonado

63. Conta Jesus que havia um homem ferido, estendido por terra no caminho, que fora assaltado. Passaram vários ao seu lado, mas… foram-se, não pararam. Eram pessoas com funções importantes na sociedade, que não tinham no coração o amor pelo bem comum. Não foram capazes de perder uns minutos para cuidar do ferido ou, pelo menos, procurar ajuda. Um parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo deu-lhe algo que, neste mundo apressado, regateamos tanto: deu-lhe o seu tempo. Tinha certamente os seus planos para aproveitar aquele dia a bem das suas necessidades, compromissos ou desejos. Mas conseguiu deixar tudo de lado à vista do ferido e, sem o conhecer, considerou-o digno de lhe dedicar o seu tempo.

64. Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas. Habituamo-nos a olhar para o outro lado, passar à margem, ignorar as situações até elas nos caírem diretamente em cima.

65. Assaltam uma pessoa na rua, e muitos fogem como se não tivessem visto nada. Sucede muitas vezes que pessoas atropelam alguém com o seu carro e fogem. Pensam só em evitar problemas; não importa se um ser humano morre por sua culpa. Mas estes são sinais dum estilo de vida generalizado, que se manifesta de várias maneiras, porventura mais subtis. Além disso, como estamos todos muito concentrados nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento.

66. É melhor não cair nesta miséria. Fixemos o modelo do bom samaritano. É um texto que nos convida a fazer ressurgir a nossa vocação de cidadãos do próprio país e do mundo inteiro, construtores dum novo vínculo social. Embora esteja inscrito como lei fundamental do nosso ser, é um apelo sempre novo: que a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano. Com os seus gestos, o bom samaritano fez ver que «a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro».

67. Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano. Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do ferido na estrada. A parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos, levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum. Ao mesmo tempo, a parábola adverte-nos sobre certas atitudes de pessoas que só olham para si mesmas e não atendem às exigências ineludíveis da realidade humana.

68. A narração – digamo-lo claramente – não desenvolve uma doutrina feita de ideais abstratos, nem se limita à funcionalidade duma moral ético-social. Mas revela-nos uma caraterística essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído «nas margens da vida». Isto deve indignar-nos de tal maneira que nos faça descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano. Isto é dignidade.

Uma história que se repete

69. A narração é simples e linear, mas contém toda a dinâmica da luta interior que se verifica na elaboração da nossa identidade, que se verifica em toda a existência projetada na realização da fraternidade humana. Enquanto caminhamos, inevitavelmente embatemos no homem ferido. Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo. E se estendermos o olhar à totalidade da nossa história e ao mundo no seu conjunto, reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estas personagens: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.

70. Digno de nota é o facto de as diferenças entre as personagens na parábola ficarem completamente transformadas ao confrontar-se com a dolorosa aparição do caído, do humilhado. Já não há distinção entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo. De facto, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade. Debruçar-nos-emos para tocar e cuidar das feridas dos outros? Abaixar-nos-emos para levar às costas o outro? Este é o desafio atual, de que não devemos ter medo. Nos momentos de crise, a opção torna-se premente: poderíamos dizer que, neste momento, quem não é salteador e quem não passa ao largo, ou está ferido ou carrega aos ombros algum ferido.

71. A história do bom samaritano repete-se: torna-se cada vez mais evidente que a incúria social e política faz de muitos lugares do mundo estradas desoladas, onde as disputas internas e internacionais e o saque de oportunidades deixam tantos marginalizados, atirados para a margem da estrada. Na sua parábola, Jesus não propõe vias alternativas, como, por exemplo, no caso daquele homem ferido ou de quem o ajudou terem dado espaço nos seus corações ao ódio ou à sede de vingança, que sucederia? Jesus não Se detém nisso. Confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome.

As personagens

72. A parábola começa com os salteadores. O ponto de partida escolhido por Jesus é um assalto já consumado. Não nos faz deter na lamentação do facto, nem dirige o nosso olhar para os salteadores. São coisas do nosso conhecimento. Vimos avançar no mundo as sombras densas do abandono, da violência usada para mesquinhos interesses de poder, acúmulo e repartição. A questão poderia ser: deixaremos ali estirado por terra o homem maltratado para correr cada qual a esconder-se da violência ou a perseguir os ladrões? Será o ferido a justificação das nossas divisões irreconciliáveis, das nossas cruéis indiferenças, dos nossos confrontos internos?

73. De imediato a parábola faz-nos pousar o olhar claramente naqueles que passam ao largo. Esta perigosa indiferença que leva a não parar, inocente ou não, fruto do desprezo ou duma triste distração, faz das duas personagens – o sacerdote e o levita – um reflexo não menos triste daquela distância menosprezadora que te isola da realidade. Há muitas maneiras de passar ao largo, que são complementares: uma é ensimesmar-se, desinteressar-se dos outros, ficar indiferente; outra seria olhar só para fora. Relativamente a esta última maneira de passar ao largo, nalguns países ou em certos setores deles, verifica-se um desprezo dos pobres e da sua cultura, bem como um viver com o olhar voltado para fora, como se um projeto de país importado procurasse ocupar o seu lugar. Assim se pode justificar a indiferença de alguns, pois aqueles que poderiam tocar os seus corações com as suas reivindicações simplesmente não existem; estão fora do seu horizonte de interesses.

74. Nas pessoas que passam ao largo, há um detalhe que não podemos ignorar: eram pessoas religiosas. Mais ainda, dedicavam-se a dar culto a Deus: um sacerdote e um levita. Isto é uma forte chamada de atenção: indica que o facto de crer em Deus e O adorar não é garantia de viver como agrada a Deus. Uma pessoa de fé pode não ser fiel a tudo o que essa mesma fé exige dela e, no entanto, sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros. Mas há maneiras de viver a fé que facilitam a abertura do coração aos irmãos, e esta será a garantia duma autêntica abertura a Deus. São João Crisóstomo expressou, com muita clareza, este desafio que se apresenta aos cristãos: «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez». O paradoxo é que, às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes.

75. Habitualmente os «salteadores do caminho» têm, como aliados secretos, aqueles que «passam pelo caminho olhando para o outro lado». O círculo encerra-se entre aqueles que usam e enganam a sociedade para chupá-la, e aqueles que julgam manter a pureza na sua função crítica, mas ao mesmo tempo vivem desse sistema e seus recursos. Verifica-se uma triste hipocrisia, quando a impunidade do delito, o uso das instituições para interesses pessoais ou corporativos e outros males que não conseguimos banir, se associam a uma desqualificação permanente de tudo, à constante sementeira de suspeitas que gera desconfiança e perplexidade. Ao engano de que «tudo está mal» corresponde o dito «ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso fazer eu?» Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade. Fazer um povo precipitar no desânimo é o epílogo dum perfeito círculo vicioso: assim procede a ditadura invisível dos verdadeiros interesses ocultos, que se apoderaram dos recursos e da capacidade de ter opinião e pensamento próprios.

76. Olhemos enfim o ferido. Às vezes sentimo-nos como ele, gravemente feridos e atirados para a margem da estrada. Sentimo-nos também abandonados pelas nossas instituições desguarnecidas e carentes, ou voltadas para servir os interesses de poucos, fora e dentro. Com efeito, «na sociedade globalizada, existe um estilo elegante de olhar para o outro lado, que se pratica de maneira recorrente: sob as aparências do politicamente correto ou das modas ideológicas, olhamos para aquele que sofre mas não o tocamos, transmitimo-lo ao vivo e até proferimos um discurso aparentemente tolerante e cheio de eufemismos».

Recomeçar

77. Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam; seria infantil. Gozamos dum espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos. Como o viandante ocasional da nossa história, é preciso apenas o desejo gratuito, puro e simples de ser povo, de ser constantes e incansáveis no compromisso de incluir, integrar, levantar quem está caído; embora muitas vezes nos vejamos imersos e condenados a repetir a lógica dos violentos, de quantos nutrem ambições só para si mesmos, espalhando confusão e mentira. Deixemos que outros continuem a pensar na política ou na economia para os seus jogos de poder. Alimentemos o que é bom, e coloquemo-nos ao serviço do bem.

78. É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local, até ao último ângulo da pátria e do mundo, com o mesmo cuidado que o viandante da Samaria teve por cada chaga do ferido. Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete, sem temer a dor nem a impotência, porque naquela está todo o bem que Deus semeou no coração do ser humano. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num «nós» mais forte do que a soma de pequenas individualidades; lembremo-nos de que «o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas». Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros.

79. O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano.

O próximo sem fronteiras

80. Jesus propôs esta parábola para responder a uma pergunta: «Quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29). A palavra «próximo» na sociedade do tempo de Jesus costumava indicar a pessoa que está mais vizinha, mais próxima. Pensava-se que a ajuda devia encaminhar-se em primeiro lugar para aqueles que pertencem ao próprio grupo, à própria raça. Para alguns judeus de então, um samaritano era considerado um ser desprezível, impuro, e, por conseguinte, não estava incluído entre o próximo a quem se deveria ajudar. O judeu Jesus transforma completamente esta impostação: não nos convida a interrogar-nos quem é vizinho a nós, mas a tornar-nos nós mesmos vizinhos, próximos.

81. A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda, independentemente de fazer parte ou não do próprio círculo de pertença. Neste caso, o samaritano foi quem se fez próximo do judeu ferido. Para se tornar próximo e presente, ultrapassou todas as barreiras culturais e históricas. A conclusão de Jesus é um pedido: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Por outras palavras, desafia-nos a deixar de lado toda a diferença e, em presença do sofrimento, fazer-nos vizinhos a quem quer que seja. Assim, já não digo que tenho «próximos» a quem devo ajudar, mas que me sinto chamado a tornar-me eu um próximo dos outros.

82. O problema é que Jesus destaca explicitamente que o homem ferido era um judeu – habitante da Judeia –, enquanto aquele que se deteve e o ajudou era um samaritano – habitante da Samaria –. Este detalhe reveste-se duma importância excecional ao refletirmos sobre um amor que se abre a todos. Os samaritanos habitavam numa região que fora contagiada por ritos pagãos, o que – aos olhos dos judeus – os tornava impuros, detestáveis, perigosos. De facto, um antigo texto hebraico, que menciona as nações odiadas, refere-se à Samaria afirmando até que «nem sequer é um povo», e acrescenta que é «o povo insensato que habita em Siquém» (Sir 50, 25.26).

83. Isto explica por que uma mulher samaritana, quando Jesus lhe pediu de beber, tenha observado: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» (Jo 4, 9). E noutra ocasião, ao procurar acusações que pudessem desacreditar Jesus, a coisa mais ofensiva que encontraram foi dizer-Lhe: «tens um demónio» e «és um samaritano» (Jo 8, 48). Portanto, este encontro misericordioso entre um samaritano e um judeu é uma forte provocação, que desmente toda a manipulação ideológica, desafiando-nos a ampliar o nosso círculo, a dar à nossa capacidade de amar uma dimensão universal capaz de ultrapassar todos os preconceitos, todas as barreiras históricas ou culturais, todos os interesses mesquinhos.

A provocação do forasteiro

84. Por fim, lembro que Jesus diz noutra parte do Evangelho: «Era forasteiro e recolheste-me» (Mt 25, 35). Jesus podia dizer estas palavras, porque tinha um coração aberto que assumia os dramas dos outros. São Paulo exortava: «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram» (Rm 12, 15). Quando o coração assume esta atitude, é capaz de se identificar com o outro sem se importar com o lugar onde nasceu nem donde vem. Entrando nesta dinâmica, em última análise, experimenta que os outros são «a sua carne» (Is 58, 7).

85. Para os cristãos, as palavras de Jesus têm ainda outra dimensão, transcendente. Implicam reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído (cf. Mt 25, 40.45). Na realidade, a fé cumula de motivações inauditas o reconhecimento do outro, pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito e que «assim lhe confere uma dignidade infinita». Além disso, acreditamos que Cristo derramou o seu sangue por todos e cada um, pelo que ninguém fica fora do seu amor universal. E, se formos à fonte suprema que é a vida íntima de Deus, encontramo-nos com uma comunidade de três Pessoas, origem e modelo perfeito de toda a vida em comum. A teologia continua a enriquecer-se graças à reflexão sobre esta grande verdade.

86. Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles que são diferentes. A fé, com o humanismo que inspira, deve manter vivo um sentido crítico perante estas tendências e ajudar a reagir rapidamente quando começam a insinuar-se. Para isso, é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos. 

2. Hoje é dia de São Francisco de Assis, que ele hoje interceda por todos aqueles que cuidam dos animaizinhos, para que amando as criaturas, amem também a seu Criador, e possam comtemplar a sua face nos céus.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Bolha e Testemunho


25ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Esd 9,5-9)
Responsório (Tb 13,2-8)
Evangelho (Lc 9,1-6)


1. <Desde o tempo de nossos pais até o dia de hoje, temos sido gravemente culpados. Por causa de nossas iniquidades, fomos escravizados, nós, nossos reis e nossos filhos; fomos entregues à mercê dos reis de outras terras, à espada, ao cativeiro, à pilhagem e a vergonha que nos cobre ainda hoje. (Esd 9,7)>

A situação a qual nos encontramos é análoga ao dos antigos israelitas, todavia estamos longe de manifestar a mesma humildade que seria o caminho para vermo-nos livres de tal crise. Ao invés de atentarmos aos nossos pecados, de constatarmos nossa miséria, antes alimentamos ilusões de grandeza. Seriamos um grupo puro e inocente, injustamente oprimido por forças tirânicas, mas ó, no dia em que conquistarmos novamente o poder por nossas próprias forças, então virá uma era gloriosa, porque afinal, somos bons, os melhores. E assim essa megalomania defensiva, impede-nos de avaliar nossos próprios erros e corrigi-los, de entender, sobretudo, que se algum dia tivemos força, ela não vinha de nós mesmo, mas do Senhor, tal qual a força de Sansão.


2. Há quem por vezes se queixe de não encontrar no entorno o consolo de um ambiente adequado, de uma comunidade verdadeiramente católica na possa qual viver. Hoje em dia fala-se de bolha, embora isso ás vezes tome conotações pejorativas. Nada há de errado em viver em uma bolha, em procurar o convívio dos seus. Se Deus lhe concede isso, alegre-se! Mas, se não o concede, pode ser que sua missão seja outra, que tenhas sido escolhido como testemunha do Senhor ante aqueles que não o conhecem, tal como está descrito no livro de Tobias:

<Porque, se ele vos dispersou entre povos que o não conhecem, foi para que publiqueis as suas maravilhas e lhes façais reconhecer que não há outro Deus onipotente senão Ele. (Tb 13, 4)>

Se assim o é, fortaleça o teu coração e reze com perseverança para viver com valentia tamanha aventura.

domingo, 29 de agosto de 2021

Monstros


Habitualmente se dinstinguía entre monstruos y demonios, pero también podán fusionarse. Los monstruos era, supuestamente, seres humanos distorsionados, aunque se dudaba de si tenían alma. Se los suponía creados para mostrar a los humanos cómo es la privacíon física de Dios. F. Gagnon ha sugerido creíblemnete que los monstruos encajan en la cadena ontológica del ser que se extiende desde Dios hacia una realidade cada vez menor. Dios, los ángeles, los governantes humanos, los súbditos humanos, los bárbaros, los monstruos, los demonios, el Anticristo, Lucifer. Los monstruos tienen privaciones físicas: son gigantes, enanos, tienen tres ojos o niguno, o tienen caras en el vientre. Esta clase de privación física es un signo de su privación ontológica que se transmuta fácilmente en privación moral. Su deformidad se fusiona con la del diablo, el más retorcido y depravado de todos los seres. Sin enbargo, hablando en propiedad, los monstruos no son demonios, sino están separados de ellos por al menos un paso; Dios los hizo monstruos y por tanto comparten en algún grado, por pequeño que sea, la bondad y la belleza. Un monstruo particularmente persistente y siniestro es el hombre-animal. Essa clase de seres se encuntran en la mayor parte de las culutras (en la India, por ejemplo, hay hombres tigres, pero en Europa, donde prevalecen los lobos, hay hombres lobo). También se encuentran vampiros en todas partes. Los hombres-animal no son lo mismo que otros montruos, porque sua monstruosidad consiste menos en su deformidad física que en su capacidad demoníaca de cambiar de forma; y mientras los monstruos puden ser moralmente ambivalentes, los hombres-animal son essencialmente malos. Ele diabo es el jefe de los hombres que cambian de forma; los hombres-lobo, los vampiros y las brujas imitan a su señor en esa caulidad para haver la voluntad del diablo.

- Jeffrey Burton Russell. Lucifer: El Diablo en La Edad Media; p.86-87.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O voto de Jefté


20ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jz 11,29-39a)
Responsório (Sl 39)
Evangelho (Mt 22,1-14)

A primeira leitura de hoje é uma das passagens mais misteriosas e perturbadoras da Sagrada Escritura, estou realmente surpreso que os liturgistas escolheram proclamá-la, eu não teria tanta confiança assim na capacidade dos pregadores de torná-la compreensível ao povo...

Jefté, juiz de Israel, faz um voto ao Senhor: caso lhe fosse concedida a vitória sobre os amonitas, ele ofereceria quando voltasse para casa a primeira coisa que viesse ao seu encontro como holocausto. Quem veio ao encontro de Jefté foi ninguém menos que sua própria filha. A corrente exegética majoritária tende a interpretar a cena em toda a sua literalidade. Jefté, de fato, oferecido sua filha como sacrifício humano. Tal é a interpretação do Padre Matos Soares, segundo o sacerdote: 
 
O espírito do Senhor excita Jefté a reunir gente e o anime à vitória, mas não, por certo, a fazer o voto de sacrifício humano, proibido pela Lei. O voto foi insensato e ímpio, e mantê-lo foi um delito. Quiçá Jefté agiu de boa fé e julgou-se obrigado ao voto depois da vitória estrepitosa. Não devemos esquecer também a sua falta de cultura.

A incultura de Jefté aliada a uma visão errônea da religião, adquirida com o convívio com os povos do entorno, teria sido causa de tal tragédia. É amargo pensar como um homem bom, alguém que fora de fato um herói para Israel cometeu tal delito; como sua inteligência de tal modo fora obscurecida a ponto de cometer tal ato, violando não só o bom senso como a própria lei veterotestamentária que proibia sacrifícios humanos; julgando estar prestando um culto a Deus. Quiçá isso  nos sirva de alerta a cerca do dever de alimentar nossa inteligência afim de adquirir uma correta visão a respeito de nossa religião, sem deixar-nos contaminar pelos erros de nosso tempo.

Devo citar, porém, que existe uma segunda corrente exegética minoritária a respeito de tal passagem, defendida sobretudo por teólogos protestantes. Tal interpretação tende a diminuir a gravidade do ocorrido, afirmando tratar-se não de um sacrifício humano, mas de uma espécie de consagração monástica de dedicação integral ao serviço divino para dedicar a vida ao Senhor, associada também ao celibato. A dramaticidade da passagem, em tal perspectiva, ficaria por conta de que, entregando sua única filha a serviço do Senhor, Jefté ficaria privado de herdeiros não vendo a perpetuação de sua casa [o que, contudo, também ocorreria primeiro caso].

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Chá, Guerra do Ópio e Digimon Tamers


Liu I-ming, erudito taoísta, nascido em 1734 e falecido em 1860, observara o paradoxo em torno do bicho-da-seda e da abelha, que na busca da própria felicidade acabam por semear a própria morte[1]:
O Casulo do Bicho-da-seda, o Mel da Abelha

Os bichos-da-seda originalmente tecem o seu casulo para se protegerem, sem saberem que as pessoas os matarão por causa dele. As abelhas originalmente produzem mel para se alimentarem, sem saberem que as pessoas vão tirar-lhes a vida por causa dele. Essas criaturas querem melhorar a própria vida, mas, fazendo isso, apressam a própria morte.
O que percebo quando observo isso é o Tao da interdependência entre o benefício e o prejuízo.
Todas as pessoas temem a morte e, por isso, procuram viver. Como procuram viver, têm de fazer alguma coisa a respeito da comida e da roupa. Elas passam os dias trabalhando mental e fisicamente no mundo comum, acumulando dinheiro e gêneros para enriquecerem a própria vida.
As pessoas comuns deveriam considerar isso o bastante para viverem, mas não percebem que isso não é o bastante para se viver de fato. Na verdade, isso termina por apressar a morte.
Como sabemos que é assim? Quanto maior a seriedade das pessoas com o ganhar a vida, tanto menor a sua seriedade com a preservação do corpo. Trabalham dia e noite, o que provoca danos desconhecidos à sua vitalidade e ao seu espírito, deteriorando sua energia e sua circulação. Elas já entraram no caminho da morte.
Há outro tipo de pessoa que não sabe o que traz morte e o que traz vida. Diante de centenas de doenças, pela manhã essas pessoas não têm certeza da noite, mas não conseguem deixar de lado a comida e a roupa, desejando cada vez mais quanto mais envelhecem, não despertando até morrerem, padecendo de confusão até o fim.
Essas pessoas são como bichos-da-seda, que produzem a própria morte ao tecerem um casulo, como abelhas, que produzem a própria morte ao produzirem o mel.
As pessoas de grande sabedoria têm um modo diferente de preservar a vida. Elas não mantêm a mente concentrada na comida e na roupa, não têm a atenção concentrada em ganhos materiais. Elas renunciam à riqueza do mundo para acumular riqueza espiritual, deixam de lado o corpo material para alimentar o corpo verdadeiro. Como nada as pode afetar, o que as pode beneficiar ou prejudicar?

Coincidência ou profecia, tal como a abelhas e o bicho-da-seda, assim se comportou a China Imperial em suas relações com o Império Britânico: o chá do produzido no oriente encantou os ingleses, eram toneladas e toneladas de folhas importadas pela Companhia das Índias Orientais. Todavia, os nativos desdenhavam dos produtos europeus; salvo por um encanto passageiro com relógios e autômatos, nenhuma mercadoria inglesa interessava aos chineses,  o que gerava um saldo comercial extremamente  desfavorável aos anglo que encontraram no ópio um meio de equilibrar as coisas. A droga, proibida pelo governo chinês - por motivos óbvios - gerava fartas receitas, de forma que a companhia inglesa, por meio de um engenhoso esquema de laranjas abastecia os traficantes locais. O dinheiro obtido, ironicamente, acabava por retornar a China para a compra do chá. Quando o governo chinês resolve tomar medidas mais rígidas, com vistas à extirpar o tráfico internacional e conter a crise social gerada pela proliferação da droga, eis que a Inglaterra mobiliza suas frotas a fim de defender ''o livre comércio'' e as ''liberdades individuais'' de lucrar desgraçando a vida dos chineses.  Tal como o mel produzido pela abelha e o casulo do bicho-da-seda, alvos de humana cobiça e causa para de infinitas desgraças aos seus produtores, assim ocorreu o chá na conflituosa história das relações China e Inglaterra. De certo modo, a história, hoje, se remete uma vez...


Ok, talvez seja exagero comparar a guerra do ópio ao cancelamento de Digimon Tamers, mas eu não podia perder a oportunidade de relacionar minhas últimas leituras a polêmica da semana 😁 . Digimon Tamers não é apenas a melhor temporada de Digimon, mas figura entre os melhores animes da face da terra (talvez esteja exagerando uma vez mais) e eu ainda pretendo escrever a respeito, mas o assunto não é tanto a obra original como um especial lançado a poucos dias (isso é se você estiver lendo isso em uma data próxima daquela em que escrevo este texto). Em comemoração aos 20 anos do anime, o roteirista Chiaki Konaka organizou com os dubladores originais uma espécie de breve sequência que fora apresentada em forma de áudio na Digifest apenas para o mercado japonês. Nessa nova aventura, os tamers devem enfrentar uma nova entidade digital, nascida através das interações humanas na internet:


Irritados com a vaga menção do Politicamente Correto e a Cultura do Cancelamento e a singela sugestão que seu comportamento fosse inadequado, e tivesse alguma reação com o mal, eis que os lacradores ocidentais se mobilizaram para cancelar Digimon Tamers 2021 e Chiaki Konaka, infernizando a vida do japonês no twitter com calúnias difamatórias, a ponto de obrigá-lo a pedir desculpas. Eu até entendo que o Konaka só queira sossego, mas fiquei triste por ter cedido tão facilmente aos bastardos do pôr do sol. Seja como for, para além de um fenômeno isolado, o episódio é mais um de inúmeros marcos daquilo que considero o fim da indústria do anime como conhecemos. Tal como chá caiu no gosto dos ingleses, o entretenimento oriental conquistou o oriente, e este mercado estrangeiro acabara por impor padrões e castrar a criatividade dos autores locais. Como os ingleses destruíram a China para obter seu precioso chá, assim o ocidente está a destruir a indústria de animes a fim de adaptá-los a sua sensibilidade degenerada, chegará o tempo em que as garotinhas fofinhas serão substituídas por machorras lésbicas empoderadas e outras bobagens análogas. 

Para mim, o entretenimento japonês serve como uma espécie de refúgio, um modo de alimentar minha imaginação e me divertir e ao mesmo tempo manter uma saudável distância ao lixo ignominioso que é o entretenimento ocidental contemporâneo. É provável que as gerações posteriores não tenham mais esse refúgio...

A lição que fica é o sugestivo título de um livro distributista, o qual ainda não li (será que deveria ter mesmo dito isto? Talvez se fingisse que li e falasse de forma empolada, como um restaurador da alta cultura, esse blog tivesse mais visitas, se bem que, como vão notar pelo fim deste parágrafo isso me causaria problemas...), a saber:  O negócio é ser pequeno. Não atoa os sábios escondem seus tesouros... Quando algo se torna demasiado conhecido, acaba se tornando objeto de cobiça e invariavelmente acarretando desgraças a seu portador.

***

P.S. Eu poderia ter encerrado o texto ali em cima (e talvez  devesse), mas creio que deveria notar certo aspecto contraditório de minha posição. De certo modo eu tenho acesso ao chá e ao entretenimento japonês porque tais elementos cresceram a ponto de ecoar para além de seu ambiente originário. É possível que esteja sendo meio hipster ao querer privar os demais deste nicho que me trouxe não poucas alegrias, mas julgo que meu consumo é civilizado, enquanto o deles predatório, degenerado e imperialista. 

Referências:
[1] O Despertar do Tao - Liu I Ming

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"A nuvem e a escuridão estão ao redor dele"


Transfiguração do Senhor | Sexta-feira
Primeira Leitura (Dn 7,9-10.13-14)
Responsório (Sl 96)
Evangelho (Mc 9,2-10)

<A nuvem e a escuridão estão ao redor dele; justiça e equidade são a base do seu trono (Sl 96, 2)>

<Formou-se uma nuvem que os cobriu com sua sombra. (Mc 9, 7)>

O Papa João Paulo II classifica a transfiguração como mistério luminoso. Em tal acontecimento, a luz da divindade de Cristo se torna visível, sua mensagem, sua natureza se manifestam com uma clareza sem igual. No entanto, pretendo hoje falar de sombra e escuridão. Nossa cultura tende a associar tais elementos ao Diabo, como se Deus tivesse criado tão somente o dia e a noite fosse o festim dos demônios. Não é assim. Há certa poesia na penumbra.

Dom Marcel Lefebvre nota que o mais admirável do mistério da Transfiguração não é que Cristo tenha mostrado aos apóstolos sua natureza divina, mas antes que a tenha ocultado durante praticamente toda sua vida terrestre. A sombra do Pai é o título do livro de Jan Dobraczyński dedicado a São José. O ápice da arte barroca nas obras de Caravaggio tem como marca distinta o contraste entre luz e sombra; a degeneração do barroco em Rococó se dá precisamente quando o elemento sombrio desaparece da pintura, dando lugar a uma luminosidade piegas. As próprias passagens bíblicas que hoje lemos mencionam a escuridão sob o trono do altíssimo e a sombra da nuvem que cobre os apóstolos antes da manifestação do Pai.

Discrição e silêncio são as características da sombra. Como numa pintura barroca, em tal cenário a luz divina brilha como nunca. Conseguiremos nós apagar as luzes vulgares desta civilização decadente, apartar-nos de tanta agitação, exibicionismo e barulho, e - de modo metafórico -  retirar-nos para o monte, onde cobertos pela sombra da nuvem, sob escuridão que cerca o trono do Altíssimo nos cobrirá, e poderemos então contemplar seus mistérios e escutar a sua voz?

Diz-se que vivemos tempos sombrios, creio eu que é tanto pior. Estamos imersos numa luminosidade artificial e invasiva, que nos impede de desfrutar da poesia da noite e contemplar o brilho das estrelas. 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Tesouro Escondido

17ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira
Primeira Leitura (Êx 34,29-35)
Responsório (Sl 98)
Evangelho (Mt 13,44-46)

<O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. (Mt 13,44)> 

A atitude natural daquele que encontra um precioso tesouro é mantê-lo escondido e desfrutar dele no o oculto. Tão somente após deleitar-se com o achado é que pode nascer algum desejo de compartilhar um pouco de sua riqueza, realizar alguma caridade. E nada há de errado ou reprovável nisso. Mas hoje há tanta gente que afirma tem encontrado algo, mas tão já se apressa em compartilha-lo, torná-lo público. Criaturas que colocam seu deleite não no mesmo tesouro, mas na vã atenção das turbas. No melhor dos casos são charlatões, que nada encontraram mas apenas agitam os seus semelhantes com bobagens. No pior dos casos são estultos incapazes de desfrutar daquilo que eles mesmo encontraram, como abelhas domesticadas que trabalham incansavelmente para encontrar um pólen de qualidade e produzir um bom mel, só para ter seu preciso tesouro tomado por outros que dele desfrutarão (quem sabe para adoçar um delicioso chá).

domingo, 25 de julho de 2021

O clero herodiano


Nos contam as sagradas escrituras que os magos pararam em Jerusalém, afim de obter informações a respeito de onde deveria nascer o Messias. Herodes, depois de consultar os sábios hebreus, lhes informa que o menino haveria de nascer em Belém. A impiedade de Herodes era a muito conhecida, entretanto, quando meditamos a respeito, não há como não escandalizar-se ante a insensibilidade dos judeus que, sabendo das profecias e alertados pela presença dos magos, preferiram ficar onde estavam, no conforto da corte, ao invés de partir em jornada para buscar aquele que lhes fora anunciado pelos profetas. O escritor polaco Jan Dobraczyński, na obra La Sombra Del Padre, coloca seu talento literário a serviço da fé e nos apresenta uma descrição imaginária de como se poderia ter dado a cena e de que modo estavam os sábios judeus envolvidos na teia das conspirações herodianas. Segue a transcrição:


—Bueno, ¿qué te parecen? —preguntó Salomé.

Herodes estaba sentado en su lecho. Tenía el rostro tan encogido, que podría pensarse que no había nada en él, fuera de los ojos ardientes de fiebre y la nariz grande. El terrible esfuerzo que se imponía para ocultar sus sufrimientos le agotaba más que los momentos en que se abandonaba a los gritos.

—Tuviste razón —murmuró— al fijarte en ellos. Son probablemente enviados del rey de los Partos. Le habrá llegado la noticia de mi enfermedad. Se cree que ya me estoy muriendo. ¡Esta historia del supuesto Saoshyant no es más que una treta! No creo en sus cuentos. Aquel les envió para enterarse de la situación…

—¿Y crees que no significa nada esta historia del Niño, que ha nacido…?

—Hasta allí han llegado las patrañas de los fariseos. Lo cierto es que buscan aliados aquí.

—Entonces hay que despacharlos.

—Tengo que hablar primero con los Judíos. ¿Están ya aquí los que hice llamar?

—Están aquí esperando tu permiso para presentarse ante ti.

—¡Que entren. Diles que sean breves. Que no hablen como suelen hacerlo! ¡No tengo fuerzas para escuchar tonterías! Ya tendría que estar en Callirhoe. Allí, lo sé, desaparecerán los dolores… ¡Tenían que venir estos Partos ahora! Tú los hiciste venir a palacio…

—Tú mismo me has dicho que hice bien.

—Sí. Es cierto. Tenías razón. ¡Llama a esos Judíos!

Iban entrando en la sala uno tras otro, rígidos, tiesos, vestidos con sus ropas largas.

Los sacerdotes llevaban encima los distintivos de su dignidad. Iba primero el gran sacerdote Simón, hijo de Betos, el suegro de Herodes, padre de la bella Mariamme, que se convirtió en esposa del rey después de la muerte de Mariamme la Asmonea. Para elevar la dignidad de la que deseó convertir en su esposa oficial, Herodes nombró gran sacerdote a Simón, privando del poder al antiguo gran sacerdote, Jesús, Hijo de Foabis.

Simón iba acompañado de varios sacerdotes. Siguiéndoles venían varios fariseos con los ojos mirando al suelo, como para demostrar en qué poca consideración tenían las magnificencias del palacio o quizá para no mirar las esculturas griegas colocadas en los ángulos de la estancia. En cabeza iban Polión y Samea, dos dirigentes fariseos que mantenían estrechos contactos con el rey. Detrás, dos jóvenes fariseos llevaban sosteniéndole por los brazos al anciano Hillel. Herodes con gesto benévolo mandó ofrecer una silla al venerable doctor. El gran hakam —rector de toda la escuela que llevaba el nombre de «Casa de Hillel»— era un hombre respetado en todo el reino, y también fuera del reino, allí donde existían colonias judías.

Los recién llegados se colocaron en semicírculo delante del rey. Sus caras reflejaban una ansiedad que no acertaban a disimular. No sabían para qué habían sido realmente convocados. Herodes despertaba en ellos temor. A decir verdad, trataba de ser conciliador, pero sabían que era capaz de ser zorro y león simultáneamente. Además, estaban convencidos de que la enfermedad lo había vuelto loco.

El rey estaba como de costumbre envuelto por una nube de humo aromático. Salomé estaba detrás de su hermano dispuesta a acudir en su ayuda.

—¿Sabéis para qué os he hecho llamar? —preguntó con vehemencia.

—Lo suponemos únicamente… —el que tomó la palabra en nombre de todos era Simón—. Creemos que se trata de esas personas que han llegado del reino de los Partos…

—Sí. ¿Habéis oído la noticia que traían?

—La princesa Salomé nos lo dijo…

—¿Qué os parece esta historia del nacimiento?

Las cabezas de los presentes se volvieron hacia Hillel. Dejaron la palabra al gran maestro.

—Conocemos este asunto, rey Herodes… —Hillel hablaba con voz un tanto espesa y, a medida que hablaba, se hacía más clara—. En siglos remotos, cuando el rey de Persia se mostró benigno con Israel, permitiéndole regresar a las tierras de sus antepasados, los sabios judíos de entonces trataron de demostrar en sus escritos que las creencias de los discípulos de Zarathustra son un eco de nuestras esperanzas de un mesías. Y parece ser que esperan lo que nosotros esperamos hace muchos siglos, lo que nos ha sido prometido y llegará solo para nosotros…

—¿Quieres decir —Herodes interrumpió a Hillel— que los Persas, al esperar a su Saoshyant, esperan simplemente al mesías judío?

—Tal como has dicho, rey. La verdad es como el sol reflejado en un millar de espejos.

—Bien —Herodes alcanzó la copa de vino mezclado con una infusión de hierbas, que tenía la virtud de frenar el ataque de dolor que se acercaba—. ¿Cuándo ha de venir ese mesías vuestro?

Lanzó esta pregunta a Simón, pero este, con un movimiento de cabeza, la pasó al sacerdote que estaba a su lado. El otro hizo lo mismo. De hombre en hombre, como una moneda rodando, la pregunta dio la vuelta y se detuvo otra vez en Hillel.

—Preguntas, rey —dijo el gran rabino—, por algo que solo conoce el Altísimo, cuyo nombre sea glorificado. Pero hay señales.

—¿Qué señales? —Herodes volvió a interrumpir el parlamento lleno de emoción de Hillel—. ¿Dónde están?

—Estas señales aparecen únicamente en el corazón de los hombres. Hay algunos que sienten que el tiempo está cerca…

No dijo nada más. Terminó como si quisiera cortar su pensamiento. Herodes esperó un momento, luego volvió a echar mano de la copa. Deseaba tener suficiente fuerza para concluir esta conversación. En el fondo, no soportaba a los fariseos. Los consideraba como sabihondos henchidos. Mostraba respeto a Hillel. Con Polión y con Samea pactaba en diversos asuntos. A veces le eran necesarios. A través de ellos tenía la sensación de sujetar por las riendas a la peligrosa secta. Sabía que grandes masas de am-ha’arez incultos, aunque tratados con desprecio por los fariseos, profesaban hacia ellos un temor sumiso. Esos escribas eran los amos de los secretos de esta gente extraña que le cayó en suerte gobernar. El que quisiera gobernar a los Judíos tenía que contar con los fariseos. Herodes era rey de los Judíos y quería ser rey de los Judíos. Este pueblo lo irritaba y al propio tiempo lo fascinaba con sus peculiaridades. Le había ocurrido exactamente lo mismo con Mariamme la Asmonea: La quiso con locura y al mismo tiempo sospechaba de ella, la temía, a veces la odiaba. Hubo un tiempo en que creyó que había aniquilado a los fariseos. Sin embargo, resurgieron. Le parecían indestructibles. A los sacerdotes los dominaba con facilidad. Apreciaban por encima de todo la comodidad, el bienestar, las buenas relaciones con los gobernantes. No pretendían que la fe de Israel fuera la única verdadera ni que todos los que creen otra cosa son tontos o pecadores, condenados tanto unos como otros a la perdición. Simón, que procedía de Alejandría, estaba acostumbrado a la convivencia con los griegos, y no diría nunca lo que dijo hace poco uno de los escribas fariseos (el hecho fue comunicado a Herodes): «Maldito el que cría cerdos y maldito el que enseña a su hijo la sapiencia griega». Los fariseos eran insoportables con su soberbia. Con sus puntos de vista envenenaban a las masas, eran los culpables de que el reino de Herodes fuera considerado siempre como algo completamente distinto a todos los demás reinos. En Roma se hablaba con desprecio de los Judíos y, sin embargo, el emperador colmaba de favores a los Judíos como a ninguna otra nación que le estaba sometida. Estuviera donde estuviese una colonia judía, hasta allí llegaban las influencias de los fariseos… Ahora estaban ante él con los ojos mirando al suelo. Les odiaba, y sin embargo sentía que tenía que contar con ellos. Proclamaban por doquier que estaban más bajo la protección del Dios hebreo que todos los demás hombres. Quizá fuera así realmente. Quizá conocían algunos conjuros secretos. Sabía que estaban mezclados en la conjura de Antípatro y Ferorás, pero no trataba de averiguar lo que estos les habían prometido.

—He oído decir —dijo mirando de arriba abajo a los que estaban delante de él— que ese mesías ha de nacer cuando el rey hebreo no sea descendiente de Judá. ¿Es eso lo que anuncian vuestras profecías?

Acongojados, intercambiaron una mirada. Samea tomó esta vez la palabra en nombre de todos.

—La profecía no es muy precisa, puede interpretarse de varias maneras…

—¿Sin embargo hay algo de esto? Ircano, antes de sufrir el castigo merecido, residió entre los Partos. Quién sabe lo que les contaría entonces. Los hombres que han venido aquí pueden conocer esta profecía.

Callaban diplomáticamente. Su mirada iracunda tropezó en sus caras y ellos se encogieron sobre sí mismos.

—¿Dónde ha de nacer este mesías? —lanzó la pregunta como si lanzara un dardo.

Sus miradas evitaban los ojos de Herodes. Corrían de uno a otro hasta detenerse otra vez en Hillel.

—La profecía habla claramente —dijo el rabino después de un momento de silencio.

Citó como si entonara un cántico—: «Y tú, Belén, Tierra de Judá, no serás la última entre las ciudades de Israel, porque en ti nacerá un jefe, que reinará sobre el pueblo de Israel…».

—¿Belén? —Herodes se alisó la barba que, como no estaba teñida, parecía salpicada de ceniza—. ¿Es esa miserable aldea que está aquí cerquita, cuna de la estirpe de David?

—No existe otro Belén —aseguró Polión—. Tienes razón, es una miserable aldea. La estirpe de David empobreció y perdió su importancia.

—No necesitas decírmelo —exclamó—, ya lo sé. Entonces, en este caso… —la mirada iracunda del rey recorrió las caras del círculo de hombres—. ¿Dónde va a nacer este mesías vuestro? ¿De dónde vendrá? ¿Quién será? ¿Qué esperáis, pregonándolo al populacho?

—No esperamos nada… —empezó tímidamente el gran sacerdote—. Tenemos nuestra fe, y entre sus verdades hay también profecías acerca del mesías… No podemos ocultarlas. Pero nosotros mismos tememos que el populacho pueda tomar al pie de la letra las palabras de las antiguas profecías…

Herodes se echó a reír mordazmente.

—¿Tenéis miedo? A ti te creo, suegro. Eres una persona con sentido común y sabes que cada fe tiene sus cosas incomprensibles. Pero estos —apuntó con el dedo a los fariseos— piensan de otra manera. Peroran sobre el mesías a diestro y siniestro —su repentina explosión de ira rompió el freno de la cautela—. ¿Creéis que no estoy enterado de que habéis participado en las conspiraciones de mi hijo?

En la sala se hizo un profundo silencio. Luego Polión y Samea exclamaron al unísono:

—¡No fuimos nosotros! ¡No fuimos nosotros, rey!

—Si no vosotros, vuestros compañeros.

—Hubo, es cierto, algunos locos que entraron en conversaciones indebidas… Fueron castigados.

—Y sin embargo inducís a la gente a no prestar juramento al emperador.

—Somos tus súbditos, rey, no de los Romanos.

—Vosotros mismos habéis apelado a los Romanos contra vuestros propios reyes… ¡Cuando os venga bien lo haréis de nuevo!

De un brinco se levantó de la cama. Estaba excitado. Corría de uno a otro lado gritando y amenazándoles con los puños.

—Hoy incitáis a los am-ha’arez contra los Romanos, mañana los incitaréis contra mí. ¡Os conozco muy bien! ¡Si os hiciera falta el rey Parto, os levantaríais para él contra mí y contra los Romanos! Adivino para qué han venido estos hombres. Este hablar del mesías y del Saoshyant no es más que una cortina de humo. Mi reino está ubicado en la frontera de dos potencias. Hay que decidirse: estamos con los Romanos o con los Partos. Yo he decidido: seré amigo del César. Cuando los Romanos están con nosotros, tenemos paz. Pero a vosotros os gustan las conspiraciones y tenéis vuestros propios planes. Para ellos queréis destruir lo que yo he construido. Estos hombres vinieron aquí en busca de aliados entre vosotros. Y vosotros también —se paró ahora delante de los sacerdotes y les amenazaba con el puño— os habéis dejado arrastrar. ¡Os creéis que los Romanos se dejarán expulsar por cualquier am-ha’arez, al que llamaréis mesías! ¡Nadie ha vencido a los Romanos!

Se interrumpió porque le faltó aliento. Tosiendo fuertemente se volvió a sentar en el lecho. Exhalaba un olor a cadáver que el humo aromático no conseguía neutralizar. Aprovechando que se había callado, los judíos intercambiaron una mirada de inteligencia. Simón tomó la palabra. Hablabla deprisa, febrilmente, la voz le temblaba.

—No nos acuses sin razón, yerno. Tu acusación es injusta. Preguntabas por la profecía y te hemos contestado según está escrito en los libros antiguos. Pero, tal como te dije, estas antiguas profecías no se sabe exactamente lo que significan. Nosotros estamos contigo. Te somos fieles. Sabemos cuánto has hecho por el reino. Si esos hombres han venido para buscar aliados e incitar a la rebelión, no los encontrarán entre nosotros. Nosotros no queremos rebeliones. Existe una profecía sobre el mesías, es cierto… El pueblo la conoce y espera al mesías. Hace siglos que está esperando. Nadie sabe exactamente quién va a ser ese mesías… Últimamente la gente empezó a delirar. Asocian el asunto del juramento con el asunto del mesías… Hay en esto algo de culpa de los fariseos… ¡Pero no de todos! Apreciamos al rabino Polión, al rabino Samea, veneramos al gran maestro Hillel… Pero en Galilea hay cabezas calenturientas, irresponsables. El rabino Polión ha dicho que aquellos fueron castigados… No queremos revueltas. No esperamos a ningún mesías que induzca a la rebelión. ¡No queremos un mesías semejante! Además, ¿para qué un mesías? Tenemos un rey, tenemos un césar… Reina la paz, el comercio se desarrolla, los caminos están seguros, hay tantas hermosas construcciones nuevas. A esos hombres que han venido, lo mejor sería… —no terminó, sino que hizo un movimiento muy expresivo—. Pero ya sé. No se puede. Son servidores de un gran rey. No les puede ocurrir nada desagradable. Entonces hay que alejarlos de alguna manera… Pero, rey, no nos acuses a nosotros; ¡somos fieles servidores!

El largo parlamento de Simón permitió a Herodes recuperar fuerzas. La ira volvió a replegarse en el fondo de su corazón. Escuchaba las palabras atemorizadas del gran sacerdote con la cabeza inclinada hacia el hombro y los ojos a medio cerrar. Gracias a la excitación se olvidó de su enfermedad. Era de nuevo él mismo: un zorro astuto.

—¿Y qué dice el rabino Hillel? —preguntó, cuando Simón dejó de hablar.

El anciano doctor levantó sobre Herodes los ojos medio cubiertos por las cejas. Dijo con la misma lentitud que antes:

—El gran sacerdote te ha asegurado, rey, que no somos rebeldes. Y de veras es así.

Creemos en la llegada del mesías… Algún día llegará sin lugar a dudas… Pero consideramos que no hay que apresurarse a reconocerlo. Cuando alguien grite:…«¡Llega el mesías!», un sabio auténtico no dejará que este grito turbe sus pensamientos, sino que lo considerará con calma. Porque la enseñanza de los doctores es tan importante y santa como las palabras de la Torah, y el Altísimo no interrumpirá su curso para enviar Su Ungido…

Los demás fariseos aprobaban las palabras del rabbí con un movimiento de cabeza.

Se sintió tranquilizado.

—Bueno —dijo—, los llamaré y les diré que vayan a Belén. Arreglaos para que nolo encuentren ni allí ni en otra parte. Que se convenzan de que no hay ningún mesías. Luego, cuando vuelvan aquí, les haré unos regalos y los mandaré de nuevo al reino de los Partos.

—Eres sabio, rey —admitieron varias voces—, como el mismo Salomón.

—Idos ya —les dijo él.

* * *

Solamente después de un buen rato se presentó el ataque. Aunque se retorcía de dolor, no dejaba de hacer proyectos para el futuro. Dijeron que era un rey sabio — pensaba—. Como su Salomón… Sin embargo no me fío de ellos… No importa, ya me las arreglaré. Si no fuera por este dolor… Como si estuviera empalado… Siempre seré más hábil que aquellos que creen que me van a engañar. ¡No ha nacido todavía el que me engañe! ¡Oh, si no fuera por este dolor!…

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Fuga para o campo, pudor ante o sagrado e a mística dos pobres


15ª Semana do Tempo Comum | Quarta-feira 
Primeira Leitura (Êx 3,1-6.9-12) 
Responsório (Sl 102,1-7) 
Evangelho (Mt 11,25-27) 

1. Depois do incidente com o egípcio, Moisés foi para o campo, onde permaneceu por décadas. Foi, pois, cuidar de seus assuntos. Casou, fixou-se em uma propriedade e ali permaneceu até que Deus o chamou. Moisés não buscou o poder, não mais procurou bancar o herói por iniciativa própria, foi simplesmente cuidar de sua vida. A iniciativa veio de Deus. No tempo determinado, Ele chamou a Moisés, Ele lhe deu poder, Ele o enviou ao Faraó, Ele libertou o seu povo da escravidão. O mesmo ocorreu com Davi, estava o rapaz pastoreando os campos e Deus por meio do profeta Samuel o unge como rei. Mas, há quem se incomode com isso. Há pouco tempo as redes sociais foram inundadas de rancor contra aqueles que buscam o que buscou Moisés, ir para o campo e lá permanecer com sua família. Estão, pois, abdicando da luta, desistindo da busca pelo poder, dizem os opositores indignados. Mas, por que alguém deveria se meter nessa encrenca senão em obediência a um mandato divino? Se houver uma restauração da Igreja antes do fim, será por iniciativa divina e não obra de mãos humanas... E se não houver, há que se cuidar da família, dar esmola aos pobres e suportar as perseguições que antecedem o fim. 

2. Antes de aproximar-se do Horeb, Deus ordena a Moisés que tire as sandálias, pois está a adentrar em um lugar santo. O profeta também cobre o rosto, é dito que não ousava olhar para Deus. Existe uma saudável dose de pudor e temor na lida com o sagrado. Nosso povo é um tanto quanto irreverente, e isso é perigoso... Estamos lidando com poderes que escapam a nossa compreensão e onde qualquer erro pode ter consequências dramáticas e catastróficas para a nossa vida tanto no tempo quanto na eternidade. 

3. Há que se ter cuidado para não cair na tentação democratista, a idolatria do povo, tão comum neste continente que no século passado se manifestou por meio da Teologia da Libertação e foi responsável pela vulgarização da arte litúrgica, seja na música, seja na oratória e na arquitetura. Dito isto, porém, não se deve desprezar o povo. Há de fato uma mística nos simples. Há realidades as quais Deus esconde dos sábios e entendidos mas revela aos pobres e pequeninos. Se não estamos neste último grupo, deveríamos pelo menos nos aproximar deles com sadia curiosidade, e procurar apreender aqueles mistérios o quais a Providência quis lhes confiar.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Se esqueceram a José...


15ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (Êx 1,8-14.22)
Responsório (Sl 123)
Evangelho (Mt 10,34–11,1)

Por meio de José, Deus salvou o povo egípcio da fome. De algum modo, José apesar de estrangeiro fora um herói nacional para os egípcios, sendo recompensado pelo faraó com honra e poder. E por gratidão a José, os egípcios acolheram também sua família, seu povo teve morada naquela terra por cerca de 200 anos. Mas, como a memória dos povos é efêmera ... Aconteceu que um novo faraó chegou ao poder, um homem que não conhecera a José, e a relação dos egípcios ante os israelitas deixou de ser de gratidão para se transformar em temor. Aquele povo crescia rápido demais, estava se tornando numeroso e forte. O temor se transformou em ódio e os egípcios passaram a oprimir os hebreus, submetendo-os a escravidão.

José fora um varão abençoado por Deus, um santo veterotestamentário e, contudo, fora esquecido pelos egípcios. Se esqueceram a José, tanto mais não ocorrerá com homens não tão santos... Mas quantos ébrios não alimentam a ilusão de poder eternizar seu nome através da política, de que seus planos ecoem para além de sua vida por séculos a fio. Os anjos se riem de tal presunção.
Se esqueceram de José, quiçá de nós...

domingo, 11 de julho de 2021

Sukeban Deka: "Como eu odeio a fraqueza!"


Tal como ocorre com o vinho, onde a distância temporal e espacial torna certos exemplares tanto mais saborosos, o mesmo poderia se dizer da arte. Sukeban Deka é uma dessas obras onde o aspecto exótico e antigo a torna tanto mais interessante.

Ao chegar ao ocidente (mais especificamente aos EUA) a obra fora traduzida como Delinquent Girl Detective, o que não está de todo errado. Todavia é oportuno aprofundar um pouco a respeito do fenômeno tipicamente japonês das sukeban. Sob influência do lixo ideológico produzido pela Escola de Frankufurt, os EUA por meio de seu aparato cultural exportou para o mundo a degeneração pós-moderna: culto a juventude, promiscuidade sexual, rebeldia, drogas e feminismo. Ao chegar no Japão, esses anti-valores mesclaram-se com certos elementos marginais da cultura local, impulsionando o fenômeno das gangues juvenis. Surgiram os bancho (ou banchou) e as sukeban, sendo o primeiro termo usado para designar os delinquentes do sexo masculino e o segundo termo referência as moças. E como o Japão é um país de refinado senso artístico, tais grupos apresentavam um visual característico, uma estética própria, e uma organização interna curiosa; de tal forma que pouco depois do surgimento de tais grupos, a cultura pop tratou de dar-lhes um tom folclórico... Essa mitificação de elementos criminosos não é algo específico do Japão, os EUA fizeram o mesmo com a máfia no clássico O Poderoso Chefão, há na cultura popular brasileira um fenômeno análogo ante os cangaceiros de Lampião, e ainda antes de tudo isso houve a mitificação em torno dos antigos piratas, vikings, etc... Voltando as sukeban, inicialmente sua assimilação pela cultura pop japonesa se deu em um mercado nada honroso: a indústria pornográfica. Por algum motivo, os japoneses da época estavam cansados das mocinhas tímidas e submissas e passaram a idealizar essa rebeldia feminina. Um dos principais estúdios que lucrou com esse tipo de filme foi a Toei, que de forma um tanto quanto irônica é hoje um grupo especializado na produção da brinquedos e conteúdo infantil. [A maioria das informações deste parágrafo veio daquele lixo radioativo da Vice, se alguém quiser aprofundar nessa porqueira, segue o link]. Nesse contexto é que pouco tempo depois veio a surgir o mangá Sukeban Deka, que era um seinen, um gênero de mangás dirigido ao público adulto... Mas, alguém teve a brilhante ideia de pegar todo esse contexto complicado e transformar em uma obra juvenil, e assim nasceu o tokusatsu Sukeban Deka (embora alguns o considerem antes como um dorama, eu não entendo muito sobre essas classificações).

De certo modo, a obra subverte a subversão, ao transformar todos esses elementos adultos e marginais em uma forma de entretenimento mais leve, dirigido a um público mais amplo. A obra é protagonizada por Saki Asamiya, uma ex-sukeban em busca de redenção, que agora trabalha para uma organização policial secreta, afim de poupar sua mãe da cadeira elétrica, a qual fora condenada por assassinar o marido. Ao longo da primeira temporada, Saki é transferida (antes infiltrada) em diversas escolas afim de investigar diversos crimes. Afinal, se há ambientes de difícil penetração por um agente policial comum, quem iria desconfiar de uma garotinha do colegial? Ah, e não posso deixar de mencionar o elemento central na caracterização da personagem, seu ioiô. Ioiô? Pois é, ela combate criminosos armadas usando um mero ioiô, e também é capaz de dar mortais, usar poderosos golpes de artes marciais e levantar gente com duas vezes o peso dela. Não me pergunte como, é afinal um tokusatsu, uma série de ação para adolescentes, tipo um Power Rangers, esses elementos não precisam de explicação ou realismo, só está lá para encantar o público. E como não pode faltar em obras desse estilo, a série está recheada de frases de efeito sensacionais: "A trilha desta delinquente Saki Asamiya é uma trilha cheia de ruínas... Agora nesta era de decadência, se eu pudesse rir eu riria"; "Bastardos como vocês que cometem roubo por dinheiro... Para vocês minha alma nunca se rebaixará!".

A primeira temporada de fato surpreende, traz uma reflexões interessantes, tem um bom suspense que vai se aprofundando ao longo dos episódios, e o roteiro chega níveis inimagináveis para o público a qual se dirige (tratando a respeito de temas como estupro, traição e morte), sem falar que a estética dos anos 80, que comtemplada a décadas de distância adquire um charme tanto maior. Minha única crítica é que, apesar de um episódio com vagas referências estéticas ao catolicismo, a obra (tal qual ocorreu como Final Fantasy II) não consegue lidar muito bem a perspectiva cristã do perdão. A vingança e o ''nunca vou te perdoar'' dão o tom ao final da temporada. 

De todo o modo, é uma obra interessante, que vale a pena conferir.

***

Encerro esse texto com um pequeno apêndice descrevendo o sétimo episódio da primeira temporada, que traz uma reflexão interessantíssima sobre a necessidade da virtude da fortaleza:


Uma série de assassinato tem ocorrido com o corpo docente de um famoso colégio de elite. Saki, a Sukeban Deka, uma colegial detive (protagonista da trama) que trabalha para uma organização secreta superior a polícia, é transferida ao colégio, se infiltrando como uma das alunas para investigar o caso. Logo ao chegar na escola, se depara com uma cena estranha, as alunas sendo humilhadas em público, tendo seus cabelos cortados pelos professores na frente de todas as demais, como castigo, por insistirem em tentar reabrir o clube de arco e flecha.

Em conversas posteriores, Saki descobre que o clube fora fundado por um bondoso professor, Monma, e que através do desporto tinha tirado muitos alunas da delinquência, as ajudado a amadurecer e superar problemas pessoais e dramas da juventude. Monma era vítima da inveja dos colegas docentes, que em sua ausência invadiram e vandalizaram o clube. Uma das melhores alunas Yumi, na ocasião tentou defender o clube e assustar os desordeiros, fazendo com que uma flecha passasse de raspão ao rosto de um professor, que usou o episódio para humilha-la, expulsa-la do colégio, e encerrar definitivamente as atividades do clube. De posse de tais informações, Yumi é a principal suspeita, e Saki vai a sua procura. Depois de uma batalha entre as duas evolvendo dardos e ioiô, ambas se tornam amigas e Yumi lhe conta a sua história, e como ela é grata ao Monma e por respeito ao bom caminho que ele lhe ensinou ela resiste ao ímpeto vingativo de dar o troco nos demais professores.

A história avança de modo a revelar que o responsável pelos atentados é o agora demitido professor Monma. Yumi ao descobrir isso dá um jeito de deixar pertences seus na cena do crime afim de assumir a culpa e poupar o professor que tanto admirava. Inconformada com a amiga que sabe inocente levar a culpa, Saki vai atrás do verdadeiro culpado e entra em uma batalha contra Monma. Yumi volta a cena para proteger seu antigo professor. Saki derrota Yumi e confronta Monma. Pensa numa guria brava, Saki no diálogo em meio a batalha diz ao professor como ele foi fraco, como traiu os ideais de educação que ele defendida caindo facilmente no caminho da ira, como não só  apenas não foi capaz de proteger as alunas mas fez uma delas entrar em perigo por sua causa. O professor está insensível,  louco de raiva que não pensa em mais nada senão atirar flechas. No fim Saki derrota o infeliz e vai embora com raiva dele e da Yumi. De nada adianta belos ideais sem força para defendê-los... Monma não foi capaz de proteger nem a si mesmo, nem suas alunas, colocando-as em maior perigo. Sua derrota e desmoralização também serviriam para manchar seus ideais e dar razão aos demais professores imbecis que maltratam as alunas, que saíram todos impunes.



Saki odeia a fraqueza. Quiçá façamos nós o mesmo.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Escravos da terra?


14ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (Gn 46,1-7.28-30)
Responsório (Sl 36)
Evangelho (Mt 10,16-23)

Na primeira leitura estamos ante a cena da migração do patriarca Jacó e sua família para o Egito. A fome o obrigou a deixar a terra de Canaã. O patriarca estava receoso, pois aquela era a terra da promessa da qual era herdeiro, a terra onde fora sepultado seus pais, mas Deus o tranquiliza, reafirmando que no tempo oportuno sua descendência voltaria aquele lugar (e voltou, embora tenham se passado cerca de alguns séculos).

No Evangelho, Cristo instrui os apóstolos acerca da missão. Há vários trechos preciosos, mas hoje me limito a destacar apenas um, que está em consonância direta com a primeira leitura, diz Nosso Senhor: <Se vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade eu vos digo: não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que volte o Filho do Homem. (Mt 10, 23)>.

Não somos, pois, escravos da terra. Se algum ambiente nos é prejudicial, não precisamos ter escrúpulos de deixá-lo se há algo melhor à vista. Seja esse ambiente uma paróquia, uma cidade, um país, ou coisas mais simples como determinado círculo de amigos, um emprego ruim, um relacionamento inadequado (ainda não consumado em matrimônio, depois que casou já era, estão ligados até a morte) ou certo paradigma intelectual. A falta dessa sã prudência faz com que muitas pessoas se aborreçam em demasia e tornem sua vida mais amarga do que deve ser... Se a Jacó fora lícito migrar de Canaã, a terra prometida, durante um período de crise, quiçá para nós...

terça-feira, 6 de julho de 2021

O combate de Jacó


14ª Semana do Tempo Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Gn 32,23-33)
Responsório (Sl 16)
Evangelho (Mt 9,32-38)

A primeira leitura de hoje nos coloca ante a cena do misterioso combate de Jacó. O santo patriarca passa a madrugada pelejando contra um misterioso ser, o resultado da luta chega pouco antes da aurora, onde Jacó é ferido no nervo da coxa. Após o combate, por sua valentia, Jacó conquista um novo nome: a partir daquele momento seria conhecido por Israel. Comumente se identifica seu adversário como sendo um anjo, entretanto para São Justino se trata de alguém infinitamente mais poderoso, ninguém menos que a segunda pessoa da santíssima trindade, o Cristo.

Ainda que tenhamos deixado o tempo dos excessos puritanos, não raro vemos manifestações contrárias aos esportes de combate motivadas por afetações pacifistas. Diz-se que é coisa de bárbaros, se procura estender inadvertidamente a condenação dos duelos a toda e qualquer peleja, etc etc... Como poderia, pois, o desporto, o combate recreativo ser algo condenável se o próprio Deus desceu dos altos céus, para lutar com o santo patriarca? Se Ele quis provar a força de Jacó, fazendo da luta uma espécie de rito de passagem que cuja coração seria expressa com a troca do nome para Israel?

Que a meditação do combate em Fanuel toque nossos corações, e desperte nos varões a paixão pelas artes marciais e os desportos de combate, meio adequado para o cultivo e expressão da virtude da fortaleza.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Sonhos, promessas, relíquias, milagres...


14ª Semana do Tempo Comum | Segunda-feira
Primeira Leitura (Gn 28,10-22a)
Responsório (Sl 90)
Evangelho (Mt 9,18-26)

Até alguns anos atrás, a liturgia de hoje seria perfeitamente compreensível ao povo brasileiro, quase que uma expressão de algumas de nossas práticas religiosas... Hoje eu já não sei.

Na primeira leitura, Jacó tem em sonhos uma visão, uma experiência mística tremenda. Depois de acordar, faz uma promessa ao Senhor e consagra aquele lugar ao Altíssimo. No Evangelho, se repte a cena que comtemplamos alguns dias atrás, a ressureição da filha de Jairo, e a cura da hemorroíssa. A mulher é curada após tocar tão somente a orla do manto de Jesus.

Sonhos, promessas, relíquias, milagres... Em tempos medievais e, não tão remotamente. em um passado próximo em nosso país, o povo simples tinha tais elementos como parte essencial de sua prática religiosa. Quem nunca ouviu a história de um bisavô que após um determinado sonho resolve apostar no jogo do bicho ou empreender determinado negócio, e ao fim consegue prosperar? Ou então que ignorou alguns presságios anunciados também em sonho e teve grandes problemas? Quem não tem um parente que prometeu peregrinar até algum grande santuário caso viesse a alcançar determinada graça? Ou quem sabe um doente que atribui sua cura ao tocar determinada relíquia ou imagem milagrosa? Não há em muitas cidadezinhas do interior histórias curiosas sobre locais sagrados, onde palco de experiências místicas diversas?

Todavia, tais elementos parecem estar se apagando do imaginário popular e a religião vai se imanetizando: demandas por reformas sociais e conflitos entre ''times'' eclesiais vem ocupando o centro da vida da Igreja no Brasil... Estamos abandonando o espanto e admiração, o desejo de comtemplar e participar dos mistérios divinos, para embriagar-nos na disputa pelo poder. A religiosidade antiga soa as novas gerações como demasiado crédula e supersticiosa, e a religião moderna coloca o divino em segundo plano para focalizar em demasia o humano.

"É muita cachaça e pouca oração", disse recentemente o Papa brincando a respeito do povo brasileiro. Quem dera fosse a cachaça... Mas é algo tanto pior: muita política, pouca cachaça e pouca oração.